CULTURA OU PIRATARIA
Afinal, até que ponto a reprodução ilegal do conhecimento
científico e literário lesa a cultura?
O Brasil, além de possuir um alto índice de analfabetismo
- cerca de um terço de sua população com mais de
10 anos pode ser considerado analfabeto ou analfabeto funcional indivíduos
com menos de três anos de estudo - agrega, também, umas
das menores estatísticas de vendas de livros do mundo.
Embora a constituição brasileira proíba a cópia
indiscriminada de obras literárias e artísticas através
do art. 5 , inciso VII, da lei dos direitos autorais, promulgada no
dia 19 de fevereiro de 1998 é cada vez mais comum o ato ilegal
de reproduzi-las, em especial no meio acadêmico.Várias
são as justificativas usadas pelos alunos e professores do universo
estudantil como é o caso, por exemplo, da aluna do 5º período
de Medicina da Ufes, Lívia Cesana,(19), que alega não
ter orçamento financeiro suficiente para custear o material didático
original necessário. "Além de estudar em tempo integral,
o que me impede de trabalhar e gerar renda. Se fosse adquirir todos
os livros necessários chegaria a gastar até R$ 2800 por
semestre".
Drama parecido com esse é o que o também universitário,
Luiz Fernando Santos,(44), estudante do 7º período de Direito
enfrenta: "esse tipo de lei, em conjunto com o alto custo dos livros,
acaba prejudicando a difusão do conhecimento na sociedade, o
que nos leva aquele velho chavão'não vende livro porque
é caro, e é caro porque não vende'. Fernando declara
que uma possível solução seria a diminuição
do tempo de direito autoral necessário para cair em domínio
público, atualmente, são 20 anos , "eu acho que 5
anos seria uma duração ideal para essa ementa, já
que no caso do meu curso os livros são atualizados quase que
anualmente" . Santos alegou que gasta em torno de R$ 300 a R$ 400
a cada seis meses para comprar somente o que considera ser o básico,
já que o total de livros seria na casa dos R$2000.
Já o professor do Departamento de Comunicação Social
da Ufes, Alexandre Curtiss tem uma certa relutância quanto à
negligência dos direitos autorais, "o ideal seria que todos
comprassem os livros, já que as cópias acabam segmentando
as obras na medida em que só se utilizam alguns dos seus capítulos
desmembrando, assim, a linearidade do seu pensamento". Mas admite
"sou favorável a xérox quando for o caso de livros
raros e em sua maioria caros como é a condição
dos importados que acabam tendo preços exorbitantes e são,
portanto, passíveis de reproduções mesmo que irregulares.
O melhor seria que os livros fossem subvencionados e suas edições
barateadas".
Legalmente seria viável a cópia de pequenos trechos de
um material literário, mas o limite viria a ser de até
10 páginas no máximo, no entanto, somente para estudos,monografias
e pesquisas científicas.Ainda assim, a realidade do que se é
feito está longe do que é permitido de fato. No estabelecimento
Gabriella Papelaria e Copiadora, localizado em Jacaraípe, na
Serra, a produção de cópias de livros inteiros
e até apostilas de materiais didáticos pode contabilizar,em
média, até 16 exemplares por dia. A dona da loja, Rosana
Amaral, (39), afirmou não concordar com a relação
custo benefício dos produtos ofertados pelas editoras nacionais.
"Os livros são superfaturados para o tempo de uso deles.
Tenho uma filha de 8 anos que aprendeu a ler a um ano e meio. Eu gostaria
de poder incentivar o hábito da leitura nela, mas os preços
dos livros infantis são muito caros. Eles têm todo um investimento
na estética do produto para atrair as crianças só
que isso aumenta o seu preço, daí acaba ficando algo ostensivo
para uma pessoa que não sabe como aproveitá-lo ainda".
Embora o veto a grandes quantidades de fotocópias se mantenha
em vigor, já se tramita nas comissões de educação
e Cultura, e de Constituição e Justiça e de Cidadania,
o Projeto de Lei 5046/05, que autoriza a reprodução de
livros para uso exclusivo de estudantes universitários, sem fins
comerciais. Esse processo acaba por retomar a questão de que
essa espécie de "pirataria" do material literário
e científico tem na verdade um cunho cultural que visa ampliar
a educação, e não necessariamente lesá-la.
A integrante da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, (59),
diz não ter muita evidência de possíveis cópias
das suas obras, mas acredita que seja pelo fato do seu trabalho ter
um caráter mais fictício e, também, mais recente,
diferente do alvo de maior interesse que é o meio científico
ou obras literárias mais clássicas. Mas ainda assim considera
muito lamentável que o acesso à cultura seja tão
limitado que ações como estas se façam presentes
no meio "teoricamente" mais preocupado com o processo de desvalorização
do autor.
Já a diretora da escola Monteiro Lobato-CEMS, Maria Helena Dadalto,
diz estar de extremo acordo com a constituição, fazendo
questão de frisar para os alunos a importância de ter o
material didático a ser usado no ano letivo. "Aqui, as cópias
feitas na nossa Xérox são limitadas ao número restrito
de páginas por livros, e geralmente o tipo de xérox que
fazemos são de textos, provas, artigos ou listas de exercícios
desenvolvidas pelos próprios professores da instituição.
Essa questão do direito autoral tem que ser levado muito a sério
num ambiente escolar, porque além de ser ilegal e sujeito a processos
jurídicos é um ponto contra a nossa meta, que é
justamente , a de dar valor à educação."
Bom, enquanto a classe de produção literário-científica
discute esse impasse, alguns de seus membros têm as suas obras
disponibilizadas na internet com livre acesso através de uma
autorização prévia que permite a impressão
das mesmas pelos internautas. Fica então a questão a cópia
de material didático imprescindível ao ambiente educacional
é atentado ou elemento difusor da cultura no país?