O Início da Queda: Transição Neoliberal e
Ajuste no Bloco no Poder.
Comunicado
Nº 17 da União Popular Anarquista – UNIPA
Rio
de Janeiro, novembro de 2006.
As eleições de 2006 foram marcadas
principalmente pela disputa de duas candidaturas, Lula e Alckmin, que
representavam os anseios de diferentes frações do empresariado nacional e
internacional. A eleição de Lula significa que o PT terá que completar a transição para o regime econômico liberal,
uma vez que existe uma pressão internacional, e interna da burguesia, para
ajustar o Estado Brasileiro às necessidades do
capitalismo ultramonopolista. Frações da
burguesia pressionarão ainda mais o governo, aumentando o conflito intra-classe. No campo do proletariado a tendência é
aumentar o conflito entre governistas e anti-governistas. A vitória da Frente Popular (PT/PCdoB/PRB) com apoio do PSB e setores do PMDB, faz com
que o governo Lula tenha mais quatro anos para realizar definitivamente as
reformas trabalhistas, sindical e previdenciária. O
pacto social entre o reformismo petista (suas burocracias sindicais e
estudantis) com os setores organizados do empresariado, construído no 1º
mandato, pressupõe nesse segundo a necessidade de implementação dessas
reformas, para possibilitar uma maior acumulação de capital e competitividade
maior de frações do empresariado (organizadas, dentre outras, em torno da
FIESP, da Confederação Nacional da Agricultura-CNA e da Confederação Nacional
da Indústria-CNI) no mercado internacional,
principalmente em relação aos países das regiões periféricas do capitalismo.
As candidaturas de Alckmin e Lula não
representavam uma oposição de classe. As diferenças entre as candidaturas estão
ligadas as suas posições hierárquicas dentro do Bloco no Poder, ou seja,
os conflitos destas candidaturas representavam as tensões que existem entre as
frações da burguesia que compõe esse bloco e devem permanecer durante o segundo
mandato do governo Lula. No entanto, isto não significa que a partir da vitória
de Lula o governo será menos cobrado, pelo contrário. Apesar de servir ao Bloco
no Poder, a sustentabilidade do governo está
vinculada à necessidade de implementar as reformas que favorecem as diferentes
frações da burguesia, como a industrial e a do agro-negócio. A FIESP prepara
uma verdadeira “guerrilha no congresso”, com a organização de um ministério
paralelo que já monitora cerca de 2.300 projetos de lei e que irá pressionar
por reformas, bem como por políticas pró-“crescimento”
através de deputados eleitos ligados diretamente ao empresariado, formando um
grande bloco suprapartidário (ver Folha de São Paulo, “Fiesp prepara
Guerrilha no Congresso”, 08/10/2006, p. b1).
A vitória de Lula, a necessidade de
realização de reformas e o cenário internacional da economia representam um
aumento do acirramento do conflito entre essas frações que tendem a pressionar
cada vez mais o governo. O reformismo petista tem como papel histórico consolidar definitivamente o regime
econômico através das reformas liberais iniciadas por Fernando Collor. Sob pressão da burguesia o governo terá de
construir uma agenda comum entre os partidos no congresso nacional para
implementar definitivamente os projetos e reformas que beneficiem as frações burguesas
em conflito. Isso já vem sendo defendido por empresários e editores das mídias
corporativas. Para isso, deverá continuar contando com o apoio de setores
organizados dos trabalhadores, como CUT e MST e reprimir qualquer eventual
oposição às reformas. È isto que esperam as frações burguesas: que o presidente
e o PT sejam capazes de promover as medidas necessárias para o aumento da
competitividade da burguesia no comércio internacional, ou seja, baratear os
custos da mão-de-obra nacional, diminuir os encargos previdenciários e reduzir
os “entraves” legais para aberturas de novas empresas no país.[1]
Toda essa pressão aumentará em 2007 se o prognóstico do Fundo Monetário
Internacional (FMI) estiver correto. Segundo seu relatório a economia mundial
tende a diminuir (especialmente devido à desaceleração da economia dos EUA,
inflação global e aumento do preço do petróleo) e a pressão
pelas chamadas reformas estruturais serão cada vez mais fortes.
O PT e o PSDB saem fortalecidos
eleitoralmente. O PT como partido mais votado, elegendo 83 deputados federais e
cinco governadores. O PSDB elegendo seis governadores em estados que
representam 51% do PIB nacional, e a terceira maior bancada da câmara federal.
A atuação desses dois partidos demonstra como o controle da máquina pública é
fundamental para a conquista dos cargos almejados. O PSDB através da utilização
da máquina de São Paulo e o PT da máquina federal. Isto permitiu eleger
governadores por todo norte e nordeste, onde Lula obteve mais votos
proporcionalmente. Apesar de o PT, PSDB e PMDB saírem fortalecidos, é notável o
aumento dos pequenos partidos, das legendas de aluguel, o que aumentará a
necessidade de uma ampla “coalizão”. Os esquemas de “compra de voto”
permanecerão importantes, seja pelo modo legal (aumento das verbas individuais
aos parlamentares) ou em forma de mensalão e/ou getom, independentemente da
realização da chamada Reforma Política. A máquina pública será de fundamental
importância nesse segundo mandato para garantir a maioria no congresso e
atender às expectativas do Bloco no Poder e ampliar as políticas
assistencialistas (como a Bolsa Família e o PROUNI[2]).
No entanto, mesmo que Lula e o PT
realizem as reformas, não significa que permanecerão tranqüilos. Uma vez
realizadas as reformas necessárias e garantida a transição neoliberal, o PT
estará mais enfraquecido junto ao proletariado e certas frações burguesas podem
vir a descartar o atual governo. A pressão do empresariado será condicionada
por dois fatores: 1) o cenário da economia internacional e; 2) andamento da
política interna brasileira (de reformas). Portanto, o segundo governo Lula
será marcado por uma forte pressão da burguesia, que já organiza ministérios
paralelos, podendo realmente haver um “terceiro turno”, ou seja, um impedimento
do governo com novas eleições. Tais situações já ocorreram quando partidos de
esquerda, como o Partido Socialista Francês e o Partido Socialista Operário
Espanhol foram retirados do poder – depois de realizadas as reformas liberais –
através de escândalos de corrupção.
No campo do proletariado, a tendência é
uma oposição maior entre governistas e anti-governistas.
Nas eleições, a chamada Frente de Esquerda se mostrou um fracasso, uma vez que
do ponto de vista eleitoral elegeu três deputados do PSOL mais próximos do PT,
e o PSTU recebeu menos votos que nas eleições de 2002. O avanço da chamada
“consciência de massa” não se verificou uma vez que a “Frente de Esquerda”
tinha como principais eixos programáticos a “redução
da taxa de juros”, o “crescimento econômico” e a denúncia da “corrupção”. Tal
redução programática colocou a Frente de Esquerda muito próxima do discurso do
PSDB de Alckmin, o que explica como, mesmo no campo dos argumentos reformistas,
a Frente não tinha condições de cumprir um papel positivo para a massa. Os
fatos demonstraram que tal política não serviu como uma suposta “experiência
necessária” para os setores sindicais e populares organizados e, muito menos,
como uma “alternativa de rompimento pela esquerda” com o governo Lula para os trabalhadores
e a juventude. Não serviu para denunciar a farsa da democracia burguesa e
também não serviu como impulsionador das lutas de massa.
Para o proletariado não existe
alternativa a não ser a sua reorganização e a necessidade de uma postura
combativa através do método da ação direta. Isso, na prática, tem como
conseqüência a necessidade de colocar forças nas lutas dos trabalhadores e não
na intervenção eleitoral. Durante todo o processo eleitoral o PSTU, que
representa o setor majoritário da CONLUTAS, aceitou a paralisação das lutas
para atender a interesses eleitoreiros da “Frente de Esquerda”[3].
Assim, os próximos quatro anos e
principalmente 2007 será um ano de fundamental importância para a burguesia e
um teste para o governo Lula, ou seja, a pressão da classe dominante será cada
vez mais forte e o PT, a serviço do Bloco no Poder, terá que atender às
reivindicações do empresariado sem a segurança de se manter no poder. Isso
porque as organizações e burocracias comandadas pelo Partido poderão não vir a
serem capazes de garantir a permanência do atual governo. Por outro lado, o proletariado passará por um
ano de resistências localizadas e minoritárias que deverão redefinir os
panoramas das lutas sociais no Brasil pelos próximos anos. Esse segundo governo
Lula marcará a transição definitiva para o neoliberalismo, ao mesmo tempo em
que significará o inicio da queda do PT como agente do Bloco no Poder. Ao mesmo
tempo, no campo do proletariado o PT e seus aliados perderão forças junto ao
proletariado, sendo desnecessários para a burguesia que se ajustará para
enfrentar a competição internacional no capitalismo ultra-monopolista. A única saída para essa crise está na
necessidade da construção de movimentos combativos, que rompam com o
sindicalismo de Estado e não apostem nas eleições burguesas; que tenham como
norte a estratégia da ação direta e a construção do movimento pela base no
campo e na cidade. Ou seja, mais uma vez: a mudança das condições de vida dos
trabalhadores só pode ser obra das suas próprias mãos.
Todo poder ao Povo!!!
[1] Medidas já iniciadas, como a aprovação do Supersimples pelos deputados e senadores no dia 22 de novembro de 2006. Na Câmara, a vitória do governo foi ajudada pela “abstenção” de alguns deputados reeleitos do PSOL. No caso do Senado, a aprovação foi por consenso com discurso de defesa do projeto de lei feito pela própria Heloísa Helena.
[2] O Programa Universidade para Todos (PROUNI) além de ser uma política assistencialista de destinação de vagas para estudantes pobres e trabalhadores nas Universidades Privadas, isenta os donos destas de imposto e transfere possíveis investimentos nas redes públicas para o empresariado da Educação privada dos “escolões” de pior qualidade.
[3] O que fica nítido, por exemplo, na palavra de ordem: “As eleições acabaram... Agora é luta!” (Opinião Socialista/PSTU).