Causa do Povo

JORNAL da União Popular Anarquista – UNIPA

37 # OUTUBRO DE 2007

Rio de Janeiro - Brasil

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O Destino da CONLUTAS: entre o corporativismo e a via combativa

Em nosso Comunicado número 24 (A Luta de duas Linhas na CONLUTAS) analisamos conflito entre duas linhas no interior da CONLUTAS: a perspectiva reformista, defendida pelo setor majoritário (PSTU e PSOL) e a via revolucionária, defendida por grupos minoritários (como a UNIPA). Essa luta se manifesta hoje nas diferenças de concepção de organização e luta sindical, bem como de estratégia e tática política. 

A linha reformista promove duas políticas para a CONLUTAS que significam uma guinada à direita: 1) a “frente única” com os governistas, denominada de “unidade de ação”, e 2) o liquidacionismo da CONLUTAS, a partir da fusão com os semi-governistas da Intersindical (corrente cutista hegemonizada pela direita do PSOL). Portanto, estamos diante de estratégias tipicamente reformistas: o “frentismo” e o “movimentismo”.

A política “frentista” se expressa de duas maneiras: primeiro na formação da “frente eleitoral” entre PSTU, PSOL e PCB para participar das eleições burguesas,  a qual está subordinada a política nas eleições sindicais, com alianças com governistas (Articulação/PT e CSC/PCdoB) para disputar os aparelhos das entidades sindicais.

Por sua vez, o movimentismo se caracteriza pela realização de atos de “unidade” com os governistas da CMS (CUT, UNE, MST, CMP, etc), com métodos e objetivos recuados, bem como de campanhas de propaganda e denúncia (o plebiscito da Vale, por exemplo). Em todas as ocasiões os governistas, obviamente, trataram de boicotar as mobilizações e fazer o que o governo Lula espera deles: defendê-lo. Vamos a alguns exemplos concretos: 1) não houve um 1° de maio “unificado”; 2) nas mobilizações do dia 23 de maio os governistas não convocaram suas bases e propagandearam que o ato era em favor do veto presidencial a Emenda 3 (que proibia os auditores fiscais da Receita Federal de autuar ou fechar as empresas prestadoras de serviço constituídas por uma única pessoa); 3) no plebiscito da Vale os governistas retiraram as perguntas referentes às reformas neoliberais, e não encaminharam sua efetiva realização.

É fácil concluir que o frentismo e o movimentismo têm garantido a vitória dos governistas e para-governistas, que não só conseguiram fazer a blindagem do governo Lula/PT e frear o movimento dos trabalhadores, mas também conseguiram palanques para seus falsos discursos. Enquanto isso a CONLUTAS não se apresentou com uma estratégia nas lutas realmente decisivas da classe trabalhadora, que, por sua vez, foram derrotadas ou se mantiveram nos marcos do economicismo – as greves dos servidores do Ministério da Cultura, dos Técnicos Administrativos das Universidades Federais e dos Correios, para citar exemplos de greves nacionais.

Na verdade, o movimentismo e o frentismo, como outras expressões da estratégia reformista/corporativista, procuram sempre negar a greve geral, pois como não conseguem colocar a possibilidade de vitória pela ação direta da classe, deslocam a questão para a necessidade de “frente eleitoral” – que conquistaria o “Estado” e derrubaria as reformas neoliberais. Os “sindicatos e as organizações da classe” são vistas como “incapazes” de barrar as reformas e afirma-se a necessidade de uma “frente partidária” que cumpriria tal papel.

Os reformistas assumem uma posição sempre refratária à greve geral, desqualificando seus defensores como “ultimatistas”, pela “inexistência de condições objetivas”. A sua metafísica abstrai que a atividade e luta consciente da classe não somente é uma condição objetiva, como cria dialeticamente novas condições objetivas e subjetivas a partir das existentes.

É preciso romper com a metafísica reformista acerca da greve geral. A greve geral é um dos principais instrumentos da classe, e a função da central é lhe dar forma e base organizativa. A forma “central” (sindical e popular) está associada inevitavelmente à greve geral. A central está para a greve geral como um sindicato isolado está para a greve.

Por isso os revolucionários no interior da CONLUTAS devem materializar essa associação (organização “tipo central” com a estratégia prática da “greve geral”) e colocar nos seus métodos e estratégia de ação, medidas que deixem de fazer a alusão à greve geral como um mito e passem a trabalhar na criação de condições para sua deflagração. E essa deflagração não se dará num futuro indefinido por uma lógica metafísica em relação à ação da própria classe. A greve geral se dá como desdobramento das lutas econômicas e políticas parciais e setoriais, que assumem um nível mais elevado de organização e consciência.

Por isso o direcionamento político-estratégico proposto e implementado na CONLUTAS pelas sdireções do seu setor majoritário (frentista e movimentista) propõe no máximo a “propagandear a greve geral”, a falar dela, e não a refletir e implementar medidas para sua construção. E esse direcionamento político-estratégico frentista e movimentista, serve diretamente ao bloco CUT/CMS e ao Governo Lula/PT. Eles, mais do que muitos militantes que estão na oposição ao Governo, sabem que o problema da luta contras as reformas neoliberais se resume ao problema da Greve Geral e do amordaçamento dos sindicatos.

Ao contrário, o direcionamento político-estratégico defendido pelos revolucionários aponta num outro sentido. A greve geral não é um mito, é uma forma de luta que exige uma forma de organização. De acordo com a perspectiva materialista que sustenta tal política, a atividade presente da classe cria as condições para a mudança do desenvolvimento histórico e de realização da própria greve geral. O centro do direcionamento politico-estratégico da CONLUTAS deve estar na construção da unidade inter-categorias, nas suas lutas econômicas e políticas. Para isso é preciso ter uma política de construção da CONLUTAS como central e movimento de oposição ao neoliberalismo e ao capitalismo.

O primeiro elemento é mudar as formas das greves e de organização para a luta reivindicativa. É preciso colocar todo o peso nas campanhas salariais, com a realização de “assembléias unificadas de base”, unificando as diversas categorias de um mesmo ramo ou ainda formas mais amplas, e usar das greves gerais de ramo ou inter-setoriais como ensaios da greve geral nacional. Essa é uma política concreta de acúmulo de forças de curto prazo (que pode ser efetivada em alguns meses e anos, não em décadas).

Dentro desse direcionamento estratégico, as oposições sindicais cumprem um papel destacado. A oposição materializa a intransigência de classe, a postura de que é preciso fazer a luta contra os patrões, o governo, a qualquer custo, mesmo contra o sindicato e a burocracia, mesmo sendo “minoria”.

É possível que as bases sindicais sejam ganhas à revelia das burocracias sindicais, porque a exploração do trabalho pelo capital permanece como central. E é isso que alimenta as oposições sindicais, a contradição de interesses de classe que não pode ser apagada e que a intransigência de classe visa alimentar e capitalizar.

A negação da importância das oposições é fruto da subestimação do próprio conflito de classes. E a oposição não cresce pela conciliação: ela cresce pela contradição, pela luta contra a burocracia sindical, o Estado e o capital.

É importante aqui indicar o seguinte. A linha reformista confunde dois conceitos e duas realidades distintas; “chapas de oposição” dentro dos sindicatos com “oposições sindicais”. A Oposição Sindical, tal como a experiência histórica da classe trabalhadora brasileira mostra, é uma estrutura organizativa que visa dar condições aos trabalhadores de encaminharem sua luta mesmo quando o sindicato está aparelhado.

Por isso dois elementos são característicos das Oposições Sindicais: o fundo de greve e as “comissões de base” (organização por local de trabalho e moradia) que visam trazer a categoria para a luta. As “associações profissionais” são apenas outras formas dessas oposições. E a construção da hegemonia se dá então pela atividade política classista, de confronto, e não por meio de conciliações com a burocracia sindical e os pelegos.

Fortalecer as oposições significa fortalecer essa estrutura organizativa. Disputar a hegemonia significa disputar essas formas de organização, através de um direcionamento estratégico: criar condições para realização de uma greve geral, que passa pela unificação das lutas setoriais, onde possível, e o fortalecimento das oposições sindicais como forma luta pela direção política do movimento de luta da classe e não dos aparatos sindicais.

Por fim, é preciso indicar que existem questões de fundo que com certeza assolam os reformistas: são as eleições 2008, a reforma sindical e a reforma política. O PSTU e o PSOL buscam manter a “Frente de Esquerda” com o PSOL. Assim, a proposta de fusão da CONLUTAS com a “Intersindical” deve ser analisada em função das alianças partidárias. O setor que dirige a Intersindical é o mesmo setor que dirige o PSOL (a APS – Ação Popular Socialista). Fundir os sindicatos significa criar maiores condições para a composição da “frente político-eleitoral”,e permite também o enquadramento dos partidos e sindicatos na estrutura oficial que será estabelecida caso sejam implementadas as reformas partidária e sindical.

No fundo, a estratégia reformista de tomar a “frente político-eleitoral” como centro da sua política, se antepõe às necessidades da classe trabalhadora – que hoje se resume a construção da unidade de classe efetiva rumo à greve geral.

Por isso conclamamos os militantes do movimento sindical, estudantil e popular (aqueles militantes combativos e sinceros que estão dentro dos Partidos reformsitas inclusive, seguindo uma direção política equivocada) a  tomar parte ativa no debate de idéias e na luta de duas linhas na CONLUTAS; a fortalecerem a luta pela implementação de um direcionamento estratégico classista e combativo, por meio da unificação das lutas setoriais e a construção da greve geral.

 

Pela construção de um sindicalismo classista e combativo!

 

Novo ciclo de crescimento econômico?

A reestruturação do capital no Governo Lula

 

 

O Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Guido Mantega, afirmou que a projeção do crescimento do PIB brasileiro em 2007 está entre 4,5% e 5% (mais que o dobro da média do período 1992-2002, que foi de 2,4% segundo dados da Organização Internacional do Trabalho). Para 2008, as projeções são de 5%, e ele afirmou ainda que a crise financeira internacional não deve afetar o crescimento econômico brasileiro (ver Agencia Estado, 20/09/2007).

Confirmado esse percentual, o Brasil apresentará a maior taxa de crescimento econômico desde os anos 1970. Será essa previsão apenas um “blefe” ou ela expressa uma dinâmica real da economia capitalista? E se confirmar, esse crescimento é um fenômeno “duradouro” ou apenas um movimento conjuntural de curto prazo?

O ano de 2007 tem sido marcado por alguns acontecimentos importantes. O Governo Lula/PT tem avançado nas reformas do Estado, e criou um “plano global” de investimentos e reformas institucionais compreendidos no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e outras leis (criação das fundações estatais, lei de greve para os servidores públicos e etc.). Além disso, mudanças importantes se processaram na economia internacional, que afetam a economia brasileira. 

Por isso, uma análise materialista e dialética precisa observar as relações de classes e os movimentos das forças econômicas que servem de base para as políticas do Governo Lula. E ao mesmo tempo, ver como o Governo Lula e o Bloco Reformista PT/PCdoB tenta incidir sobre tais condições, no sentido de favorecer a acumulação de capital. 

Portanto devemos analisar as bases econômicas atuais do desenvolvimento brasileiro e como elas podem favorecer ou não uma retomada do “crescimento” e seus efeitos sobre a luta de classes.  

 

1 - O Ciclo de Investimentos 2007-2010 e a Economia Mundial.

 

         É importante observar que ao contrário do primeiro Governo Lula (2003-2006), o segundo mandato do Bloco Reformista PT/PCdoB, coincide com um novo ciclo de investimentos e expansão do capital no Brasil.

         Os dados do BNDES indicam que na evolução histórica da economia brasileira, o crescimento econômico esteve associado à formação bruta de capital fixo (investimentos) como podemos ver pelo gráfico 1. Nos anos 1970, o Brasil teve as maiores taxas de investimento (chegando a 20% do PIB), e nos anos 1980-1990 os investimentos declinaram, atingindo em certos anos percentuais negativos. De 2003 em diante houve uma tendência de retomada dos investimentos.

Esses investimentos serão comandados por um conjunto de setores, como o de energia e insumos básicos (petróleo e gás). Um conjunto de 16 setores mapeados pelo BNDES mostra que: “Os resultados mostram um aumento nos investimentos nesses setores de 132%, ou seja, de 18,4% ao ano. Trata-se de uma taxa de crescimento elevada frente ao desempenho da Formação Bruta de Capital Fixo ao longo dos últimos dez anos”. (Visão nº 21, BNDES, Fev-2007)

A tabela 1 mostra como os investimentos se distribuem e os setores mais destacados (Petróleo, Gás Extrativa Mineral). Esses setores são extremamente internacionalizados, se movem pela lógica do mercado mundial.

As forças econômicas do capital encontram entraves nas relações de produção brasileiras e na própria infra-estrutura social. O PAC deve ser visto então como um plano que está concatenado com o processo de reestruturação da estratégia de acumulação do capital nacional e estrangeiro. Não é somente um “pacote” de Governo desajustado a lógica do capital e da economia mundial. 

O PAC se apresenta então como uma resposta direta a este movimento do capital nacional e estrangeiro. Os investimentos do PAC são direcionados exatamente para dar suporte aos setores internacionalizados da indústria (Petrobras, Vale do Rio Doce), infra-estrutura energética (capital estatal) e capital nacional (grandes empreiteiras e certos setores da indústria de transformação) que sinalizam com a ampliação dos investimentos. Confirmando-se os investimentos, é possível reiniciar um ciclo de expansão da economia brasileira.

Com relação à economia mundial, devemos indicar que as estimativas do Banco Mundial de 2004, projetavam um crescimento médio dos paises subdesenvolvidos de 4,6% entre 2006 e 2015. A previsão então é de um ciclo relativamente favorável na economia mundial. E de forma mais específica “O crescimento nas exportações, que permitiria obter um superávit da balança comercial de 56.000 milhões de dólares, estaria fortemente influenciado pelos bons preços dos produtos básicos (commodities), especialmente os metais e combustíveis”. (CEPAL, 2007 – América Latina e Caribe estão mais preparados para enfrentar turbulências financeiras internacionais).  Assim, o comércio exterior tem favorecido exatamente os setores que serão alvos de maiores investimentos na economia brasileira e poderão efetivamente dar início a um ciclo de expansão da economia brasileira.    

Conseqüentemente, a reestruturação do capital em processo no Governo Lula produzir efeitos importantes para a luta de classes e para a atividade político-sindical. É isso que iremos analisar agora.

 

2 – O esvaziamento da “frente popular” e o lugar da resistência de classe.

 

Devemos ter algumas hipóteses sobre seu impacto na luta de classes, caso as possibilidades de investimento que estão delineadas e as condições econômicas favoráveis internas e externas se confirmem, e um novo ciclo de crescimento econômico se realize. 

Em primeiro lugar, é preciso indicar que o novo ciclo de investimentos se faz num momento em que foram confirmadas importantes mudanças na legislação trabalhistas e nas relações de trabalho e produção no Brasil. O investimento do capital “produtivo” (nacional e estrangeiro) se faz na base da super-exploração imperialista na periferia. E é somente por isso que a periferia e os paises semi-periféricos podem apresentar estimativas de crescimento médio maiores do que o “centro”.

O Brasil só tem se tornado novamente atrativo para tais investimentos por conta das políticas neoliberais e toyotistas aplicadas aqui, que permitem uma maior exploração do trabalho e maiores taxas de mais valia absoluta.

Essas condições econômicas não são percebidas dessa maneira pelos setores reformistas do movimento sindical-popular que se pretendem anti-governistas (PSOL/PSTU/PCB). A “Frente de Esquerda” constituída nas eleições presidenciais 2006 se orienta por uma análise teórica democrático-burguesa que alimenta a expectativa de uma aliança do movimento operário e popular com o “capital produtivo” (as frações da burguesia e pequena burguesia industrial e agrária). O eixo da sua estratégia de luta é exploração de uma suposta “contradição” entre o “capital financeiro e o imperialismo” com os interesses dos trabalhadores e do conjunto da “nação”. O Manifesto da F.E. diz: “A Frente de Esquerda quer libertar o país das garras do capital financeiro e do imperialismo. A eliminação da tirania financeira, da especulação e do fardo das dívidas, o controle dos capitais, a recuperação da capacidade de intervenção e regulação estatal, a expansão dos serviços públicos, assim como redistribuição e garantia de renda, geração de empregos, reforma agrária e urbana, preservação ambiental, são medidas imprescindíveis para superarmos a miséria em que está mergulhada a maioria da população brasileira e atender as reivindicações histórias dos trabalhadores e do povo.”

Alimentam-se assim duas antigas ilusões: 1) a do “Estado-Burguês” como “protetor” dos trabalhadores; 2) a de que reformas sociais são compatíveis com o “desenvolvimentismo econômico”. Essa estratégia visa então à conquista do “Estado-Burguês” pela Frente de Esquerda para retornar a um modelo de desenvolvimento centrado no capital produtivo com intervencionismo estatal, que “beneficiaria” também os trabalhadores. A base da legitimação de tal proposta seria “a crise ou estagnação econômica” provocada pelo modelo neoliberal de Estado e pela hegemonia do capital financeiro.

A questão é que tudo indica uma superação da crise. E uma superação não por meio do “intervencionismo estatal”, mas sim por um “liberal-desenvolvimentismo”. A aliança com a burguesia industrial e pequena-burguesia nacional torna-se duplamente inviável. Essas frações da burguesia estão associadas ao capital financeiro e durante os dois Governos Lula estão ocupando uma posição mais favorável (por conta, especialmente, das reformas das relações de trabalho), ou seja, tem todo interesse na manutenção e expansão do modelo neoliberal e toyotista.

Essa política da Frente de Esquerda, está correspondendo no movimento sindical-popular, a uma política de composição entre a Intersindical e a CONLUTAS, nos marcos de um “sindicalismo corporativista”. Esse sindicalismo corporativista (de sindicatos de empresa, lutas isoladas e fracionadas, e métodos moderados) não consegue nem mudar a correlação de forças setorial (de forma que os trabalhadores sofrem derrotas ou conseguem no máximo reposições salariais rebaixadas junto à patronal), nem barrar reformas estruturais, nem organizar o setor “precarizado” e “terceirizado” da classe. A política corporativista tem levado ao enfraquecimento do “sindicalismo” (entendido enquanto atividade de luta da classe), tanto das suas bases organizadas quanto de suas lutas. 

Poderíamos levantar então duas hipóteses sobre os possíveis efeitos do crescimento econômico brasileiro: 1) esvaziamento da política “tipo frente-popular”, já que o principal pressuposto de sua política (de que a retomada do crescimento só seria possível com intervencionismo estatal, reformas sociais e fortalecimento do capital produtivo) se desfaz por completo na prática; 2) intensificação no médio e longo prazo da luta de classes nos setores de “ponta da economia”, com amadurecimento das condições para a formação de novos sujeitos na luta contra a exploração.

Essas hipóteses dependem da confirmação das tendências econômicas indicadas acima (o processo de reestruturação do capital durante o Governo Lula). No curto prazo, a hegemonia “reformista-corporativista” no campo anti-governista do movimento sindical-popular, levará uma incapacidade de respostas eficazes à ofensiva neoliberal. Sua base teórica não consegue produzir uma estratégia de luta eficaz. Ao mesmo tempo, uma retomada do “crescimento econômico” poderá levar certos setores a uma “capitulação” frente ao governo Lula e a uma nova adesão às suas políticas, levando a uma recomposição.

O aumento da exploração e da acumulação capitalista teve freqüentemente na historia, como contrapartida, o aumento da das lutas de classes. Assim, o processo de reestruturação do capital (combinado com fatores políticos, como a direção governista-pelega e reformista-coporativista no conjunto do movimento sindical-popular) terá possivelmente no curto prazo um efeito desorganizador. Mas, ao mesmo tempo, existe a possibilidade de criação de novas condições e contradições que, por sua vez, podem viabilizar uma retomada do movimento operário e sindical em seu conjunto no médio e longo prazo. 

         Por isso, a resistência de classe nos locais de trabalho ocupa hoje um lugar central. É preciso rearticular a capacidade de luta político-sindical, através da unificação das lutas e campanhas salariais por ramos. É preciso ampliar as bases sindicais para os trabalhadores precarizados, terceirizados e marginalizados. É preciso dar um direcionamento classista e combativo as lutas, fortalecer as oposições sindicais pela base para uma luta de médio prazo. Construir um movimento de oposição classista e combativo a partir das lutas setoriais, que vislumbre como estratégia a greve geral.

 

Fortalecer a  Resistência de Classe!

Abaixo o reformismo e o corporativismo!

 

 

 

 

 

 

O Legado de Outubro

 

No mês de outubro comemora-se 90 anos da Revolução Russa. A principal Revolução do Século marcou o reinicio da “primavera dos povos”, depois de um longo inverno após a derrota da Comuna de Paris, em 1871.  A Revolução de 1917 determinou os rumos do movimento operário até a década de 70/80, quando novamente um inverno se abateu sobre o proletariado de todo o mundo.

Os significados sócio-históricos dessa revolução estremeceram todo o sistema capitalista. A Revolução não foi obra de um individuo ou de um grupo, apesar da importância dos bolcheviques para a vitória da insurreição de 1917. Esse momento de liberdade e vitória da Classe Trabalhadora é resultado da experiência histórica do movimento operário e camponês na Rússia Czarista desde segunda metade do século XIX. Serão as experiências coletivas dos populistas, primeiramente no levante de 1905, e depois do Partido Operário Social Democrata Russo que levaram à vitória de 17.

A situação da classe trabalhadora russa era de extrema miséria, que avançava à medida que o capitalismo monopolista entrava pelo território sob a égide da opressão política da Ditadura Czarista. A participação da Rússia na I Guerra Mundial aprofundou ainda mais a miséria da população. Ao mesmo tempo o movimento operário e camponês fortalecia-se. Diversos grupos políticos atuavam na Rússia praticamente de forma clandestina. A penúria dos trabalhadores, sua organização através dos soviets e sindicatos e a atuação dos partidos e grupos políticos constituíam pavio que foi aceso com a “participação” da Rússia na I Guerra Mundial. Esse conjunto de fatores de ordem social, política e econômica garantiu o acúmulo das forças coletivas do proletariado Russo.

Assim, em outubro de 1917 a Insurreição arde em Petrogrado e por diversas regiões da Rússia. O contra-poder formado pelo Sovietes leva os trabalhadores ao controle político e econômico da Rússia. Efetivamente o povo está no poder. A vitória de 17 levou posteriormente a disputa política da Revolução e a proposta bolchevique de formação de uma Ditadura do Proletariado, responsável pelo desenvolvimento do capitalismo de Estado, foi vitoriosa ao final da Guerra Civil.

A liberdade coletiva conquistada e exercida pelos Soviets Livres é transformada em pouco tempo pela imposição autoritária dos bolcheviques num poder centralizado e despótico, formando um Estado Operário com uma polícia secreta, a Theca. Essa foi a destruição da autonomia dos sindicatos e dos Soviets, provocando a morte da revolução, uma vez que o Partido Bolchevique lutava até contra aqueles que a fizeram, como os Socialistas Revolucionários de Esquerda (ainda que estes tenham participado no início do processo de centralização) e o Movimento Operário e Camponês liderado pelo Anarquista Makhno na Ucrânia – a Makhnovistchina.

A instabilidade econômica e os conflitos provocados pela Guerra Civil levaram à diversas greves e revoltas nas fábricas. A mais famosa e forte delas a Revolta dos Marinheiros de Kronstadt, em março de 1921. Esta revolta será massacrada pelo Exército Vermelho de Trotsky e, assim, decreta-se o início do processo de burocratização que produziu o fenômeno conhecido como Stalinismo. Em Kronstadt a palavra de Ordem da “Terceira Revolução” foi afogada em sangue pelos bolcheviques. Ironicamente, no dia posterior do massacre comemoram os “50 anos da Comuna de Paris”.

A instalação da NEP (Nova Política Econômica), da economia de guerra, significou o fim da liberação do trabalho do julgo do capital. É o marco de uma política que irá oscilar entre o desenvolvimento do capitalismo privado e a estatização dos meios de produção.

Mais do que lembrar a Insurreição de 1917, é necessário procurar entender os descaminhos que caiu a Revolução Russa, principalmente a partir da consolidação da vitória bolchevique, da qual os principais marcos  são a liquidação da revolta de Kronstadt, da Ucrânia e o fim Guerra Civil contra os “brancos”. Devemos lembrar que se apontamos a critica dos bolcheviques depois Partido Comunista, por outro lado, nenhuma outra organização política teve a capacidade teórica e força prática de se contrapor ao programa e a ação do Partido Bolchevique.

         A Revolução de Outubro deixa um legado complexo. Mostra como a Revolução Socialista é possível, mas também como a “Ditadura do Proletariado” cria em condições para a formação de uma nova classe dominante e no longo prazo – como aconteceu com o declínio econômico e político da URSS - leva a uma completa restauração capitalista-liberal em todos os países que seguiram esse modelo. Cabe então aprender com a história é saber que o verdadeiro conteúdo da revolução está na insurreição proletária e no auto-governo das massas.

 

 

Viva à Revolução de Outubro! Todo Poder aos Operários e Camponeses!

 

 

 

 

Ousar lutar, ousar vencer!

 

Ernesto Che Guevara foi capturado e morto em 09 de outubro de 1967 por soldados bolivianos, na aldeia de La Higuera. Seu empenho e dedicação militante à  luta revolucionária fizeram com que toda a burguesia latina e norte-americana o temessem e investissem todos os esforços contra suas ações que visavam a libertação da classe trabalhadora não em apenas um país, mas internacionalmente.

Não podemos fazer referência ao Che Guevara, sem falar da estratégia revolucionária que ele consagrou: o foquismo. A teoria de que a violência revolucionária promovida pelo foco guerrilheiro conduziria as massas populares à causa da revolução animou as lutas de libertação e de resistência às ditaduras militares da América Latina entre 1960 e 1990. Apesar do foquismo apontar para a ação direta e negar a via eleitoral, comete um grande equivoco ao negligenciar a inserção no movimento popular e sindical bem como as mobilizações de massa. Ao contrário, a teoria bakuninista propõe a articulação entre a violência revolucionária e as mobilizações de massa da classe trabalhadora.

A memória dos 40 anos de morte de Che Guevara deve servir para reavivar nos sinceros e combativos militantes do povo a audácia, a disciplina, o fervor e o compromisso revolucionário. Guevara não pode ser tomado como referência de luta que busque apenas a concretização de um ideal abstrato, juvenil e pequeno-burgûes. Sua morte simboliza a luta real contra nossos opressores e a necessiadade de incasavelmente estarmos organizados, prontos para a guerra no enfrentamento direto contra os governos e os patrões.

         Por isso, saudar sua memória é afirmar a necessidade da via revolucionária como única forma de encaminhar as lutas e garantir liberdade e igualdade para todos os trabalhadores.

 

 

 

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