Anarquismo
e Ecletismo, em geral e particularmente no Brasil.
UNIPA-
União Popular Anarquista - Comunicado nº15 –
Setembro – 2005
Diversos companheiros
se indagam – e nos indagam – sobre a diferença entre o anarquismo postulado por
nosso grupo revolucionário e o “anarquismo” tal como postulado por inúmeros
grupos e indivíduos no Brasil. Esta questão remete a alguns problemas de ordem
teórica e prática. Iremos explicitar tais diferenças para que não restem
dúvidas sobre o real teor – e importância - da diferença.
Podemos dizer que tais
diferenças residem em posicionamentos teórico-práticos. Na realidade tanto os
posicionamentos práticos diante da conjuntura derivam de posições teóricas,
quanto às bases teóricas são explicitadas ou confirmadas por certas práticas.
Também as estratégias e caminhos adotados variam de acordo com as “teses” ou
pressupostos que orientam – explicita ou implicitamente - as ações políticas.
Cabe então indicar as principais posições que separam o bakuninismo do
ecletismo no Brasil.
Quem
reivindica o anarquismo no Brasil – composição de classe e heterogeneidade
organizativa.
É
importante antes de tudo, realizar um rápido mapeamento do que se denomina
anarquismo no Brasil. Entre aqueles que reivindicam a categoria “anarquismo”
como forma de auto-identificação, existem dois diferentes tipos
de grupos: os grupos políticos e os grupos contra-culturais, de afinidade ou
editoriais.
Os grupos de segundo
tipo existem em grande quantidade, são inúmeros, mas devido a seu caráter, se
formam e desaparecem de maneira mais ou menos regular
sem qualquer impacto na luta de classes. Todos estes grupos têm uma
característica em comum: não existem para desempenhar uma ação
política e uma intervenção coerente e sistemática na luta de classes.
A composição de classe
é variada, normalmente burguesa e pequeno-burguesa (tanto do ponto de vista da
condição material quanto da ideologia). O “anarquismo” torna-se então uma marca
ou símbolo (para o mundo da contra-cultura, que distingue certos grupos de
outros), uma “identidade inter-subjetiva” que permite
aglutinar indivíduos em torno de certos princípios gerais (ser contra a
autoridade), ou ainda um mero “selo editorial”[1]para
intelectuais carreiristas ou empresários oportunistas.
O traço comum desses
grupos é sua tendência ao apoliticismo, ao individualismo, que conjuga a
retórica e o discurso em torno do “anarquismo” com práticas meramente
contra-culturais ou educacionistas[2].
Seu teor é burguês, freqüentemente contra-revolucionário, ou na melhor das
hipóteses, alienado em relação à luta de classes.
Mas não é sobre estes grupos que iremos falar
e fazer a crítica. Iremos falar dos grupos políticos, que são
relativamente reduzidos em seu número. Neste campo, existem algumas
organizações, especialmente aquelas agrupadas no FAO (Fórum do Anarquismo Organizado). Neste fórum, duas organizações
têm maiores responsabilidades e protagonismo: a FAG (Federação Anarquista
Gaúcha) e a OSL (Organização Socialista Libertária de São Paulo).
Este campo é composto
por militantes do movimento sindical, estudantil e popular[3],
que logram uma atuação localizada em algumas regiões do país, que em alguns
momentos conseguiu repercussão nacional. São grupos que de maneira contínua ou
descontínua atuam há quase dez anos. A questão é: porque a UNIPA, enquanto
grupo político, não atua em conjunto com os demais grupos políticos
autodenominados anarquistas? A resposta é simples: estes grupos mencionados
acima têm uma orientação
teórico-ideológica e uma prática ecletista. E o ecletismo não é capaz de
resolver os principais problemas da revolução, nem os de longo prazo, nem os de
curto prazo. É a crítica do ecletismo em geral e da sua manifestação particular
no Brasil que buscamos com este texto.
1 – As Duas Grandes Questões Histórico-Políticas: posição frente
ao individualismo e posição frente à guerra civil espanhola.
Iremos aqui nos ater
aos documentos e posições oficiais das organizações do campo de ecletismo
brasileiro. Iremos selecionar duas questões que são estratégicas para o
anarquismo: o posicionamento frente ao Individualismo e a posição quanto
a um fenômeno decisivo para a história mundial, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
As posições frente estas duas questões servem para expressar de forma sintética
as diferenças teórico-ideológicas entre o bakuninismo e o ecletismo.
Sobre o
Individualismo
A posição frente ao individualismo é
crucial. Na realidade, este debate remete a própria definição do que é o
anarquismo. O documento “Carta de Princípios da FAG” marca
exatamente o tipo de definição que de anarquismo o ecletismo comporta:
“Há quem reivindique o anarquismo como uma filosofia de
vida, estilo de comportamento, corrente do pensamento humano, prática alternativa para o
cotidiano,inspiração e formas artísticas e até mesmo uma visão de
espiritualidade. Tudo isso também é anarquismo, com a devida noção de
pluralidade que isso implica...”(FAG, p. 5).
Podemos dizer que a característica principal
do ecletismo é sua ambigüidade frente ao individualismo. Mas o posicionamento
inicial é o de reconhecer o “individualismo” como uma das “correntes” do
“anarquismo”. Depois de reconhecer e legitimar o individualismo (ou o
“anarco-individualismo”) como uma “teoria legítima”, o ecletismo procura dar um
tímido combate ao individualismo através da polêmica “organizadores X anti-organizadores”. O ecletismo se coloca no campo
dos “organizadores” e atribuem aos individualistas (de maneira correta) o
título de “anti-organizadores”.
Esta polêmica se
converteu numa camisa de força do ecletismo. O principal, às
vezes o único ou central debate “teórico” (entre aspas porque os debates são
realizados de forma tão superficial que nem merecem este título) realizado é
para justificar a necessidade de “organização”, de participar da “luta social”,
de afirmar a necessidade de “sindicatos” e etc[4].
Não é de estranhar que confundido com o eclestismo, o “anarquismo” tenha sido
acusado de “debilidade teórica”. Debatendo questões tão pueris e de resposta
tão óbvias, o resultado não poderia ser outro senão a esterilização intelectual[5].
Mas avancemos em
relação ao que interessa: o individualismo, enquanto tese ou teoria, é
essencialmente burguês e anti-socialista e na história só alimentou a
contra-revolução e desorganização das massas. O ecletismo legitima a influencia
burguesa, a interioriza e assimila em diferentes aspectos (negação da luta de
classes, política de colaboração, idealismo). Do ponto de vista teórico, o
individualismo tem diversas expressões, mas a principal diz respeito à teoria
acerca da origem da sociedade e do Estado, e ao funcionamento da economia[6].
Vejamos o que Bakunin
diz a respeito:
“Os metafísicos modernos, a partir do século XVII, trataram de
reestabelecer a moral, fundando-a, não em deus, mas no homem. Por desgraça,
obedecendo as tendencias de seu século, tomaram por ponto de partida, não o homem social, vivo e real, que é o duplo produto da natureza e da
sociedade, mas o eu abstrato do individuo, a margem de todos seus laços
naturais e sociais é, aquele mesmo a quem divinizou o egoísmo cristão e a quem
todas as igrejas, tanto católicas como protestantes, adoram como seu deus.
¿Cómo nasceu o deus único dos monoteístas? Pela eliminação necessária de todos
os seres reais e vivos.” (Bakunin, Fragmento Manuscrito, “O Principio do Estado”)
Quando realizamos uma discussão aprofundada do
pensamento de Bakunin e do anarquismo, vemos que o anarquismo se define pela
negação do individualismo, que segundo Bakunin, do ponto de vista social se
relaciona a princípio ao “teologismo” (as formas de alienação religiosa) a
teoria da autoridade divina, e depois nos séculos XVI-XVIII, a teoria
individualista seria a base da moderna teoria do estado burguês, seja das
monarquias constitucionais, seja dos republicanos democráticos.
O individualismo é
essencialmente idealista, no sentido que para se estabelecer, precisa negar as
relações de determinação entre o meio social e natural e o homem individual.
Logo, o individualismo somente se sustenta pela negação da realidade concreta[7].
Isto tem uma série de implicações: desde a defesa do imobilismo político,
passando pelo colaboracionismo de classe e chegando até a negação da
coletivização dos meios de produção. Estas são conseqüências necessárias do
individualismo, e foi isso que aconteceu na história.
A posição frente ao
individualismo remete então a uma problemática central: sendo o individualismo
uma teoria essencialmente burguesa, ela leva a legitimação não somente das
idéias e concepções burguesas dentro do anarco-comunismo ou ecletismo, mas da
própria burguesia (artistas, empresários). Logo, a consequência principal é a
negação do caráter de classe e da luta de classes. Do ponto de vista teórico a
reificação do idealismo. A conciliação teórica com uma concepção burguesa como
levou a uma
conciliação prática com a burguesia e a pequena burguesia, como veremos no caso
da guerra civil espanhola.
O documento que analisaremos da OSL-SP
é intitulado “Socialismo Libertário – um projeto em construção”. Logo no
Item 1 “Nossa
Trajetória e Referências históricas” é demarcado um posicionamento acerca
da história do anarquismo, em que uma ampla gama de experiências são arroladas
(Brasil, México, Rússia e Espanha[8]). Vemos a seguinte afirmação com relação à
“guerra civil espanhola”:
“... a tradição libertária na Espanha, onde a central
sindical anarco-sindicalista CNT contava com uma adesão até hoje inigualável em
proporção com 2 milhões de filiados num país de 24
milhões de habitantes. Sem falar na Revolução Espanhola (Sic) quando os
anarquistas contra-golpearam militarmente o fascismo, reorganizaram a
economia de forma auto-gestionária (Sic)por três anos, sendo derrotados por
uma coalizão que uniu Hitler, Mussolini, e os países imperialista em
conjunto”. (OSL,2006,
p.6).
Dois elementos destacam-se aqui: a idéia de
que existiu uma “Revolução Espanhola” e a “Autogestão na Economia[9]”.
Essa duas afirmações têm sérias implicações teóricas e práticas. Poderíamos então indicar que do ponto de
vista teórico, estas afirmações se amparam na indefinição conceitual e no idealismo, pois somente assim é possível
falar de “revolução e autogestão” na Espanha. Na Espanha não houve uma revolução, porque os anarco-sindicalistas
(celebrados no documento da OSL e FAG) da CNT-FAI em sua grande maioria
capitularam e se tornam colaboradores do Estado Burguês. Somente a Agrupação
Amigos de Durruti, minoritária em relação ao conjunto do movimento, denunciou o
processo de degeneração burocrática da CNT-FAI.
Porque não aconteceu
uma Revolução? Em primeiro lugar, temos de definir o que é uma revolução. A
revolução é a insurreição, é a guerra, que transforma um sistema ou regime
político e econômico e as relações de classe da sociedade. Na Espanha não
aconteceu uma insurreição. E se aconteceu, foi uma “insurreição da burguesia”,
liderada pelo general Franco, não do proletariado. Na realidade, a CNT/FAI
participou de uma coalizão com o PCE, o PS – a Frente Popular – e
participou das eleições burguesas de fevereiro. Depois, o Governo do PS indicou
diversos ministros “anarcosindicalistas”[10].
Constitui-se então uma espécie de “anarco-governismo”, discurso “anarquista”
com práticas favoráveis ao “governo democrático-burguês”. Uma política de
ocupação de cargos no governo que pode fazer inveja a muitos “petistas”[11].
No plano da
“Economia”, a coletivização que existiu não foi graças à política da CNT/FAI,
mas contra ela, e em regiões muito localizadas. As bases da CNT/FAI,
especialmente no campo, levavam a coletivização da economia agrária, o que logo
foi revertido pelo Estado Republicano, com o apoio da CNT. Além disso, é preciso
levar em consideração que os sindicatos locais e os operários tomaram as
fábricas porque houve uma grande fuga de industriais, que temiam a revolução, o
que induziu assim nos primeiros dias ao controle operário da produção. Logo,
falar de “Revolução e Autogestão” na Espanha é faltar com a verdade histórica.
A não ser que consideremos que a participação no Estado Burguês e Reformas
Econômicas tuteladas pelo Estado (como formas limitadas de co-gestão) expressem
a idéia de “revolução autogestionária”[12].
Neste sentido, a
análise que sustenta tal posição só pode ser idealista porque a dinâmica real (guerra e luta
de classes na Espanha, os acontecimentos, a posição dos anarco-sindicalistas da
CNT/FAI, o papel dos Amigos de Durruti) não
é levada em consideração. A “revolução espanhola” é um ato que vai do
pensamento ecletista para o mundo real e não o contrário. E só pode representar
ou uma mentira consciente ou uma análise equivocada a partir de pressupostos
idealistas, que leva a reificação do discurso dos “anarco-ministerialistas” (a
versão oficial dos reformistas que capitularam em 1936 e sobreviveram para
contar a história)[13].
A grande questão então
é essa: a partir da posição frente à guerra civil espanhola, se explicitam as
posições teóricas (materialismo X idealismo) e políticas (reforma X revolução). Apoiar a CNT/FAI e o “mito da revolução espanhola” é apoiar
o projeto da tomada do Estado Burguês, ou esvaziar o conteúdo concreto da
revolução, transformando a palavra numa panacéia. E a posição perante a história
é também uma posição perante o presente e o futuro, pois só faz sentido em
atribuir importância a teoria porque ela orienta a prática política.
A crítica do
individualismo e das experiências históricas do ecletismo é assim um ponto de
partida essencial do anarquismo revolucionário. Mas para isso, é preciso romper
com o mito da “unidade”, criado pelo ecletismo e transformado
em verdade teórica pelo sintetismo. O mito da unidade e da convivência
pacífica de setores e idéias burguesas dentro do “movimento anarquista” serve
apenas para encobrir contradições que sempre se manifestarão nas horas
decisivas.
Além disso, o mito da
“unidade”, abstrata, fora da luta política e questões concretas, sempre é
manejado pelas forças reacionárias ou pelegas. O exemplo de hoje, da CUT que
acusa os setores anti-governistas de “divisionistas” e
“sectários”. O próprio exemplo da
Espanha, em que a “Agrupação Amigos de Durruti” foi acusada de romper a
“unidade” do movimento operário.
Romper
com o Ecletismo, Construir a Organização Bakuninista!
Estas posições
do ecletismo brasileiro apenas refletem as posições históricas do ecletismo
internacional. O que é o ecletismo?
Denominamos ecletismo um fenômeno iniciado depois da dissolução da “Aliança”,
da Associação Internacional dos Trabalhadores (em 1876) e morte de Bakunin.
Alguns ex-militantes da “Aliança” iniciaram um processo de revisão do
pensamento bakuninista, e formularam teses que mesclavam comunismo e
anarquismo.
Neste sentido, o
ecletismo é uma das formas do anarco-comunismo, suas frágeis bases teóricas são anarco-comunistas,
não anarquistas. Mas o principal traço do ecletismo é seu esforço de conciliar,
teorias e estratégias políticas excludentes num todo “supostamente harmônico”.
Do ponto de vista histórico, o ecletismo se aproximou do sintetismo, e manteve
posicionamentos políticos centristas.
O ecletismo
anarco-comunista tem uma prática política de “convivência pacífica” com as
concepções burguesas, e por isso, teve de moldar suas formas de ação e
organização a elas. Além disso, as posições ecléticas nunca levaram a uma
crítica da degeneração do anarco-comunismo e do anarco-sindicalismo, de como
eles foram levados à colaboração com a burguesia e o Estado. E quem não é capaz
de fazer uma análise crítica da historia não é capaz de realizar uma análise
crítica da sociedade no momento atual; quem legitima a colaboração de classes
no passado, a legitima hoje ou legitimará mais cedo ou mais tarde, ou ficará
imobilizado em meio às contradições teóricas e as demandas práticas.
Nesse
sentido, o ecletismo maduro, na realidade, torna-se oportunismo. Ou
seja, uma concepção que fala de “anarquia”, “liberdade” e etc, mas tem uma
prática reformista e muitas vezes contra-revolucionária.
Por
isso reafirmamos a necessidade de ruptura com o ecletismo anarco-comunista. Só faz sentido postular um lugar para o anarquismo na luta
de classes se ele for capaz de fazer aquilo que o comunismo e a
social-democracia internacional não foram: conduzir o proletariado a uma
sociedade sem classes e sem estado, sem exploração e opressão. As teorias e
organizações políticas servem para isso. Assim, só faz sentido em ressuscitar o
anarquismo para traçar um rumo para uma nova revolução, ou seja, uma revolução
de novo tipo, que não seja democrático-burguesa, nem burocrático-estatista, mas
uma revolução proletária.
Todos aqueles que realmente se lançarem ao combate de forma coerente e
responsável, sentirão mais cedo ou mais tarde necessidade de enfrentar as
seguintes questões: o problema da teoria
revolucionária, que não pode ser eclética; o problema da organização
revolucionária, que tem de ser plataformista. A pratica será critério, e a luta de classe e as batalhas que se
aproximam serão o terreno que servirão como prova de fogo.
Hoje, o anarquismo revolucionário deve se tornar uma palavra de ordem que
mobilize as massas para o combate, que agrupe os militantes em torno de uma
bandeira; mas depois deve se tornar uma força propulsora e
dirigente da luta de classes, e isso não se faz sem resolver o problema
da teoria e da organização política.
Conclamamos os companheiros que entendem o anarquismo como uma bandeira
que agrupa as forças revolucionárias a assumirem essa tarefa. Nossa posição
aqui explicitada não é um ataque, mas uma advertência, no sentido de mostrar os
erros históricos do ecletismo, e convocar os militantes sinceros
revolucionários anarquistas a construírem o partido revolucionário bakuninista
no Brasil.
Anarquismo é Luta ! Bakunin Vive e Vencerá!
[1] O revisionismo pequeno-burguês se expressa em grupos
como Centro de Cultura Social (CCS) de São Paulo e outros estados, Instituto de Estudos
Libertários, organizados em torno de intelectuais como Edson Passeti e
Margareth Rago, e grupos como como o “SOMA” de Roberto Freire. O anarquismo normalmente aqui é apenas uma
outra denominação para um “ultra-liberalismo
envergonhado”.
[2] O “educacionismo” é um termo cunhado ainda no século XIX, para designar os adeptos da “transformação social” através da “educação”, que substituiria a ação política. È uma das características do anarco-comunismo de Piotr Kropotkin.
[3] Muitos dos militantes são oriundos dos grupos contra-culturais, editoriais e de afinidade, e que carregam as contradições da sua anterior formação e orientação política.
[4] A própria idéia de um Fórum do “Anarquismo Organizado” supõe a contraposição implícita ao “Anarquismo Desorganizado”, e coloca como ecletismo se matem preso a eterna e insolúvel contradição e debate organizadores X anti-organizadores.
[5] Aceitar debater sobre a “necessidade de organização” é tão primário quanto debater sobre a “necessidade de oxigênio e alimento para os seres vivos”. Nossa posição foi de romper com todos os pressupostos deste debate e avançar para o que é importante; análise da história, das relações de classe e desenvolvimento de um teoria da revolução brasileira. Basta ver os documentos do FAO, da FAG e da OSL, que veremos que existe um debate grande em torno dessas questões.
[6] Arshinov afirma: “Los autores de la Respuesta, contrarían
aquel claro y preciso mensaje diciendo que "el anarquismo es una síntesis
de elementos: clasistas, humanos e individuales". Esta visión es común a
la de los liberales, temerosos de confiar sobre las verdades del Trabajo, y
quienes siempre han oscilado ideológicamente entre la burguesía y el
proletariado, buscando valores humanistas comunes para usarlos como conexión
entre las clases contendientes. Pero nosotros sabemos bien que no hay una
humanidad, única e indivisible, que las demandas del anarquismo comunista serán
alcanzadas sólo mediante la determinación de la clase obrera y que la actividad
de la humanidad, como un todo e incluída la burguesía, no apunta en absoluto
hacia ello: consecuentemente, el punto de vista ofrecido por los liberales que
no saben cómo tomar posición en la tragedia social mundial, no puede tener nada
que ver con la lucha de clases ni, de este modo, con el anarquismo.” (Resposta aos
Confusionistas do Anarquismo).
[7] É interessante observar que apesar dos grupos ecletistas flertarem com a defesa da necessidade da teoria, todas as vezes que são chamados a debater teoricamente, eles se vêem paralisados. Quando a UNIPA lançou um documento que obviamente indicava que o individualismo não era uma corrente do “anarquismo”, a reação do então Coletivo Luta Libertária foi lançar uma carta acusando a UNIPA de “sectarismo e dogmatismo”. Vejamos que o problema teórico não foi levado em consideração, resolveu-se o problema – do ponto de vista do ecletismo – pela necessidade de afirmar a pluralidade de “visões” sobre o anarquismo. Mas então porque a teoria seria importante? Se qualquer teoria é legítima, porque um grupo político teria de ter teoria? A não ser que se suponha que não existe nenhuma relação entre teoria e prática, que mesmo sendo individualistas teoricamente, poderíamos ser socialistas na prática. Mas então, se a teoria não serve para orientar a prática política, qual sua função? Esta é contradição perpétua em que o ecletismo se move.
[8] É interessante notar o silencio nas referencias
históricas quanto a “Plataforma” e os “Amigos de
Durruti”; ou seja, os grupos que foram dissidentes e denunciaram a capitulação
e contradições são excluídos do campo das referencias. Com relação a
Kronstradt, é interessante observar que na realidade não se trata de uma
experiência anarquista; os marinheiros eram quase na totalidade membros do
Partido Bolchevique, e reivindicavam apenas as bandeiras de 1917. A metamorfose
de “Kronstradt” em um “levante anarquista” não tem o menor embasamento
histórico.
[9] A análise da FAG é a mesma: “... a CNT/FAI levantou-se em armas contra o fascismo. (...) Em mutas zonas o processo revolucionário espanhol gerou a mais impressionante coletivização e autogestão dos campos e fábricas da história da humanidade (Sic). (...) Devido à supremacia bélica dos fascistas, a não intervenção das democracias capitalistas ocidentais, a traição dos comunistas e também por nossas insuficiências, entre elas a falta de uma definição adeuada do poder no projeto político libertário, os trabalhadores espanhóis e do mundo inteiro foram derrotados.” (Fag. 2000, P. 9). A análise é claramente condescendente; não faz a crítica necessária da capitulação da CNT/FAI; e incluiu a “não intervenção das democracias ocidentais” como um fator de derrota, o mostra um claro desvio teórico-ideologico já que apresenta a ilusão de que Revolução depende da ajuda de Democracias Burguesas.
[10] Foram quatro os ministros anarco-sindicalistas no governo da República: García Oliver, Federica Montseny, Joan Peiró y Juan López.
[11] Ver o Livro, “Los Amigos de Durruti” de Georges Fontenis.
[12] É interessante notar que uma das acusações contra a UNIPÁ é dela querer estabelecer uma “verdade”, e por isso seria “dogmática”. O caso da Espanha é excelente para ver como o “relativismo” é um manto para acobertar a farsa; existe uma verdade na guerra civil espanhola, a verdade da luta de classes, do real, e é esta que defendemos.
[13] É importante observar que homens como Diego Abad Santillan, que eram reformistas na Argentina dos anos 1920, seriam capituladores nos anos 1930, terminariam por apoiar uma aliança com o “General Franco” nos anos 1970.