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Artigo
Vitor Vogas
Coluna dedicada a contribuições
dos leitores.
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Relatos de um aluno empolgado aprendendo a ser repórter Creio que devo iniciar
este artigo me justificando diante do leitor quanto à paródia
que empreguei ao intitulá-lo - e aproveito para, desde já,
pedir desculpas a Julio Verne. Ao contrário do seu Phileas Fogg,
jamais tive capital ou tempo para dar a volta ao mundo - entendido enquanto
planeta. Todavia, venho aqui falar exatamente da experiência que
pude viver recentemente, dando a volta, durante exatos sessenta dias,
num mundo em escala bem menor; na verdade, um legítimo universo
- como sugere o termo "universidade" e o próprio nome
deste site. A pretexto de aprender a ser repórter, percorri uma
boa extensão deste Universo Ufes, e, além de poder conhecê-lo
melhor, pude realmente aprender bastante. Minha experiência prática
nesses dois meses (de outubro a dezembro) foi a melhor possível,
e é justamente sobre ela que gostaria de dedicar este artigo. É impressionante, por exemplo, como algumas pessoas receiam a imprensa e se cercam de todos os lados para não recebê-la. Ou, quando a recebem, ficam exageradamente cautelosas, com os dois pés atrás - e mais um se o tivessem. Às vezes, dificultam ao máximo uma informação inofensiva, com medo do tratamento que o repórter lhe dará. Nas minhas andanças, pesou, em alguns casos, uma reputaçãozinha que o Universo Ufes já criou dentro da universidade. Algumas pessoas, insatisfeitas com o que fora publicado no site em uma ocasião passada, ou por outro veículo daqueles "seus colegas da Comunicação", relutavam o possível para dar depoimentos. Outra lição interessante é relativa ao tratamento dispensado à imprensa. Este era sempre oscilante, conforme o status quo da fonte em questão na micro-sociedade acadêmica. Chefes, diretores e pró-reitores não são necessariamente grosseiros, mas estão o tempo todo com pressa (pelo menos alegando estar) e raramente te atendem com atenção. É claro que há aqueles que só faltam mexer seu cafezinho, mas, no tempo em que estive em atividade, passei por várias situações embaraçosas, como um entrevistado que me abandonou para almoçar no meio da entrevista - durante a qual ficou o tempo todo perguntando "Você está mesmo escrevendo o que falei?". Houve também um senhor que, por telefone, reclamou da demora da entrevista (não mais que cinco minutos), quando, após uma semana de tentativas frustradas, finalmente consegui lhe falar. Em contra-partida, servidores e pessoas mais humildes em geral dificilmente te destratam. É comum, sim, que elas se retraiam e não queiram conversar ao reconhecer o caderninho; porém, quando isso acontece, é antes por embaraço que por qualquer outro motivo. Jamais vou esquecer, por exemplo, a conversa que tive com uma das "tias" do R.U, na matéria que fazia sobre elas ("Quem são os tios e tias do R.U.?"), certamente o momento mais marcante ao longo dos sessenta dias. Era a Dona Maria do Carmo - acho que agora não tem problema, na ocasião ela não quis que eu publicasse o seu nome e contentei-me em usar suas iniciais na retranca "Muito Carinho". Enquanto roía um maço de salsinha (ou coentro, ou cebolinha), ela abriu o coração comigo e deu um depoimento emocionado sobre sua história de vida ligada ao R.U., o sofrimento que o trabalho lhes inflige e o amor com que elas levam tudo aquilo. Outra que resolveu apresentar-se para mim e mostrou o quanto pode fazer diferença foi uma velha dama, famosa e por todos perseguida: a Srta. Sorte. Durante a apuração de uma matéria sobre as condições precárias dos banheiros espalhados pela Ufes ("Afinal, de quem é o papel?") - que também gostei bastante de fazer - eu e a Kenia, minha parceira da vez, já havíamos entrevistado pessoas de vários setores da Ufes para tentar compreender a burocracia em que se funda a limpeza e manutenção dos banheiros, e tudo nos conduzia a apenas uma conclusão: o negócio é um caos. Evidentemente, ninguém tinha dito isso. Ninguém, até que resolvi ligar para um outro setor. A responsável não estava, mas puxei conversa com a funcionária que me atendeu. Não é que a moça liberou exatamente essa frase, assim mesmo, em letras garrafais? Ela autorizou publicar, foi dito e feito. Dificilmente a tal responsável teria dito a mesma coisa, temendo alguma represália ou qualquer coisa desse tipo. Ora, eu mesmo não poderia ter escrito a frase na matéria, por minha própria conta? É claro que sim, mas não com o mesmo peso de uma fonte citada entre aspas e sob o risco de ter que usar todo meu latim para salvá-la da edição. E o tão comentado "faro jornalístico"? Este ainda precisa evoluir bastante, mas algo que já deu para confirmar é que, não poucas vezes, a notícia brota de onde você menos espera. Basta que você esteja atento e use a liberdade de ir além da sua pauta ("Não sejam filhos da pauta!"). Freqüentemente, é a notícia que chega até você, por um caminho sinuoso, que se inscreve em redor da linha reta a que a pauta te encaminha; estradas de chão, que se ramificam da via asfaltada e que, ao contrário desta, nunca se sabe aonde irão levar. Tirando o foco do ponto central da matéria e escorregando-o por sobre alguns elementos aparentemente sem importância, você pode conseguir uma história muito mais interessante que o feijão com arroz inicial. Pude viver alguns exemplos disso. O melhor de todos foi, sem dúvida, quando eu apurava a matéria sobre o Vest-Ufes 2005. Peguei a pauta, como de costume, porque ninguém queria pegar. Com efeito, o vestibular, como tema de matéria, não figura nem de longe entre os mais estimulantes - afinal, todo ano é a mesma coisa. Não obstante, achei que poderia valer enquanto experiência. Assim, sem grandes expectativas, lá fui eu me dirigir à Ufes, em pleno domingão. Deveria chegar mais cedo, para cobrir a tensão dos candidatos, mas, morador de Vila Velha, acabei chegando mesmo bem na hora do início da prova. Estava eu, então, no portão central da Ufes, meio que sem saber aonde ir, quando me aparece uma menina, aparentemente cega, com cara de quem estava atrasada. Perguntei para ela onde era seu local de prova: "Na CCV, perto da Educação Física". Quem conhece a Ufes sabe o quão distante ela estava. E, se para quem conhece é difícil chegar lá, imagine para uma deficiente visual que não tem a menor idéia de onde está. Sem pensar duas vezes, dei o meu
braço para a menina, peguei a bolsa dela, "Você pode
correr?", e saí em disparada. Coitada, me senti o Chocolate
com a Adria Santos, nas Para-Olimpíadas de Atenas, o tema de
"Carruagem de Fogo" ressoando ao fundo. Lá chegando,
tudo resolvido, não ganhei medalha mas ganhei a matéria.
O rapaz que a estava esperando veio me agradecer. Puxei assunto e descobri
que, na verdade, ele era um dos coordenadores de um cursinho especialmente
destinado a deficientes visuais, uma bela iniciativa pioneira que pouquíssimos
conhecem. Claro, tive que fazer o feijão com arroz, mas joguei
mais água na panela e escrevi outra matéria ("Preparar
e amparar"), toda centrada no seu depoimento, que, nem preciso
dizer, foi muito mais gratificante. De todas essas lições,
esta com certeza foi a maior de todas: concentrar-se não nos
fatos propriamente, e sim nas personagens que ajudam a construí-lo;
olhar atentamente para elas, sobretudo as coadjuvantes e destacadamente
as "figurantes". A tia do cafezinho, o servidor já
quase aposentado, o paciente que não pôde ser atendido,
os pais que, todos os anos, fazem vigília diante do prédio
onde os filhos fazem o vestibular: as pessoas mais humildes, aquelas
com quem esbarramos cotidianamente muitas vezes sem notar sua existência,
que têm anos de vivência em um espaço, são
aquelas que darão um algo a mais, um ponto de vista diferenciado
sobre o assunto abordado na matéria. São elas que irão
portar as melhores informações para você reportar,
que vão conter as melhores histórias para você contar.
Freqüentemente, também são elas que sofrem na pele, na labuta do dia-a-dia, as dificuldades decorrentes de problemas na gestão da universidade. Ao longo da minha curta experiência, pude testemunhar alguns dramas verdadeiros e, pela primeira vez, pude dimensionar claramente qual é a função social do Jornalismo, pude me sentir efetivamente no exercício da função de um repórter - para não cometer o exagero de dizer que me senti um repórter. A primeira prova disso foi quando fui "cobrir", no Hospital de Maruípe, o problema de superlotação no setor de arquivamento de prontuários ("Arquivos do Hucam pedem socorro"). Fui recebido, muito atenciosamente, pela gerente do setor, que tratou de me pôr a par de tudo o que eu tinha que saber: as condições precárias de trabalho no setor e como isso se refletia nos serviços prestados no hospital. Todavia, somente quando fui conhecer as dependências, o local de trabalho dos funcionários que ali se superam todo dia, quando ouvi os relatos de quem vive diariamente o problema, somente então pude ter a exata dimensão do que eu fazia ali. Funcionários beirando os sessenta anos, naturalmente limitados pela idade, contraindo doenças e problemas de coluna em um ambiente de trabalho inabitável: poeira, teias de aranha, caixas se empilhando no chão e sobre as estantes, estas tão próximas que tornavam impossível a convivência de dois corpos no mesmo corredor. Mais marcante foi a declaração que me foi dada por um deles, um velho ditado que eu jamais havia ouvido: "Quem sabe a quentura da panela é a colher". A frase era perfeita e resumia a situação - mas tive que teimar com a nossa profeditora para mantê-la na matéria. É a partir daí que começamos a atentar para um outro aspecto fundamental da atividade jornalística, que na certa há de nos acompanhar por quanto tempo levemos a carreira: a responsabilidade do jornalista para com as vítimas do assunto de que trata; a forma como, não raro, essas pessoas o superestimam, confiando-lhe a capacidade de resolver os seus problemas, conferindo-lhe uma autoridade que não é a sua, um papel que vai além do que realmente lhe compete. Cheguei a ouvir, algumas vezes, "Dá uma força para a gente", "Vê aí o que você pode fazer por nós". Como eu poderia explicar que meia dúzia de leitores seria de surpreender até o maior dos otimistas? Por fim, gostaria apenas de ressaltar o ponto mais gratificante no decorrer desses sessenta dias, que foi pensar e tentar praticar um Jornalismo mais humanista, mais voltado para o indivíduo, algo que está cada vez menos presente nas redações da grande mídia. Ricardo Kotscho, repórter consagrado de muitos dos grandes jornais da imprensa brasileira e, até alguns meses atrás, assessor de imprensa do Governo Lula, narra em seu livro "A Aventura da Reportagem" (em parceria com Gilberto Dimenstein) a sua trajetória pessoal no Jornalismo, sempre pautada por mostrar o side story, aquela versão do fato sob a óptica dos personagens à margem do foco principal. Conta como, no início da carreira, foi batizado pelos colegas de "repórter do pipoqueiro", em função de uma matéria que assinou. Acho que o caminho (ou um dos caminhos) é mais ou menos nesse sentido: dar voz a quem geralmente não a tem; as pessoas têm muito a dizer, basta apenas lhes abrir algum espaço. No meu caso, tive uma boa experiência nessa linha, ao me propor a fazer uma matéria mostrando o side story do R.U. - nesse caso, o back story. Deixando um pouco de lado as críticas e controvérsias, o que, de fato, acontece por trás das rampas em que nos servimos? Quem são essas pessoas que tantos de nós encontramos todo dia, por quem passamos sem prestar muita atenção, que nos servem sempre de bom grado ouvindo reclamações de toda sorte? Quem são elas que se repetem atrás das rampas, figuras carimbadas na memória, porém sobre as quais nada sabemos? Como disse, conhecer mais a fundo
essas tias foi a experiência mais marcante, e abriu para este
iniciante uma nova perspectiva dentro do Jornalismo. Um Jornalismo que
desejo levar adiante, pelo tempo que venha a exercê-lo como ofício.
Só espero não abandoná-lo, sem ao menos percebê-lo,
no meio dessa estrada acidentada, ante os calos da rotina de trabalho.
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