A Luta de duas Linhas na CONLUTAS:

Balanço político da reunião nacional e das ações do movimento.

 

 

Comunicado da União Popular Anarquista (UNIPA)

Nº 24 – Brasil / Setembro de 2007

 

 

A reunião da Coordenação Nacional de Lutas ocorreu em Brasília nos dias 05 e 06/08/2007, com cerca de 200 participantes (não foi divulgado no dia o número de delegados que deve ter ficado em torno de 90, pelo número de entidades presentes, e observadores).

Essa reunião explicitou a luta de duas linhas existente dentro da CONLUTAS. Uma linha reformista, representada pelo bloco PSTU e PSOL, e uma linha revolucionária, materializada na intervenção do bloco UNIPA (União Popular Anarquista)/LBI (Liga Bolchevique Internacionalista) e ativistas de base do movimento sindical e popular.

O confronto de Linhas vinha se gestando há algum tempo e amadureceu nessa reunião. Nesse momento a luta de linhas políticas se deu com relação a temas de estratégia e tática política, bem como de concepção de luta e organização.

A contradição de linhas se manifestou nos pontos da pauta da reunião, que dizem respeito à condução da luta política contra as reformas neoliberais do Governo Lula e reorganização da luta dos trabalhadores no Brasil. Os principais pontos foram relativos: 1) a análise de conjuntura e ao plano de ação; 2) a “Frente Contra as Reformas Neoliberais” com a CUT e a aliança e proposta de fusão com a Intersindical; 3) a organização do CONAT e seu significado.   

Dentro desse temário, foram 4 debates e votações estratégicas, em que o Bloco Revolucionário interveio com análises e as seguintes propostas abaixo:

  

- contra a convocação direcionada a “Intersindical” para uma “fusão”

- proposta de colocar representação igualitária para oposições sindicais e para os sindicatos;

- agitação e construção da greve geral

- realização de passeata no II CONAT

- remetimento às bases do debate acerca de uma proposta de resolução política endereçada a CSC (corrente Sindical Classista) do PC do B.

 

Apesar das propostas apresentadas pelo Bloco Revolucionário terem sido derrotadas, a intervenção do Bloco foi positiva e vitoriosa. Isso porque o bloco chegou na reunião com 4 delegados, mas conseguiu agregar votos de outros companheiros nas suas propostas (ao ponto de obter 13 votos em uma de suas propostas). Assim fica mostrado que é possível ampliar as bases aderentes a nossa linha.

Além disso, foi questionada a proposta de fusão com a Intersindical tal como vinha sendo encaminhada, e apesar da convocação ter sido mantida, a discussão do seu significado e efetivação será remetida aos seminários sobre concepção sindical (por proposição do Bloco CEDS/FOS) e reuniões das coordenações estaduais. E a proposta de “resolução” sobre a CSC – inserida na pauta em Brasília – foi retirada, e remetida para a discussão nas estaduais e bases sindicais e populares.    

A luta de duas linhas se manifestou nas intervenções e votações – e vai continuar se manifestando nesses debates ordinários. É preciso que os companheiros entendam que cada votação particular, sobre tópicos aparentemente isolados, faz parte de um embate global de concepções, e que esse embate determinará os rumos da CONLUTAS.  E é o real conteúdo da luta de duas linhas que iremos analisar e explicitar neste balanço.

 

 1 - A Análise de Conjuntura e a Frente contra as Reformas Neoliberais: a quebra do “consenso” e do “otimismo irrealista”.

 

            A análise de conjuntura sustentada pelo PSTU indica o seguinte: 1) existe uma “pressão” das bases dos sindicatos ligados a CUT/CMS sobre suas direções, em razão das “reformas neoliberais”, 2) essa pressão está obrigando uma guinada a “esquerda” da CUT/CMS, a retomada das atividades de luta desses setores. Essa guinada teria se materializado na constituição da “Frente de Luta contras as Reformas Neoliberais”, na qual a CUT estaria sendo “amarrada” a uma política de unidade de ação pela CONLUTAS.

Segundo as intervenções dos adeptos dessa linha, essa política estaria sendo correta e vitoriosa. O que seria comprovado pelo “Encontro contra as Reformas que Retiram Direitos” do dia 25/03/2007, pelo “Ato de 1º de Maio” e o “Dia Nacional de Lutas do dia 23/05”. O desdobramento lógico da análise levava a ratificação da política de aliança com a “Intersindical” e a CUT na promoção de atos e campanhas. 

Mas a análise que até então representava um “consenso otimista” – e irrealista – foi colocada sob crítica. O falso “consenso” foi quebrado na reunião da coordenação nacional. O bloco revolucionário mostrou que na realidade a chamada “Frente” não representava uma forma de amarrar a “CUT e a Intersindical” a CONLUTAS, mas ao contrário estava amarrando a CONLUTAS ao calendário, dinâmica e estratégia da CUT/CMS.

Usemos uma “parábola” para entender a situação. Imaginemos um individuo qualquer é algemado por um policial. O policial prendeu uma algema sua própria mão e outra a do individuo, como ensina os manuais policias. Mas o convence que na realidade é o individuo que “o algemou”  – ilusão que pode ser alimentada por ambos estarem com algemas preso um ao outro  e assim o conduz sem maiores resistências ao rumo que deseja –a prisão.

A CONLUTAS está cumprindo o papel do indíviduo algemado que não consegue analisar a correlação de forças e a situação real e acredita que pelo fato de uma algema estar na sua mão e a outra na do “policial” (CUT/CMS) acha que tem o controle do processo quando na realidade é o contrario.

Basta ver o calendário deliberado em 25/03. É um calendário essencialmente governista. Das 13 atividades, 3 são atividades do calendário permanente do movimento (1 de Maio, 20 de Novembro, 13 de Maio); e as 4 principais que foram encampadas pela CONLUTAS (em todas as categorias) eram datas convocadas e controladas pelos Governistas (17 de Abril, dia de protestos do MST incorporado como dia de luta pela CNESF; Abril Vermelho e Abril Indígena); Campanha pela Reestatização da Vale do Rio Doce, e apenas duas foram encampadas pela lógica da luta contras as reformas neoliberais – a semana de 21 a 25/05 e a Marcha à Brasília. Outro exemplo mais recente foi a Jornada em Defesa da Educação Pública , na qual estes setores na CONLUTAS buscaram se justificar argumentando que “a contradição é deles, não nossa”. Porém, não há contradição para os governistas: a UNE (já conhecida no movimento como União Neoliberal dos Estudantes) deliberou, convocou e levou a cabo uma campanha pela “reforma universitária” de Lula, contra os “golpistas” e por “maiores verbas para a Educação” e para o PROUNI. A contradição fica para aqueles que avaliaram estes atos como uma expressão do crescimento da luta contra o governo Lula e suas reformas neoliberais.

Assim vemos um argumento cíclico para justificar a política da CONLUTAS: segundo o PSTU/PSOL  a “Frente” é uma forma de criar a unidade de ação contra as reformas e o governo Lula e disputar a base da CUT”. Analisemos tais argumentos e sua fragilidade.

Em primeiro lugar dentro da tal “Frente Única” com a CUT/CMS, nos momentos chave das ações previstas no calendário a CUT “rompeu” (como o PSTU denuncia). Na semana de 23/05 a Intersindical e a CUT forçaram a reformulação da “carta de convocação” no sentido da exclusão da menção ao “Governo Lula”. Nas manifestações estaduais, a CUT se esforçou por colocar como eixo a luta pela “Defesa do Veto a Emenda 3 (em apoio a um ação do Governo Lula).

Mais recentemente a CUT/CMS rompeu com o “Plebiscito da Vale”, exatamente por recusar a aceitar questões que colocavam criticas indiretas ao Governo Lula.

Assim, a “unidade de ação” não se verifica. A unidade de ação na “Frente” só se verifica quando consegue-se evitar criticas e ações contra o Governo Lula. As ações que se realizam contras as reformas neoliberais e o Governo Lula se fazem sem a “Frente”.

O elemento central que justifica a existência da Frente é simplesmente fictício. Não somente prevaleceu o calendário governista, mas as próprias “ações unitárias” previstas no calendário malograram – com raras exceções.   

Outra das justificativas para a existência da Frente é “aumentar a capacidade da CONLUTAS de disputar as bases da CUT”. Mas quando examinamos a política setorial, implementada nas diferentes categorias pela CONLUTAS, vemos exatamente a contradição e a nulidade da política frentista.

Nos sindicatos de base o que tem sido praticado são alianças com setores governistas (vide caso dos Metalúrgicos de Volta Redonda, Sintergia e Correios-RJ). Não se fortalecem as oposições sindicais – verdadeiros instrumentos de disputa da consciência da classe.

E é preciso dizer: oposições sindicais não são meras chapas de oposição, que só funcionam para disputar as diretorias, mas uma estrutura militante para conduzir a luta mesmo contra burocracia sindical. Ou seja, afirma-se que a Frente existe para disputar as bases da CUT, mas a composição das chapas que o PSTU tem indicado na CONLUTAS aponta no caminho contrário: na diluição da CONLUTAS em “mini-frentes” eleitorais com setores governistas ou semi-governistas.

Assim revela-se o real conteúdo da contradição: a política frentista nem promove a unidade de ação naquilo que diz, nem leva a CONLUTAS a disputar as bases da Intersindical e da CUT, e nem tem sido eficaz na luta contra as reformas neoliberais.

Um outro aspecto fundamental dessa questão é o seguinte. A constituição da CONLUTAS enquanto movimento de oposição nas lutas setoriais, com um programa classista e combativo. Nas lutas setoriais, o que tem imperado é que a CUT e mesmo a Intersindical tem desenvolvido políticas corporativistas, com as famosas “greves por empresa” ou “greves de categorias isoladas”, tanto no serviço publico quanto na iniciativa privada.

A CONLUTAS sustenta palavras de ordem genérica sobre a “unificação” das lutas mas não discute os meios concretos de realizar tal proposição nas diferentes categorias. E assim vigora um paralelismo: as campanhas gerais e os atos que ocupam o centro da política da CONLUTAS, promovido pela “Frente” na qual identifica-se falsamente a “realização da unidade da classe”.

E de outro lado, a fragmentação das lutas reivindicativas (econômicas e políticas) das categorias, na qual a CUT mantém o controle e a direção, e na qual a CONLUTAS ainda não conseguiu ter uma política conseqüente e eficaz.

Ou seja, o “movimentismo” se coloca como direcionamento estratégico na CONLUTAS, ao passo que impera a inexistência de política estratégica para as lutas sindicais e sua coordenação, que são secundarizadas diante do “movimentismo- da centralidade ocupada por atos (com métodos e objetivos recuados), campanhas de propaganda e denúncia (como o plebiscito).

Na realidade, o que vigorou nesse primeiro semestre foi uma política derrotista, em que se abdica da construção da CONLUTAS como movimento de oposição às reformas neoliberais em favor da construção da “Frente” com a CUT/CMS.

Tem sido secundarizada a construção das lutas setoriais das categorias (a questão das campanhas salariais e das luta contra os pelegos nos sindicatos). Vigora uma política “defensivista” nas categorias, em que as oposições conlutistas têm sido levadas a compor Chapas com setores Governistas como a CSC e Articulação Sindical, abrindo mão de defender a ruptura com a CUT.

Nosso balanço da análise de conjuntura visa pontuar o seguinte: a política de Frente com a CUT/CMS e a iniciativa de fusão com a Intersindical fazem parte de um direcionamento estratégico reformista para a CONLUTAS. E mais, um reformismo maduro, com uma concepção corporativista. 

Nela a inversão das prioridades é nítida: atos “pseudo-unitários” com setores governistas ganham centralidade, enquanto a unidade da classe nas suas lutas setoriais é sacrificada em razão dessa mesma política.

Ao mesmo tempo, as necessidades do “frentismo” e do “movimentismo” levam a uma secundarização de uma política de construção de oposições sindicais. A política de alianças “genérica” permite a composição de chapas com a CSC e a Articulação Sindical, matando qualquer possibilidade de unificação de campanhas salariais por ramos e lutas inter-categorias. 

Assim, o “Bloco Revolucionário” conseguiu na luta de idéias quebrar o consenso, que agora é (ou melhor, está como) posição majoritária. A Frente com a CUT e proposta de fusão com a Intersindical são agora objetos de reflexão política fora dos termos abstratos e descontextualizados proposto pelo GT Nacional de Secretaria da CONLUTAS.

Diferentes análises de conjuntura e diferentes direcionamentos estratégicos para o movimento de luta contra as reformas neoliberais estão em luta. Uma linha expressa as concepções sindicais de revolucionários bakuninistas, marxistas e da militância combativa.  Outra linha expressa a concepção reformista do PSTU e PSOL.

 

2 – O Direcionamento Político-Estratégico da CONLUTAS, o problema da Greve Geral e o II CONAT.

 

            A luta de duas linhas, que parte de diferentes análises, expressa duas visões de direcionamento político-estratégico para a CONLUTAS. E aqui está a grande questão. O “movimentismo” encobre a recusa da estratégia da ação direta e da greve geral de massas.

O movimentismo se adapta e coexiste com o corporativismo e o sindicalismo de resultados, é a negação da greve geral. E como não consegue colocar a possibilidade de vitória, desloca a questão para  a necessidade de “frente eleitoral” – que conquistaria o “Estado” e derrubaria as reformas neoliberais. Os “sindicatos e as organizações da classe” são vistas como “incapazes” de barrar as reformas e afirma-se a necessidade de uma “frente partidária” que cumpriria tal papel.

Por isso, a estratégia “frentista” e o “movimentismo” que lhe acompanham assumem uma posição sempre refratária à greve geral, desqualificando seus defensores como “ultimatistas”, pela “inexistência de condições objetivas”. A sua metafísica abstrai que a atividade e luta consciente da classe não somente é uma condição objetiva, como cria dialeticamente novas condições objetivas e subjetivas a partir das existentes.

É preciso romper com a metafísica reformista acerca da greve geral. A greve geral é um dos principais instrumentos da classe, e a função da central é lhe dar forma e base organizativa. A forma “central” (sindical e popular) está associada inevitavelmente à greve geral. A central está para a greve geral como um sindicato isolado está para a greve.

E é preciso denunciar: a greve geral foi transformada pelos reformistas brasileiros num mito. São tantas as dificuldades que colocam para sua construção e a sua visualização no tempo é projetada para um futuro tão distante quanto longínquo. O problema é que muitos sindicalistas converteram a greve geral num mito cômodo, oportunistamente manejável, isolando-a da prática política concreta, habitual e cotidiana. E isto é o que desde há muitos anos fazia e faz o reformismo no Brasil.

Por isso o bloco revolucionário entende que a CONLUTAS deve materializar essa associação (organização “tipo central” com a estratégia prática da “greve geral”) e colocar nos seus métodos e estratégia de ação, medidas que deixem de fazer a alusão à greve geral como um mito e passem a trabalhar na criação de condições para sua deflagração.         

E essa deflagração não se dará num futuro indefinido por uma lógica metafísica em relação à ação da própria classe. A greve geral se dá como desdobramento das lutas econômicas e políticas parciais e setoriais, que assumem um nível mais elevado de organização e consciência

Por isso o direcionamento político-estratégico proposto e implementado na CONLUTAS pelo PSTU (frentista e movimentista) se propõe no máximo a “propagandear a greve geral”, a falar dela, e não a refletir e implementar medidas para sua construção.

E esse direcionamento político-estratégico frentista e hesitante, serve diretamente ao bloco CUT/CMS e ao Governo Lula/PT. Eles, mais do muitos militantes que estão na oposição ao Governo, sabem que o problema da luta contras as reformas neoliberais se resume ao problema da Greve Geral e do amordaçamento dos sindicatos.

Somente a greve geral (ou melhor, sucessivas greves gerais combinadas com outras ações de massas subsidiárias) é capaz de frear e barrar a ofensiva neoliberal. Todas as ações estratégicas do governo visam fragmentar as categorias política, acentuando os efeitos da estrutura sindical corporativista; todas as ações da CUT/CMS também, visam fragmentar as campanhas salariais, sabotar as lutas unificadas e dar um caráter burocrático e assistencialista aos sindicatos (mantendo somente as atividades de resistência, sem a qual o sindicato não se sustenta, através de greves de empresa, que realimentam a legitimidade da burocracia sindical). 

É por isso que no debate sobre a greve geral as diferenças de posições entre o GT Nacional de Secretaria (ocupado pelo PSTU) e o Bloco Revolucionário, tem um profundo significado.

Também o significado dos discursos acerca das oposições sindicais – reduzidas pelo GT de Secretaria a “chapas de oposição” mostram um direcionamento-estratégico. O de fortalecer as “direções” e as lutas por aparatos. Ao se fazer isso, se dá uma vitória estratégica para o bloco CUT/CMS/PT, pois eles cedem as “direções” de um ou dois sindicatos, mas mantém atividade de luta sindical como um todo pulverizada pelo corporativismo – ou seja, sob controle. 

O direcionamento político-estratégico defendido pelo Bloco Revolucionário aponta num outro sentido. A greve geral não é um mito, é uma forma de luta que exige uma forma de organização. De acordo com a perspectiva materialista que sustenta tal política, a atividade presente da classe cria as condições para a mudança do desenvolvimento histórico, e da própria greve geral. 

O centro do direcionamento politico-estrategico deve estar na construção da unidade inter-categorias, nas suas lutas econômicas e políticas. Para isso é preciso ter uma política de construção da CONLUTAS como central e movimento de oposição ao neoliberalismo e ao capitalismo.

            O primeiro elemento é mudar as formas das greves e de organização para a luta reivindicativa. É preciso colocar todo o peso nas campanhas salariais, com a realização de “assembléias unificadas de base”, unificando as diversas categorias de um mesmo ramo ou ainda formas mais amplas, e usar das greves gerais de ramo ou inter-setoriais como ensaios da greve geral nacional. Essa é uma política concreta de acúmulo de forças de curto prazo (que pode ser efetivada em alguns meses, anos, não em décadas).

            Dentro desse direcionamento estratégico, as oposições sindicais cumprem um papel destacado. A oposição materializa a intransigência de classe, a postura de que é preciso fazer a luta contra os patrões, o governo, mesmo contra o sindicato e a burocracia, a qualquer custo. Mesmo sendo “minoria”.

As oposições sindicais modernas no Brasil surgiram durante a Ditadura Militar e expressaram uma política de médio e longo prazo de luta contra os sindicatos tutelados e construção da hegemonia. Era uma intransigência de programa e concepção que partia de uma análise correta da luta de classes.    

Quando vemos o recuo teórico da análise de conjuntura reformista, isso tem um profundo conteúdo político, relacionado a sua prática e estratégia política e sindical . Quando se fala que é necessária uma frente com a CUT/CMS para lutar contra as reformas neoliberais se produz uma dupla falsificação. Primeiro a de que é possível que a CUT rompa com o governo. Segundo, de que sem essa unidade de “superestruturas” não seria possível a unidade da classe, o que leva a secundarização do fator “conflito capital x trabalho”.

Confunde-se a conquista da consciência das categorias com a conquista da “direção” do sindicato ou do aparato. E ao fazer essa análise superestrutural, chega-se a conclusão que o objetivo máximo é ganhar as direções, mesmo que para isso seja necessário abrir mão do programa. 

É possível que as bases sindicais sejam ganhas à revelia das burocracias sindicais, porque a exploração do trabalho pelo capital permanece como central. E é isso que alimenta as oposições, a contradição de interesses de classe que não pode ser apagada, e que a intransigência de classe visa alimentar e capitalizar.

A negação da importância das oposições é fruto da subestimação do próprio conflito de classes. E a oposição não cresce pela conciliação: ela cresce pela contradição, pela luta contra a burocracia sindical, o Estado e o capital.

É importante aqui indicar o seguinte. A linha reformista confunde dois conceitos e duas realidades distintas; chapas de oposição dentro dos sindicatos com oposições sindicais. A Oposição Sindical, tal como a experiência histórica da classe trabalhadora brasileira mostra, é uma estrutura organizativa que visa dar condições aos trabalhadores de encaminharem sua luta mesmo quando o sindicato está aparelhado.

Por isso dois elementos são característicos das Oposições Sindicais: o fundo de greve e as “comissões de base” (organização por local de trabalho e moradia) que visam trazer a categoria para a luta. As “associações profissionais” são apenas outras formas dessas oposições. E a construção da hegemonia se dá então pela atividade política classista, de confronto, e não por meio de conciliações com a burocracia sindical e os pelegos.

Fortalecer as oposições significa fortalecer essa estrutura organizativa. Disputar a hegemonia significa disputar essas formas de organização, através de um direcionamento estratégico: criar condições para realização de uma greve geral, que passa pela unificação das lutas setoriais onde possível e o fortalecimento das oposições sindicais como forma luta pela direção política do movimento de luta da classe, e não dos aparatos sindicais.   

A linha reformista para CONLUTAS não segue uma tal lógica de organização e luta, com comissões ou coordenações inter-categorias e o corporativismo derivado dos sindicatos tem sido transplantado para a CONLUTAS. O modelo típico do “sindicalismo de resultados” (greves por empresa ou categoria, pacificas e legalistas) são as que eclodem. Essas greves são a negação – na sua forma e conteúdo – da estrutura organizativa necessária a construção e utilização da greve geral.

E aí ficamos num circulo vicioso. E a constatação da impossibilidade momentânea da deflagração da greve geral serve para justificar uma política que não somente não soma para sua construção como é sua negação. O “frentismo” e o “movimentismo” se apresentam como “solução realista” que apenas é uma cortina de fumaça para a real estratégia, que levará os trabalhadores brasileiros a derrotas. 

A luta de idéias expressa no plenário e as diferentes propostas apresentadas e votadas, representam dois direcionamentos político-estratégicos. Uma representa concepção reformista, que não se coloca a atarefa da construção da greve geral, e por isso é levado a diluição paulatina da CONLUTAS numa “frente” com os governistas, abdicando da luta nas categorias e de sua centralidade estratégica, em favor do movimentismo.

Os debates acerca do II CONAT (do peso das oposições sindicais) e da organização segue uma mesma direção. E é preciso indicar o embate de duas linhas que irá se materializar em maio de 2008 (no II CONAT ou I Congresso do CONLUTAS). 

A outra, a linha revolucionária, representa a concepção do sindicalismo classista e combativo,  que vê a necessidade de acumular forças através da unificação das lutas pela base, de greves inter-categorias e das oposições sindicais, rumo à realização das greves gerais nacionais, único meio de derrotar as reformas neoliberais do Governo Lula e a nova ofensiva do capital.

 

3- As questões que afligem os reformistas: eleições, reforma sindical e política.  

 

            Por fim, é preciso indicar que existem questões de fundo que com certeza assolam os reformistas: são as eleições, a reforma sindical e a reforma política. O PSTU e o PSOL buscam manter a “Frente de Esquerda” com o PSOL.

            Assim, a proposta de fusão da CONLUTAS com a “Intersindical” deve ser analisada em função das alianças partidárias. O setor que dirige a Intersindical é o mesmo setor que dirige o PSOL (a APS – Ação Popular Socialista). Fundir os sindicatos significa criar maiores condições para a composição da “frente político-eleitoral”.

            A reforma sindical e partidária também são outros fatores que assolam os reformistas. Os critérios para a legalização das centrais sindicais e dos partidos, podem levar setores (como o PSTU e mesmo o PSOL) a perderem seu registro. A reforma sindical pode eliminá-los dos grandes aparatos e a perda de base de sustentação político-eleitoral.

            Essas questões estão efetivamente entrando no cálculo das propostas e políticas implementadas na CONLUTAS e no movimento sindical-popular. Elas ficam encobertas pela cortina de fumaça do discurso da unidade, da política frentista e movimentista. Mas ela ajuda a explicar a composição com os governistas.

No fundo, a estratégia reformista de tomar a “frente político-eleitoral” como centro da sua política, se antepõe às necessidades da classe trabalhadora – que hoje se resume a construção da unidade de classe efetiva rumo à greve geral.

Por isso conclamamos os militantes do movimento sindical, estudantil e popular a tomar parte ativa no debate de idéias e na luta de duas linhas na CONLUTAS. A fortalecerem a luta pela implementação de um direcionamento estratégico classista e combativo, por meio da unificação das lutas setoriais e construção da greve geral. Pela intervenção em todas as instancias da CONLUTAS e do movimento no sentido de combater o “frentismo” e o “movimentismo”.   

 

 

Ousar Lutar, Ousar Vencer!

 

 

 

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