TRÊS MESES DE GRAVAÇÃO EM 2003 -
USINA LE BLOND & MUSTANG -
 POR: CARLOS LOPES
O COMEÇO EM JUNHO:
Segunda, 2 de Junho – Começa enfim a gravação dos novos discos da Usina e do Mustang. Os ensaios, que originalmente, durariam um mês (para as duas bandas), acabaram por render mais um (maio), para que tivéssemos absoluta certeza sobre tudo, desde os músicos até os arranjos (já havia alertado a banda que, como “produtor louco”, eu poderia alterar os arranjos no último minuto – o que acabaria por fazer). Havia conversado com os técnicos de gravação do estúdio Staccato no Rio de Janeiro (Eric Eric

, Vinícius Carlos e Vinícius

e Daniel Carlos e Daniel
que eu não era “normal”- no sentido mais “artístico” da palavra; e sendo extremamente exigente eu gostaria de “virar” mais de 24 horas gravando, inclusive sem me alimentar e que esperava compreensão ou apoio das pessoas envolvidas na gravação. Para surpresa geral, (deles inclusive) todos me deram cobertura completa, em todos os sentidos, do proprietário do estúdio aos técnicos. 
O que fiz(emos) nesse três meses foi – como será contado aqui – fruto de um grande esforço coletivo, onde TODOS doaram MUITO para o resultado final. Nunca conseguiria reproduzir o que foi feito no Staccato em estúdio nenhum no mundo. Relatar o que aconteceu é tarefa para um livro, mas apenas cito que gravei e/ou mixei por mais de 24 horas seguidas (na maior parte sem comer) por pelo menos seis vezes. 
                         O computador havia quebrado no dia anterior à gravação, mas os técnicos tiveram a educação de ligar para perguntar se poderíamos adiar para o dia seguinte, no que fui irredutível por diversos motivos. Chegamos no dia marcado, bem de manhãzinha. Levamos 6 horas (de 9:00 as 15:00) para tirar som de bateria Bateria ,
Pedais e Guitarra baixo e guitarra e resolvemos gravar os álbuns no ADAT (gravação com fita de vídeo, seria isso), até segunda ordem, já que não havia o tal computador. Os ADATs estavam praticamente desativados, mas por causa do “exílio” do computador e da necessidade de gravar urgente, a solução encontrada foi usar as velhas fitas. Baixo Fender anos 60, bateria com afinação mais grave e a guitarra Gibson foram os instrumentos escolhidos por possuírem o timbre ideal. Na guitarra usei os dois captadores ao mesmo tempo. 

Utilizei um amplificador Marshall valvulado JCM 800 (recém consertado após anos de espera) e apenas um compressor da MXR, com o acréscimo (muito de vez em quando) de um Wah, um pedal overdrive e uma distorção (para pouquíssimos solos). Tudo muito simples e eficiente: a mesma banda e o mesmo equipamento. O som que tiramos foi assombroso, tanto técnicamente, quanto pelo uso da fita ADAT (que acreditamos fez toda a diferença) e da vibração positiva que colocamos em cada canção. Começamos a gravar às 15:30 e acabamos as 22:10. Foram registradas:  Tudo Bem, Clássico no Terreirão, Suicídio, Botox, Se Deus Quiser, Minha Vila, Virgínia e Funk Esse UFO, todas da Usina em menos de sete horas. 

                          Desculpem-me se não separar os nomes das músicas das duas bandas, mas já que gravamos tudo junto, preferi fazer dessa forma, indicando o que foi feito em cada sessão. O nome que antecede o texto é do aniversariante do dia, que sempre me diz algo (ou muitíssimo, dependendo do caso). A lista de todas as composições segue o final desse diário.

Terça, 3 de Junho – Curtis Mayfield - Segundo dia da gravina da banda entre 9 as 14:00, hora na qual terminamos o disco da USINA. Comecei os overdubs de guitarra (na verdade mais “detalhes” do que overdubs) à tarde. Fiz o primeiro solo de slide na minha vida: “Virgínia”, escrita em homenagem aos Mutantes (uma das maiores influências) utilizando o nome da esposa do guitarrista Sérgio Dias Baptista. Mente. Sobre A Matéria, Condomínio do Mal, Você Está Pronto?, Caridade (que iria mais tarde parte o Mustang. Começou no Mustang, passou para a Usina e voltou para “casa”) e Gado (que deu bastante trabalho. Tive que refazer o arranjo e a linha melódica no próprio estúdio) foram as “crias” do dia. Quatro músicas desse dia contra 8 do anterior.

Quarta, 4 de Junho – Ás 9h00 tentamos prosseguir  a gravação, agora com o computador, que acabara de chegar restaurado do conserto, mas na impossibilidade de alcançar os mesmos timbres conseguidos no ADAT (tentamos por horas!), optamos por alçar os ADATs a categoria de deuses. Aí já foi um tempão perdido (ou conquistado?) entre constatar o óbvio, formatar novas fitas etc. Começamos a gravar o Mustang as 18:00 e fechamos as 22:00. 12 músicas em 4 horas! Utilizei quatro jogos de cordas de tanto que elas arrebentavam ou se desgastavam nesses três dias. A mesma marca, a mesma corda ruim. Primeira parte (mesmo!) da missão cumprida.

Carlos comendo pizza e RomuloQuinta, 5 de Junho – Esse dia foi “sinistro”. Aconteceu de tudo: a luz apagou, o som do estúdio e dos pedais “fritava”, o “humming” era total, mas conseguimos terminar as duas últimas do Mustang que faltavam: Paz e Esse Mundo é Muito Grande. Os pontos positivos foram o solo de guitarra de Gospel Girl (Ela lê a Bíblia), o novo lick de guitarra para Esse Mundo, o solo de “Sem Mulher Sem Dinheiro” (No Money No Honey), a dobra de guitarra na intro de “Contato” e o solo de slide (meu segundo de slide na vida!) para “Saco Cheio” (Puppet Love). Primeira vez que comi algo (?) no estúdio em quatro dias (e noites!): dois pedaços de pizza! Até tiraram foto! 

Quarta, 11 de Junho – Joshua Jackson - Mais dobras de guitarra e violão. Descobrimos que uma das fitas ADAT gravada fora apagada misteriosamente!!! Crime no estúdio! Perdemos 30 minutos de bases de guitarra e baixo, mas pelo menos a bateria estava sã e salva em outra fita. Um dos overalls (da bateria) havia sido apagado também. Deu uma desanimada (breve) mas levantei a cabeça e assumi a missão.

Wlad Quinta, 12 de Junho – Irwin Allen - Após confirmarmos, de fato, que uma das fitas havia sido apagada, chamei o baixista de volta e continuamos a tarefa “kármica”, agora sem nenhuma contagem na fita que pudesse nos guiar. Fizemos tudo de novo no instinto, com musicalidade e sorte, refazendo as bases-perdidas sobre a bateria pré-gravada, aproveitando também para fazer as primeiras percussões. O baixista cumpriu sua missão e se foi, em poucas horas não sem antes reclamar que não teria como gravar nesse dia, mas a consciência bateu à porta dele, acho. Ele também estava me devendo uma... Eu continuei pela madruga dentro. Pela primeira vez copiei 4 músicas para escutar em casa (Botox, Clássico, Saco Cheio e Rosa Está?) e achei o resultado decepcionante. Deu pra ver que ia dar trabalho. Precisava recuperar o sentimento da gravação original e transferi-lo para o CD, essa era a missão. Foram as primeiras 24 horas “viradas” dessa longa jornada.

Rotieh OrtseamSegunda, 16 de Junho – Stan Laurel – Teclados e percussão. Início da nossa parceria com o misterioso “ROTIEH ORTSEAM”, um compositor erudito que havia se isolado do mundo secular e pagão, desiludido com o que ele denominava de “incongruências humanas”. Á décadas ele havia se desintegrado (desinteressado?) da forma física e vivia apenas onisciente em forma espiritual, a qual consegui ter acesso mediante profunda meditação. Apaixonado por nosso sex-appeal e reanimado pelo amor comum à boa música, ORTSEAM decidiu nos prestar uma consideração só dada aos monges tibetanos e saiu da clausura espiritual, por um breve e singelo momento. A sua única foto em carne que está aí por perto, a do menino gentil com o acordeão, é raríssima 

Após abrir mão de sua forma física, a última vez na qual seres humanos viram ORTSEAM foi nesse “shot” fotográfico em algum momento em 1928 com uma tribo de silvícolas no interior do Paraná. 

A assinatura misteriosa ao lado das duas fotos representa o rosto angelical do mestre e foi feita do próprio punho, o qual não vimos pois a caneta somente levitara perante nossos olhos.
                           Ficamos assombrados ao vê-lo, mas como já nos havia sido alertado, não deveríamos fazer-lhe muitas perguntas, pois ROTIEH ORTSEAM usava o corpo de algum terrestre desavisado e se houvesse algum distúrbio no local, o grande espírito poderia voltar à origem, talvez deixando o corpo que ele estava utilizando, sem vida. ORTSEAM portava um traje alvíssimo que lhe cobria a fronte, muito lembrando o grande mago GANDALF do Senhor dos Anéis. Ao  primeiro contato com o mundo exterior seus santos olhos lacrimejaram , mas intuído com os mais altos eflúvios prostrou-se defronte ao seu gigantesco e maravilhoso teclado, ainda em perfeito funcionamento, retirado de uma tumba durante uma escavação recente. Foram momentos de angústia e silêncio, no qual uma grande ansiedade nos dominou... Não seria ORTSEAM apenas uma lenda?  Quando o mestre ouviu nossa música não racionalizou; “apenas” construiu instantâneos e maravilhosos arranjos de cordas e piano, deixando-se levar pela música, como única e confiável fonte de intercâmbio espiritual,  e fez apenas O MELHOR.  Ele engrandeceu ambos os discos. Se os Beatles tiveram Martin e os Mutantes, Duprat, nós tínhamos ROTIEH ORTSEAM!!!
                         Nenhuma palavra conseguiria expressar a forte emoção que foi ter ROTIEH tão próximo. Nossos espíritos foram alvejados, sem piedade, por arranjos que fluíam de seus dedos mágicos e de sua alma febril pela arte. Ajoelhamo-nos. Poucas testemunhas tiveram a chance de vê-lo ao vivo e nós fomos uns dos poucos escolhidos. Obrigado bom Deus. 
                         De madrugada tentei gravar as primeiras vozes (Botox, Clássico, Se Deus Quiser, Virgínia, Funk Esse UFO e Minha Vila – ainda com um “L” ) com um microfone AKG mas após alguns dias refiz tudo, tanto por problemas técnicos (a voz ficou abafada), como pela falta de inspiração mesmo. Os vocais nem estavam ruins, era só questão de aprimora-los, mas como sou obsessivo-compulsivo.... Após tanta luz, o que mais poderia querer? Cantar bem?

Quinta, 19 de Junho – Garfield – Nesse feriado tentei gravar “Clássico No Terreirão” da USINA LE BLOND na versão voz e violão, mas devido ao excesso de ensaios rolando nas salas ao lado da nossa, apenas consegui cantar uma versão “boazinha” que não foi a  escolhida, ainda mais por causa do excessivo vazamento entre as salas. Gravei todas as vozes principais da Usina (muitas valeram) ainda sem os backings. Cantei sentado (como se vê na foto), usando dois microfones para voz. Ao invés do AKG utilizamos um C1000 e um SM-57. O resultado ficou bom e natural, sem excesso de graves. No futuro, acabaria optando por não comprimir as vozes, como comumente se faz, porque a voz comprimida me soa muito artificial.

Americo tocando!

Quarta, dia 25 de Junho – June Lockhart – Começamos a mexer no som da batera, comprimindo bumbo e caixa. A “pancada” ficou bem melhor, mas tudo dentro do aceitável, sem descaracterizar a proposta. Como o nosso baterista utiliza diversas técnicas de caixa, tivemos que criar praticamente uma equalização para cada música,. Limpamos ruídos de fundo, gravei violões para Gado, Contato, Clássico no Terreirão, Gilmore Girls e Caridade. Tentei gravar mais versões para “Clássico no Terreirão” acústico. De 18:00 as 6:00 da manhã.
 
 

Quinta, 26 de Junho – Criei licks (na inspiração mesmo) para Caridade, Botox, Condomínio e gravei mais guitarras e solos para Pronto, Condomínio, Botox, todas com um amplificador Hughes & Kettner, bem mais agudo do que o Marshall, para dar uma destacada em certos timbres. A “atual” melodia (e letra) de Gado nasceu esse dia (ou madrugada) de improviso. Localizamos a posteriori muitas guitarras “desaparecidas” durante a crise dos ADATs (a do “apagamento” das fitas originais). Por mais incrível que pareça alguns canais gravados no ADAT só tocavam em um dos aparelhos e não nos demais ADATs. Descobrimos isso com um misto de estupefação e muita surpresa. As vozes já estavam no caminho certo e muitas nasceram quase perfeitas como Contato.

A CONTINUAÇÃO EM JULHO:

Terça, 1 de Julho – Comecei a gravar as 19:00. Saí as 5:00. Gravei vozes e backings de Contato, Gilmore Girls, Clássico, Gado, Botox (primeira versão que não seria utilizada), Suicídio, Caridade, Condomínio e Tudo Bem. “Noite muitíssimo inspirada”.

Quinta, 3 de Julho – Kafka – Continuei gravando vozes. Demorei duas horas para que a voz ‘aquecesse”. Fiz backings e experiências muito úteis (Vírginia em especial). Gravei todas as vozes principais do CD do Mustang com voz rouca em uma hora, mais ou menos de 4 as 5 da madrugada. Algumas dessas vozes podem ser ouvidas em Contato, Cheiro de Mijo Guardado e Amor Pansexual em especial. Nessa noite, seguranças da faculdade, em frente ao estúdio, atiraram para cima para espantar alguns ladrões de carro, o que indignou muito uma vizinha.

Quarta, 9 de Julho – Gravação teve início as 20:00. Consertamos muitas coisas e adicionei diversas outras até 4:00 em ponto.

AméricoQuinta, 17 de Julho – Katita (minha cunhada) e Valéria (amiga astróloga) – Gravei mais uma versão para Clássico no Terreirão “acústico” e uma nova voz para Gilmore Girls. Como não havia ainda escutado as vozes feitas para o Mustang, ao ouví-las pela primeira vez nesse dia, todas me soaram bem. Nosso baterista Américo tocou mais percussão, e um eficiente triângulo em Gado. Por falta de técnico, eu mesmo gravei mais fantásticos arranjos do misterioso “ROTIEH ORTSEAM” à noite, seu horário preferido, pois o sol sempre incomoda seus santos olhos. Mais uma vez eu e ele nos encontramos para fazer o que adoramos: devotar nossas encarnações à música das esferas superiores. Terminamos as 24:00 e só voltei para casa porque o técnico, que chegara algumas horas antes, não estava se agüentando em pé. O técnico de gravação sugeriu usar um Vocoder para a voz de uma canção. Aprovei a idéia.

Terça, 22 de Julho – O início da mixagem (em parte). Começamos às 19h00, com muitas paradas. Posso dizer que a partir daí “algum” cansaço começou a bater. “ROTIEH ORTSEAM” gravou um alucinado cavaquinho para “Você Está Pronto?”. Após esse novo encantamento musical, ROTIEH despediu-se de todos nós e levitou através da janela, passando pelas barras do mais puro aço que recobriam a mesma  janela do estúdio. Nos ajoelhamos em respeito, agradecendo mais uma vez à grande espiritualidade pela oportunidade. Mais conectados ao mundo “real”, voltamos ao trabalho terreno. Ao puxarmos a equalização errada para uma mixagem, obtivemos uma sonoridade fantástica para Gilmore Girls. O som “errado” soou perfeitamente como se tivéssemos gravado o “With the Beatles” com a mesma sonoridade rústica de guitarra e batera do quarteto bretão. Amei ? Acabei de cantar as 2:40 da madrugada. Saímos as 05:10.

Quinta, 24 de Julho – Mark Goddard – Primeira mix de fato. Ofertei livros “Guerrilha!” para toda a equipe. Recebi um abraço do grupo e fiquei emocionado. A primeira versão de Gado levou mais de três horas para ser mixada. Equalizamos vozes, percussão, caixa de bateria com esteira, e a guitarra ficou como foi gravada, sem retoques. Utilizamos a mesma equalização padrão para todas as músicas, mas claro que respeitando as diferenças e nuances de cada canção. Atrasamos propositadamente algumas pistas da gravação para gerar um efeito natural de delay, bem anos 70. “Viajamos” ao ouvir Gado e Clássico no Terreirão acústico. As músicas ficaram uma loucura. Ousamos bastante com os efeitos flanger, distorção, reverse, delay e reverb em “Se Deus Quiser” e criamos uma mixagem psicodélica, cheia de groove. Isso depois das 05:00 (nem sei como...). Saímos as 07:00. 

Segunda, 28 de Julho – Desencarne de Bach – Começamos a mixar as 11:00 de segunda, saindo do estúdio as 10:30 de terça. Tiramos um som “gordo” para os tons de Gado (sem trocadilhos) e experimentamos novas equalizações para o Mustang. 

Quinta, 31 de Julho – Remixamos algumas faixas da Usina e começamos com uma nova equalização para o Mustang, que seria reprovada em alguns dias. Boa EQ mas muito estridente. Ao escutar com muita atenção os diversos CDs-teste que fizemos nas últimas semanas cheguei a conclusão de que os timbres das fitas da Usina e do Mustang deveriam ser diferentes sem nenhum trauma para qualquer uma das partes envolvidas. Além de obviamente destacar um trabalho do outro, as diferentes equalizações poderiam ditar um caminho próprio a cada banda, o que me soou bastante instigante. Os “metais” gravados para as bandas soavam “quentes” e envolventes, dando muita personalidade ao trabalho. Dava vontade de rebolar a toda hora. Esse deveria ter sido o último dia segundo o cronograma original. Ainda iria levar quase dois meses para acabar.
 

AGOSTO, MÊS DO CACHORRO LOUCO.
 

Sábado, 2 de Agosto – Convenção da Xena em SP. Foram exibidos os clipes Xena & Gabrielle e Arquivo-X do Mustang no evento (ver Xenacon4). Os presentes aplaudiram, o que me deixou bastante feliz, pois eu não esperava, de fato, por isso. Fiz as fotos para a capa do CD da Usina em São Paulo. Segredo, segredo...

Quinta, 7 de agosto – David Duchovny – Dia meio improdutivo. Agora o cansaço do estúdio já não “batia”... Dava PORRADA! 
De 10 da manhã às 1h30 da madruga só mixamos DUAS músicas!!!
Também não saberia explicar o porquê.. Acho que ninguém saberia...
                          Cantei “Caridade” em inglês (Charity) em dois takes, porque havia esquecido desse pequeno-grande detalhe: de gravá-la na segunda versão! Sempre gravei duas línguas para cada música do Mustang para não ter que fazer isso depois, é claro, sem a energia da sessão original. Essa era a única música do Mustang que não havia sido gravada em inglês, porque pertencia ao Usina, bem lembrando. Ciente de que o lugar da canção seria no Mustang resolvemos alforriá-la e lá se foi ela, alegre e saltitante. Mixamos todos os Mustang de 2 da madruga até 11:30 do dia seguinte! Quando o  dono do estúdio chegou, por volta de 10 e meia de manhã e nos viu “virados”, ele não acreditou! Tem gente que nunca acreditaria... E olha que eu e o técnico não bebemos, nem cheiramos, e nem fizemos nenhum ritual de abstinência de repouso. Apenas trabalhamos com vontade e perseverança. Mixamos 14 músicas em 9 horas, muitas dessas mixagens valendo para o disco oficial. As fotos da gravação foram tiradas nesse dia.  Retiramos a antiga equalização que estávamos usando no disco do Mustang e adorei ?. Desse dia em diante senti que deveria seguir por outro caminho. 
Gillian Anderson com  a filha Piper e o irmao AaronSábado, dia 9 é aniversário da Gillian Anderson do Arquivo-X e no domingo, dia 10, é a data de Cláudia Christian, nossa Comandante Ivanova de Babylon-5. Parabéns para as duas musas.

Quarta, 13 de agosto – 14 horas direto. Alteramos a equalização geral. Algumas experiências deram mais certo, outras ainda seriam refeitas por semanas a fio. Na calada da noite, um dos técnicos incluiu ao seu bel prazer uma seqüência de “ruídos” domésticos na canção “Se Deus Quiser”.  Quando ouvi, comentei: - “Chegou àquela fase na qual o autor não tem mais domínio sobre a obra...” . Acabei deixando por consenso. Fizemos mais Usinas. Estávamos muito cansados.

Quinta, 14 de agosto – Mais alterações. O dono do estúdio me deu o LP da moeda do Grand Funk, uma das minhas bandas favoritas e esse LP era o mais puro objeto de desejo. O som do baixo do Mustang estava muito “empastelado”, se é que vocês me entendem... Demos uma mexida geral, assumindo que o baixo deveria soar gordo e grave como nos discos dos anos 60/70. 
Carlos e Eric
                       O técnico Eric passou mal, vomitou e foi para casa. Quando liguei para saber como ele estava, o dito cujo já estava no hospital. O médico disse que foi virose.... Para falar isso nem precisava de diploma.
 
 

Ao chegar em casa desenhei o novo logo do Mustang (o da mulher) por mais de sete horas, efeito de uma bela inspiração ao acordar. Amanhã é aniversário da nossa grande amiga: Nossa Senhora da Glória!!!

Domingo, 17 de agosto – Domingão? Cerveja e futebol? Não! Mais mixagem! Subimos os volumes dos baixos da Usina na mixagem em 7 dbs. Desistimos de utilizar o Normalizer (outro recurso muito comum em estúdio, usado para nivelar os volumes das músicas). Apenas duas horas e meia de trabalho, mas com muitos progressos. Ontem foi ‘níver da Madonna, da Julie Newmar (mulher-gato) e desencarne do Rei Elvis. 

Terça, 19 de agosto – Trabalhamos geral na Usina. Subimos os baixos, abaixamos as vozes e as caixas da bateria, obtendo uma mixagem mais compacta, com as peças mais “dentro” das músicas.  Sete horas de labuta.

Quarta, 20 de agosto – Continuamos trabalhando nas equalizações e mixagens. 

Quinta, 21 de agosto – Nesse dia eu estava atacado, deveria ser algum efeito da proximidade de Marte, sei lá... Dei esporro em uma banda que ensaiava de porta aberta, joguei uma cadeira na cabeça de um ex-técnico de gravação do estúdio, arremessei um prato quebrado de bateria no chão. Trabalhamos com mais vigor nas equalizações. Seguindo os conselhos de dono do estúdio fui trabalhando na madruga, incentivando o técnico Vinícius, que estava morrendo de sono, a permanecer acordado, mas se conselho fosse bom... A noite foi improdutiva, mas engraçada. Saímos as cinco e meia da manhã.

Segunda, 25 de agosto -  Ainda encasquetado com a canção “Rosana Está?” que não “estava” rolando (pelo menos para mim) , pedi uma guitarra emprestada e passei a arranhar uma palheta nas cordas para tirar um som bizarro para a introdução, que ficou ótimo. Depois pequei um microfone, pluguei direto na mesa de gravação e passei a cantar , mesmo com o vazamento da gravação original, imaginando a seguinte cena: um punk que havia subido no palco para cantar Rosana Está? juntamente com o vocalista de uma banda com voz afeminada. Cantei com a voz do tal punk nessa sessão de manhã, e o resultado de ambas as vozes alternadas e mixadas juntas ficou perfeita. Inclusive com os “desencontros” entre as vozes, o que dá uma total impressão de “coisa” informal. Esse era o detalhe que faltava: um Chitãozinho e Chororó (por falar nisso, mas que nome escroto esse! Sempre tive vontade de escrever isso) das profundezas. 
                         Criamos a equalização definitiva para o Mustang que abriu o som geral, sem alterar em nada os timbres graves do baixo e o som original “abafado” da guitarra. O disco, a partir de então, foi “salvo” na minha cabeça. O som que estava procurando desde Junho estava finalmente pronto! Mais quatro músicas do Mustang mixadas.

Terça, dia 26 de agosto – Mixagens, mixagens, mixagens de 10 até 2:h30 da madrugada. 

Quarta, 27 de agosto – Perdemos algum tempo com problemas no computador. Chegamos a “resetá-lo” três vezes em uma hora, o que todos sabem, pode danificar um HD. Apelei ao dono do estúdio para transferir ou apagar outros áudios do “meu” HD para outro e ele “convenceu”o técnico a fazer isso. Após liberarmos um bom espaço no HD, o karma se cumpriu: uma das bandas “apagadas”, que não dava notícias há meses, resolveu ligar para o estúdio, no mesmo dia, para marcar a continuação da gravação!!! Puro Karma! E ainda tem gente que duvida! Inseri vozes da minha sobrinha, feitas em um cassete há meia década atrás, na música Paz. Agora sim: todas as bandas estào lindas! Quase dever cumprido. 
                        Não consegui ir ver Marte no planetário da cidade porque estava chovendo muito. Hoje seria o dia de maior proximidade entre a Terra e Marte, fato esse que não acontecia por no mínimo quase 60 mil longos anos! 

Quinta, 28 de agosto – Meu aniversário; de Goethe; Santo Agostinho; David Soul da dupla Starky & Hutch;  data da Lei da anistia; morte de Brian Epstein, empresário dos Beatles, e também dia em que o discurso “Eu tenho um sonho” de Martin Luther King foi proferido  – Para começar não avisei a ninguém da data “fatídica” porque o dono do estúdio ia resolver comprar um bolo, assoprar as velas e aí a mixagem ia parar por um tempão e não dava. Resolvi ficar na minha e depois que todo mundo saiu, depois das 8 da noite, contei para os técnicos Eric e Vinícius. Acho que o Eric ligou para o dono do estúdio que me deu um esporro pelo telefone. Do mesmo técnico ganhei de presente o CD de sua ótima banda Surf Shop Teddy. 
Carlos, Cleto e AméricoDo Cleto, “meu amigão”, dono do estúdio Staccato ganhei o LP duplo do Grand Funk ao vivo, e do meu grande amigo Heitor ganhei uma palheta (mas dada com muito amor!). Praticamente encerrado o trabalho. De mixagem deu um mês e quatro dias, ou algo assim. Nunca mixei um disco por tanto tempo. Que loucura. Terminar no mesmo dia do meu aniversário. Coincidências ??? Isso não existe.

Sexta, 29 de agosto – Recebi a nova capa do CD do Mustang com as ótimas modificações. Quando ouvi o CD do Mustang, que havia sido editado sem intervalos no dia anterior, chorei de emoção, depois de tantos meses de trabalho ininterruptos. Cada minuto valeu a pena, por mais duro que tenha sido, pensei.

Setembro, fim dessa história

Primeiro dia de setembro – Meu padrinho espiritual Priom –  Consertamos pequenas falhas, corrigimos alguns “moles”, nada que fosse muito radical em relação ao que foi “terminado” no dia 28, e criamos mais alguns (moles, só podia). O problema resolvido na faixa Rosana virou um novo problema em Tudo Pelo $. Tá na hora de parar, é lógico. Rômulo, o secretário-especial do estúdio, me contou que ensaiou no final de semana com uma banda cujos músicos comentaram que “O Carlos ensaiava aqui.” E quem é esse tal de Carlos? 

Segundo dia de setembro – Voltei de manhã para corrigir os moles de ontem. Nada de tenebroso. Finalmente acabou! UFA! Atrasado como sempre mas acabado!  Quando ouvi em casa nem acreditei! Estava maravilhoso, do jeito e  forma que sonhara! Meus filhos haviam nascido de um parto de cinco meses, com dois de ensaios e mais três de gravação e mixagem. O sentimento de dever cumprido é muito grande. Hoje fez exatamente três meses que começamos! Coincidências ??? Isso não existe.
 

Quinta, 4 de setembro – Back-up de todos os arquivos, enfim! Agora vamos às capas e aos vídeo-clipes, que o mundo não espera! Valeu por tudo, por todos que deram o sangue, suor e sono pelas bandas e pela excelência desses trabalhos. E obrigado a você que chegou até aqui, lendo cada dia do meu querido diário. Serei eternamente grato a todos. Amanhã é aniversário do Fred  Mercury, que comemorarei ouvindo suas grandiosas composições, principalmente as dos quatro primeiros álbuns que amo de paixão, e que estou escutando muito atualmente.

REPERTÓRIO FINAL (EM ORDEM):

USINA LE BLOND A VELOZ IDADE DO TEMPO (TEMPO: 52:22)
1) TUDO BEM
2) MENTE SOBRE A MATÉRIA
3) SE DEUS QUISER
4) FUNK ESSE UFO
5) VIRGÍNIA
6) BOTOX
7) GADO
8) VOCÊ ESTÁ PRONTO?
9) CLÁSSICO NO TERREIRÃO
10) MINHA VILLA
11) CONDOMÍNIO DO MAL
12) SUICÍDIO
13) CLÁSSICO (REPRISE)

MUSTANGOXYMORO (TEMPO 59:55)
1) MUITO ALÉM – OVER THE TOP
2) SACO CHEIO – PUPPET LOVE
3) CONTATO – CONTACT
4) ROSANA ESTÁ? – GUEVARA’S DRESSED IN DRAG
5) CARIDADE – CHARITY
6) EU TE AMO – I LOVE YOU
7) GILMORE GIRLS
8) ESSE MUNDO É MUITO GRANDE – I GOTTA FIND SOMEONE
9) TUDO PELO $ - ALL ABOUT MONEY
10) FIM DE SEMANA – WEEKEND
11) CHEIRO DE MIJO GUARDADO – GIVE BACK THE KING TO THE THRONE
12) AMOR PANSEXUAL -  HOMOSSEXUAL LOVE
13) CARIDADE (REPRISE) – CHARITY (REPRISE)
14) SEM MULHER, SEM $ - NO MONEY, NO HONEY
15) ELA LÊ A BÍBLIA – GOSPEL GIRL
16) QUERO ENCONTRAR A PAZ - PEACE
 

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