03/12/2004


Vitor Vogas

 

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Preparar sem parar

O que os cursinhos fazem para preparar o aluno até os segundos que precedem o vestibular

O vestibular está longe de ser unanimidade, entre estudantes e educadores, como sistema ideal de acesso ao ensino superior. A lógica do processo seletivo que fica restrito a uma prova, a qual, em que pesem eventuais mudanças, segue um padrão de avaliação, "obriga" aqueles que postulam uma vaga a uma preparação específica. Isto significa que, para ter ingresso em determinada instituição, eles devem conhecer não só o conteúdo que poderá ser exigido, mas, sobretudo, o tipo de exame que é aplicado, seu modelo e formatação.

É aí que entram em cena os cursos pré-vestibulares, que, especializados nessa preparação, ganham um papel cada vez mais destacado na dinâmica do vestibular. Ante a promessa de aprovação, candidatos de toda origem afluem aos "cursinhos" e, ano após ano, transbordam nas salas de aula. No caso da Ufes, como única instituição de ensino público superior no Estado, essa especialização fica ainda mais evidente, à medida que todos os cursinhos se dedicam a um alvo em comum, como afirma Elder Magno Gava Ferrão, coordenador de 3º ano e pré-vestibular do colégio Neo: "Nossa ênfase é toda no sentido de que o aluno passe na Ufes, tanto que buscamos seguir fielmente o seu programa e encerramos o conteúdo letivo duas semanas antes da prova, para podermos fazer toda a revisão".

Sem parar...

Como acontece todo ano, os cursinhos realizaram atividades até o último instante, a fim de fixar o aprendizado transmitido ao longo do ano, ou, simplesmente, fazer um relaxamento dos alunos ansiosos e inseguros. No sábado, véspera do vestibular, eles se dividiram entre as duas opções.

O Universidade para Todos, projeto que atua na própria Ufes, voltado para candidatos de baixa renda, foi um dos que optou pela revisão. No salão de convenções do clube Álvares Cabral, promoveu o popular "aulão", com os professores se revezando no palco, para uma audiência de centenas de alunos. Contudo, segundo José Vasconcelos Maria, fundador e coordenador do projeto, a finalidade maior era mesmo de relaxamento. "O aluno vem, pega a provinha, resolve as 60 questões com os professores e passa um dia inteiro junto com os colegas".

Já o professor de História Geral do colégio Up, João Leite, diverge do colega quanto às vantagens desse tipo de atividade. "Por experiência própria, posso dizer que não vale a pena. Acaba sendo desgastante para o aluno. Os garotos muitas vezes se excedem e, em alguns casos, chegam a beber na noite que antecede a prova", alega o professor. Ele acrescenta que o Up não deu aula na véspera da prova e, na última semana, limitou-se a fazer revisão e relaxamento com os alunos.

Outra opção também muito utilizada e que acaba sendo um meio-termo entre as primeiras é o plantão para tirar as últimas dúvidas, em que a equipe docente passa o dia na escola para atender pessoalmente os vestibulandos. Foi o caso do próprio Neo, que, no sábado, recebeu mais de duzentos alunos. "Estando na própria escola, os alunos se sentem bem e até esquecem do vestibular", diz Ferrão.

...Sem parar mesmo...

No domingo, até o toque para início do exame, professores, coordenadores e psicólogos contratados por cursinhos circulavam pelas imediações dos locais de prova ou "fincavam acampamento" em pontos estratégicos, no sentido de prestar a seus alunos aquele último amparo. Este podia ser da ordem mais diversa, segundo as necessidades finais de cada um: o esclarecimento daquela questão que quase fez perder o sono, uma última dica de assunto que iria cair (conforme um insight durante o café da manhã), ou mesmo um simples abraço para aliviar a apreensão.

Como já é tradição no vestibular da Ufes, uma área do campus - este ano, o estacionamento em frente à Petrobrás - foi destinada para que os cursinhos, e até faculdades privadas, montassem seus stands, misto de centrais de atendimento ao estudante e estratégia de autopromoção. Para um e outro caso, os recursos empregados variavam de um stand para o outro, o que tornou o local uma espécie de feira de cursinhos, em que não faltou sorvete, buffet de frutas, televisão e muita música.

Após a prova, os candidatos poderiam retornar aos stands, onde ainda havia atividades - uma escola chegou mesmo a programar um "pagodão" - e os professores, como já era de se esperar, aguardavam a saída dos mais apressados para corrigir a prova o mais rápido possível.

... A não ser para bater aquele papo

Apesar da expectativa e da concorrência, há um outro lado da concentração dos cursinhos que muitos ignoram, mas que os próprios professores consideram de primeira relevância: o fato de que ela permite uma interação que se faz impossível no decorrer do ano, com o intenso calendário letivo a ser cumprido. Para muitos, é a única oportunidade de fazer contato com os colegas de trabalho, muitas vezes antigos conhecidos que agora estão na concorrência. Assim, enquanto aguardavam o retorno dos alunos, representantes das escolas se misturavam e aproveitavam para trocar figurinhas e botar o papo em dia. "Já montamos nosso stand há sete anos aqui na Ufes. É ótimo, porque, além de dar apoio ao estudante, que é o principal objetivo, podemos aproveitar esse espaço democrático para encontrar os amigos da área", confirma Ferrão.

 
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