Os
Revolucionários e a Democracia Burguesa:
O Papel
do Proletariado e suas Vanguardas frente às Eleições de 2006
União
Popular Anarquista – UNIPA #
Comunicado n º12 – Rio de Janeiro, Janeiro de 2006.
Caracterização da Situação Econômico-Social e Política do
Brasil nos anos de 2004-2006
a) O Brasil vive uma
“situação não revolucionária”. Afirmar isto implica indicar uma determinada
correlação de forças dentro da sociedade, entre as diferentes frações de
classe: significa especialmente que o proletariado está marcado pelo fracionismo, ou seja, não desenvolve uma ação
coletiva de classe; dentro da conjuntura histórica especifica, significa também
que o Brasil, que passa pela ultimas fases da transição do intervencionismo para
o liberalismo econômico, impõe uma conjuntura em que as frações burguesas da
sociedade atacam os direitos dos trabalhadores, colocando estes numa situação
de defensiva estratégica;
b) nos anos de
2004-2005: as condições objetivas e subjetivas para um ascenso nacional de lutas não foram devidamente
exploradas pelo “campo reformista”, hegemônico no movimento sindical-popular, o
PSTU e PSOL; o primeiro investiu numa aliança com o PSOL, e pouco na
estruturação efetiva da CONLUTAS e o PSOL procura reeditar a política de
“frente popular” do PT, buscando a aliança com setores da burguesia para fazer
oposição ao Governo Lula.
c) O movimento
sindical-popular está sob a direção e
hegemonia reformista: o oportunismo de direita do PSOL, de um lado, mantém
essencialmente a política moderada, sem capacidade de conduzir as lutas
reivindicativas do movimento sindical-popular e apostando apenas na democracia
burguesa; o oportunismo de esquerda do PSTU, apesar de apontar para a oposição
ao governismo e a critica do “reformismo”, tem uma
política (que parece estratégica) de aliança eleitoral com o PSOL. Assim, a
direção do movimento gira direta (PSOL) ou indiretamente (
PSTU), em torno de uma política de “frente popular” para o ano 2006. A
reedição de uma política de “frente popular” para o movimento social no ano de
2006 implica o retardamento da reorganização séria da classe trabalhadora, e o
enfraquecimento de suas lutas e capacidade de resistência.
d) Em 2005
especificamente, a crise política, a ação da oposição burguesa
e a ameaça de greve geral no funcionalismo publico e as greves parciais,
levaram a um atraso na implementação das reformas sindical e trabalhista; neste
sentido, o proletariado ganhou um tempo precioso para investir na sua
auto-organização e resistência as reformas liberais na economia e sociedade.
e) O ano de 2006 será
decisivo para os destinos do proletariado brasileiro. Isto porque as eleições
presidenciais de 2006 serão um divisor de águas para o movimento
sindical-popular e para os partidos políticos que representam diferentes
interesses e composições de classe. De um lado, veremos como a experiência do
Governo Lula/PT será
processada dentro do movimento sindical-popular e do conjunto não
organizado da população, se a desilusão levará a uma crítica teórica e
prática do próprio reformismo ou apenas do PT. De outro lado, a nível da luta intra-classes na burguesia, veremos uma luta
entre as diferentes composições de frações de classe (representadas nas
diferentes alianças político-partidárias possíveis
entre PFL, PSDB, PMDB, PT), que afetará o modo de distribuição do poder entre
os grupos componentes destas alianças e frações. È importante indicar com
clareza que os resultados das eleições não afetarão nem o regime econômico (liberal)
nem o modelo econômico (agroindustrial exportador) constituído no
Brasil. Mas o resultado da disputa eleitoral representará a adoção de
diferentes estratégias políticas e macroeconômicas (como a forma de condução
das reformas sindical e trabalhista) afetando assim o campo de questões de
interesse para a luta de classes e conseqüentemente, a luta do proletariado (já
que a forma como PSDB, PFL ou PT de conduzirem a relação com os movimentos
sociais é distinta).
Cenários eleitorais
f) Conjuntura Nacional: Com relação às eleições
2006, sem uma aliança PFL/PSDB, entendendo-se por
isso a construção de uma candidatura única, as chances de vitória de Lula/PT aumentam (ainda mais se
levarmos em consideração que o PMDB deve lançar candidato próprio no primeiro
turno, em caso de um “2º turno”, a tendência deve ser uma parte importante do
PMDB apoiar Lula). Caso ocorra uma aliança PFL/PSDB a
situação se equilibra, e esta aliança pode vir a sair vitoriosa nas eleições.
g) Além das
coligações partidárias, outro elemento a influenciar decisivamente o processo
político nacional, e as eleições presidenciais em particular, é o controle da
maquina publica exercido pelo PT, que através da liberação de obras e
orçamentos, de programas populistas (como Pro-uni,
Fome Zero e demais medidas clientelistas), fortalecem
ainda a capacidade do PT em mobilizar apoio eleitoral (seja nas camadas
populares, seja entre as frações burguesas e elites dirigentes regionais e
locais). As medidas clientelistas do PT adquirem
maior eficácia ainda em razão da hegemonia reformista no movimento popular e da
desorganização relativa da classe trabalhadora.
h) Um fator
desfavorável ao PT é o desgaste provocado pelas denuncias de corrupção feitas
em 2005, o que por si só não é um fator suficiente para minar a capacidade
eleitoral do PT (apesar do seu “esquema de corrupção”, que financiou a campanha
de 2002, estar “queimado”, o que pode comprometer em parte as possibilidades de
reeleição de Lula). Mas em outras ocasiões, indivíduos e partidos políticos
evolvidos em denuncias de corrupção, conseguiram se eleger ou reeleger. O que
demonstra que o decisivo não é o desgaste “moral do PT”, mas sim a
neutralização dos esquemas ilegais de financiamento de campanha.
i) Um outro fator
fundamental, a influenciar o processo eleitoral, é o debate em torno da “reforma
sindical e trabalhista”. A reforma trabalhista é uma demanda do
empresariado nacional e também das agências internacionais (como o FMI). O
grande dilema para a burguesia é que o PT não encaminhou as reformas trabalhista
e sindical até o momento; o PT e Lula reeleitos podem acelerar estas reformas
(cumprindo o papel de imobilizadores do movimento sindical-popular, como
fizeram em 2005 nas greves dos servidores públicos). Caso o
PSDB ou PFL ganhem as eleições para o Governo Federal, estas podem ser
atrasadas, porque o PT pode voltar a fazer uma “oposição” oportunista as reformas (no Parlamento e nos
Sindicatos). Desta maneira, uma vitória do PT pode ser mais interessante para
as frações da classe dominante e para o imperialismo do que uma vitória do PSDB/PFL.
j) Conjuntura Mundial: Dados divulgados
pela imprensa indicam que “América Latina” vem perdendo
investimentos para o “Leste Europeu”, em razão da maior
flexibilização das relações de trabalho naquela região. Assim, a concorrência
regional pelo investimento estrangeiro pressiona no sentido da aceleração da
realização das “reformas” no Brasil. O papel de acelerador deste processo que o
PT pode cumprir, somado a esta pressão da conjuntura mundial, é mais um ponto
favorável ao PT na campanha presidencial.
l) A conjuntura na
América Latina indica o predomínio dos governos de tipo “frente popular” (Partido
Socialista no Chile; Evo Morales, Movimento ao
Socialismo, Bolívia; Nestor Kichner, Partido
Justicialista, Argentina; Lula, Partido dos Trabalhadores no Brasil; Tabaré Vázquez, EP-FA no
Uruguai), de maneira que as forças políticas que ocupam a posição de elite
dirigente, são oriundas de partidos e tendências do movimento
sindical-popular ou a ele vinculados. O Governo Lula e o PT têm um transito
entre estes governos que o PSDB/PFL não teriam, de
maneira que esta articulação – fundamental para a estabilidade macroeconômica e
social na América Latina – pode ser mantida de maneira mais eficaz pelo PT.
m) Além disso, o
pagamento antecipado da parcela da divida externa (realizado em janeiro de
2006) pode indicar uma sinalização para o capital internacional e imperialismo,
de que o PT continuará mantendo os compromissos, buscando assim assegurar o
apoio externo para reeleição de Lula, caso este confirme sua candidatura.
n) O conjunto de
fatores analisados acima indica que apesar da crise política de 2005, a
melhores possibilidades nas eleições presidências de 206, hoje, estão do lado
do PT e da reeleição de LULA. O PT pode ser ainda o melhor instrumento para a
consolidação da transição do regime econômico intervencionista para o regime
econômico liberal. O PSDB e o PFL e o PMDB podem conseguir reverter esta
situação, com a aliança eleitoral e a mudança da conjuntura internacional. Mas
poderíamos dizer que hoje 60% das chances estão para o PT e 40% para o PSDB/PFL.
Orientações para a
Luta Popular
o) No âmbito do
movimento sindical-popular, como desdobramento do processo de ruptura com as
entidades governistas (CUT, UNE), se realizará o CONAT (Congresso Nacional dos
Trabalhadores), em maio de 2006. Com relação ao CONAT e o CONLUTAS e o
processo de ruptura com a CUT, dirigido principalmente pelo PSTU, indicamos
certas contradições identificadas pela nossa análise (ver Balanço da
Conjuntura, Comunicado nº 09, Set/2005). Dois fatores podem comprometer o sucesso do CONAT: 1º) o
processo preparatório do Congresso está débil, as discussões não estão sendo
realizadas na quantidade e qualidade necessária nas bases. No Rio de Janeiro,
por exemplo, o processo não adquiriu a dimensão de um debate ativo, com
plenárias amplas e dinâmicas. Isto não é resultado somente da ação do PSTU, mas
reflete em parte o próprio refluxo do conjunto do movimento social e sindical;
2º os custos de inscrição dos delegados (R$ 180, 00) pode influir bastante
também na composição do CONAT, de maneira dificultar a participação de
delegações de movimentos, oposições sindicais e sindicatos menores.
p) Logo, o CONAT
deverá ser um evento de porte médio, com alguns milhares de delegados, sem um
debate efetivamente aprofundado que expresse o desenvolvimento da consciência
de classe do proletariado brasileiro. Mas apesar disso, deverá reunir um
importante campo de militantes, especialmente da vanguarda, servindo assim como
espaço de propaganda para os revolucionários. E pode possibilitar a difusão
local e regional de estruturas de mobilização classistas e combativas. A análise que identifica a CONLUTAS (organização
de massas) com o PSTU (partido que tem hegemonia nela), e que chega a conclusão
de que “não se deve intervir na CONLUTAS por esta ser hegemonizada
pelo PSTU” é equivocada. É equivocada porque parte de presupostos
idealistas e sectários; se alijar de certas organizações de massa (quando seu
programa e táticas estão a serviço das demandas da classe) é a expressão de uma
análise sectária, já que nas organizações de massa a pluralidade das tendências
políticas é um componente básico. Se negar a fazer a disputa nestas
organizações de massa, quando os objetivos destas organizações e sua estrutura
não contrariam os princípios teórico-ideologicos e os
interesses da classe trabalhadora é um equivoco imperdoável, em que
infelizmente, muitos grupos (por debilidades teóricas) incorrem. Não podemos
ter ilusões com relação ao atual processo, a CONLUTAS e o CONAT, mas não
podemos ser cegos em relação às possibilidades que coloca.
q) Desta maneira, é
preciso ter uma tática correta para o ano de 2006, combinar a luta ideológica
anarquista (denuncia e critica do reformismo e da democracia burguesa,
construção do sindicalismo revolucionário), com a adaptação das propostas para
a luta de massas, condicionando-as as atuais tarefas do proletariado. O papel
dos revolucionários, do proletariado e suas vanguardas, é exatamente o de atuar
no sentido da ruptura e destruição do governismo no
movimento popular, de denuncia da política capitulacionista
do reformismo e a criação de novas ferramentas de luta. Neste sentido, é
preciso indicar que não se pode permitir que o eleitorialismo
democrático-burguês limite às lutas e formas de organização do proletariado.
Devemos combinar a luta político-ideologica com a luta
reivindicativa, defendendo nas assembléias do movimento popular e
sindical as nossas propostas:
1)
Campanha “Não Vote – Lute!” – convocar o
boicote (abstenção) às eleições burguesas, como ato de desobediência civil. Não
comparecer aos locais de votação (pagar multa pela falta). Realizar atos nas
ruas no dia 03/10/2006. Isto para todos os níveis (estadual e federal).
Defender tal posição em assembléias de base de sindicatos.
2) Campanha “Salário e Trabalho para o Povo”: Paralizações Gerais Setoriais de Resistência e
Solidariedade, que auxiliem na preparação de greves gerais setoriais: reajuste
visando à composição das perdas salariais; índice de aumento geral dos
salários. Para os trabalhadores desempregados e setores informais: criação de
frentes de trabalho.
3)
Campanha de Defesa dos
Direitos dos Trabalhadores: colocar a luta contra a reforma sindical e
trabalhista como uma dimensão estratégica da luta de classes no Brasil.
Organizar atos de rua e propaganda contra a reforma sindical e trabalhista.
4) Campanha “Sindicalismo
Classista e Combativo”: defender a necessidade de reorientar as bases
ideológicas e organizativas da organização sindical-popular; atacar o
corporativismo e defender
o classismo; reorientar os
métodos de luta num sentido combativo, de maneira que as lutas e
mobilizações da classe trabalhadora ganhem maior eficácia real, através da ação
direta.