O PORQUÊ DE MÚSICA POR MÚSICA DO CD:

   SANTA TERESA: Não sou muito de sair, pois como anjo tenho missões mais urgentes a cumprir, mas tenho especial apreço pelo bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro (ainda mais que é um bairro alto e anjos gostam de altura), e nada mais justo do que tentar captar o espírito do bairro, dos seus artistas (sejam ricos ou pobres) e sem esquecer as mazelas do bairro, como a violência e o excesso de doidões.  Procurei incluir um pouco de cada um na visão de um artista iniciante (o personagem da letra) que deseja alçar vôos mais altos do que o bairro.

   SÓ SE FOR AGORA: Um preto-velho "recomendou-me" reaprender com a simplicidade das crianças.  Em um dos meus dias tristes (anjo também tem disso) lembrei das crianças e principalmente das minhas sobrinhas.  Notei como a quantidade de "pequenos seres" à volta era considerável e saquei como o mundo novo (o deles) vinha se aproximando de mim sutilmente e soube, enfim, que tudo tem seu tempo, tempo de nascer e de morrer.  Como diz uma fantástica-amiga-infinita protetora celestial:  "Eu te admiro porque você não é um engravatado e sabe preservar o seu lado criança, não se deixando contaminar pelas coisas ruins do mundo."

   TUDO DE NOVO:  Essa é bem emblemática.  Estava nos Arcos da Lapa no dia primeiro de janeiro e como em um passe de mágica vieram à mente música e letra desta canção para ilustrar uma necessidade que vinha me "coçando" há anos:  o desejo de alçar novos vôos sem medo e imposições.  Pensei como seria bom se tocasse e escrevesse livremente o que quisesse e que admirassem minha música sem saber de onde vim ou quem sou.  Foi o que fiz. 

     DIGNIDADE:  Todo santo dia na TV "nos informam" sobre os aumentos e nunca sobre quando serão aumentados os salários.  Mesmo no ano 2000 continuam se perpetuando casos de racismo, de intolerância e de falta de amor entre as pessoas.  Cada um se defende como pode, muitos pisando sobre os outros.  Eu gostaria de saber:  onde está nossa dignidade?  Tem alguma aí à venda?

    SÃO JUDAS TADEU:  O primeiro samba-bossa-trip-tudo que escrevi e pelo qual tenho um carinho imenso, talvez maior que a posição das nuvens.  Durante uma das enchentes que assolam de tempos em tempos o Rio de Janeiro, o prefeito (que está se recandidatando) disse que para este problema só haveria uma solução:  rezar para São Judas Tadeu.  Bem, foi a força que encontrei para ter acesso "ao homem".

    MEDO: Quem não tem?  Pensando em uma catarse místico-musical escrevi esta canção pensando em Little Richard mandando ver em sua "Lucille" ou um Sam & Dave suando bicas em "Hold On, I'm Coming".  Bruno Schubnel, o baixista que gravou o CD, traduziu a letra como sendo sobre o medo de que descubram sobre uma sexualidade não socialmente aceita.  É uma tradução interessante, não menos válida do que outras.

   (TUDO) SEMPRE IGUAL:  Procurei motivação fora de mim, mas houve um momento em que nem os livros, nem os filmes, nem os amigos e nem a música foram capazes de fazer por mim o que precisava fazer sozinho.  Compreendi o quanto é importante ser feliz e para isso precisamos procurar o nosso caminho, ousando, arriscando.  Varri, não para baixo do tapete, o "tudo sempre igual" mas deixei-o à mostra, para poder enfrentá-lo e superar os problemas.  Existem também os que gostam do "tudo sempre diferente" mas dá tudo no mesmo e é compreensível que a maioria prefira o seguro, o certo, mas às vezes isso também pode te matar. 

   CORPO FECHADO:  A parte inicial da letra veio do amigo e letrista Luciano da Costa e imaginei a melodia como uma espécie de baião lento.  Começamos a ensaiar, mas a música ainda não me tocava de forma definitiva.  Deixei-a de lado por alguns meses até uma viagem ao Recife, mais precisamente em Olinda, terra de minha avó, onde tive um encontro místico em um momento de muita indefinição e negatividade.  Estava pronto o casamento alquímico e a música havia ressuscitado, agora com a última parte da letra pronta mais uma fundamental mudança de andamento e de dois acordes.

   GRETA GARBO:  O amigo-brother-irmão Xande (vulgo Alexandre Farias.  Nada a ver com os funestos de Alagoas, apesar de que ele tem raízes por lá também) trouxe a música quase completa, mas faltava um "tchan" e conforme ele a tocava, me vieram à mente imagens de terras espanholas.  Automaticamente inseri umas partes que completaram o elenco, criei a linha melódica e ensaiei o tema com um ritmo latino (antes do Buena Vista, tá?  Humm...).  Só faltava traduzir a imagem em letra e o segundo "tchan" veio durante a leitura de uma biografia sobre Greta Garbo - uma de minhas musas, juntamente com Ingrid Bergman, Paulette Goddard e Louise Brooks.  Imaginei um lanterninha de cinema, nas primeiras décadas do século passado, e sua inconfessável paixão pela atriz na tela todos os dias com a melodia de um hipnotizante piano ao fundo.  No escuro da sala o sonhador lanterninha se perdia em devaneios com sua linda amada de misteriosas sobrancelhas curvilíneas.

      ARTISTA:  Tinha uma dívida antiga com meu avô, que por ser muito velho não me entendia e eu por ser muito jovem também não sacava qual era a dele. O vovô era escritor e jornalista e pelas graças que o tal do destino nos reserva, fui compelido a seguir também este rumo profissional, ainda que de forma superficial.  Paguei a minha parte da dívida recolhendo um poema dele do livro Velhos Sonetos (1971) e contribuindo com mais alguns versos acrescidos de um rock glitter meio Secos e Molhados, meio Ziggy Stardust (olha a referência no final).  A única coisa engraçada é que meu avô não gostava de rock...  Nessa nós ainda vamos ficar na pendenga, valeu, "vô"?

   CAJU:  Antes desses problemas com a família Salles (vale a pena vocês verem o documentário Notícias De Uma Guerra Particular) eles fizeram um documentário na época da última Copa sobre a carreira de jogador de futebol.  O terceiro e último episódio é sobre o grande Paulo César Caju, que militou em muitos clubes e era um negro supimpa, alinhado, psicodélico, que flertava com a elite da época, mandava o seu francês na boa, cheio de ginga e malandragem e além disso com muita consciência.  É uma figuraça e um ídolo.  Salve Caju! 

 SAINDO FORA:  Esta música foi uma das primeiras a serem escritas, ainda em 96, juntamente com "Dignidade", "Santa Teresa" e "Tudo de Novo", e durante os ensaios em 99 preferi deixá-la de lado, mas fui convencido pelo nosso Xande a repensar o ato punitivo.  Com poucas, mas substanciais mudanças (a segunda voz, principalmente) ela se tornou um frescor pop-rock em nosso mar de estilos.  A letra fala sobre o final de um relacionamento amoroso que me marcou, mas graças a Deus, não feriu minhas asas e nem me impediu de voar.  Melhor sozinho do que mal acompanhado.
 


Veja as 12 músicas da Usina
Do Oiapoque ao Chui o povo canta conosco, clique no Título e cante comigo!
Santa Teresa”,
“Só Se For Agora”,
“Corpo Fechado”,
“Tudo de Novo”,
“Dignidade”,
“São Judas Tadeu(Depois da Tempestade)”,
“Caju”,
"Saindo Fora”,
“Tudo Sempre Igual”,
“Artista”,
“Greta Garbo
e Medo

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