Causa do Povo

PUBLICAÇÃO da União Popular Anarquista – UNIPA

32 # MAIO DE 2007

Rio de Janeiro - Brasil

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Desafios para a Luta de Classes no Brasil em 2007

 

         No dia 25 de março deste ano foi realizado em são Paulo o Encontro Nacional Contra as Reformas, puxado pela CONLUTAS, CONLUTE, MTL, Intersindical, CEBs/Pastorais Sociais-SP e várias entidades nacionais dos servidores públicos federais (como o ANDES e o SINASEFE).  Segundo os organizadores, o encontro contou com a participação de cerca de seis mil pessoas, de mais de 20 estados e aproximadamente 630 organizações, entre sindicatos, movimentos populares e estudantis.  O encontro ainda contou com a presença de representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), da Assembléia Popular, do Jubileu Sul e da Corrente Sindical Classista (CSC/PCdoB).

Sendo avaliado como “vitorioso” pelo campo majoritário da CONLUTAS (PSTU e CST/PSOL), o encontro aprovou a criação do Fórum Nacional de Mobilização Contra as Reformas Neoliberais, um Manifesto que é a base política do Fórum, um Plano de Ação e um calendário unitário de manifestações.

Como desdobramento do encontro do dia 25 de março, o setor majoritário da CONLUTAS conseguiu aprovar na reunião da Coordenação Nacional (realizada nos dias 14 e 15 de abril de 2007) a “unidade de ação” com a Coordenação dos Movimentos dos Sociais (CMS), que é dirigida pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pelo MST e pela União Nacional dos Estudantes (UNE).

Podemos concluir que o encontro do dia 25 de março e seus desdobramentos deram do tom da política do setor majoritário da CONLUTAS: a capitulação ao reformismo e o reboquismo diante das formas governistas.

Somente o reformismo do PSTU e da CST pode considerar uma prova “da rearticulação da organização do movimento sindical” ou como o “resultado da pressão das suas bases” a presença do PCdoB no encontro contra as reformas, pois mascara o real papel dessa partido e da sua corrente sindical: defender o governo Lula/PT e, conseqüentemente, frear as lutas da classe trabalhadora. O mesmo papel da CMS, só que está último tem uma dimensão maior, porque foi criada ainda no início do primeiro governo Lula/PT para aproximar o governo do movimento sindical-popular.

Igualmente se deve desmistificar a proposta da Intersindical: essa corrente cutista foi criada pelos antigos setores da chamada “esquerda da CUT” (entre esses setores da “esquerda” do PT) que se recusaram da “largar o osso”, ou seja, sair da CUT. Foi uma estratégia para impedir que as entidades e sindicalistas descontentes com a CUT promovessem uma desfiliação em massa da central governista e apontassem para a construção da CONLUTAS.

O discurso da “unidade de ação” com os setores governistas pós-encontro do dia 25 de março é uma tentativa de legitimar a prática já sistemática de compor chapas para as eleições sindicais com o PCdoB e com a Articulação Sindical (corrente sindical da cúpula petista). O que descortina a reprodução da “herança petista” pelo setor majoritário da CONLUTAS, que coloca os interesses eleitorais acima das lutas concretas, que privilegia os acordos de cúpula em detrimento da construção do movimento pela base.

O materialismo bakuninista exige que os grupos, partidos, entidades e movimentos sociais sejam entendidos e classificados de acordo com suas práticas concretas, não pelos seus discursos, não existindo dissociação entre prática política e ideologia, sendo que a prática torna explícita a ideologia. Portanto, é impossível a “unidade de ação” com setores comprometidos com o governo Lula/PT e, conseqüentemente, comprometidos com a burguesia.

A “unidade de ação” com os setores governistas não passa de uma reedição da degeneração da CUT, que abandonou gradativamente o sindicalismo classista e combativo e aderiu ao colaboracionismo com a burguesia assumindo, inclusive a ideologia e a política neoliberal. Mas como a história só se repete como farsa, a degeneração do campo majoritário da CONLUTAS está sendo mais rápida e, conseqüentemente, irá impor uma dramática derrota à classe trabalhadora.

Diante da capitulação do setor majoritário, cabe aos grupos e correntes combativas da CONLUTAS garantir o direcionamento combativo dessa central de classe. As tarefas que se fazem urgentes são: 1) combater a aliança com os governistas; construir a CONLUTAS pela base; 2) eleger a estratégia da ação direta como o único instrumento de luta; 3) fortalecer as oposições sindicais; 4) unir as massas proletárias do campo e da cidade contra as reformas liberais do governo Lula/PT; 5) defender e aprovar a concepção de sindicalismo combativo nos fóruns da CONLUTAS.

         Os destinos da CONLUTAS e do proletariado brasileiro terão no II Congresso Nacional dos Trabalhadores (II CONAT), previsto para 2008, um marco decisivo, pois as concepções de sindicalismo e de entidade de classe serão debatidas e aprovadas. Ainda este ano ocorrerão seminários estaduais e um encontro nacional para a discussão dessas concepções, como uma preparação para o II CONAT. Por isso é fundamental a organização em torno da defesa da concepção de sindicalismo combativo, que recusa toda é qualquer aliança com a burguesia e como seus serviçais governistas.

 

Pela Construção do Sindicalismo Combativo!!!

 

 

Primeiro de Maio: dia de luto e de luta

 

Historicamente o Primeiro de Maio é um dia em que os trabalhadores relembram suas lutas contra a exploração do capital, contra opressão de patrões e governos. Tempo de resgatar a memória de milhares de companheiros que ao longo da história deram suas vidas na luta por melhores condições de trabalho e por uma sociedade mais justa. Não é um dia de festa que deva ser celebrado com shows que escamoteiam as reais condições de vida e trabalho da maior parte da população.  Não temos nada a comemorar. No Brasil, 54% dos trabalhadores não têm direitos a 13O salário,  55% não têm direito a férias, são 20 milhões de desempregados e 30 milhões sem emprego fixo, trabalhando como ambulantes ou biscateiros.

Os atos pelo Dia do Trabalhador organizados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) há muito tempo já se tornaram verdadeiros shows de promoção e auto-divulgação da Central que vem defendendo ferrenhamente as propostas de reformas do governo federal e dos interesses de empresários e patrões. Os eventos têm sorteios de brindes que vão de camisetas a automóveis, e contam com shows de artistas e investimentos de altas cifras patrocinadas pelo governo e por empresas privadas, interessadas em manter os trabalhadores sob controle e com a ilusão de que tudo vai bem e que pode melhorar ainda mais.

Sabemos que a saída para o problema das desigualdades, da exploração não é individual. Não é o fato de um trabalhador ganhar um carro que sua vida será melhor, que terá uma aposentadoria digna, que seus filhos terão educação de qualidade e sua família uma moradia decente e acesso a um sistema de saúde que não lhe deixe morrer por causa das intermináveis filas de atendimento e das disputas político-partidárias entre as diferentes esferas de poder. A solução para tais problemas está na organização, solidariedade e luta da classe trabalhadora contra os patrões e governos.

As reformas trabalhista e sindical que estão sendo preparadas pelo governo com o aval das centrais sindicais visam retirar dos trabalhadores os direitos conquistados ao custo de muita luta e mobilização. Se as reformas forem aprovadas, ficaremos lesados em nossos direitos como 13O, FGTS, férias e direito à greve. A negociação entre as centrais governistas prevalecerá sobre a legislação trabalhista e quem se beneficiará são os governos, empresários e os patrões.

Este ano, as correntes do campo reformista, embora tenham retornado a organizar os atos no Primeiro de Maio, resolveram montar um “ato-show” na Lapa que contou com a participação apenas de militantes. Tais correntes se recusaram a organizar um primeiro de maio realmente classista e combativo que tivesse como perspectiva um ato que visasse o enfrentamento com as forças repressivas. O que ocorreu foi um ato que não se mostrou diferente do da CUT, por exemplo, a não ser pelas bandeiras. Um dos equívocos dessas correntes é achar que o mero discurso é capaz é de gerar um processo de conscientização dos trabalhadores para a luta contra o capital.

A unidade real do proletariado é o resultado do avanço da consciência de classe, que é forjada a ferro, sangue e fogo na luta contra a burguesia e contra aqueles que traem a classe trabalhadora colocando-se à serviço dos capitalistas.

Por isso, a memória de centenas de trabalhadores brasileiros que se dedicaram à causa do povo, construindo greves e ocupando ruas, não pode ser esquecida com “ato-show de luta”. O primeiro de maio é um dia de luto e de luta, com os trabalhadores sendo incentivados a irem para as ruas, fechando estradas e vias, ocupando pistas e prédios, mostrando sua resistência e potencial combativo. O motivo alegado por algumas correntes para tornar o Primeiro de Maio um dia sem luta é que neste dia as ruas estão vazias em virtude do feriado. É uma grande mentira, inclusive porque muitos trabalhadores trabalham duro, mesmo sendo feriado, porque suas condições precárias de trabalho não permitem que gozem de folga neste dia. Outra questão que tem que ser levada em consideração é a necessidade de convocação efetiva do Primeiro de Maio a partir das bases, mobilziando os trabalhadores organizados para a luta. Fato é que não há empenho e vontade política para o enfrentamento e a luta, fazendo com que se mobilizasse, no final das contas, menos trabalhadores do que se mobilizou para a participação nos Congressos e Encontros realizados em São Paulo nos últimos anos, durante domingos e feriados, como foi o caso da delegação para o CONAT e para o Encontro Contra as Reformas Neoliberais. E tudo isso sob o argumento de que o caráter do ato deve ser festivo para “atrair a massa”, chegando a se fazer votos de que assim “teremos 7 mil trabalhadores no Ato”. Doce ilusão: essa estratégia de derrota leva, desde o início, à desmobilização. E aí se pergunta: acaba sendo festivo pra quem? A verdade é que tudo se torna justificativa quando o que orienta as ações e estratégias é a capitulação e recuo frente às lutas que devem ser construídas de forma combativa.

         Somente a Revolução Social pode libertar os trabalhadores e derrubar o capitalismo rumo a construção da sociedade sem classes. Por isso, viva o Primeiro de Maio classista, histórico e combativo. Viva a luta dos trabalhadores!

 

 

A Luta pelo Passe Livre no Rio de Janeiro

        

         No dia 28 de março o centro do Rio de Janeiro foi sacudido por uma das maiores e mais combativas manifestações que aconteceram na cidade desde atos contra a privatização da Vale do Rio do Doce e do Sistema Telebrás. Cerca de 5000 estudantes de Escolas Públicas do Rio de Janeiro reuniram-se no centro da cidade para protestar contra o fim do passe livre. Nessa manifestação ficaram clara três características atuais da luta de classes no Brasil: 1) o ataque sem limites as conquistas dos trabalhadores; 2) a revolta contida nas massas; 3) a total capitulação das organizações (governistas e para-governistas) do movimento estudantil.

         Desde o inicio da implementação do Rio-Card (Bilhete Eletrônico) pelas Fetranspor – Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro - e Rio Ônibus - Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio de Janeiro - com apoio da Prefeitura e do Governo do Estado o passe livre vem sendo extinto. Com forte campanha nos jornais e televisões as empresas vêm anunciando prejuízos com a gratuidade. Primeiro conseguiram a sua limitação e agora a lei, misteriosamente, é considerada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça do Estado. Ou seja, assim como ataque aos direitos trabalhistas, previdenciários e sindicais, os trabalhadores são agora atacados com a possibilidade do fim do passe livre, impedindo que seus filhos possam freqüentar as escolas.

         Sob esse forte ataque contra seus direitos os filhos dos trabalhadores, os estudantes das escolas públicas, mostraram toda sua combatividade e rebeldia no ato do dia 28 de março ao fecharem as principais ruas do centro do rio e atacarem com pedras o Tribunal de Justiça do Estado. A juventude enfrentou a tropa de choque com barricadas e pedras, se defenderam com mastros de suas bandeiras, atacaram os policiais e a guarda municipal. Destruíram as vidraças dos bancos, o carro da rede Globo e o ônibus da polícia, atacaram de forma combativa e revolucionária grandes instituições do poder burguês demonstrando a capacidade de luta para garantir seus direitos. Demonstraram que com a ação direta – bloqueios de pista bloqueios de ruas e rodovias, enfrentamento com os aparelhos repressivos de Estado, manifestações de rua radicalizadas, queima de carros, ônibus e estações de trem – é possível enfrentar a exploração e repressão organizada pelos empresários e pelos governantes. Assim como na França, Chile e Grécia os filhos do proletariado se revoltaram contra sua condição de vida. Descarregaram nos policiais e nas vidraças dos bancos e da justiça burguesa todo seu ódio contra a opressão cotidiana que passa sua classe.

         Porém, no dia do ato as organizações reformistas e pelegas, sejam as governistas (UBES, UNE, AMES, AERJ e UJS) ou as para-governistas (PCR, P-SOL e CONLUTE-PSTU) demonstram sua completa falta de combatividade, ao chamarem os estudantes para calçada, e demonstraram todo seu oportunismo ao abandonar a luta contra as forças repressivas. Além disso, mostraram seu lado autoritário ao impedir a fala de um estudante do Grêmio do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ), por divergirem politicamente, enquanto parlamentares do PSOL falavam a vontade.  Esses partidos reformistas e suas correntes estudantis demonstraram que preferem à negociação, a intervenção parlamentar e seus métodos ordeiros a incentivar a estratégia combativa para enfraquecer os empresários e governantes. Para piorar, começaram a acusar os estudantes combativos de baderneiros e vândalos. E como demonstração da total capitulação dessas organizações foi à afirmação em uníssono, nas plenárias que se realizaram posteriormente para organizar outros atos, que iriam delatar os estudantes combativos. Além desse ato gravíssimo, ou seja, estar entregando os estudantes à polícia e colaborando com os empresários e governos, conseguiram desmobilizar os estudantes. Durante o mês de abril, após o ato, a Plenária Pelega do Passe Livre que vem se realizando no CEFETQ tentou de todas as maneiras impedir o crescimento da luta, chegando a descumprir as decisões da própria plenária - um grande ato na Candelária no dia 26/04 - fazendo acordo de cúpula – PSOL, PSTU, PCR - nas vésperas para descentralizar a manifestação. 

         Isso mostra o nível de colaboracionismo de classe que chegaram essas organizações, inclusive a CONLUTE. Com isso ficou provado o único papel que estes vêm cumprindo dentro do movimento estudantil: impedir que a luta tome parâmetros de forte contestação social, de revolta popular, para que ela se torne uma mera luta limitada e despolitizada briga pelo passe livre estudantil, dentro do marco legal. É na prática política concreta, habitual e cotidiana que os oportunistas vão sendo desmascarados, e por isso o medo de novas e grandes manifestações.

         Os estudantes combativos demonstraram que é possível conquistar vitórias, mas apenas enfrentando os empresários e governantes e não capitulando com as propostas oportunistas de levar a luta dos trabalhadores para o plano legal (o parlamento e a justiça). Por isso é fundamental a realização das Plenárias Combativas, quem vinham se realizando no ISERJ, para que possa cada mais levar os estudantes para as ruas, pois o ato do dia 28/04, mostrou que é só através da experiência, da prática política combativa, que os estudantes conquistarão seus direitos. A Luta pelo Passe Livre, as manifestações combativas, pode ser um importante momento para a experiência de lutas dos trabalhadores, mostrando na prática a possibilidade de enfrentar os patrões.

 

Todo Poder ao Povo !!!

 

 

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