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- Que horas são?
A lojista de cabelos negros e lisos emudeceu e o menino,
que estava ao seu lado, quase fez que não era com ele. O relógio
no pulso do rapaz indicou que a resposta seria dele. Assumi a culpa pois
a pergunta havia sido feita sem alvo certo. Três horas, ele respondeu.
Estava dentro de um shopping quando passei mal e entrei na primeira loja
a frente, sem prestar muita atenção no que vendiam, abanando-me
com uma pasta do trabalho, cheia de documentos. A reboque, aproveitei para
saber a hora. Saí do recinto com um obrigado. Meio que fui
expulso pelo ar-condicionado, que sempre me faz respirar pela boca, e mais
pelo atraso.
Desci a escada contornando os outros passageiros
que assistiam a vida passar enquanto minutos preciosos do meu tempo eram
retardados sem chance de reação. Um último "por favor"
não foi atendido por um impassível senhor grisalho com as
costas da camisa empapadas de suor. Deixei para lá a contragosto.
"Acho que ainda dá tempo para comer", pensei enquanto a barriga
insistia que esse objetivo era mais do que necessário. Entrei em
um self-service sem verificar o valor do grama e peguei o segundo prato,
de cima para baixo, no monte de louça.
No movimento do corpo, desviei a atenção para um relógio
de parede que quase beijava o teto. Marcava dez para as três. Enchi
o prato com o que me pareceu saudável e sentei-me. O ímpeto
devorador fez o serviço e ainda deu para brincar com os grãos
remanescentes do arroz. O menor deles escapuliu atirando-se de uma considerável
altitude. Quando me abaixei para pegá-lo (não para comê-lo)
deparei-me com um belo par de pernas e com o relógio marcando vinte
para as três! Estranho... Passei a creditar os dez minutos de diferença
a um mal funcionamento. Fui conversar com a atendente sobre esse problema
mecânico. Ela olhou-me de forma estranha.
- Estou aqui há uma meia hora, pelo menos, e pude perceber
que o seu relógio está um tanto quanto atrasado..., disse.
- O senhor acabou de entrar...
Dois olhares estupefatos, cada um desacreditando no do opositor. A
moça das belas pernas sentou-se com um novo prato à mesa.
"É a sobremesa", refleti. O ponteiro de minutos recuou, só
que agora em frente aos meus olhos. Pisquei. Vi três bancos levemente
afastados da mesa em que estava sentado. Como se eu acabara de me levantar?
Arrepiei-me. O belo par de belas pernas entrou no self-service. Olhei para
o relógio: duas e meia. Gelei. Procurei por alguma coerência
e vi duas e vinte e cinco! Saí atordoado. Acho que nem paguei a
conta, mas pagar o que se minha mesa estava limpa? Meu Deus, o que estou
falando? Lembrei da pasta que estava carregando, devo tê-la esquecido
no self-service. Voltei. Estavam abrindo o estabelecimento. A funcionária
que havia me atendido desceu de um ônibus! Procurei por outros relógios
mais conscientes pela redondeza e os encontrei ainda mais alucinados: cada
nova olhada e mais cedo marcavam a hora. O dia esvaía-se, sem piedade.
Respirei fundo, cerrei os olhos e comecei a mentalizar frases e idéias
coerentes. Antes que conseguisse acreditar em mim, lembrei com maior clareza
que havia deixado minha pasta na loja em que perguntei as horas. Tremi
só de pensar que enquanto estivesse voltando, o dia se tornaria
noite, ao inverso! Os relógios, fossem eles de corda, solares
ou luminosos, conspiravam. Corri mais do que pude. Atravessei sinais abertos
e avenidas sem me preocupar com a própria segurança, mas
que segurança teria eu nesse mundo que vivia de trás para
a frente? Tive muita sorte em chegar no shopping na hora certa (?)
antes que os porteiros sonambúlicos cerrassem todas as portas
com exceção da principal. A luz do interior do shopping extinguia-se
através dos poucos centímetros que restavam de esperança.
Gritei que esperassem. Olharam-me com má vontade. Lancei-me entre
eles sem dar qualquer explicação, levantando a porta de ferro
que rangeu de desgosto e entrei. Nem vieram atrás de mim. Fechadas
as lojas, apenas os corredores permaneciam luminados sem um único
vigia.
Um relógio marcava meia-noite do dia anterior. Após algumas
curvas e andares trocados, alcancei finalmente o objetivo. A "minha" loja
permanecia acesa e com a porta entreaberta. A recepcionista, que não
havia respondido minha pergunta sobre a hora, sorriu gentilmente. Parecia
estar me aguardando.
- Quase não deu tempo, disse ela virando-me as costas sem demonstrar
qualquer sinal de afetação. A loja me pareceu estranhamente
familiar e senti-me, novamente, recolocado nos eixos. Devolvida a sumida
pasta, a moça disse: - Ao perguntar a hora, só o que
te interessava naquele momento era seguir o relógio, mesmo com visíveis
sinais de cansaço ou doença. Acreditando em algum pretenso
atraso, você embrenhou-se pelo mundo em uma desenfreada correria
contada em milésimos de segundos, estabelecendo prazos inaceitáveis.
Esqueceu-se do próprio instinto. Tempo... Que palavra pequena para
uma coisa que parece ser mais importante do que o seu bem viver. Pensar
que algo tão sólido como o tempo pode te deixar na mão,
é assustador, não é? Mas acredite que há tempo
para tudo: para amar, viver e crescer. Você e o tempo podem ser grandes
parceiros. Na verdade ele pode te ensinar e não te escravizar, finalizou
a lojista após apagar as luzes no interior da loja e fechar silenciosamente
a porta. Bem mais calmo, não desejei explicar o que acontecera,
nem perguntar algo a moça. Por acaso, acabei lendo o letreiro da
loja, que nem havia percebido da primeira vez. Uma placa rústica
de madeira pintada de verde dizia em baixo relevo:
"Consertamos relógios
e teimosias.
Abrimos todos os dias.
Atendimento especializado.
Achados e perdidos até
o último cliente". |
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