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Artigo
Coluna dedicada a constribuições
dos leitores.
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OS TROTES
NA UNIVERSIDADE Maurício Abdalla Não há nada mais saudável e agradável do que uma brincadeira ou uma festa. Tanto é que só nos atrevemos a brincar com quem temos maior intimidade e só chamamos para uma festa aqueles que são de nosso agradável convívio.Também quando queremos demonstrar alegria por receber pessoas em nosso meio, seja em uma fábrica, escola, clube ou partido, fazemos festas ou rituais que mostrem nossa disposição de que os novos sejam bem vindos. Estes rituais de recepção de pessoas fazem parte da cultura da humanidade e aparecem em diversas tradições de diversos países. Claro que todos eles reproduzem os traços característicos da cultura ou dos princípios mantidos pelo grupo no qual estão inseridos. Em tradições de austeridade e temperança, como em mosteiros budistas, os rituais serão também austeros e temperados, mas não deixam de ser agradáveis. Em tradições mais festivas e "dionisíacas", os rituais serão mais espalhafatosos, dançantes e, talvez, regados a banhos de vinho ou cerveja. Em grupos em que a força física é a característica que lhes dá unidade, talvez o ritual venha exigir uma demonstração de resistência por parte do iniciante. E assim por diante. Qual tradição e quais princípios deveriam marcar a existência das universidades brasileiras (cuja reprodução se daria nos chamados "trotes")? Certamente, os rituais de recepção dos "calouros" deveriam reproduzir a alegria e a irreverência zombeteira típicas do brasileiro e, por isso, deveriam ser alegres e prazerosos. Além do mais, como a universidade é o espaço da reflexão e do aprimoramento intelectual, estes rituais também deveriam reproduzir, de alguma forma, estas dimensões. Deveriam, por assim dizer, ser rituais alegres e inteligentes. No entanto, esta prática foi totalmente pervertida e passou a ser um ritual sem sentido onde as pessoas manifestam o desejo (bem comum na sociedade competitiva) de se sobrepor às outras e extravasam uma sede estúpida de dominação. Os trotes deixaram de reproduzir (de forma ritualística) a tradição e os princípios do meio acadêmico brasileiro, para reproduzir a pior dimensão da sociedade de mercado. O que presenciamos agora são rituais bárbaros de humilhação e de afirmação de superioridade por parte de quem só tem este meio para mostrar que pode alguma coisa. Eles deixaram de ser um ritual de recepção de novatos para ser uma sessão de constrangimento involuntário de pessoas. Sendo assim, não mais estamos falando de uma brincadeira agradável e inocente de jovens, que manifesta uma tradição. Argumentar que os trotes não podem ser questionados por serem uma tradição é um argumento falacioso. Trata-se agora de uma ação que agride as liberdades individuais e os direitos que a lei nos outorga. Ninguém é obrigado a se submeter a situações que atentem contra a sua vontade ou a sua dignidade. Ninguém pode ser constrangido a aceitar humilhações públicas, agressões físicas ou o desrespeito aos seus pertences (roupas, sapatos, materiais, etc.). Não se trata aqui de uma defesa da propriedade, mas da dignidade humana. Qualquer ação que atente contra isso é vedada pela legislação atual. As garantias legais de defesa da própria integridade física ou moral foram conquistadas a duras penas pela sociedade moderna. Elas eram, outrora, defendidas pelo fio da espada ou por um tiro de pistola. Se não queremos a volta desses tempos, não podemos admitir que um bando de rapazotes e moçoilas estupidificados se sintam no direito de suprimi-las. Por isso, devemos deixar de interpretar os trotes violentos ou constrangedores como "costume" e "tradição" para refletirmos sobre o que eles realmente são: uma agressão à dignidade das pessoas e ação violenta contra a integridade do cidadão. As tradições e rituais de grupos sociais são manifestações legítimas e, desde que dentro de um limite legal, não devem ser questionados. Mas no momento em que os trotes se desvinculam de seu sentido e passam a servir à psicopatia de pessoas que encarnam o lado pior da sociedade atual, eles devem ser vistos sob a ótica da liberdade e da garantia de direitos individuais, sem os quais uma sociedade madura não pode conviver. |