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19/11/2004

Luciana Silvestre

 

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DEPOIS DOS NAVIOS NEGREIROS, OUTRAS CORRENTEZAS

Debate sobre História da África marca Semana da Consciência Negra na UFES

Tribos primitivas, dispersas num imenso território desértico e de um grande exotismo; fonte de escravos: esse é o imaginário social predominante quando se trata do continente africano. A fim de recontar um pouco a história da África e discutir seu ensino nas escolas, é que o Instituto ELIMU ("sabedoria, conhecimento" no dialeto banto africano), ONG capixaba do movimento negro, preparou o ciclo de debates "Conversando sobre questões étnico-raciais", como atividade da Semana da Consciência Negra na UFES. A palestra ocorreu dia 18 de novembro, no auditório do Centro Pedagógico, e contou com a presença de professores, estudantes e militantes do movimento negro no estado.

Pela exposição do palestrante do evento, o professor Henrique Cunha, da Universidade Federal do Ceará (UFCE), a história da África é praticamente oculta dos estudos da História Universal; e, quando estudada no Brasil, restringe-se à questão da escravidão, vista de uma maneira européia, do ponto de vista dos dominadores: "A idéia de pensar o escravo é deturpada. Acabam despossuindo os negros de formas culturais".

E é justamente esse imaginário europeu sobre os negros que está contido nos livros didáticos da maioria das escolas do país. Entretanto, foi aprovado um projeto de lei no Conselho Nacional de Educação, recentemente, que torna obrigatório o ensino de "História e Cultura Afro-Brasileira" nas escolas. Foi sobre esse tema que o professor Henrique Cunha tratou no segundo momento da palestra: "A lei foi aprovada, mas a próxima etapa é mais difícil: fazer a lei na prática". Segundo o professor, é necessário incluir disciplinas nos cursos de graduação e pós-graduação, incentivar pesquisas brasileiras, qualificar professores, preparar material didático sobre o tema. Afinal, "é importante saber a história africana para saber mais sobre a história do Brasil", acrescenta Cunha.

Para uma das organizadoras do evento, Nelma Gomes Monteiro, é feito pouco debate sobre a etnia negra na universidade e isso é reflexo de como a história do negro tem sido negada no decorrer do tempo. Então, a inserção desse tipo de debate em espaços da sociedade é muito lenta.

Embora a universidade realize poucas discussões sobre o tema, ela é vista como um espaço essencial para a ocorrência desse debate, sobretudo com a possibilidade de implantação da política de cotas com a reforma universitária do governo: "É importante trazer a discussão do negro para ajudar no debate sobre cotas; quanto mais conhecimento para os alunos, mais chance de serem favoráveis às cotas", comenta Benedita do Nascimento, do Instituto ELIMU.

A abordagem sobre cotas também estava prevista para acontecer nesse ciclo de debates com a palestra "O negro (a) e a Reforma Universitária", mas foi cancelado porque o palestrante não pode comparecer. É importante destacar que a UFES não implementou nenhuma política de cotas, embora tenha chegado a criar uma comissão para analisar o perfil dos estudantes da universidade. Entretanto, essa comissão concluiu que não havia dados suficientes para saber a etnia dos estudantes da universidade, uma vez que a Pró-reitoria de Graduação -PROGRAD- não tinha esse controle.

O evento ainda contou com o lançamento do livro do professor Henrique Cunha- "Tear Africano, contos afrodescendentes" - e a Semana da Consciência Negra teve prosseguimento com outras atividades na Assembléia Legislativa do estado.

Fica a reflexão do professor Cunha, "de pensar a História do Brasil de outro jeito, de perceber o conjunto diversificado de modos de entender a própria história brasileira". De pensar, portanto, a História do Brasil sob o ponto de vista do negro também.

 
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