Artigo

3/10/03

Maurício Abdalla é professor do Departamento de Filosofia da Ufes

 

 

 

 

 

 

Coluna dedicada a constribuições dos leitores.
O Universo Ufes não se responsabiliza por opiniões emitidas nos artigos.
As contrbuições podem ser enviadas através do email [email protected]

 

 

 

 

“UFES promoção de eventos S.A.”

A UFES foi tomada nos dias 24, 25 e 26 de setembro para a realização de um estranho evento, a Olimpíada Regional de Estudantes de Medicina (OREM). Não se trata de um evento acadêmico, como o são as olimpíadas de Matemática e de Física, mas de um conjunto de atividades esportivas e de shows musicais, sem nenhuma relação com o aprendizado da arte de Hipócrates, mas destinado apenas aos alunos do curso de Medicina.

Por causa desse evento, foram praticados alguns absurdos e, em meu primeiro juízo, alguns desrespeitos à legislação: 1) as aulas em diversos centros foram suspensas (CCHN, CCE, CCJE, CEFD) sem prévia consulta aos departamentos; 2) os IC’s foram fechados para servir de alojamento e vigiados por seguranças privados que impediam o acesso de alunos e professores a um espaço público em pleno dia letivo; 3) os shows foram realizados no campus de Goiabeiras, mas promovidos por uma empresa privada, a Ondaluz (mesma que promove o Vital) e com cobrança de ingresso.

Devemos recordar que as atividades fins de uma universidade pública são o ensino, a pesquisa e a extensão. É bom lembrar disso nestes tempos em que a UFES vem se transformando em um balcão de negócios, promotora de eventos musicais, vendedora de cursos, etc. Ressaltar as atividades fins da universidade pública não significa torná-las exclusivas, mas dizer que, sob nenhuma hipótese, tais atividades podem ser relegadas em nome de outras de menor importância dentro de seus objetivos.

A suspensão das aulas torna ainda mais precário o semestre letivo, uma vez que estamos retornando de 50 dias de paralisação em nome de uma causa – questione-se a causa, questione-se o método, mas ao menos havia uma causa e o método foi definido democraticamente. Para os cursos que praticam as aulas geminadas, tal suspensão representa um intervalo de 14 dias entre uma aula e outra. Além disso, os alunos que ficaram sem aula não têm nada a ver com o evento e participam apenas dos prejuízos que ele causou.

Alega-se que o evento já estava marcado antes da greve e, por isso, não poderia ser adiado. Tal alegação é uma falácia e esconde o verdadeiro motivo da manutenção do evento durante o período letivo. O Encontro Nacional dos Estudantes de Filosofia, evento de caráter acadêmico que envolveria palestrantes de outros estados e que reuniria estudantes de todo o país, foi adiado justamente por causa do novo calendário. Por que um evento que reúne estudantes apenas do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, com o objetivo exclusivo de praticar jogos e promover shows, não poderia, pelo mesmo motivo, ser adiado?

A resposta, certamente, está relacionada aos shows de bandas de repercussão nacional que foram contratadas para tocar, envolvendo contratos e um grande volume de dinheiro. Os ingressos foram vendidos pelo DCE e pela Laser Discos. Esta alegação, no entanto, não pode ser usada à luz do dia, pois evidenciaria que, atualmente, a universidade e toda sua atividade acadêmica está submetida a interesses comerciais e monetários. Isso significaria que, para os atuais gestores da UFES, o som argentino de moedas se chocando no bolso é mais respeitado que o som de páginas de livros sendo viradas ou da voz esforçada de professores no exercício de sua função.

A contratação de seguranças privados para impedir o acesso aos prédios é um absurdo manifesto e, com certeza, constitui-se em alguma violação de lei. Nenhuma empresa privada pode impedir o acesso de funcionários públicos a seu local de trabalho em pleno dia útil! Estamos falando de um espaço pertencente à União, em cujo âmbito não tem poder sequer a polícia militar estadual, que dirá seguranças contratados. Os prédios, além de salas de aula, abrigam sala de professores, de reuniões, banheiro dos professores, sala de revistas, etc. e tivemos o acesso negado a tais dependências em função de um evento esportivo e musical...

Curioso e digno de nota é também o fato de que os shows – que acontecerão no campus da UFES, utilizando energia pública e livre dos diversos encargos que teriam caso fossem realizados em espaço privado – serão pagos através de ingressos e na sua promoção figura a mesma empresa responsável pela realização do Vital – portanto especialista em ganhar dinheiro utilizando espaço e suporte públicos.

Enfim, o absurdo é tamanho que dispensa mais comentários. Só gostaria de destacar que a atual Reitoria entrou, em outra ocasião, com mandado de segurança contra o Sintufes para impedir o fechamento dos portões da UFES para entrada de carros por ocasião de uma greve nacional. Embora se possa questionar a validade da tática do Sintufes, ela fazia parte de um protesto trabalhista legítimo. Curioso é que a mesma Reitoria permite agora (e até apóia) o fechamento da Universidade por três dias, apenas para a realização de jogos e shows. Concluam o que quiserem. Eu, de minha parte, já tirei minhas conclusões...

 

Voltar

Hosted by www.Geocities.ws

1