Home do Prof. Ubaldo Rizzaldo Jr.
Instrumentos
de cordas friccionadas
(violino,
viola, violoncello e contrabaixo)
Há um certo mistério a respeito da
origem do violino. Ninguém sabe exatamente quando ou como o violino foi originalmente
inventado. Na época medieval havia uma surpreendente variedade de instrumentos
de cordas tocados com arco. Os mais importantes destes instrumentos, que o
violino pode considerar seus ancestrais, foram: o rabab árabe ou rabeca de
espigão, que, mais tarde, na Europa, transformou-se na rebec, mais delgada, com
um formato de pêra, e geralmente com três cordas; e a rebeca ou vielle, com
cinco cordas, com o formato de um oito (8).
O violino propriamente dito apareceu na
Itália durante a primeira metade do século XVI. Naquele tempo, os instrumentos
de corda tocados a arco mais populares eram as violas. Essas violas antigas
pertencem, porém, a outra família de instrumentos de corda, muito diferente do
violino.
Por algum tempo as violas antigas e os
violinos tocaram lado a lado. Os compositores, porém, começaram a preferir o
violino pela maior agilidade, poder e brilho de seu som e por sua maior
capacidade de expressão.
Gradualmente, as violas foram caindo em
desuso. Hoje em dia, estão sendo usadas, uma vez mais para tocar peças que,
originalmente, foram escritas para elas.
O violino, a viola, o violoncelo e o
contrabaixo produzem os seus sons exatamente da mesma maneira. Quatro cordas
(de tripa, metal ou náilon) são esticadas ao longo de uma caixa oca, de
madeira. As cordas, fixadas no estandarte, são passadas sobre o cavalete,
alongando-se até as cravelhas. O cavalete impede as cordas de tocarem a parte
principal do corpo do instrumento, deixando-as assim livres para vibrar. A
parte do corpo do instrumento é feita de pinho-de-riga e o restante, de
sicômoro. Um verniz especial é aplicado para conservar a madeira e aperfeiçoar
a qualidade do som.
Todos os sons são causados por alguma
coisa que vibra. Quanto mais lentas forem as vibrações, mais grave será a nota.
Quanto mais rápidas forem as vibrações, mais aguda será a nota. Em qualquer
instrumento que produza som por intermédio de cordas que vibram, a altura das
notas dependerá:
1 do
comprimento das cordas
2 da tensão ou retesamento das cordas
3 da espessura das cordas
Uma corda mais longa vibrará mais
lentamente que uma corda curta e portanto produzirá uma nota mais grave. No
entanto, por causa do tamanho e do formato do violino, é necessário que todas
as cordas tenham o mesmo comprimento. As cordas produzem notas de altura
diferente porque variam em espessura e tensão. O instrumentista afina as cordas
ajustando as cravelhas. Quanto mais tensa estiver a corda, o que se obtém
apertando a cravelha, mais aguda ela soará. As quatro cordas do violino são
afinadas em intervalos de quinta.
Uma corda mais grossa vibrará mais
lentamente que uma corda mais fina produzindo, portanto uma nota mais grave. A
corda afinada na nota sol é a corda mais grossa; a corda mi é a mais fina.
O instrumentista segura o violino de maneira
a colocá-lo entre o ombro e o lado esquerdo do queixo. Apesar de as cordas
poderem ser postas em vibração quando são dedilhadas, com as pontas do dedo
(pizzicato), a maneira mais comum de fazê-las vibrar é passando o arco
transversalmente nelas. O arco é uma vareta de madeira ao longo da qual são
retesados mais 200 fios de crina de cavalo. Antes de usar o arco, o
instrumentista passa resina na crina. Com isso, dá um certo aumento de atrito à
crina, o que causa maior aderência desta às cordas. É assim que, quando passa o
arco, a crina "pega" a corda fazendo pressão sobre ela e deslocando-a
ligeiramente para o lado. A corda se solta imediatamente, mas é uma vez mais
colhida pela crina - e assim o processo se repete, várias vezes por segundo, causando
a vibração da corda e, portanto a produção da nota.
Quando uma corda é tocada, as vibrações
se propagam, através do cavalete da alma, pela caixa sonora do instrumento.
Esta começa então a vibrar, tornando os sons mais fortes e mais ricos antes de
eles poderem sair pelas aberturas acústicas em forma de ff situadas em cada um
dos lados do cavalete.
Vimos que, quanto mais curta for a
corda, mais aguda a nota soará. O comprimento do violino naturalmente limita o
comprimento das cordas. O instrumentista não pode tornar mais longas as cordas,
mas pode encurtá-las e assim produzir notas diferentes. O violinista encurta as
cordas ao pressioná-las contra o braço do instrumento, ou seja, apertando-as ou
dedilhando-as. Quando uma corda é dedilhada desta forma, somente o segmento da
corda entre o cavalete e o ponto onde a corda está sendo pressionada entrará em
vibração.
Pressionando as cordas em pontos
diferentes (o instrumentista é orientado pelo ouvido, pois não há marcas para
mostrar onde colocar os dedos), o violinista pode produzir até cinqüenta notas
diferentes.
Duas notas podem soar simultaneamente
quando se pressiona duas cordas ao mesmo tempo. Chama-se a isso dedilhado
duplo. Algumas vezes o instrumentista precisa tocar três notas simultaneamente
(dedilhado triplo) ou até quatro (dedilhado quádruplo). Neste caso, ele terá
que tocar com o arco, antes as duas cordas mais graves e logo depois tocar as
duas mais agudas, pois a curvatura do cavalete impede o arco de tocar todas as
quatro cordas simultaneamente.
Talvez você já tenha notado que, ao
tocar uma passagem lenta, muitas vezes o violinista movimenta ligeiramente a
mão para cima e para baixo quando está pressionando as cordas. Esse movimento e
o seu resultado sonoro são chamados de vibrato. Tais movimentos da mão causam
pequenas variações na altura de uma nota, que dão muita vida e calor ao som
produzido.
O violino tem uma imensa variedade de
expressão. O som pode ser controlado a ponto de tornar-se gradualmente mais
forte ou mais fraco. As notas podem ser tocadas uma sucedendo a outra com
delicadeza, ou claramente definidas e perfeitamente destacadas. A dinâmica e a
qualidade de som podem ser variadas alterando-se a pressão do arco, a maneira
como o arco entra em contato com as cordas (ataque), ou a localização específica
do arco sobre as cordas - perto do cavalete, perto do braço ou (onde comumente
se encontra) entre o cavalete e o braço.
Aqui então algumas das muitas maneiras
pelas quais se pode tocar o violino, demonstrando assim a enorme extensão do
seu som e do seu timbre:
·
Legato (em italiano: ligando suavemente).
Este é o golpe de arco mais comumente usado, no qual cada nota é suavemente
seguida de outra.
·
Martellato (martelado). As notas são tocadas
separadamente, com golpes curtos e vigorosos.
·
Saltando. Golpes decididos e curtos com o meio
do arco fazem com que este ricocheteie levemente nas cordas.
·
Com
sordino (com surdina).
A surdina é um objeto pequeno, parecendo um pente, que, encaixado no cavalete,
amortece as vibrações, fazendo com que o instrumento produza um som murmurante,
argentino. Quando o compositor quer que o instrumentista retire a surdina, põe
na partitura as palavras italianas senza sordino (sem surdina).
·
Pizzicato. As cordas são dedilhadas com as
pontas dos dedos. Quando o compositor quer que o instrumentista use novamente o
arco, escreve essa palavra.
·
Tremolo (tremendo). Existem duas espécies de
tremolo:
1. Tremolo dedilhado, em que se alternam rapidamente duas
notas e cada grupo de notas é tocado com um só golpe de arco.
2. Tremolo com arco, efeito tremulante, agitado e muito
dramático, que consiste basicamente em rápidas repetições de uma nota através
de velozes movimentos do arco para baixo e para cima.
·
Sul
ponticello (no
cavalete). As cordas são tocadas com o arco muito perto do cavalete, produzindo
um som lúgubre, especialmente quando combinado ao tremolo com arco.
·
Harmônicos. São sons agudos, suaves, aflautados,
produzidos quando se toca levemente a corda com a ponta do dedo.
·
Col
legno (com a madeira).
O instrumentista passa a parte de madeira do arco nas cordas, em vez de passar
a crina.
O violino mudou surpreendentemente pouco desde o século XVI, apesar de
algumas alterações menores terem sido feitas no que diz respeito à sua
construção (inclusive o desenho do arco) e ao seu tamanho.
Alguns dos melhores violinos foram feitos durante o século XVII por
três famílias de artesãos excepcionais que viveram na cidade de Cremona, no
Norte da Itália: os Amati, os Guarneri e os Stradivari. O maior de todos esses
artesãos construtores de violinos foi Antonio Stradivari, que é conhecido por
ter construído mais de mil instrumentos (além de violinos, também violas e
violoncelos), muitos dos quais continuam a serem tocados até hoje em várias
partes do mundo.
Quase todas as observações feitas com relação ao violino aplicam-se
igualmente à viola, ao violoncelo e ao contrabaixo. Basicamente, esses outros
instrumentos diferem do violino apenas em tamanho, extensão e timbre. Na
verdade, antigamente fazia-se referência a esses quatro instrumentos de cordas
simplesmente como "violinos". Por exemplo, durante o século XVII, a
famosa orquestra de cordas da corte de Luís XIV, o "Rei Sol" da
França, era conhecida como les vingt-quatre violons du Roy (os vinte e quatro
violinos do Rei ). Com o passar do tempo, porém, os três instrumentos de
maiores proporções assumiram os nomes pelos quais os conhecemos hoje em dia:
viola, violoncelo, contrabaixo.
Esta matéria foi escrita pelo Maestro Rufino (outubro de 2002)