Informalidade invade a Ufes
Como reflexo do desemprego no Brasil, trabalhadores
buscam no trabalho informal uma saída para a crise
O aumento do número de empregos
informais é um fenômeno que está se tornando cada
vez mais visível no ambiente acadêmico da Universidade
Federal do Espírito Santo. Dentro e em volta do Campus de Goiabeiras,
há um número considerável de vendedores ambulantes
e camelôs.
Acompanhando uma tendência nacional, a causa principal do crescimento
da informalidade na Ufes é o aumento do desemprego no país.
Segundo o professor do Departamento de Economia, Maurício Sabadine,
tanto a atividade informal quanto o desemprego sempre existiram e sempre
existirão, já que fazem parte da estrutura do capitalismo,
só que agora chegaram a índices alarmantes.
A atividade informal se diferencia da formal principalmente no aspecto
legal, como explica Sabadine. "Não há uma separação
dialética entre trabalho formal e informal. Há diversas
óticas. Do ponto de vista legal, no Brasil, se você tem
contrato de trabalho você é formalizado. Então,
muitos são levados à informalidade por uma questão
de sobrevivência, como uma válvula de escape ao desemprego".
Este é o caso das irmãs Cláudia e Ilma Santos,
que trabalham no ponto de ônibus da passarela. A primeira vende
doces caseiros, já a segunda é camelô e vende artigos
como calculadoras e capinhas para celular. Cláudia diz que ficou
difícil conseguir emprego depois que foi demitida do posto de
ajudante de cozinha da CST, em 2001, e que enxergou no trabalho de venda
de doces uma oportunidade de obter uma renda para ajudar no orçamento
familiar. No caso dela, a situação parece ser ainda mais
grave. Cláudia não é dona da banca em que trabalha,
está ali como empregada de alguém que já está
na informalidade e recebe apenas R$10 por dia de serviço. Ela
demonstra, ainda, a vontade de voltar a trabalhar com a carteira assinada,
preocupando-se com a idéia de não poder dispor no futuro
de uma aposentadoria.
Esta também é uma preocupação compartilhada
pelo professor Sabadine. "É provável que se não
houvesse o trabalho informal a situação fosse ainda pior,
mas isso não quer dizer que ele seja bom. Ao mesmo tempo em que
o trabalhador informal não contribui com a previdência
ele também não cria uma rede de proteção
social. Ele não tem benefícios como aposentadoria, auxílio
maternidade, férias e descanso semanal remunerados".
Entretanto há também histórias de pessoas que entraram
na informalidade por uma opção pessoal. A exemplo do aluno
de filosofia, Iran dos Santos, que começou a trabalhar como livreiro
de sebo porque sente afinidade com o produto que vende. Ele não
nega que buscou na atividade uma fonte de subsistência, mas disse
ter preferido este a outros trabalhos. Agora, pensa em montar uma loja
em Jardim da Penha para oficializar o negócio.
Dentro da Ufes, no Centro de Vivências, há também
uma livraria formalizada a qual possui um contrato licitado e paga aluguel
pelo ponto comercial que usa. Para seu gerente, Ledson Folli, os trabalhadores
informais, especificamente os dos sebos, não atrapalham as vendas
da loja. Ele acredita que cada qual tem seu espaço e seu público.
No entanto, aponta para um outro problema: a venda de acervo novo nas
bancas. "Muitos desses livreiros tiram licença para montarem
um sebo quando na verdade esta é apenas uma alternativa para
venderem livros novos a um custo menor, já que não tiram
nota fiscal. Isso sim atrapalha nosso comércio", constata
Ledson.
Muito comuns também são os postos de compra, venda e troca
de passes escolares. Os responsáveis pelas bancas não
quiseram falar a respeito do caráter do negócio, desconversaram
e disseram não serem os mais indicados para falar do assunto.
Para Maurício Sabadine, isso se deve ao fato de eles serem constantemente
pressionados pelos sindicatos de empresas de transporte rodoviário.
"Eles devem desconfiar que alguém vá prendê-los,
já que isso é proibido, mas o fato é que eles têm
até banquinhas, então, não é tão
coibido quanto parece. É só a polícia chegar lá
e prendê-los", acrescenta Sabadine.
Esses comerciantes trabalham livremente e contam com os estudantes para
se abastecerem. Eles nem precisam saltar de seus veículos, os
"passeiros" vão até os carros que encostam próximo
aos postos de venda e, ali mesmo, realizam a negociação.
Sabadine alerta para um outro problema, que encontrou incentivo na informalidade.
"Um agravante dessa situação é que muitas
vezes esses trabalhadores são crianças e adolescentes
que não têm mais que 15 anos. Além de ser informal
é trabalho infantil".
Os comerciantes informais são enfáticos ao afirmar que
escolheram o Campus universitário para estarem desenvolvendo
suas atividades porque é um lugar constantemente movimentado,
com um fluxo de pessoas muito grande.
Autorização
Há seis meses a Prefeitura Universitária
ameaçou retirar todos os trabalhadores informais da Ufes, alegando
que estes estavam na ilegalidade. A situação foi provisoriamente
contornada com a intervenção das direções
dos Centros que, a partir de então, passaram a se responsabilizar
pelos comerciantes de suas áreas, concedendo uma autorização
especial aos trabalhadores.
Segundo o diretor do Departamento de Serviços Gerais da Ufes,
Anival Luiz dos Santos, é proibido qualquer tipo de comércio
dentro dos campi sem que antes tenha passado por um processo de licitação
e sem ter sido estabelecido um contrato. Ele destaca que todos os comerciantes
já foram notificados e ressalta, ainda, que um processo pela
retirada desses trabalhadores do ambiente universitário já
está sendo encaminhado à Assessoria de Convênios
e Contratos, setor ligado diretamente à Reitoria.
No entanto, não há previsão para que a proposta
seja estudada."Vai depender do grau de prioridade dos processos
que o assessor tiver", completa Anival.
E os estudantes? O que pensam disto?
"Você ainda tem aí aquele livro do
Descartes?", "Não, mas ele é fácil de
conseguir. Se quiser trago um pra você", "Ele é
fácil? Então traz um pra mim, beleza?". "Quero
um de nozes", "Eu quero brigadeiro".
Legal ou não o fato é que os estudantes consomem diariamente
os produtos e serviços oferecidos pelos trabalhadores informais
da Ufes.
"O trabalho informal na Ufes facilita a vida dos estudantes. O
sebo, por exemplo, oferece, a baixo custo, livros de interesse acadêmico
de que, muitas vezes, a Biblioteca não dispõe, sem que
precisemos, ao menos, sair do campus. Podemos comprar os livros, e outras
coisas, nos corredores, a caminho do ponto de ônibus", analisa
Thassiana Pinheiro, estudante de Comunicação Social. Ela,
quando elogiada por uma amiga por causa da sua nova capinha de celular
comenta. "Gostou, comprei numa banquinha no ponto de ônibus
ali da passarela".
Para Tânia Maria, pipoqueira no CCHN há 13 anos, os estudantes
gostam dos serviços e são beneficiados porque, geralmente,
os comerciantes aceitam também o passe escolar.
Já Ilma, a camelô do ponto da passarela onde Thassiana
adquiriu a capinha de seu celular, acredita que os estudantes aproveitam
a proximidade com os produtos. "Eles olham e se gostam de alguma
coisa compram", completa.