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OU SEGUNDA MANIFESTAÇÃO (no santo ano de 2000) |
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Mais surpreso do que qualquer um, excetuando talvez
somente meu subconsciente, descobri que não era a mesma pessoa,
não era o mesmo sujeito que havia tocado o que eu havia tocado por
tantos anos. Era uma pessoa que sentia à flor da pele coisas
que nunca havia sentido antes, e da forma que estava sentindo agora.
Talvez seja assim que as pessoas que tomem drogas muito doidas se sintam,
porém minha reação foi de esparvalhada constatação
pela profunda operação interna, mas de profunda alegria pela
liberdade e pela constatação em si: sentia-me livre
pela primeira vez em muitos anos. Não é papo de esotérico,
é algo que só se sabe e só se sente quando é
real. Não é pura invenção da mente.
Foi uma espécie de mudança gradual, mas que foi acelerada
por alguns fatores externos. Sejamos fartamente incompreendidos,
pensei e o primeiro passo foi perceber, de fato, que uma mudança
gradual seria definitiva em pouco tempo. O impressionante foi que
o "gradual" passou a jato, me derrubou e eu continuei sorrindo. Como?
A partir da dita mudança ficou também claro que o objetivo da minha vida, que têm sido criar e multiplicar minha carreira musical e de pensador (não de botequim), não havia chegado ao fim, mas apenas mudado de roupagem. Agora ouvia os sons de formas diferentes, pessoas que me eram respeitavéis, mas que não passavam de meras estranhas como Jimi Hendrix, Tim Maia, Cartola e outros maravilhosos artistas passaram a preencher minha alma com múltiplas possibilidades orgásmicas e sonoras. Parece um papo velho para muitos, sei que também pode ser, mas quando descobrimos algo novo em nós com tamanha paixão chega a hora de dividir a boa nova com o mundo, se possível por vinte e quatro horas. Música voltou a ser a mesma paixão de antes, e agora sem fronteiras e sem modismos, chegou como uma bomba que devastou a última das minhas certezas anteriores e deixou-me desnudo para que devastassem o restante de coerência que restava em mim. Como dei graças a Deus por ter a possibilidade de ser "destruído", e o melhor é que o agente e o vilipendiado eram a mesma pessoa. Como dei graças! Repensei minha vida e vislumbrei com clareza que um novo ser musical estava pronto para nascer, para deixar todas as certezas anteriores se esfacelarem como areia. Agora só me restava uma possibilidade: renascer. O óbvio parecia confortável, continuar por mais alguns anos o que já estava fazendo, contando com aquele público certo, mas o que fazer de mim? O maior interessado em evoluir, em ousar era eu mesmo. Não estava mentindo para ninguém, nunca havia feito isso, e por que tentar agora? Resolvi topar a parada. Peguei umas arrudas e chamei o santo. O que proponho com a Usina NÃO é ir contra a modernidade, mas sim contra a ATUALIDADE, como única forma concreta de entendimento da realidade musical. Para que acreditar no hoje como única forma palpável e plausível de realidade? Vamos vencer a barreira do tempo e fazer música atemporal, que tal? Que as verdades queimem na fogueira das vaidades. Resolvi pagar o preço. O que me serve, me serve, é livre, é útil. O mundo está multifragmentado em realidades distintas e antagônicas. Falam de Internet, é uma realidade, é inegável, mas não é direito de qualquer um viver na Idade da Pedra - lascada ou não? Freedom fighters. De vez em quando, desde que não prejudique ninguém, coloque o relógio de lado; tape o seu visor. Não assista noticiário. Deixe o HOJE de lado, viva o ETERNO, o SEMPRE. Deixe viver e exprima a alma interior através de música. Use a criatividade como salvaguarda e salvo-conduto para escapar às tentações. Primeira ouça o teu interior. Se queres mudar, mude. Se queres ficar como está, que assim seja. E o mercado? Como você vai viver? Se comprarem a tua história, tudo bem. Caso contrário, tudo bem também. Se consegui sobreviver no mais completo underground por vinte anos, por que não tentar? Por quê, não? LPs têm que conviver com o MP3, com R2D2, com o samba da Portela, mas sem cobranças, sem a esculhambação e a ditadura da realidade. Seja contra e seja a favor. Incendeie o tempo. Viva a música. Seu quarto é seu templo, é um templo de magias. Seu relógio quem conduz é você. Se podemos ler Machado hoje, por que não tocar música do século passado, hoje? Por que não brincar e rir do tempo, das convenções e da realidade? Em nosso quarto podemos nos perder no sexo, em livros que levem nossas mentes à Marte, em música atemporal. Criar é um ato de gozar felicidade, de gozar o belo, o produtivo. E se não te entendem? Que posso dizer... Nada, apenas n-a-d-a, com todas as letras. Que esta luz da qual estou prenho de criatividade me consuma mais e mais, ruborizado que estou de sons que me fertilizam em todos os lugares, vindos de uma buzina da rua, de uma roda de amolar facas, de um rádio que gritou seu canto de guerra ao longe. Estou grávido e quero parir sons. USINA LE BLOND é o nome, é a senha, é o chamado para um universo paralelo de música brasileira, de rock, baião, soul, blues, hard rock, música latina, folclórica, pop, samba, bossa nova, psicodelia, batidão, instrumental, funk, é o swing do Rei. |