| TRÊS MESES DE GRAVAÇÃO EM 2003 -
USINA LE BLOND & MUSTANG - POR: CARLOS LOPES
O COMEÇO EM JUNHO:
Segunda, 2 de Junho – Começa enfim a gravação dos novos discos da Usina e do Mustang. Os ensaios, que originalmente, durariam um mês (para as duas bandas), acabaram por render mais um (maio), para que tivéssemos absoluta certeza sobre tudo, desde os músicos até os arranjos (já havia alertado a banda que, como “produtor louco”, eu poderia alterar os arranjos no último minuto – o que acabaria por fazer). Havia conversado com os técnicos de gravação do estúdio Staccato no Rio de Janeiro (Eric
e Daniel
Desculpem-me se não separar os nomes das músicas das duas bandas, mas já que gravamos tudo junto, preferi fazer dessa forma, indicando o que foi feito em cada sessão. O nome que antecede o texto é do aniversariante do dia, que sempre me diz algo (ou muitíssimo, dependendo do caso). A lista de todas as composições segue o final desse diário. Terça, 3 de Junho – Curtis Mayfield - Segundo dia da gravina da banda entre 9 as 14:00, hora na qual terminamos o disco da USINA. Comecei os overdubs de guitarra (na verdade mais “detalhes” do que overdubs) à tarde. Fiz o primeiro solo de slide na minha vida: “Virgínia”, escrita em homenagem aos Mutantes (uma das maiores influências) utilizando o nome da esposa do guitarrista Sérgio Dias Baptista. Mente. Sobre A Matéria, Condomínio do Mal, Você Está Pronto?, Caridade (que iria mais tarde parte o Mustang. Começou no Mustang, passou para a Usina e voltou para “casa”) e Gado (que deu bastante trabalho. Tive que refazer o arranjo e a linha melódica no próprio estúdio) foram as “crias” do dia. Quatro músicas desse dia contra 8 do anterior. Quarta, 4 de Junho – Ás 9h00 tentamos prosseguir a gravação, agora com o computador, que acabara de chegar restaurado do conserto, mas na impossibilidade de alcançar os mesmos timbres conseguidos no ADAT (tentamos por horas!), optamos por alçar os ADATs a categoria de deuses. Aí já foi um tempão perdido (ou conquistado?) entre constatar o óbvio, formatar novas fitas etc. Começamos a gravar o Mustang as 18:00 e fechamos as 22:00. 12 músicas em 4 horas! Utilizei quatro jogos de cordas de tanto que elas arrebentavam ou se desgastavam nesses três dias. A mesma marca, a mesma corda ruim. Primeira parte (mesmo!) da missão cumprida.
Quarta, 11 de Junho – Joshua Jackson - Mais dobras de guitarra e violão. Descobrimos que uma das fitas ADAT gravada fora apagada misteriosamente!!! Crime no estúdio! Perdemos 30 minutos de bases de guitarra e baixo, mas pelo menos a bateria estava sã e salva em outra fita. Um dos overalls (da bateria) havia sido apagado também. Deu uma desanimada (breve) mas levantei a cabeça e assumi a missão.
A
assinatura misteriosa ao lado das duas fotos representa o rosto angelical
do mestre e foi feita do próprio punho, o qual não vimos
pois a caneta somente levitara perante nossos olhos.Nenhuma palavra conseguiria expressar a forte emoção que foi ter ROTIEH tão próximo. Nossos espíritos foram alvejados, sem piedade, por arranjos que fluíam de seus dedos mágicos e de sua alma febril pela arte. Ajoelhamo-nos. Poucas testemunhas tiveram a chance de vê-lo ao vivo e nós fomos uns dos poucos escolhidos. Obrigado bom Deus. De madrugada tentei gravar as primeiras vozes (Botox, Clássico, Se Deus Quiser, Virgínia, Funk Esse UFO e Minha Vila – ainda com um “L” ) com um microfone AKG mas após alguns dias refiz tudo, tanto por problemas técnicos (a voz ficou abafada), como pela falta de inspiração mesmo. Os vocais nem estavam ruins, era só questão de aprimora-los, mas como sou obsessivo-compulsivo.... Após tanta luz, o que mais poderia querer? Cantar bem?
Quarta, dia 25 de Junho – June Lockhart
– Começamos a mexer no som da batera, comprimindo bumbo e caixa.
A “pancada” ficou bem melhor, mas tudo dentro do aceitável, sem
descaracterizar a proposta. Como o nosso baterista utiliza diversas técnicas
de caixa, tivemos que criar praticamente uma equalização
para cada música,. Limpamos ruídos de fundo, gravei violões
para Gado, Contato, Clássico no Terreirão, Gilmore Girls
e Caridade. Tentei gravar mais versões para “Clássico no
Terreirão” acústico. De 18:00 as 6:00 da manhã.
A CONTINUAÇÃO EM JULHO: Terça, 1 de Julho – Comecei a gravar as 19:00. Saí as 5:00. Gravei vozes e backings de Contato, Gilmore Girls, Clássico, Gado, Botox (primeira versão que não seria utilizada), Suicídio, Caridade, Condomínio e Tudo Bem. “Noite muitíssimo inspirada”. Quinta, 3 de Julho – Kafka – Continuei gravando vozes. Demorei duas horas para que a voz ‘aquecesse”. Fiz backings e experiências muito úteis (Vírginia em especial). Gravei todas as vozes principais do CD do Mustang com voz rouca em uma hora, mais ou menos de 4 as 5 da madrugada. Algumas dessas vozes podem ser ouvidas em Contato, Cheiro de Mijo Guardado e Amor Pansexual em especial. Nessa noite, seguranças da faculdade, em frente ao estúdio, atiraram para cima para espantar alguns ladrões de carro, o que indignou muito uma vizinha. Quarta, 9 de Julho – Gravação teve início as 20:00. Consertamos muitas coisas e adicionei diversas outras até 4:00 em ponto.
Terça, 22 de Julho – O início da mixagem (em parte). Começamos às 19h00, com muitas paradas. Posso dizer que a partir daí “algum” cansaço começou a bater. “ROTIEH ORTSEAM” gravou um alucinado cavaquinho para “Você Está Pronto?”. Após esse novo encantamento musical, ROTIEH despediu-se de todos nós e levitou através da janela, passando pelas barras do mais puro aço que recobriam a mesma janela do estúdio. Nos ajoelhamos em respeito, agradecendo mais uma vez à grande espiritualidade pela oportunidade. Mais conectados ao mundo “real”, voltamos ao trabalho terreno. Ao puxarmos a equalização errada para uma mixagem, obtivemos uma sonoridade fantástica para Gilmore Girls. O som “errado” soou perfeitamente como se tivéssemos gravado o “With the Beatles” com a mesma sonoridade rústica de guitarra e batera do quarteto bretão. Amei ? Acabei de cantar as 2:40 da madrugada. Saímos as 05:10.
Segunda, 28 de Julho – Desencarne de Bach – Começamos a mixar as 11:00 de segunda, saindo do estúdio as 10:30 de terça. Tiramos um som “gordo” para os tons de Gado (sem trocadilhos) e experimentamos novas equalizações para o Mustang. Quinta, 31 de Julho – Remixamos
algumas faixas da Usina e começamos com uma nova equalização
para o Mustang, que seria reprovada em alguns dias. Boa EQ mas muito estridente.
Ao escutar com muita atenção os diversos CDs-teste que fizemos
nas últimas semanas cheguei a conclusão de que os timbres
das fitas da Usina e do Mustang deveriam ser diferentes sem nenhum trauma
para qualquer uma das partes envolvidas. Além de obviamente destacar
um trabalho do outro, as diferentes equalizações poderiam
ditar um caminho próprio a cada banda, o que me soou bastante instigante.
Os “metais” gravados para as bandas soavam “quentes” e envolventes, dando
muita personalidade ao trabalho. Dava vontade de rebolar a toda hora. Esse
deveria ter sido o último dia segundo o cronograma original. Ainda
iria levar quase dois meses para acabar.
AGOSTO, MÊS DO CACHORRO LOUCO.
Sábado, 2 de Agosto – Convenção da Xena em SP. Foram exibidos os clipes Xena & Gabrielle e Arquivo-X do Mustang no evento (ver Xenacon4). Os presentes aplaudiram, o que me deixou bastante feliz, pois eu não esperava, de fato, por isso. Fiz as fotos para a capa do CD da Usina em São Paulo. Segredo, segredo... Quinta, 7 de agosto – David Duchovny
– Dia meio improdutivo. Agora o cansaço do estúdio já
não “batia”... Dava PORRADA!
Quarta, 13 de agosto – 14 horas direto. Alteramos a equalização geral. Algumas experiências deram mais certo, outras ainda seriam refeitas por semanas a fio. Na calada da noite, um dos técnicos incluiu ao seu bel prazer uma seqüência de “ruídos” domésticos na canção “Se Deus Quiser”. Quando ouvi, comentei: - “Chegou àquela fase na qual o autor não tem mais domínio sobre a obra...” . Acabei deixando por consenso. Fizemos mais Usinas. Estávamos muito cansados. Quinta, 14 de agosto – Mais alterações.
O dono do estúdio me deu o LP da moeda do Grand Funk, uma das minhas
bandas favoritas e esse LP era o mais puro objeto de desejo. O som do baixo
do Mustang estava muito “empastelado”, se é que vocês me entendem...
Demos uma mexida geral, assumindo que o baixo deveria soar gordo e grave
como nos discos dos anos 60/70.
Domingo, 17 de agosto – Domingão? Cerveja e futebol? Não! Mais mixagem! Subimos os volumes dos baixos da Usina na mixagem em 7 dbs. Desistimos de utilizar o Normalizer (outro recurso muito comum em estúdio, usado para nivelar os volumes das músicas). Apenas duas horas e meia de trabalho, mas com muitos progressos. Ontem foi ‘níver da Madonna, da Julie Newmar (mulher-gato) e desencarne do Rei Elvis. Terça, 19 de agosto – Trabalhamos geral na Usina. Subimos os baixos, abaixamos as vozes e as caixas da bateria, obtendo uma mixagem mais compacta, com as peças mais “dentro” das músicas. Sete horas de labuta. Quarta, 20 de agosto – Continuamos trabalhando nas equalizações e mixagens. Quinta, 21 de agosto – Nesse dia eu estava atacado, deveria ser algum efeito da proximidade de Marte, sei lá... Dei esporro em uma banda que ensaiava de porta aberta, joguei uma cadeira na cabeça de um ex-técnico de gravação do estúdio, arremessei um prato quebrado de bateria no chão. Trabalhamos com mais vigor nas equalizações. Seguindo os conselhos de dono do estúdio fui trabalhando na madruga, incentivando o técnico Vinícius, que estava morrendo de sono, a permanecer acordado, mas se conselho fosse bom... A noite foi improdutiva, mas engraçada. Saímos as cinco e meia da manhã. Segunda, 25 de agosto - Ainda
encasquetado com a canção “Rosana Está?” que não
“estava” rolando (pelo menos para mim) , pedi uma guitarra emprestada e
passei a arranhar uma palheta nas cordas para tirar um som bizarro para
a introdução, que ficou ótimo. Depois pequei um microfone,
pluguei direto na mesa de gravação e passei a cantar , mesmo
com o vazamento da gravação original, imaginando a seguinte
cena: um punk que havia subido no palco para cantar Rosana Está?
juntamente com o vocalista de uma banda com voz afeminada. Cantei com a
voz do tal punk nessa sessão de manhã, e o resultado de ambas
as vozes alternadas e mixadas juntas ficou perfeita. Inclusive com os “desencontros”
entre as vozes, o que dá uma total impressão de “coisa” informal.
Esse era o detalhe que faltava: um Chitãozinho e Chororó
(por falar nisso, mas que nome escroto esse! Sempre tive vontade de escrever
isso) das profundezas.
Terça, dia 26 de agosto – Mixagens, mixagens, mixagens de 10 até 2:h30 da madrugada. Quarta, 27 de agosto – Perdemos
algum tempo com problemas no computador. Chegamos a “resetá-lo”
três vezes em uma hora, o que todos sabem, pode danificar um HD.
Apelei ao dono do estúdio para transferir ou apagar outros áudios
do “meu” HD para outro e ele “convenceu”o técnico a fazer isso.
Após liberarmos um bom espaço no HD, o karma se cumpriu:
uma das bandas “apagadas”, que não dava notícias há
meses, resolveu ligar para o estúdio, no mesmo dia, para marcar
a continuação da gravação!!! Puro Karma! E
ainda tem gente que duvida! Inseri vozes da minha sobrinha, feitas em um
cassete há meia década atrás, na música Paz.
Agora sim: todas as bandas estào lindas! Quase dever cumprido.
Quinta, 28 de agosto – Meu aniversário;
de Goethe; Santo Agostinho; David Soul da dupla Starky & Hutch;
data da Lei da anistia; morte de Brian Epstein, empresário dos Beatles,
e também dia em que o discurso “Eu tenho um sonho” de Martin Luther
King foi proferido – Para começar não avisei a ninguém
da data “fatídica” porque o dono do estúdio ia resolver comprar
um bolo, assoprar as velas e aí a mixagem ia parar por um tempão
e não dava. Resolvi ficar na minha e depois que todo mundo saiu,
depois das 8 da noite, contei para os técnicos Eric e Vinícius.
Acho que o Eric ligou para o dono do estúdio que me deu um esporro
pelo telefone. Do mesmo técnico ganhei de presente o CD de sua ótima
banda Surf Shop Teddy.
Sexta, 29 de agosto – Recebi a nova capa do CD do Mustang com as ótimas modificações. Quando ouvi o CD do Mustang, que havia sido editado sem intervalos no dia anterior, chorei de emoção, depois de tantos meses de trabalho ininterruptos. Cada minuto valeu a pena, por mais duro que tenha sido, pensei. Setembro, fim dessa história Primeiro dia de setembro – Meu padrinho espiritual Priom – Consertamos pequenas falhas, corrigimos alguns “moles”, nada que fosse muito radical em relação ao que foi “terminado” no dia 28, e criamos mais alguns (moles, só podia). O problema resolvido na faixa Rosana virou um novo problema em Tudo Pelo $. Tá na hora de parar, é lógico. Rômulo, o secretário-especial do estúdio, me contou que ensaiou no final de semana com uma banda cujos músicos comentaram que “O Carlos ensaiava aqui.” E quem é esse tal de Carlos? Segundo dia de setembro – Voltei
de manhã para corrigir os moles de ontem. Nada de tenebroso. Finalmente
acabou! UFA! Atrasado como sempre mas acabado! Quando ouvi em casa
nem acreditei! Estava maravilhoso, do jeito e forma que sonhara!
Meus filhos haviam nascido de um parto de cinco meses, com dois de ensaios
e mais três de gravação e mixagem. O sentimento de
dever cumprido é muito grande. Hoje fez exatamente três meses
que começamos! Coincidências ??? Isso não existe.
Quinta, 4 de setembro – Back-up de todos os arquivos, enfim! Agora vamos às capas e aos vídeo-clipes, que o mundo não espera! Valeu por tudo, por todos que deram o sangue, suor e sono pelas bandas e pela excelência desses trabalhos. E obrigado a você que chegou até aqui, lendo cada dia do meu querido diário. Serei eternamente grato a todos. Amanhã é aniversário do Fred Mercury, que comemorarei ouvindo suas grandiosas composições, principalmente as dos quatro primeiros álbuns que amo de paixão, e que estou escutando muito atualmente. REPERTÓRIO FINAL (EM ORDEM): USINA LE
BLOND
–
A
VELOZ IDADE DO TEMPO (TEMPO: 52:22)
MUSTANG
– OXYMORO (TEMPO
59:55)
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