04/07/2003


Geraldo
Ramos

 

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Comunidade universitária questiona acordo entre Petrobras e Ufes

Professores, estudantes e técnicos lotaram o Cine Metrópolis para tentar esclarecer muitas dúvidas sobre o contrato que seria assinado no dia 7

O Cine Metrópolis apresentou uma sessão diferente na quarta-feira, dia 2 de julho. A comunidade acadêmica lotou o cinema para participar da audiência pública convocada para discutir o convênio entre a Petrobras e a Ufes. O acordo vem sendo alvo de especulações nas últimas semanas, após o anúncio do interesse da estatal em ampliar em 25 mil m2 a área da sede administrativa da empresa que fica dentro do campus universitário de Goiabeiras, hoje ocupando 5 mil metros quadrados. A informação da construção de um prédio de 30 mil metros quadrados causou frisson, além de preocupação de diversos setores da universidade.

Na mesa estavam o gerente geral da Petrobras no Espírito Santo, Márcio Bezerra, o reitor José Weber Macedo, a presidente da Adufes, Marlene Pires, e coordenadora do Sintufes, Janine Teixeira.

Márcio Bezerra apresentou, em linhas gerais, a proposição da empresa, confirmando a intenção da construção do prédio, e anunciou possibilidades em contrapartidas que a estatal poderia viabilizar a partir do convênio com a Ufes. "Dinheiro não é problema para a empresa", afirmou Márcio Bezerra. A empresa teve um faturamento superior a R$ 5 bilhões no primeiro trimestre de 2003. O investimento global no projeto com a Ufes desde que a parceria começou, há dois anos, foi em torno de R$ 7,7 milhões. Possibilidades como a curiosa idéia de construção de um outro campus universitário foi acenada pelo gerente. Bezerra comentou o sucesso da parceria entre a Petrobras e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no desenvolvimento da pesquisa em petróleo e gás, como exemplo do que pode ser a parceria com a Ufes. Este exemplo foi contestado por um dos professores do Centro de Ciências Exatas, formado na federal carioca.

A empresa demonstrou pressa na aprovação da proposta. Alheia ao trabalho da Comissão Técnica, que estuda as questões que envolvem a construção de uma edificação desse porte dentro do campus e que vai interferir na vida acadêmica nos próximos 40 anos, há o interesse que o acordo entre as partes seja assinado até o dia 7 de julho. O presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra, visita o Espírito Santo nessa data. A assinatura, porém, será adiada após o resultado da audiência público, em virtude dos inúmeros questionamentos feitos por alunos e professores.

Apoio

Defendendo abertamente o convênio com a Petrobrás, o reitor José Weber Macedo falou durante alguns minutos sobre o que representa para a universidade, na sua perspectiva, o acordo com a empresa. "A universidade não pode ficar de fora desse momento importante para o Espírito Santo", disse o reitor, que considera o isolamento da Ufes um caminho certo caso não assine o contrato. José Weber comentou uma série de benefícios que a Ufes tem tido com a parceria que já existe entre a universidade e a empresa mas fez um mea culpa com relação aos investimentos que a administração da universidade tem realizado com recursos da estatal. "Estamos aprendendo a investir. Soubemos comprar livros de uma área, não soubemos em outras. Investimos de uma forma em um laboratório, quando poderia ter sido de outra", justifica Weber.

Contraponto

Após as falas do gerente da estatal e do reitor, o espaço foi aberto aos presentes. A partir das falas, a audiência mudou de configuração. O mar de rosas apresentado pela empresa e defendido pela reitoria transformou-se completamente.

A deputada estadual e aluna do Direito Brice Bragatto (PT) foi a primeira a falar. Questionou a pressa em se firmar um convênio dessa magnitude. Além disso, enumerou alguns dos possíveis problemas estruturais pelos quais passaria a universidade a partir da instalação da empresa na Ufes. "Com a vinda desses 1.500 funcionários para dentro do campus, são mais 1.500 pessoas, no mínimo, circulando pelo campus. São mais 1.000 vagas de estacionamento a mais", disse a deputada. Brice ainda acrescentou que esse debate não deveria estar limitado apenas às partes que estão tratando do assunto por dizer respeito a todo o Estado, o que considerou "grave". Alertou sobre o processo de eleição para reitor que está às vésperas de ser iniciado e acrescentou, por fim, que vai levar o assunto para ser discutido na Assembléia Legislativa.

Movimento Estudantil

O movimento estudantil da universidade aproveitou o momento no qual se discutia a construção de um prédio no campus para questionar a moradia estudantil. "Por que antes de se pensar em construir um prédio como esse a Ufes não se preocupa em construir moradia estudantil que atenderia a vários estudantes carentes que vêm do interior?", questionou o estudante do curso de Comunicação Social Flávio Gonçalves, depois de repudiar a postura do Conselho Universitário que aprovou a prorrogação do mandato da atual gestão do Diretório Central dos Estudantes (DCE), sem referendo dos estudantes da universidade. Estudantes e alguns professores que estavam na platéia aprovaram a intervenção do estudante, manifestando-se com palmas.

Um representante discente no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), aluno da Administração e aliado da atual gestão do DCE, manifestou-se favorável ao acordo e tachou de radicais os estudantes que estavam criticando a proposta. Houve até um bate-boca entre alguns alunos presentes e o representante, que foi chamado de mentiroso e disse ser de todos os estudantes a responsabilidade da fraqueza do movimento estudantil que se pratica na Ufes. Foi vaiado durante a fala.

Outros estudantes se manifestaram e foi feito um pedido por um deles: que não se assinasse qualquer documento até o dia 7, como pretendido pela empresa, tendo em vista a polêmica complexidade já flagrante em torno do assunto.

Surpresa

Um professor, representante do Centro Tecnológico, disse que o CT não está satisfeito com a parceria que a Ufes tem com a Petrobras. O professor apresentou alguns dos motivos, entre eles o fato de a empresa não ter cumprido o combinado com relação à compra de livros.

Outra informação que contrapôs as exposições do gerente da empresa e do reitor foi o esclarecimento da parceria entre a Petrobras e a UFRJ, apresentado por um professor que estudou naquela universidade. Para ele, as diferenças nas relações entre a empresa e a universidade no Rio de Janeiro é que definiram o sucesso naquela área. Lá a parceria é específica no setor de pesquisa, quando aqui apenas será instalada a sede administrativa da empresa. O professor, que foi delegado do Espírito Santo na plenária dos Servidores Públicos Federais em Brasília, acrescentou que a parceria com a empresa gerou um corte entre a "riqueza" e a "miséria". Segundo ele, há cursos que dispõem de incentivos diversos e equipamentos de alta tecnologia para o desenvolvimento das atividades. Já outros dependem de tudo, e funcionam na penúria.

Professores de vários departamentos, estudantes, servidores técnicos, funcionários da Petrobras e outros interessados participaram da audiência, o que demonstrou a preocupação com o assunto. O presidente da Assembléia Legislativa e estudante do curso de Comunicação Social, deputado Cláudio Vereza (PT), também se manifestou. Para ele, este debate tem de acontecer com toda a sociedade capixaba. "Coloco a Assembléia Legislativa à disposição para discutir esse assunto", disse.

Insatisfação

Não menos complexa, foi colocada por alguns a questão de a Universidade estar em ano de eleição de reitor e que a pressa na aprovação desse convênio gera especulações. "Por quê a pressa, senhor reitor?", perguntou um professor.

As falas de professores, alunos e técnicos mantiveram a linha da prudência na análise do acordo, além de, em grande maioria, criticarem a condução do processo pela reitoria. Os professores manifestaram a insatisfação ao serem alijados do processo.

A audiência pública foi uma iniciativa da Adufes e do Sintufes, que informaram ser a primeira de outras audiências sobre o assunto.

 
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