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05/11/2004

Juliana Bourguignon e Vitor Vogas

 

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Oficinas para fazer acontecer

Inspirar, transpirar, aspirar - Pequenos passos para os que começam; grandes saltos de qualidade

Longe dos holofotes e das lentes dos fotógrafos, mas ganhando cada vez mais espaço no Vitória Cine Vídeo, as oficinas promovidas pela organização são um dos pontos fortes do evento. Mesmo que passem despercebidas para um público maior, elas cumprem um papel fundamental dentro da programação, que vai justamente em sintonia com a proposta maior do festival: ajudar os novos realizadores a evoluir na arte de fazer cinema e vídeo.

Tomando parte nas oficinas, aqueles que arriscam os primeiros passos no campo da produção áudio-visual (ou que ao menos assim pretendem), têm a chance de aprender sobre temas específicos, em cursos intensivos que percorrem a semana; mais ainda, podem sugar o conhecimento de profissionais de renome nacional - em alguns casos, até internacional -, os quais, em geral, dificilmente viriam ao Estado, a não ser por ocasião do festival. Este ano, como de praxe, o time de "oficineiros" esteve em alto nível.

"Oficinas como essas são cada vez mais comuns em festivais pelo Brasil inteiro", diz Luis Carlos Lacerda, o "Bigode", responsável pela oficina de Making of. "É a forma que os grandes cineastas têm de trazer para fora do eixo Rio-São Paulo o que sabem, de ensinar para os jovens na prática o que também aprenderam praticando; é uma forma de devolvermos ao público a nossa experiência, sobretudo em lugares onde faltam escolas de cinema", completa o cineasta, que já lecionou na Escola Internacional de Cinema de Cuba .

Já o diretor de fotografia Rodrigo Menck, com bem menos tempo de estrada mas uma vasta experiência a transmitir, esteve pela primeira vez ministrando uma oficina - a de Fotografia em Vídeo. Diz que sempre aprendeu muito na prática, experimentando, e foi o que quis passar para o grupo. "Espero que as pessoas não esperem aprender padrões. Quero despertar o olhar para as luzes do dia-a-dia. Para fotografar melhor, é preciso despertar um observador. Sempre aprendi de modo muito intuitivo; é preciso ter disposição para perceber o mundo e trabalhar com as coisas disponíveis, com recursos naturais".

Variedade

Como já se tornou tradição, as oficinas aconteceram paralelamente à mostra de filmes que se realiza no Teatro Glória, Centro de Vitória. Este ano, a programação contou com cinco oficinas, distribuídas entre o Hotel Ilha do Boi (Animação em 2D) e o Campus de Goiabeiras da Ufes (Produção para Cinema e TV; Roteiro; Fotografia em Vídeo; e Making of). Cada uma delas recebeu de 15 a 20 participantes, que pagaram R$30 pela inscrição.

A maior concentração das oficinas na Ufes foi novidade, já que essas, nas edições anteriores, ficavam espalhadas pela cidade. Segundo Marcos Valério, cineclubista local e produtor estrutural do evento, a escolha da Ufes como núcleo foi no sentido justamente de aproximá-las de seu público-alvo, ou seja, os estudantes.

De fato, entre os que preencheram as vagas ofertadas, pôde-se notar uma presença dominante de alunos da própria Ufes e, com menos peso, da Faesa - na sua grande maioria, alunos de Comunicação Social, o que não chega a ser nenhuma surpresa, dada a proximidade desse curso com o campo do áudio-visual. Os estudantes demonstraram interesse em aprender novos conceitos para produzir no futuro.

Este foi o caso de Nair Rubia, estudante do 8º período de Jornalismo da Ufes. Segundo ela, a oficina de Fotografia em Vídeo foi uma boa oportunidade para suprir algumas necessidades do curso de Comunicação. "O tema é bem específico e estudamos pouco sobre iluminação no curso", constata.

Outro exemplo é Hugo Reis, que participou da oficina de Making of. No ano passado, Hugo já havia participado da oficina de Produção em Vídeo, da qual afirmou ter gostado muito, e este ano não hesitou em se inscrever. "Já trabalho diretamente com isso e espero que a oficina possa me ajudar nas futuras produções em vídeo", declarou o estudante, que já foi monitor do laboratório de vídeo do curso de Comunicação e hoje atua como editor em uma produtora da Grande Vitória.

As exceções entre os participantes ficaram por conta de pessoas que desenvolvem, fora do ambiente acadêmico, alguma atividade que remeta às matérias abordadas. Jean Antoniolli, representante do Grupo 7 Vídeos, se interessou pela oficina porque procura embasamento para produzir os vídeos do grupo. Ele conta que eles têm dois projetos e pretendem, ainda este ano, colocar um deles em prática.

Já Flávio Barroca e Garcia, formado em Direito pela Ufes e mestrando em História, escolheu a oficina de Roteiro como um primeiro impulso a sua nova aspiração profissional. Flávio escreve crônicas e poemas - tendo, inclusive, um livro publicado pela Associação Capixaba de Escritores. Agora, quer começar a escrever para a tela grande, o que, como logo percebeu, é uma arte completamente diversa. "Para quem vem da Literatura é complicado. Num só dia de oficina já deu para amadurecer bastante, mas ontem 'apanhei'", confessa o escritor, referindo-se ao ponto em que o roteirista Paulo Halm analisou, junto com a turma, o roteiro com o qual se inscreveu.

A exigência do roteiro, por sinal, foi uma singularidade da oficina, a única que cobrou pré-requisito. Este, como explica Paulo Halm, roteirista de sucesso - "Canudos", "Dois perdidos numa noite suja" - e figurinha carimbada do festival, deveu-se à própria dinâmica da oficina, que consistia em trabalhar os roteiros inscritos e lidos por ele. "Dado o pouco tempo da oficina, foi preciso algo mais objetivo. Em vez de me restringir a uma discussão teórica, preferi aplicar a teoria nos exemplos já existentes".

Saiba mais sobre os oficineiros

Produção para Cinema e TV - Ruth Albuquerque é produtora de cinema e vídeo formada em Filosofia e em Direito com especialização em direitos autorais. Começou a carreira na extinta TV Tupy, tendo saído desta para fazer cinema. Participou da produção de "Beth Balança", "Paraíba", "Quilombo", "A Lei da Paixão", entre outros. Trabalhou também na Embrafilme, no Conselho Nacional de Cinema, na Rede Globo e no Centro Técnico Áudio-Visual (CTAV). Esta foi a segunda vez que Ruth ministrou a oficina de Produção no festival.

Roteiro - Formado em Cinema pela UFF, o carioca Paulo Halm é uma "figura carimbada" no Vitória Cine Vídeo. Esta foi a sexta vez em que esteve presente, a segunda como oficineiro - a primeira deu origem à animação "Portinholas". Nas outras vezes, veio como jurado ou concorrente. O carioca assina o roteiro de grandes produções recentes no cinema brasileiro, como "Canudos", "Pequeno Dicionário Amoroso", "Amores Possíveis" e "Dois perdidos numa noite suja" - que aponta como o seu favorito.

Animação em 2D - Outra presença garantida, Otto Guerra vem ao festival desde sua terceira edição. Já deu oficinas algumas vezes e concorreu outras tantas na mostra competitiva, sempre na categoria "animação". Otto, por sinal, é um dos grandes expoentes nacionais nesse ramo do áudio-visual. Ao longo da carreira, já produziu 12 filmes, todos bastante premiados. Alguns títulos são "Novelas", "Arraial" e "Cavaleiro Jorge".

Making of - Luis Carlos Lacerda - ou "Bigode", como é conhecido no meio - tem uma trajetória que se funde à do cinema brasileiro, nos seus últimos 40 anos. Discípulo com muito orgulho de Nelson Pereira dos Santos - foi quem entregou o troféu Marlim Azul na homenagem ao mestre -, iniciou a sua carreira muito cedo, com apenas 19 anos, quando no auge do Cinema Novo. Desde então, passou a se dedicar à direção de seus filmes, os quais ele mesmo define como "intimistas". Entre 92 e 93, lecionou na respeitada Escola Internacional de Cinema de Cuba. Também faz parte da história do festival, tendo composto o júri do 1° concurso de roteiro.

Fotografia em Vídeo - Formado em Rádio e TV pela Fundação Armando Alves Penteado (FAAP), Rodrigo Menck já está há 14 anos trabalhando na área. Começou em 90 na MTV participando da equipe de "Na estrada" e "Mochilão", alguns programas da emissora, e hoje assina a direção fotográfica do GNT Fashion, além de realizar documentários independentes. Fugindo à regra entre os oficineiros, viveu no festival o seu "batismo de fogo", já que essa foi a primeira vez que pôde coordenar uma oficina.


 
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