| Artigo
18/03/03
Fernanda Neves Gomes é aluna do 4º
periodo do curso de jornalismo da Ufes
Coluna dedicada a constribuições
dos leitores.
O Universo Ufes não se responsabiliza por opiniões emitidas
nos artigos.
As contrbuições podem ser enviadas através do email
[email protected]
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Bem perto do ídolo
Fernanda Neves
Mesmo tendo que disputar um lugarzinho com mais 2.600
pessoas dentro de uma sala de conferência, a experiência
de estar diante de nossos ídolos pela primeira vez é espetacular.
Em meio a tantos compromissos, no III Fórum Social Mundial, Sebastião
Salgado tirou um tempo para dar seu testemunho de vida a uma platéia
composta em sua maioria por jovens. Era tanta gente querendo assistir
que teve uma hora que os seguranças precisaram impedir a entrada
de mais pessoas por motivo de segurança.
Antes de começar qualquer coisa, Salgado apresentou sua esposa
Lélia Wanick Salgado. “Na realidade nós fazemos
tudo junto na vida. Nós tivemos que ir embora para a França
em 1969 um pouco apertados pela ditadura daquela época. Chegando
à França, ela foi fazer Arquitetura e Urbanismo e eu trabalhar
como Economista. Mas, a partir de um momento, eu entrei na fotografia
e, alguns anos depois, ela abandonou a vida dela de arquiteta e urbanista
para entrar no mundo da fotografia. É ela quem desenha todos
os meus livros e todas as minhas exposições.”
Lélia também foi a responsável indireta pela entrada
de Sebastião na vida fotográfica. O primeiro contato dele
com o mundo da fotografia foi através de uma câmera que
ela tinha comprado para fazer fotos de Arquitetura. “Eu olhei
pela primeira fez na vida através de uma lente de uma câmera
e descobri uma outra maneira de me relacionar com as pessoas. A câmera
passou a ser uma espécie de passaporte para eu entrar, me aproximar
das pessoas e ter uma outra relação. A partir desse momento,
minha vida começou a ter outro sentido”.
Passados 30 anos desde o começo de sua carreira, Salgado é
reconhecido mundialmente como referência na área de fotografia
documentária social, tendo, inclusive, ganhado praticamente todos
os principais prêmios dessa área.
Suas exposições já percorreram a maioria dos países
do mundo sempre com grande repercussão. Entre elas, Outras Américas
(1986), resultado de sete anos de viagens América Latina (1977-1984);
O Homem em Pânico (1986), documentário sobre a dignidade
e perseverança de pessoas nas condições mais extremas
de vida; “Trabalhadores” (1993), registro sobre o fim do
trabalho manual em grande escala em mais de 20 países; e “Êxodos”
e “Crianças” (2000), retratando a vida de retirantes,
refugiados e migrantes de países subdesenvolvidos.
Salgado em defesa do homem e da terra
O fotógrafo sempre esteve ligado à questão agrária.
Nasceu em 1944, no meio da Mata Atlântica, na cidade de Aimorés,
nordeste de Minas Gerais. No início da década de 70, trabalhou
como economista para a Organização Internacional do Café
fazendo visitas e posteriores relatórios econômicos de
países da África. Como fotógrafo, quase todos os
seus trabalhos tiveram grande parte de seu desenvolvimento passado no
meio rural.
Tendo posição radicalmente contrária à grande
propriedade comercial rural, faz duras críticas ao agrobusiness
como solução para a questão agrária nos
países subdesenvolvidos. "O agrobusiness nãe é
economicamente correto porque é concentrador de renda, utiliza
trabalho escravo porque utiliza bóia-fria no Brasil. Ele também
não é ecologicamente correto porque utiliza uma quantidade
de agroquímicos que não respeita de forma alguma as vidas
animais, vegetais e a água. Foi uma moda para concentração
de renda, inventada por aqui, que eu acho que a gente tinha que discutir."
Outra bandeira que ele levanta é em favor da Mata Atlântica.
Em 1998, junto com Lélia, Sebastião fundou o Instituto
Terra. O objetivo é desenvolver e apoiar projetos de reflorestamento
numa ampla e devastada área de Floresta Atlântica na cidade
de Aimorés. A meta é plantar 1,5 milhão de árvores
nativas. Além disso, implantou o tratamento de 100% de esgoto
na cidade, reciclagem de lixo e um instituto ambiental para ensinar
e ajudar as pessoas que querem desenvolver o uso sustentável
da terra.
Infelizmente o que é bom acaba rápido e o testemunho estava
chegando ao fim. Para encerrar, Sebastião Salgado apresentou
um audiovisual com fotos do trabalho "Êxodos", acompanhado
com música dos países onde as fotos foram tiradas. Mostrando
cenas fortes de desespero, cadáveres, migração
para as cidades e sempre com uma música melancólica no
fundo, foi difícil segurar a emoção.
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