Os revolucionários frente ao liquidacionismo de direita na CONLUTAS

 

Comunicado da União Popular Anarquista (UNIPA)

Nº 23 – Brasil / junho de 2007

 

Porque toda a política burguesa seja qual for a sua cor ou nome, não tem senão um fim: a manutenção da dominação burguesa; e a dominação burguesa, é a escravidão do proletariado.

Bakunin. A política da Internacional. 1869.

 

 

            A eleição de Lula para a presidência em 2002 significou a degeneração completa do bloco CUT/PT e instaurou um processo mais amplo de crise no movimento sindical-popular no Brasil. O “sindicalismo de resultados” e o dito “sindicalismo propositivo” das últimas décadas serviram como pano de fundo para atrair o apoio de determinadas frações burguesas ao projeto eleitoral do PT e culminaram na adesão destes setores pelegos ao neoliberalismo. Com Lula presidente, tal crise se acentuou, visto que ele não apenas representou a continuidade das políticas neoliberais dos anos 90, como também garantiu a colaboração das principais centrais estudantis e sindicais e alguns dos principais movimentos sociais organizados do país ao seu governo.

Os primeiros ataques do governo Lula aos direitos dos trabalhadores, como foi o emblemático caso da “Reforma da Previdência”, serviram para desmascarar de vez o nefasto papel de divisão das lutas que passariam a cumprir os setores pelegos no movimento sindical e popular. As próprias centrais e movimentos dirigidos por estes setores vieram a compor verdadeiras secretarias avançadas de governo nas lutas, contra os interesses dos trabalhadores. Neste sentido, a denúncia das sucessivas traições das centrais governistas e a convocação dos trabalhadores para formarem uma Coordenação Nacional de Lutas/CONLUTAS foi um passo acertado para o avanço da luta de classes no primeiro governo Lula. Acertado na medida em que representou a defesa de uma alternativa de reorganização para a classe trabalhadora, combatendo as estruturas já completamente atreladas ao projeto neoliberal do governo Lula e abertamente inimigas das bandeiras históricas dos trabalhadores.

Nestes primeiros anos, a despeito da crise e do refluxo das lutas, fruto da hegemonia do peleguismo e do reformismo nas últimas décadas, os setores mais avançados do proletariado indicaram para a massa a necessidade de se agrupar num pólo anti-governista. Desta maneira, o combate às “reformas” neoliberais do governo do PT teria a independência necessária das centrais e direções governistas, única forma de realmente buscar uma oposição de massas ao ataque que a burguesia promove contra os principais direitos dos trabalhadores. Esta, inclusive, foi a linha definida no Congresso Nacional dos Trabalhadores (CONAT) em 2006:

 

“Consolidar a CONLUTAS como uma nova entidade nacional é uma necessidade para seguirmos fortalecendo este pólo de aglutinação de forças que construímos até aqui. Transformá-la em uma entidade, fortalecendo sua estrutura, é importante para evitar a dispersão das forças que se afastam da CUT e demais centrais pelegas neste momento.”

“(...) A CONLUTAS, no entanto não aceitará a utilização da defesa da unidade, como forma de sacrifício à independência de classe dos trabalhadores ou paralisar suas lutas, vez que tal  atitude além de contrariar o próprio princípio, ao contrário de aproximar os trabalhadores afasta-os de seus objetivos imediatos e históricos.” (Caderno de resoluções do CONAT, Capítulo III)

 

Tal decisão, no primeiro governo Lula, se demonstrou correta, no sentido que indicava que a luta contra as reformas só era possível com a superação das centrais e direções governistas, cada vez mais interessados, quando muito, em “disputar o governo por dentro” e, dessa forma, colaborando com a seqüência de ataques contra os trabalhadores. Importantes setores das massas vêm se desfiliando da CUT, com votações consideráveis, mesmo contra as direções de seus sindicatos e contra as políticas cupulistas e derrotistas dos próprios setores majoritários que compõem a CONLUTAS (PSTU/CST), que se abstêm de construir as Oposições Sindicais e de fazer campanha pela construção da CONLUTAS pela base e contra a CUT[1].

A formação da CONLUTAS representou, portanto, um ensaio de construção de uma nova central de classe. Sendo assim, representou para o conjunto dos trabalhadores a necessidade da reorganização da classe. Para os revolucionários, a ruptura com o governismo deu também as condições para se promover o debate acerca da necessidade de se combater não só as direções pelegas, mas o próprio modelo de sindicalismo de Estado, única forma de se avançar a luta de classes contra o corporativismo e de se iniciar um processo de construção do movimento sindical-popular de tipo revolucionário. Ainda que a Conlutas não tivesse consolidado a ruptura com o reformismo, devido à orientação de seus setores majoritários, as linhas definidas no I CONAT dariam condições para que os revolucionários mobilizassem e ampliassem seu campo nesta direção. Ou seja, daria condições para que os revolucionários indicassem para a vanguarda organizada dos trabalhadores que não bastava romper com a CUT, mas que seria preciso que se rompesse com o próprio modelo que ela representou e representa.

 

 

O segundo governo Lula: a capitulação eleitoreira ao governismo impõe novas derrotas pros trabalhadores

 

O segundo governo Lula começou com ataques ainda maiores aos direitos dos trabalhadores. O PAC e as “reformas” vão atingir diretamente diversos setores das massas, do campo e da cidade, homens e mulheres, ativos e aposentados (nova “reforma da previdência”), do funcionalismo público (lei anti-greve, legalização de mais uma década de arrocho salarial) e do setor privado (“super-simples”, lei de ajuste do salário mínimo, confisco do FGTS, dentre outros). As centrais e direções governistas, todavia, mudaram suas táticas colaboracionistas. Saíram da defesa do imobilismo do “pacto social” para a convocação de lutas pró-governo: fomentam o corporativismo e sabotam as mobilizações gerais, criam sindicatos paralelos patronais/governistas nas categorias que se desfiliaram da CUT e promovem a confusão para as massas, desviando as pautas das mobilizações dos trabalhadores para bandeiras de apoio a Lula e seus ministros. A nova tática governista ficou nítida, por exemplo, nas comemorações de 1º de maio e nas manifestações do dia 23 de maio.

No 1º de Maio, CUT e Força Sindical fizeram atos-show em prol do “Meio Ambiente” e a favor do PAC[2]. No dia 23 de maio, foram às ruas para defender o governo Lula, deslocando todas as mobilizações para a bandeira da “manutenção do veto à Emenda 3 e mobilizando todas as forças para impedir a luta contra as reformas e o governo[3].

Porém, frente aos ataques generalizados do governo Lula contra os interesses dos trabalhadores e ao colaboracionismo das centrais governistas, ao invés de reafirmar a necessidade de construção de uma alternativa de organização anti-governista, classista e combativa, o setor majoritário da CONLUTAS (PSTU/CST-PSOL) veio a defender uma política reboquista em relação ao governismo da CUT, política esta que a UNIPA vem denunciando nos últimos meses[4].

E, não bastasse, tal setor ameaça agora impor à classe trabalhadora uma nova derrota: a liquidação da CONLUTAS. Sendo assim, se até este momento, ou seja, num período curto de tempo, o projeto reformista do PSTU impossibilitou a construção de uma nova central de classe, seja se abstendo das tarefas necessárias à sua consolidação, seja agindo como uma corrente externa cutista, daqui a diante ele já passará a lutar pela sua completa liquidação. A liquidação do projeto da CONLUTAS e, portanto, a completa capitulação do projeto definido no I CONAT já foi anunciada na última reunião da Coordenação Nacional da CONLUTAS, explicitamente:

 

“Ao iniciar a preparação do Congresso, a Coordenação Nacional decidiu também lançar um novo chamado à unidade da esquerda que atua no movimento sindical e popular, em particular aos companheiros que se organizam na Intersindical, para a construção de uma alternativa única de organização para a luta dos trabalhadores brasileiros.

 E ao fazer este novo chamado resolveu dar um passo além do que tínhamos dado até agora. A Coordenação aprovou um gesto muito importante: abriu a possibilidade - se esta for a condição colocada para que se construa a unidade de toda a esquerda socialista - de levar ao nosso Congresso Nacional a proposta de que construamos uma nova organização de trabalhadores, fruto da fusão da Conlutas com os demais setores.” (Relatório da Reunião da Coordenação Nacional da CONLUTAS, 06/06/07)

 

A UNIPA, desde março de 2005[5], já indicava as limitações do oportunismo de esquerda que fomenta o projeto da CONLUTAS e a necessidade de se superar o reformismo, condição fundamental para se avançar, inclusive, nas próprias lutas sindicais-reivindicativas hoje. Neste momento, tal setor indica que sua prioridade é a reedição da frente eleitoral em 2008 com o PSOL de Heloisa Helena, e não o projeto de construção da CONLUTAS e nem a luta contra as reformas. Neste sentido, a guinada à direita do setor majoritário da CONLUTAS neste ano caminha para a liquidação da CONLUTAS se for necessário, tendo como estratégico, sempre, portanto, a aliança eleitoral para as eleições burguesas com os setores mais atrasados e pelegos do PSOL na CUT ao invés da construção de uma alternativa anti-governista, classista e combativa.

 

 

Unir os setores combativos contra a política de liquidação da CONLUTAS

 

Este período exige dos revolucionários novas e imediatas tarefas. O II CONAT, previsto para 2008, já apresenta para os setores combativos da luta que o pouco avanço que representou o ensaio da CONLUTAS poderá não mais ser viável para a reorganização dos trabalhadores. A capitulação do PSTU aos cutistas da INTERSINDICAL exige que os setores combativos devem se unir contra a colaboração com o governismo: defender uma CONLUTAS anti-governista, classista e combativa, enquanto um pólo de organização necessário para se avançar na luta pela construção de uma Central de Classe para o proletariado brasileiro. Neste sentido, UNIPA convoca a todos os setores classistas e combativos a buscarem a unidade frente ao setor PSTU/CST-PSOL, em busca de uma coordenação unificada de lutas contra o governismo e pela construção de uma Central de Classe para o proletariado brasileiro.

 

 

Nem um passo atrás! Ousar Lutar! Ousar Vencer!

Abaixo a CUT pelega e governista!



[1] Como foi o caso do ANDES-SN, SEPE-RJ, e, mais recentemente, SINTRASEF-RJ, apenas para citar alguns dos mais significativos. Muitos outros sindicatos de grande referência para o movimento vem deixando de pagar a CUT.

[2] Ver boletim Causa do Povo nº 32 (maio/2007).

[3] A convocação da CUT foi para um “Dia Nacional de Luta Contra a Emenda 3/Pela Manutenção do Veto”, chegando a defender uma “greve geral contra a emenda 3. Ver Comunicado da UNIPA nº 22, junho de 2007.

[4] Ver o Comunicado da UNIPA nº 18, março de 2007, “A luta contra as Reformas Neoliberais é a luta contra o Governismo: Carta Aberta aos participantes do Encontro Nacional contra as Reformas”, o Comunicado nº 19, março 2007, “Quando a unidade é rompida sob gritos de unidade”, e a Nota escrita pelo bloco revolucionário da Conlutas/DF, junho de 2007, “Desvios oportunistas do campo majoritário da Conlutas: um passo a frente, dois atrás”.

[5] Ver Comunicado da UNIPA nº 6, março de 2005, “As Reformas do Governo Lula e as Tarefas do Proletariado”.

 

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