| Artigo
29/03/03
Ronni Garcia é aluno do curso de Comunicação
Social da Ufes
Coluna dedicada a constribuições
dos leitores.
O Universo Ufes não se responsabiliza por opiniões emitidas
nos artigos.
As contrbuições podem ser enviadas através do email
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"Nenhum
povo sobre a Terra, possui um só palmo do seu território
por graça de uma vontade divina ou de um direito divino. As fronteiras
dos Estados são criadas pelos homens e eles próprios as
modificam... Do mesmo modo que os nossos antepassados não receberam
como uma dádiva do céu o solo sobre o qual vivemos, tendo-o
conquistado com o risco de suas vidas, também não será
por graciosa dádiva que o nosso povo obterá no futuro
o solo - e com ele a segurança da subsistência -, mas sim
unicamente por obra de uma espada vitoriosa."
Citação extraída do Mein Kampf (Minha
Luta), de Adolf Hitler
Um Império em guerra: O novo Ovo da Serpente
Ronni Garcia
O ano é 1938, o cenário, a Europa
entre-guerras. A recente criada Liga das Nações condena
o re-armamento da Alemanha Nazista e a política expansionista
do Terceiro Reich. Adolf Hitler ignora todas as resoluções
de Versalhes e ameaça invadir os sudetos, uma região de
maioria alemã no oeste do território da então Tchecoslováquia.
Percebendo que a invasão seria inevitável, França
e Inglaterra propõem a entrega do solo tcheco aos alemães.
Ceder para apaziguar. Imaginavam que com isso, deteriam a sede expansionista
de Hitler. Enganaram-se profundamente. No ano seguinte, a Alemanha invade
a Polônia e coloca em prática, pela primeira vez, a Blitzkrieg
(guerra relâmpago: uma invasão massiva por meios terrestres
e aéreos simultâneos e bombardeios). Chocava-se ali o ovo
da serpente.
Março de 2003, os Estados Unidos invadem o Iraque em uma operação
relâmpago digna de uma blitzkrieg. A ONU sinaliza não apoiar
a operação militar norte-americana. George W. Bush ignora
o Conselho de Segurança e antes mesmo de uma nova resolução,
decide atacar, sozinho se preciso for, o país de Saddam Hussein.
A Doutrina Carter de 1979 é clara: "Os Estados Unidos precisam
garantir seu abastecimento de petróleo e devem utilizar-se de
todos os meios necessários (inclusive atômicos) para garantir
o seu provimento". Não será por dádiva divina
que os americanos conseguirão sua segurança e subsistência.
A Liga das Nações foi um fiasco desde o início.
Idealizada depois da primeira guerra pelo presidente norte-americano
Woodrow Wilson, o tratado baseava-se no princípio de uma guerra
sem vencedores. Entretanto, o que se viu foi uma imposição
dura contra a Alemanha e um tratamento desrespeitoso para com a Itália,
os americanos abandonaram o Tratado de Versalhes e com isso França
e Inglaterra dominaram sozinhas todas as resoluções políticas
até a ascensão do Nazi-fascismo.
Breton Woods, 1945, a derrocada nazista faz o mundo ocidental reavaliar
a necessidade de um conselho multilateral. Nasce, dos escombros da Liga
das Nações, a Organização das Nações
Unidas (ONU). Porém, há novamente um problema: os vencedores
julgam os vencidos e retiram destes o direito de representação
plena no Conselho de Segurança (basicamente exercendo as funções
que antes da guerra eram de poder anglo-francês). Só vencedores
teriam cadeiras permanentes no Conselho, a saber: Estados Unidos, França,
Grã-bretanha, União Soviética e posteriormente,
a China Popular. Japão, Alemanha e Itália ficariam de
fora e, junto com eles, todas as outras nações do mundo,
livres ou colônias, nações que também deram
seus filhos pela causa antifascista.
Os vícios do Conselho de segurança:
Apesar de possuir 15 membros ao todo, somente cinco detêm o poder
de veto. Os outros 10 são rotativos e sempre possuíram
pouca expressão. É antagônico, mas justamente a
maior distorção do CS da ONU - o veto dos melhores - é
que permitiu um adiamento maior à agressão americana.
Mas devemos fazer o seguinte questionamento: e se o CS fosse realmente
representativo e sem o abusivo poder de veto. Provavelmente uma resolução
contra o Iraque jamais seria aprovada por maioria. Mas parece tarde
para especulações deste tipo.
A ONU ferida da Morte:
Não é a primeira vez que a ONU é desrespeitada,
entretanto é a primeira vez que a entidade está completamente
desmoralizada. É claro que devemos ressaltar as diferenças
entre a desobediência alemã nos anos 30 e os ataques da
única superpotência militar da atualidade. A Alemanha foi
humilhada pelo Tratado de Versalhes e estava em profunda crise econômica,
bem diferente da situação dos Estados Unidos e do seu
status no mundo atual (o de Império).
Quando Adolf Hitler iniciou seu programa expansionista poucos levaram
a sério a hipótese de uma guerra de proporções
tão avassaladoras. Vale lembrar que em termos proporcionais,
a Alemanha Nazista não possuía metade da influência
e força que os Estados Unidos possuem hoje no mundo. Mesmo assim,
o Reich foi chamado de Ovo da Serpente.
Pode até haver um certo exagero na comparação de
dois períodos históricos tão distintos. Contudo,
não é exagero afirmar que o destino da humanidade estará
em jogo após essa ingerência americana. Por todo o mundo
os apelos pela paz falam de vidas, de crianças, de refugiados
e de doentes. Alguns insensíveis até discorrem sobre os
impactos econômicos da guerra. Mas o que temo vai além
das vidas e é uma questão que, se fosse debatida, não
deixaria ninguém dormir: a maior potência militar do planeta
- dona do maior arsenal nuclear - se recusa obedecer a normas internacionais,
decide por conta de seus próprios líderes a quem e quando
atacar e ninguém pode fazer nada para impedi-la.
Esqueçam a política de apaziguamento. Os sudetos americanos
não são o Iraque, foram o Afeganistão, a pouco
mais de um ano. O Iraque é o novo corredor polonês. A blitzkrieg
já começou. Desta vez, não existe União
Soviética ou qualquer força de equilíbrio, a ONU
dá francos sinais de extinção, ao menos para fins
práticos. A democracia americana entra em crise de identidade
após o onze de setembro.
O Ovo da Serpente já chocou. Quem matará o filhote?
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