DEPOIS DOS NAVIOS NEGREIROS, OUTRAS CORRENTEZAS
Debate sobre História da África marca
Semana da Consciência Negra na UFES
Tribos primitivas, dispersas num imenso
território desértico e de um grande exotismo; fonte de
escravos: esse é o imaginário social predominante quando
se trata do continente africano. A fim de recontar um pouco a história
da África e discutir seu ensino nas escolas, é que o Instituto
ELIMU ("sabedoria, conhecimento" no dialeto banto africano),
ONG capixaba do movimento negro, preparou o ciclo de debates "Conversando
sobre questões étnico-raciais", como atividade da
Semana da Consciência Negra na UFES. A palestra ocorreu dia 18
de novembro, no auditório do Centro Pedagógico, e contou
com a presença de professores, estudantes e militantes do movimento
negro no estado.
Pela exposição do palestrante do evento, o professor Henrique
Cunha, da Universidade Federal do Ceará (UFCE), a história
da África é praticamente oculta dos estudos da História
Universal; e, quando estudada no Brasil, restringe-se à questão
da escravidão, vista de uma maneira européia, do ponto
de vista dos dominadores: "A idéia de pensar o escravo é
deturpada. Acabam despossuindo os negros de formas culturais".
E é justamente esse imaginário europeu sobre os negros
que está contido nos livros didáticos da maioria das escolas
do país. Entretanto, foi aprovado um projeto de lei no Conselho
Nacional de Educação, recentemente, que torna obrigatório
o ensino de "História e Cultura Afro-Brasileira" nas
escolas. Foi sobre esse tema que o professor Henrique Cunha tratou no
segundo momento da palestra: "A lei foi aprovada, mas a próxima
etapa é mais difícil: fazer a lei na prática".
Segundo o professor, é necessário incluir disciplinas
nos cursos de graduação e pós-graduação,
incentivar pesquisas brasileiras, qualificar professores, preparar material
didático sobre o tema. Afinal, "é importante saber
a história africana para saber mais sobre a história do
Brasil", acrescenta Cunha.
Para uma das organizadoras do evento, Nelma Gomes Monteiro, é
feito pouco debate sobre a etnia negra na universidade e isso é
reflexo de como a história do negro tem sido negada no decorrer
do tempo. Então, a inserção desse tipo de debate
em espaços da sociedade é muito lenta.
Embora a universidade realize poucas discussões sobre o tema,
ela é vista como um espaço essencial para a ocorrência
desse debate, sobretudo com a possibilidade de implantação
da política de cotas com a reforma universitária do governo:
"É importante trazer a discussão do negro para ajudar
no debate sobre cotas; quanto mais conhecimento para os alunos, mais
chance de serem favoráveis às cotas", comenta Benedita
do Nascimento, do Instituto ELIMU.
A abordagem sobre cotas também estava prevista para acontecer
nesse ciclo de debates com a palestra "O negro (a) e a Reforma
Universitária", mas foi cancelado porque o palestrante não
pode comparecer. É importante destacar que a UFES não
implementou nenhuma política de cotas, embora tenha chegado a
criar uma comissão para analisar o perfil dos estudantes da universidade.
Entretanto, essa comissão concluiu que não havia dados
suficientes para saber a etnia dos estudantes da universidade, uma vez
que a Pró-reitoria de Graduação -PROGRAD- não
tinha esse controle.
O evento ainda contou com o lançamento do livro do professor
Henrique Cunha- "Tear Africano, contos afrodescendentes" -
e a Semana da Consciência Negra teve prosseguimento com outras
atividades na Assembléia Legislativa do estado.
Fica a reflexão do professor Cunha, "de pensar a História
do Brasil de outro jeito, de perceber o conjunto diversificado de modos
de entender a própria história brasileira". De pensar,
portanto, a História do Brasil sob o ponto de vista do negro
também.