03/12/2004

Vitor Vogas

 

Voltar
Preparar e amparar

Superando uma série de empecilhos, cursinho voltado a deficientes visuais traz debate sobre inclusão do grupo na Ufes

Dizem que a Universidade amplia nossos horizontes, nosso campo de visão, nossos pontos de vista, nosso modo de enxergar o mundo. Com efeito, a partir do momento em que o estudante se vê dentro dela, se vê diante das mais diversas formas de pensar e produzir conhecimento, pode refletir sobre a sociedade e vislumbrar ações para transformá-la. Daí a importância de democratizar o acesso a instituições de ensino público como a Ufes para toda a sociedade, indistintamente, sobretudo para os grupos marginalizados. Se olharmos ao redor, no campus, veremos com nitidez que muitos deles não estão representados no corpo discente. A sua exclusão salta aos olhos.

Entre esses grupos, um dos maiores vitimados é o de deficientes visuais e, ampliando o foco, pessoas com deficiências físicas - ou, como hoje se prefere, portadoras de necessidades especiais. Isto devido à total ausência de políticas estruturais e pedagógicas no sentido de amparar essas pessoas e à indiferença coletiva que é visível na comunidade acadêmica. Os deficientes visuais são invisíveis no dia-após-dia da Ufes; renegam-lhes o direito de buscar, como todos, a oportunidade de se graduar, de avistar progressos pessoais, por falta de medidas que equilibrem seu desfavorecimento frente às demais pessoas; se esquece que, desde que haja o suporte necessário, são indivíduos em iguais condições de freqüentar uma universidade; prefere-se fazer vista grossa.

"Ver um mundo melhor"

Tendo isso em vista, é impossível não louvar iniciativas como a do projeto "Ver um mundo melhor". Criado no ano passado pelo grupo G7-GV, sob a presidência de Douglas Christian Ferrari, o projeto nada mais é que um cursinho dirigido a pessoas com deficiências visuais. O próprio Douglas é um dos professores. Com pós-graduação em História pela Ufes, ele ensina a disciplina aos alunos - este ano, foram 35, entre cegos e cegos parciais, além de 10 com visão normal. Destes, alguns já foram aprovados em vestibulares para escolas privadas. Os demais compareceram em peso no último dia 28 para o Vest-Ufes. Na escolha do curso, é visível uma preferência por aqueles em que vêem potencial para, ora formados, lutar pela causa dos portadores de deficiência, como Direito, Serviço Social e Fisioterapia.

Douglas - que, por sinal, é parcialmente cego - explica que o G7-GV é formado por oito acadêmicos, entre graduandos, graduados e pós-graduados, da Ufes e outras entidades. O projeto, que pode vir a se tornar oficialmente um projeto de extensão, tem parceria com o Universidade para Todos. Conta, ainda, com o patrocínio da CST e da faculdade Estácio de Sá, que vêem com bons olhos a iniciativa.

O processo de ensino do cursinho ocorre em três níveis: em aulas noturnas na Ufes, com material adaptado em braile; em aulas na Estácio de Sá, onde podem treinar o uso do programa Dos-Vox - software que sintetiza a voz do candidato com deficiência visual, adotado no Vest-Ufes já desde o ano passado; e nos "aulões" do Universidade para Todos, aos sábados, em que se juntam aos alunos sem necessidades especiais.

Mantendo uma visão de longo alcance, Douglas planeja ampliar o projeto em 2005, de modo que ele possa se estender para os deficientes físicos. Estes, porém, ao menos por enquanto, só poderão ser inscritos através de indicação, mas o grupo já faz contato com a Associação Capixaba de Portadores de Deficiência Física (ACPDF), para facilitar o processo.

A cegueira da visão

Tencionando abrir os olhos dos gestores e da comunidade acadêmica, o G7-GV, juntamente à ouvidoria da Ufes e órgãos como a CCV e a Biblioteca, realizará um encontro aberto a todos para discutir a inclusão de pessoas com necessidades especiais na Ufes. Será dia 6 de dezembro, às 14h, na sala 2 do IC-IV.

Douglas reconhece que os órgãos, de modo geral, estão se mostrando bem abertos à questão. Segundo ele, contudo, o problema maior tem vindo de onde a visão não alcança: a própria classe docente, já que alguns professores ainda resistem a mudanças pedagógicas. "Não há nenhuma sensibilidade e muitos professores são bastante conservadores na metodologia. Dá muito trabalho se adaptar", ironiza.

Bem se vê que é possível começar a pensar em mudanças, visando a uma ampliação do acesso ao ensino público que também contemple os deficientes. Se o pior cego é o que não quer ver, há aqueles que, mesmo cegos, desejam enxergar muito além, tão longe como qualquer um que se veja em uma universidade.

 
Hosted by www.Geocities.ws

1 1 1 1