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Manifesto
415
Quem são os brasileiros dos 500 anos? Aqueles que andam de
trem todo dia ou quem vive com a cabeça em Nova York, admirando
Estátua da Liberdade feita de isopor? Por que a música
popular é dividida em áreas e zonas, assim como fazem com
os bairros, excluindo possibilidades e resumindo a inteligência e
musicalidade do nosso povo à bundas majoritárias e moda de
moderninhos? Vamos abrir um túnel, que ligue a cidade do Rio
de Janeiro - a capital do Brasil miscigenado -, e a cabeça das pessoas,
escavando a rocha - rock - com as mãos, agora!
Se nós, os brasileiros, ainda não regurgitamos o indigesto
bispo Sardinha do Modernismo paulista - e nem esgotamos nossa capacidade
de reciclar esgoto industrializado -, como entenderíamos plenamente
o Chacrinha; o Raul Seixas; os Cieps; o Reginaldo Rossi
e o Fantástico, o show da vida? Sim, há mais sinceridade
na banda de pífaros de Caruaru e nos jongueiros do que na bandinha
escravizada de rock de classe média, envergonhada em falar português.
O espírito do rock, certamente, não está com os DJ’s
e nem com as bandas das grandes cidades brasileiras, mas sim nos bailes
de funk no subúrbio carioca; nas baterias de escolas de samba;
no forró e baião nordestinos e em todas as manifestações
culturais espontâneas deste imenso país. O sinal vem
sendo dado há décadas e o cinema deu muitos toques:
Central do Brasil, Bye-Bye Brasil e Terra Estrangeira, assim como o livro
Cidade Partida.
415 é o número do ônibus “Usina - Leblon” que liga
dois bairros do Rio. Bairros que coabitam mundos paralelos, cada
lado em defensivas posições; ricos e pobres em ambos
os lados, separados por morros, favelas e coberturas. É uma
visão que choca, mas que nos tocou profundamente há alguns
anos, fazendo-nos repensar os rumos da música feita no Brasil.
Nossa Usina Le Blond tem uma receita que mistura bala Juquinha a Mineirinho;
milho cozido com Bob’s; açaí, queijo e goiabada;
Metropolitan e Feira de São Cristovão; solo de guitarra
e churrasquinho de gato; calça boca de sino e lenço
com bobs; canção com coisa boa.
4 + 1 + 5 = 10 e 1 + 0 = 1, que simboliza o recomeço. Então
vamos “começar tudo de novo”, numa boa, sem MPC, sem vanguarda paulista,
sem caras-pintadas, sem sertanejo e sem axé. Ufanismo é
legal mas civilização também é legal;
sem os falsos vínculos do passado e sem idéias previamente
concebidas.
Rendamos graças à unidade das diferenças pelo bem-estar
comum. A nossa contribuição está aqui.
Hekamiah |