Causa do Povo
PUBLICAÇÃO
da União Popular Anarquista – UNIPA
28 #
OUTUBRO / NOVEMBRO DE 2006
Rio de
Janeiro - Brasil
unipa_net@yahoo.com.br
Segundo turno: oposição entre “direita” e
“esquerda” ou disputa entre frações burguesas?
O processo eleitoral de
2006 transcorreu de acordo com os interesses do capital internacional e
associado, garantindo a reprodução do modelo neoliberal e, conseqüentemente, o
aprofundamento das reformas liberais. Tudo isso com o apoio velado da grande
maioria das lideranças sindicais e de movimentos populares, que não dão sequer
um aceno de resistência. . É obvio que essa estabilidade do bloco neoliberal no
poder conta com um trunfo fundamental: a inserção do Partido dos Trabalhadores
(PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) à
serviço do mesmo bloco no poder. Portando, o colaboracionismo de classe
implementado pelo complexo PT-CUT (corporificado no primeiro governo Lula e
reproduzido com seu segundo mandado) e tem sido vital para a reprodução do
sistema capitalista brasileiro e para assegurar as mudancas
exigidas nas atuais formas de acumulação capitalista mundial.
A
forte organicidade do complexo PT-CUT com a
reprodução da exploração capitalista pode ser percebida não só na implementação
das reformas liberais (segunda fase das Reforma da Previdência, início da
Reforma Trabalhista com a aprovação do Programa Supersimples, início da Reforma
Universitária com o Pró-Uni), mas também com a manutenção da acumulação
capitalista via corrupção estatal (os casos mais divulgados foram o do mensalão e da máfia das sanguessugas) e da institucionalização estatal do clientelismo eleitoral que se
sustenta na miséria do povo (programas assistências como Bolsa Família,
Farmácia Popular, Restaurante Popular, Vale Gás, etc).
É
importante ressaltar que o controle da máquina estatal foi fundamental o
processo eleitoral do primeiro turno, tanto para Lula quanto para Alckmin, pois
o petista teve a votação mais expressiva no Nordeste, ou seja, na região
historicamente marcada pela miserabilidade da população, onde foi grande o
impacto das políticas clientelistas federais,
distribuídas com o apoio dos caciques locais como Sarney, Jader Barbalho, entre
outros. E o candidato do PSDB conquistou sua vaga no segundo turno graças aos
votos recebidos no estado de São Paulo, cujo governo estadual e a prefeitura
estão sob o controle dos tucanos.
Fazendo uma pesquisa nas matérias dos
principais jornais estadunidenses e europeus sobre as eleições brasileiras,
encontramos outras comprovações da facilidade com que o sistema neoliberal está
se reproduzindo, pois todos os grandes investidores do capital financeiro e os
representantes dos maiores especuladores internacionais, que deram seus
depoimentos, foram unânimes em afirmar que com um segundo governo Lula o “Brasil
não muda de direção” (mesmo se Alckmin tivesse vencido essa direção não
mudaria). Isso quer dizer que com Lula ou com Alckmin teremos o aprofundamento
das reformas liberais.
Portanto,
é completamente falsa a tentativa de polarizar as disputas eleitorais e entre
partidos instituicionais como uma luta da “esquerda
contra a direita”, ou dos “mais progressistascontra
os mais conservadores”, como estão tentando se justificar alguns intelectuais
ligados ao PT que efenderamo o programa neoliberal da
candidatura Lula. Isso porque tanto Lula quanto Alckmin representam interesses
de frações burguesas. Está tem sido argumentação usada por intelectuais do PT
para justificar – ou tentar atrair – algum tipo de desculpa para aderir ao
programa burguês da candidatura Lula (Emir Sader, por
exemplo). Não existiam contradições programáticas entre Lula e Alckmin, pois
ambos representam interesses da burguesia. Mais do que nunca, a polarização
real é a de classe; são os interesses, as reivindicações e as organizações do
proletariado que se opõem radicalmente aos interesses da burguesia.
Se de um lado o bloco de poder neoliberal se
reproduz sem dificuldades, a esquerda reformista amargou um fracasso eleitoral e político da
chamada “Frente de Esquerda” (PSOL, PSTU e PCB). A candidatura Heloisa Helena
fez uma campanha dentro da ordem burguesa, sem nenhum tipo de denuncio ao
regime, restringindo-se às críticas morais e éticas de caráter pequeno burguês,
aos juros altos (aqui fez coro juntamente com o Alckmin) e ao capital financeiro
(aqui fez coro juntamente com a FIESP). HH recebeu pouco mais de 6% dos votos e os três únicos deputados eleitos pela Frente
constituem os setores mais diretistas do PSOL. Vale
lembrar que dois deles, Chico Alencar/RJ
e Ivan Valente/SP, já se abstiveram na votação do
ensaio geral da Reforma Trabalhista (o Supersimples de Dornelles), afirmando
seu caráter oportunista até contra a indicação do PSOL, que teria chamado seus
parlamentares a votarem contra, pelo visto, sem sucesso.
No
aspecto político o fracasso da Frente se expressou na fragmentação das posições
dos partidos que a compuseram para o segundo turno: o PSOL manteve-se neutro,
“liberando” o voto da militância (por sinal irá garantir votos para o Alckmin,
pois segundo pesquisa Datafolha 48% daqueles que votaram em HH pretendem votar
no tucano) e proibindo que os quadros do partido manifestem suas opiniões sobre
o pleito, o PSTU está defendendo o voto nulo e o PCB fez uma campanha “para
derrotar Alckmin e continuar à oposição ao governo Lula”, na prática defendeu o
governismo.
O
processo eleitoral 2006, com a vitória do bloco neoliberal e com o fracasso da
Frente de Esquerda, está reforça a tese bakuninista
de que a participação nas eleições burguesa reforça a ideologia de que a via
eleitoral é uma alternativa para a classe trabalhadora.
A
reeleição de Lula e o apelo da burguesia pela “necessidade de unir o país”
(expresso em várias reportagens da mídia burguesa) está confirmando a tese da
UNIPA de que o colaboracionismo é o instumento
fundamental para a transição do regime econômico do capital monopolista de
Estado para o capital ultra-monopolista. Tal
transição só é possível com o aprofundamento das reformas liberais, e Lula, nas
palavras de Delfim Neto, apresenta-se como o único capaz de realizar as
reformas. Portanto, a tarefa que está colocada é de enfrentamento e combate ao
governo Lula para impedir as reformas e avançar nas conquistas do proletariado.
Mão estendida ao companheiro!!
Punho cerrado ao inimigo!!!!
A situação econômica mundial
em 2007:
reflexos na América Latina e
Brasil
A compreensão da conjuntura de cada pais exige
o entendimento da situação econômica mundial. Exige a identificação das
principais tendências econômicas e fatores geradores de crise. No ano de 2007 vários
são os fatores da economia mundial que afetarão a conjuntura latino-americana e
brasileira.
Em primeiro lugar,
existe uma tendência de queda no crescimento economico:
em 2006 foi de
5,1% e em 2007 será de 4,9%. Há possibilidade em 6 de redução significativa do
crescimento econômico, segundo o FMI, devido as seguintes causas: 1)
desaceleração da economia dos EUA (queda de crescimento do PIB de 3,4% em 2006
para 2,9% em 2007; U.E seria de 2,4% em 2006 e 2% em
2007; 2) inflação global; 3) aumento dos preços do petróleo (devido a
instabilidade política no Oriente Médio); 4) aumento dos impostos na Alemanha
que levarão a uma redução do crescimento naquele país e aumento do
protecionismo na U.E; 5) restrições financeiras devido as políticas adotadas
pelos Bancos Centrais especialmente o FED (dos EUA) e o Banco Central Europeu
Somente na Ásia entres
os países emergentes e especialmente China o crescimento continuaria girando
acima de 7%. O Japão experimentará uma queda de
atividade econômica de 2,7 em 2006 para 2,1% em 2007. Mas o Próprio FMI admite
que tais prognósticos podem ser muito otimistas caso não se
verifiquem certas condições: 1) ajuste fiscal; 2) reformas estruturais;
3) ação multilateral de planejamento para conter os fatores de crise; 4) que os
Bancos Centrais adotem políticas anti-inflacionárias; 5) que a demanda se
equilibre nos paises capitalistas avançados e nas “economias emergentes” e em desenvolvimento
não estrangulem a “capacidade”. Se estas condições não se verificarem, a queda
do crescimento será mais acentuada.
A retração econômica,
de acordo com o próprio documento do FMI, aponta a urgência das reformas e de
ações multilaterais. Assim, a obstrução as reformas estruturais exigidas pelo
FMI – seja pelos movimentos sociais seja por Governos
Nacional-Desenvolvimentistas entrará em choque direto com os interesses do
capitalismo monopolista.
A situação econômica
mundial poderá produzir alguns feitos importantes no Brasil e América Latina:
1) a instabilidade política no Oriente Médio pode fazer com que o controle
sobre a produção de petróleo da América Latina torne-se mais importante como
fonte subsidiária; 2) aumento da pressão sobre os “não alinhados” (chamados
pelo mercado financeiro internacional de “populistas”), especialmente a Bolívia
de Evo Morales e a Venezuela de Hugo Chavez, com relação certos aspectos de política interna
(controle estatal de atividades econômicas), externa (apoio a
política imperialista) e alianças (com movimentos sociais); 3) uma relativa
decomposição interna do bloco regional “alinhado” com a política
de reformas neoliberais e reestruturação produtiva mundial, e capitaneado por
antigas forças de oposição, especialmente por Lula e o PT no Brasil, Bachelet e P.S no Chile, Tabaré Basquez no Uruguai acelerando a explicitação do caráter
imperialista das “frentes populares”; isto pode marcar as recomposições dos
blocos no poder, com o retorno de antigas elites conservados e ideologias de
direita.
O ano de 2007 será
assim um ano de retração econômica, de pressão pelas reformas neoliberais na
América Latina, que possivelmente acentuarão as instabilidades políticas. A
pressão interna sobre o Governo de Evo Morales (que
enfrenta sérias ameaças de Golpe de Estado) e externa sobre o de Hugo Chavez também devem aumentar, exatamente por conta das
necessidades estratégicas dos EUA no Oriente Médio (o que faz que qualquer
critica a sua política externa seja uma ameaça ideológica importante) e as
pressões das multinacionais e agencias financeiras no sentido de acelerar as
reformas neoliberais como forma de retomar o crescimento econômico.
Oaxaca/México em chamas: da
resistência grevista ao poder popular
No momento em que Bush
investe milhões de dólares no Muro da vergonha, na fronteira com o México, a mídia
burguesa internacional tem dado vistas apenas às disputas entre os dois
candidatos que rivalizaram a disputa das eleições burguesas naquele país. O
teatro da disputa pelo governo federal encerra apenas um pequeno apêndice no
meio de uma das maiores ondas de mobilizações e lutas populares da história do
México desde a expropriação do petróleo nos anos 1930. Neste momento, o povo
organizado do estado de Oaxaca, que concentra grande
parte da população mais pobre do país, toma a dianteira da luta e apresenta uma
real alternativa às ilusões das disputas eleitorais burguesas representadas por
Calderón (do Partido da Ação Nacional-PAN,
apoiado pelo imperialismo e o atual presidente Fox do
Partido Revolucionário Institucional-PRI) e por Obrador (apoiado pela fração burguesa descontente do
Partido da Revolução Democrática-PRD).
Desde
fevereiro deste ano, setores dos trabalhadores mexicanos têm lançado greves e,
diante de violentas repressões e perseguições às lideranças sindicais mais
combativas, o povo tem respondido com mais greves e com algumas ações de
resistência e solidariedade. Frente à intervenção do governo do PRI nos
sindicatos, já foram mais de 137 greves “ilegais”, quase todas acompanhadas da
ocupação das instalações pelos trabalhadores em luta, como foi o caso da greve
de 142 dias da segunda maior siderúrgica da América Latina. Foi neste contexto
que a Seção 22 do Sindicato Nacional dos Trabalhadores na Educação, setor
independente da federação nacional governista-priista,
deflagrou em 22 de maio uma greve, convocando seus cerca de 70000 filiados para
manifestações por aumento do salário dos professores e das bolsas que são
oferecidas aos alunos, assim como por melhores condições para o magistério e
distribuição gratuita de material didático-escolar.
Esta greve dos professores, porém, tomou
proporções para além das questões que caracterizaram as mobilizações até então,
pautadas principalmente em reivindicações salariais e por melhores condições de
trabalho. Quando o governador do estado, Ulises Ruiz Ortiz (“URO”), se negou a atender aos professores e mandou
reprimir com violência o acampamento dos grevistas, se deparou com uma
resistência heróica que derrotou as forças policiais depois de mais de quatro
horas de confronto aberto. A partir daí, se inicia um amplo movimento pela
destituição imediata do governador URO e que se radicaliza ao ritmo das
chamadas “megamarchas” com a adesão crescente de
centenas de organizações indígenas, populares, sindicais e estudantis, assim
como de camponeses, crianças, mulheres e idosos, organizando-se a Assembléia
Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) em 17 de junho. Um
dia depois da 3ª “Megamarcha” com 300 mil
manifestantes e dois dias depois do anúncio de uma tentativa de conciliação
traidora da direção da Seção do SNTE, sem o respaldo da base, que decide
definitivamente pela integração à APPO.
Desde o início de agosto, a
vida política da capital e de algumas cidades no interior do estado vem sendo
geridas a partir da APPO. Os prédios de governo e de justiça burguesa
foram fechados, e são os organismos a serviço da APPO que administram rádios
ocupadas, a segurança, a autodefesa, o aeroporto, o trânsito e o transporte
públicos. O governador e parlamentares estão escondidos e buscam por meio de
celulares se reunir clandestinamente a fim de solicitar a intervenção das
forças policiais e militares federais. Grupos paramilitares tentam, sem
sucesso, intimidar o povo metralhando prédios ocupados e barricadas. Já são
mais de 100 dias, desde a decisão da APPO de tomar por tempo indeterminado
as instalações dos poderes burgueses, diante do impedimento “legal” de
destituir o governador URO (Ata da sessão da APPO de 25/07).
No meio da confusão das fraudes eleitorais, o
presidente Fox e seu sucessor Calderón
esperam o momento certo para reprimir: fomentam a divisão interna no movimento,
intimidam com sobrevôos de helicópteros e aviões militares, seqüestros e
assassinatos de lideranças, movimentam tropas federais. Sucedem-se as
tentativas de para buscar isolar a rebelião, recolocar URO no poder e não
reconhecer “rupturas” na ordem democrático-burguesa. A Secretaria de Governação (uma espécie de gabinete de segurança
institucional do governo federal mexicano) propõe buscar “con
diversas instancias la posibilidad
de avanzar hacia una
reforma constitucional -que permita formas de consulta como el
plebiscito, el referéndum y
la revocación de mandato, así como una auditoría a la gestión de Ulises
Ruiz- y una oferta para los
integrantes de la sección
22 del Sindicato Nacional de Trabajadores
de la Educación (SNTE).” (“La forma de ‘restablecer el orden’ en
Oaxaca se definirá el miércoles”. La Jornada.
01/10/06). Essa verdadeira humilhação para o povo rebelde de Oaxaca seria orquestrada através de um “pacto” entre as
lideranças da APPO e os empresários, banqueiros, autoridades religiosas, donos
dos meios de comunicação e dirigentes dos partidos burgueses.
Neste sentido, frente à ameaça de intervenção,
o povo organizado de Oaxaca deve superar as
armadilhas que a burguesia lhe coloca, e não esperar outra luta senão a dos
próprios trabalhadores e do povo explorado do México. Sendo assim, a defesa do protagonismo do povo organizado depende da construção de um
partido revolucionário que seja capaz de impulsionar a insurgência e organizar
os trabalhadores e explorados nos demais estados; de convocar greves de
solidariedade; e de garantir, efetivamente, todo o poder à
APPO – já que, até então, tal organização se constitui enquanto um organismo de
Poder Popular. É preciso, portanto, estabelecer as condições para que a
estratégia revolucionária seja uma alternativa vitoriosa para as lutas do
proletariado diante das ilusões das eleições burguesas e do capitalismo.