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Artigo
16/03/2003
Sâmia Alves Pedraça é aluna
do 4º periodo do curso de jornalismo da Ufes
Coluna dedicada a constribuições
dos leitores.
O Universo Ufes não se responsabiliza por opiniões emitidas
nos artigos.
As contrbuições podem ser enviadas através do email
[email protected]
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No limiar entre
a vida e a morte
Sâmia Pedraça
Vida de jornalista, ou aspirante a, é realmente
instigante. Pelo menos às vezes. Apurando uma reportagem sobre
o Projeto Mãos Dadas, do setor de Nefrologia do Hospital Universitário
Cassiano Antônio Morais (Hucam), fui levada para um “tour”
pelo hospital.
O médico responsável pelo projeto, Michel Assbu, foi o
meu cicerone. Ele precisava passar a visita aos pacientes e me convidou
a acompanhá-lo. Aceitei na hora. Passando pelos corredores e
enfermarias, conheci todos os cantos do hospital desde pediatria, pronto-socorro,
dermatologia, nefrologia e cardiologia, passando pelos CTIs (Centro
de Tratamento Intensivo) e UTIs (Unidade de Tratamento Intensivo).
Nossa primeira parada foi na enfermaria de cardiologia, aliás,
o ponto mais tenso de minha “visita”. Um senhor já
idoso que estava com insuficiência cardíaca passava por
uma situação de risco, pois havia caído a energia
do hospital e a bomba de oxigênio não funcionava. A situação
clínica dele estava crítica, piorando ainda mais com o
insuportável calor que fazia, e toda uma equipe com médicos,
residentes, acadêmicos e enfermeiros o cercava e tentava reanimá-lo.
A situação era tensa e assim permaneceu por alguns minutos
até a energia se restabelecer e uma outra bomba de oxigênio
chegar. O Dr. Michel passou suas instruções aos residentes
responsáveis pelo paciente e continuamos a visita. Passamos pelo
pronto-socorro, o conhecido PS, que estava até tranqüilo,
passamos pela pediatria, onde ele foi ver uma menina de cerca de 11
anos com problemas dermatológicos, depois seguimos por outros
setores até chegarmos nas UTIs e CTIs.
Chegando à UTI coronária fiquei chocada com uma informação
passada pelo Dr. Michel. A UTI estava tranqüila, arejada e sem
pacientes. Então o médico me remeteu àquele senhor
de idade que quase morreu na nossa frente e disse que era para aquele
paciente estar internado ali, onde teria um melhor cuidado, afinal a
sala era mais bem aparelhada, tinha um ambiente climatizado e estava
vazia. Perguntei, então, porque não o transferiam e ele
me respondeu que não havia pessoal para tomar conta da UTI.
Pela primeira vez me deparei com essa reclamação. Sempre
ouvi falar de falta de equipamento, de infra-estrutura, mas não
tinha conhecimento desse problema constatado na visita. O argumento
do hospital é que o governo não está contratando
pessoal, que não tem condições de contratar. Por
isso, então, vamos deixar as pessoas morrerem sem condição
alguma de tratamento e dignidade.
O que é mais curioso, e trágico, é que é
muito fácil arrumar condições para aumentar salários
do legislativo e judiciário, conceder auxílios, entre
outras formas de agressão à sociedade civil, e em contrapartida
dizer que não tem dinheiro para contratar pessoal para hospitais,
ou destinar verba para as universidades ou ainda cuidar da previdência.
E essa é apenas uma pequena mostra do quão vil e podre
é o nosso sistema público, em praticamente todos os níveis
e âmbitos. Desabafos à parte....
A minha incursão pelo hospital continuou por outros setores que
estavam até tranqüilos, levando em consideração
a minha primeira parada... Foi uma experiência bem interessante
e rica, afinal nunca estive tão perto de situações
entre a vida e a morte.
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