Oficinas para fazer acontecer
Inspirar, transpirar, aspirar - Pequenos passos para
os que começam; grandes saltos de qualidade
Longe dos holofotes e das lentes dos fotógrafos,
mas ganhando cada vez mais espaço no Vitória Cine Vídeo,
as oficinas promovidas pela organização são um
dos pontos fortes do evento. Mesmo que passem despercebidas para um
público maior, elas cumprem um papel fundamental dentro da programação,
que vai justamente em sintonia com a proposta maior do festival: ajudar
os novos realizadores a evoluir na arte de fazer cinema e vídeo.
Tomando parte nas oficinas, aqueles que arriscam os primeiros passos
no campo da produção áudio-visual (ou que ao menos
assim pretendem), têm a chance de aprender sobre temas específicos,
em cursos intensivos que percorrem a semana; mais ainda, podem sugar
o conhecimento de profissionais de renome nacional - em alguns casos,
até internacional -, os quais, em geral, dificilmente viriam
ao Estado, a não ser por ocasião do festival. Este ano,
como de praxe, o time de "oficineiros" esteve em alto nível.
"Oficinas como essas são cada vez mais comuns em festivais
pelo Brasil inteiro", diz Luis Carlos Lacerda, o "Bigode",
responsável pela oficina de Making of. "É a forma
que os grandes cineastas têm de trazer para fora do eixo Rio-São
Paulo o que sabem, de ensinar para os jovens na prática o que
também aprenderam praticando; é uma forma de devolvermos
ao público a nossa experiência, sobretudo em lugares onde
faltam escolas de cinema", completa o cineasta, que já lecionou
na Escola Internacional de Cinema de Cuba .
Já o diretor de fotografia Rodrigo Menck, com bem menos tempo
de estrada mas uma vasta experiência a transmitir, esteve pela
primeira vez ministrando uma oficina - a de Fotografia em Vídeo.
Diz que sempre aprendeu muito na prática, experimentando, e foi
o que quis passar para o grupo. "Espero que as pessoas não
esperem aprender padrões. Quero despertar o olhar para as luzes
do dia-a-dia. Para fotografar melhor, é preciso despertar um
observador. Sempre aprendi de modo muito intuitivo; é preciso
ter disposição para perceber o mundo e trabalhar com as
coisas disponíveis, com recursos naturais".
Variedade
Como já se tornou tradição,
as oficinas aconteceram paralelamente à mostra de filmes que
se realiza no Teatro Glória, Centro de Vitória. Este ano,
a programação contou com cinco oficinas, distribuídas
entre o Hotel Ilha do Boi (Animação em 2D) e o Campus
de Goiabeiras da Ufes (Produção para Cinema e TV; Roteiro;
Fotografia em Vídeo; e Making of). Cada uma delas recebeu de
15 a 20 participantes, que pagaram R$30 pela inscrição.
A maior concentração das oficinas na Ufes foi novidade,
já que essas, nas edições anteriores, ficavam espalhadas
pela cidade. Segundo Marcos Valério, cineclubista local e produtor
estrutural do evento, a escolha da Ufes como núcleo foi no sentido
justamente de aproximá-las de seu público-alvo, ou seja,
os estudantes.
De fato, entre os que preencheram as vagas ofertadas, pôde-se
notar uma presença dominante de alunos da própria Ufes
e, com menos peso, da Faesa - na sua grande maioria, alunos de Comunicação
Social, o que não chega a ser nenhuma surpresa, dada a proximidade
desse curso com o campo do áudio-visual. Os estudantes demonstraram
interesse em aprender novos conceitos para produzir no futuro.
Este foi o caso de Nair Rubia, estudante do 8º período de
Jornalismo da Ufes. Segundo ela, a oficina de Fotografia em Vídeo
foi uma boa oportunidade para suprir algumas necessidades do curso de
Comunicação. "O tema é bem específico
e estudamos pouco sobre iluminação no curso", constata.
Outro exemplo é Hugo Reis, que participou da oficina de Making
of. No ano passado, Hugo já havia participado da oficina de Produção
em Vídeo, da qual afirmou ter gostado muito, e este ano não
hesitou em se inscrever. "Já trabalho diretamente com isso
e espero que a oficina possa me ajudar nas futuras produções
em vídeo", declarou o estudante, que já foi monitor
do laboratório de vídeo do curso de Comunicação
e hoje atua como editor em uma produtora da Grande Vitória.
As exceções entre os participantes ficaram por conta de
pessoas que desenvolvem, fora do ambiente acadêmico, alguma atividade
que remeta às matérias abordadas. Jean Antoniolli, representante
do Grupo 7 Vídeos, se interessou pela oficina porque procura
embasamento para produzir os vídeos do grupo. Ele conta que eles
têm dois projetos e pretendem, ainda este ano, colocar um deles
em prática.
Já Flávio Barroca e Garcia, formado em Direito pela Ufes
e mestrando em História, escolheu a oficina de Roteiro como um
primeiro impulso a sua nova aspiração profissional. Flávio
escreve crônicas e poemas - tendo, inclusive, um livro publicado
pela Associação Capixaba de Escritores. Agora, quer começar
a escrever para a tela grande, o que, como logo percebeu, é uma
arte completamente diversa. "Para quem vem da Literatura é
complicado. Num só dia de oficina já deu para amadurecer
bastante, mas ontem 'apanhei'", confessa o escritor, referindo-se
ao ponto em que o roteirista Paulo Halm analisou, junto com a turma,
o roteiro com o qual se inscreveu.
A exigência do roteiro, por sinal, foi uma singularidade da oficina,
a única que cobrou pré-requisito. Este, como explica Paulo
Halm, roteirista de sucesso - "Canudos", "Dois perdidos
numa noite suja" - e figurinha carimbada do festival, deveu-se
à própria dinâmica da oficina, que consistia em
trabalhar os roteiros inscritos e lidos por ele. "Dado o pouco
tempo da oficina, foi preciso algo mais objetivo. Em vez de me restringir
a uma discussão teórica, preferi aplicar a teoria nos
exemplos já existentes".
Saiba mais sobre os oficineiros
Produção para Cinema
e TV - Ruth Albuquerque é produtora de cinema e vídeo
formada em Filosofia e em Direito com especialização em
direitos autorais. Começou a carreira na extinta TV Tupy, tendo
saído desta para fazer cinema. Participou da produção
de "Beth Balança", "Paraíba", "Quilombo",
"A Lei da Paixão", entre outros. Trabalhou também
na Embrafilme, no Conselho Nacional de Cinema, na Rede Globo e no Centro
Técnico Áudio-Visual (CTAV). Esta foi a segunda vez que
Ruth ministrou a oficina de Produção no festival.
Roteiro - Formado em Cinema
pela UFF, o carioca Paulo Halm é uma "figura carimbada"
no Vitória Cine Vídeo. Esta foi a sexta vez em que esteve
presente, a segunda como oficineiro - a primeira deu origem à
animação "Portinholas". Nas outras vezes, veio
como jurado ou concorrente. O carioca assina o roteiro de grandes produções
recentes no cinema brasileiro, como "Canudos", "Pequeno
Dicionário Amoroso", "Amores Possíveis"
e "Dois perdidos numa noite suja" - que aponta como o seu
favorito.
Animação em 2D
- Outra presença garantida, Otto Guerra vem ao festival desde
sua terceira edição. Já deu oficinas algumas vezes
e concorreu outras tantas na mostra competitiva, sempre na categoria
"animação". Otto, por sinal, é um dos
grandes expoentes nacionais nesse ramo do áudio-visual. Ao longo
da carreira, já produziu 12 filmes, todos bastante premiados.
Alguns títulos são "Novelas", "Arraial"
e "Cavaleiro Jorge".
Making of - Luis Carlos
Lacerda - ou "Bigode", como é conhecido no meio - tem
uma trajetória que se funde à do cinema brasileiro, nos
seus últimos 40 anos. Discípulo com muito orgulho de Nelson
Pereira dos Santos - foi quem entregou o troféu Marlim Azul na
homenagem ao mestre -, iniciou a sua carreira muito cedo, com apenas
19 anos, quando no auge do Cinema Novo. Desde então, passou a
se dedicar à direção de seus filmes, os quais ele
mesmo define como "intimistas". Entre 92 e 93, lecionou na
respeitada Escola Internacional de Cinema de Cuba. Também faz
parte da história do festival, tendo composto o júri do
1° concurso de roteiro.
Fotografia em Vídeo
- Formado em Rádio e TV pela Fundação Armando Alves
Penteado (FAAP), Rodrigo Menck já está há 14 anos
trabalhando na área. Começou em 90 na MTV participando
da equipe de "Na estrada" e "Mochilão", alguns
programas da emissora, e hoje assina a direção fotográfica
do GNT Fashion, além de realizar documentários independentes.
Fugindo à regra entre os oficineiros, viveu no festival o seu
"batismo de fogo", já que essa foi a primeira vez que
pôde coordenar uma oficina.