Causa do Povo
PUBLICAÇÃO
da União Popular Anarquista – UNIPA
27 #
SETEMBRO de 2006
Rio de
Janeiro - Brasil
O
impasse da Volkswagen: controle operário X reestruturação produtiva
Um sério impasse está colocado ao movimento operário e aos trabalhadores em geral. No dia 29/08/2006 a empresa Volkswagen anunciou a demissão de 1.800 trabalhadores em uma de suas empresas, localizada na cidade de São Bernardo do Campo, São Paulo. “A reestruturação da Volks na Alemanha pode afetar 20 mil pessoas. O número inclui funcionários demitidos voluntariamente, transferidos e aposentados precocemente.” (Folha de São Paulo.Volks oferece bônus de R$ 150 mil para demissão na Alemanha, 01/09/06). O que acontece no Brasil é fruto de uma política internacional das empresas, de reestruturação produtiva. Estão previstas também demissões para Taubaté (SP) e São José dos Pinhais (PR), que poderão deixar 1.200 desempregados.
Segundo o
Presidente Lula “Quando a empresa está produzindo mais, ela contrata
mais. Quando ela está produzindo menos, ela descontrata as pessoas. Sempre foi
assim e sempre será assim. Não podemos fazer disso um cavalo de batalha. Nós
precisamos fazer a economia crescer cada vez mais para gerar mais perspectivas
de emprego para os trabalhadores, mas nós vamos ter setores que serão
desativados e outros serão ativados”. (Demissões na Volks
não significam crise na indústria Automobilística, afirma Lula -
agenciabrasil.gov.br, 02/09/2006).
Mas ao contrário do que
afirma o presidente, as demissões não são fruto de uma política que “deu
errado”. Na realidade, dentro do processo de reestruturação da empresa, os seus
lucros operacionais subiram 51% no primeiro semestre do ano de 2006 alcançando
o valor de US$ 2,5 bilhões. A posição de Lula é um aviso claro para todos
aqueles que ainda têm alguma ilusão em seu governo: as reformas do estado e a
reestruturação produtiva são o objetivo do seu governo. As conseqüências para
os trabalhadores (como o desemprego) não são motivo para fazer “cavalo de
batalha”.
A solução para o impasse,
mesmo que parcial, não está numa intervenção do Governo (o anuncio da suspensão
do empréstimo do BNDES a Volks não mudará os planos
da empresa nem impedirá futuras concessões do Governo). A suspensão das
demissões, por pressão da greve que eclodiu em 29/08/06, é possivelmente
temporária e a empresa deverá retomar a política assim que se sentir mais
fortalecida.
Somente a
ação da classe, dos operários das fábricas pode barrar a crueldade das
demissões. A Volks ameaçou fechar definitivamente a
fábrica de São Bernardo caso os trabalhadores não suspendessem a greve. Mas
tiveram de recuar, por enquanto. A radicalização da burguesia imperialista só
pode ser combatida pela radicalização do movimento operário. A greve deve se
transformar numa greve de ocupação, com os operários mantendo e controlando a
produção. Um processo similar aconteceu em algumas fábricas na Argentina. A
fábrica da Volks deve ser nacionalizada e colocada
sob controle operário, garantindo o emprego e a produção
Todo apoio à luta dos trabalhadores da Volks!
Pelo controle
operário da produção!
Os
resquícios petistas do setor majoritário da Conlutas
Em seus comunicados e em outros números do Causa do Povo,
a União Popular Anarquista vem defendendo a ruptura imperativa com o
governismo, isto é, com as entidades do movimento sindical-popular (CUT, UNE,
CMS, etc) que atrelam o proletariado brasileiro ao governo Lula e,
conseqüentemente, criam mecanismos orgânicos de colaboração de classe. Partindo
dessa defesa, a UNIPA considera que “a CONLUTAS será possivelmente uma
alternativa para romper com o governismo, mas não se constituirá numa central
de tipo sindicalista revolucionária, ou seja, que rompa com o modelo
corporativista” (comunicado número 09).
Portanto, apontávamos para as contradições da CONLUTAS,
especialmente do seu setor majoritário (composto pelo PSTU e por correntes do
PSOL), que impõem limites ao seu processo de consolidação e, por extensão, ao
seu papel na lutas de classes. Essas contradições se manifestaram na preparação
do CONAT, durante a sua realização e agora estão presentes nas práticas do
setor majoritário no desenrolar das lutas populares e sindicais. São essas
práticas que o presente texto pretende analisar.
Os encaminhamentos dados pelo PSTU na CONLUTAS-RJ são
elucidativos das contradições que a UNIPA vem denunciando. Um exemplo disso foi
em relação à disputa eleitoral pela direção do Sintergia/RJ
- Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Energia do Rio de Janeiro – onde
o setor majoritário articulou, defendeu e aprovou o apoio a
chapa 2, uma chapa de caráter cutista e
governista, isto é, uma chapa encabeçada na sua presidência por uma corrente
governista (Corrente Sindical Classista – CSC, do PCdoB) e composta na sua maioria por militantes cutistas (além da CSC a SSB do PSB e militantes do PDT).
É fundamental refutar os argumentos utilizados pelo setor
majoritário para justificar o apoio a uma chapa hegemonicamente governista:
1) “A classe trabalhadora
deve estar unida”. Diante desse argumento cabe uma pergunta: desde
quando os burocratas do PCdoB e do PSB são
representantes da classe trabalhadora?.
Esse argumento é tão absurdo que se assemelha àquele utilizado pelos
setores da chamada “esquerda da CUT” (hoje organizados na Intersindical) e pela
própria direção dessa central governista, para justificar sua permanência nessa
entidade burocrática e colaboracionista, acusando os conlutistas
de divisionistas.
2) “É mais fácil ser
minoria na direção de um sindicato do que ser oposição”. É nítido o caráter
oportunista de tal argumento. Esse tipo de perspectiva nos anos de 1980 teria
inviabilizado a própria CUT, que tinha nas oposições sindicais uma base
fundamental e hoje inviabiliza o desenvolvimento da CONLUTAS num contexto de
reforma sindical, pois essa irá verticalizar os
sindicatos. Além disso, mostra total desprezo pelo suor e pelo sangue derramado
pelo proletariado ao longo de séculos de luta, pois não se pode esquecer que os
trabalhadores não tinham os direitos de organização e de greve. Portanto, se
hoje existe a liberdade tutelada de organização dos sindicatos, esse foi um
direito conquistado a ferro e fogo.
3) “A chapa fechou em
torno de três eixos: oposição às reformas neoliberais, independência dos
patrões e dos governos e promover o plebiscito de desfiliação
da CUT”. Os dois primeiros pontos são tão genéricos que se adaptam à
retórica de todas as forças governistas que se encontram na CUT, e um
plebiscito de desfiliação que não tem a proposta de
adesão à CONLUTAS não significa nada, pois a entidade
pode ficar na mesma situação do SEPE (Sindicato Estadual do Profissionais da
Educação): se desfiliou da CUT e agora está “sem
rumo”. Pode ainda ficar na situação do Sintuperj
(Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Públicas Estaduais -RJ), onde a
chapa conlutista foi derrotada nas últimas eleições e
o ascenso do governismo comprometeu o apoio desse
sindicato à CONLUTAS. Soma-se a isso a certeza de que
estes três eixos sequer têm posição central no programa dessa chapa, que tem
apenas uma corrente (Democracia e Luta – DL) que rompe com o governismo e a CUT.
Efetivamente não existem
argumentos para sustentar um pacto com forças governistas. Então por que
fazê-lo? A resposta é simples: o setor majoritário da CONLUTAS não rompeu com a
política de cúpula (construção da entidade pelas direções) que caracterizou as
práticas do “campo majoritário” do PT (hegemonizado
pela Articulação Sindical, corrente do Lula e do José
Dirceu) que conduziram a CUT ao colaboracionismo com a classe burguesa,
subordinando a luta sindical às disputas por aparelhos.
A transigência do setor
majoritário da CONLUTAS com as correntes que estão à sua direita no movimento
popular-sindical se expressa na facilidade com que abre mão de bandeiras de
luta para garantir a união com setores governistas, é a reprodução das alianças
traçadas no plano político-partidário que resultaram na formação da auto-denominada “Frente de Esquerda” (PSOL, PSTU e PCB). O
oportunismo eleitoral e o rebaixamento do “programa de governo” têm sua
caricatura na aliança com os governistas e cutistas
que exigem o recuo das lutas sindicais.
Os resquícios petistas
presentes do setor majoritário da CONLUTAS se caracterizam pelas seguintes
práticas: 1) acordos de cúpula em detrimento do trabalho de base; 2)
subordinação da luta sindical às disputas pelos aparelhos e /ou cargos nas
direções; 3) manutenção das práticas burocráticas e abandono da ação direta
(presente apenas na retórica); 4) redução da política sindical à composição de
chapas; 5) aceitação do sindicalismo de estado e 6) reprodução do
corporativismo.
A construção de uma central
de classe de tipo revolucionária passa necessariamente pela construção do
movimento pela base, pela construção e o fortalecimento das oposições
sindicais, pelo rompimento com o sindicalismo de Estado e pela ação direta das
massas. Sem essas medidas a CONLUTAS corre o risco de repetir a história, na
forma de farsa, de capitulação da CUT.
Pela
retomada da ação direta das massas!
Todo
apoio às oposições sindicais!!!
Povo
cubano: só a Revolução defende a “Revolução”
A notícia da internação hospitalar de Fidel Castro, em
agosto, reacendeu os debates que vira e mexe voltam aos jornais não só da mídia
burguesa, mas também da imprensa operária em geral. Afinal, muitos dizem: “O
que será de Cuba sem o comando de Fidel?”. Para responder essa pergunta, às
vezes acabam achando que a questão se resume em ser “a favor” ou “contra”
Fidel.
Desta forma, alguns vão reafirmar que Fidel é um ditador,
que não tem democracia em Cuba, que lá não existe liberdade e que ninguém pode
se manifestar sem ser perseguido e preso. Por isso, gastam folhas e mais folhas
para escrever denúncias contra Fidel e contra a ditadura castrista.
Assim, defendendo a “liberdade” e a “democracia”, sem maiores considerações ou
esclarecimentos, vão se juntar ao que diz os Estados Unidos e fazer coro em
prol do capitalismo e dos imperialistas. Vão se juntar aos exilados cubanos na
Flórida, em sua maioria gângsteres, filhos e netos daqueles que eram donos dos
bordéis, dos cassinos, das usinas de açúcar e dos latifúndios expropriados após
a Revolução de 1959. Ou seja, esse discurso não se diferencia do que é feito
pelos americanos descendentes da burguesia cubana da década de 1950, que
sustentava a ditadura de Fulgêncio Batista. Hoje, a
chamada Máfia cubana, sozinha, enriqueceu ainda mais nos EUA e concentra uma
riqueza maior do que a de todos os recursos que Cuba
possui juntos. E é bom lembrar que são justamente estes americanos os maiores
responsáveis pela pressão interna nos EUA a favor de uma invasão militar e da
redistribuição dos bens expropriados pela Revolução aos seus “herdeiros”. Para
isso eles vêm elegendo seus próprios representantes no Parlamento dos EUA
através das alas mais reacionárias do Partido Republicano de Bush.
Nesse debate, alguns outros
vão reafirmar que Cuba é um “Estado Socialista”, que Fidel Castro garantiu
conquistas fundamentais para o povo cubano e que, apesar de tudo, ele é o
responsável por uma luta feroz e diária contra o imperialismo americano. E que,
por isso, deve ser defendido incondicionalmente. Porém, essa discussão esconde
o que realmente ocorre em Cuba e o verdadeiro impasse do regime cubano. Esconde
que o maior problema a ser enfrentado pelo povo cubano não é o de quem vai
dirigir Cuba depois de Fidel. E também acaba escondendo as verdadeiras tarefas
que o povo cubano deve tomar para construir a sua defesa frente ao imperialismo
e a sua vitória rumo ao socialismo.
O que Cuba está passando hoje advém de uma decisão que perpassa
sua história. A guerrilha dirigida pelo Movimento 26 de Julho tinha um caráter
de libertação nacional. O governo cubano só se alinhou à URSS definitivamente
em 1961, dois anos depois da própria vitória da Revolução. Afinal, a política
indicada para os comunistas em todo o mundo era a dita “via pacífica” e a
colaboração com as burguesias consideradas “progressistas”. Os comunistas
ligados a Moscou boicotaram e sabotaram inúmeras guerras de libertação nacional
ao redor do mundo, principalmente desde a ascensão de Stalin e da doutrina do
“socialismo em um só país”. Dentro de Cuba, porém, Fidel e seu irmão Raul
Castro vão abrir mão de fomentar os movimentos revolucionários nos demais
paises latino-americanos e na África para se aliar cada vez mais aos mandos de
Moscou. A Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS),
em 1967 em Havana, representou um dos últimos suspiros neste sentido. O
alinhamento à URSS leva a um abandono progressivo desta política de
solidariedade, que se vai se dar no início dos anos 1970. Isso também levou à
saída de Che Guevara do governo cubano e ao fim dos planos de industrialização
do país, que naquele momento seriam voltados para a siderurgia.
A partir daí Cuba cumpre um papel de satélite político e
econômico da URSS: mantém a base da economia na monocultura da cana e na
dependência dos bens de consumo e capital da URSS. A crise do
bloco dito socialista vai fazer com que Cuba, tal qual os demais países
periféricos do Sul entre na corrida para “atrair o capital internacional” e
busque desenvolver as empresas cubanas no exterior. Desde 1985, mas
especialmente depois de 1990, cresce a importância do capital internacional em
Cuba. Em 1994, foi criado o Centro de
Promoción de Inversiones (CPI), vinculado ao Ministerio para la Inversión
Extranjera y la Colaboración Económica (MINVEC) de Cuba. Além
disso, a Lei do Investimento Estrangeiro, Lei nº 77, aprovada em setembro de
1995, passou a oferecer aos investidores mais transparência e direitos do que a
lei anterior (Lei Nº 55), destacando três formas de investimento direto: o
contrato de associação econômica internacional, a empresa conjunta (“joint venture”) e a empresa
exclusivamente de capital estrangeiro. Têm sido realizados
uma série de Acordos bilaterais para assegurar o compromisso do governo cubano
para com seus investidores.
Em termos objetivos, há atualmente cerca de 6 bilhões de
dólares investidos pelas 403 “Associações econômicas internacionais”. Contudo,
a cifra correta deve ser ainda maior, visto que estes dados são camuflados para
a burguesia internacional não sofrer as penalidades previstas nas leis do
embargo americano – o que significaria perder o maior mercado do mundo, o
americano. Os exemplos são vários: referem-se à geração, transmissão e
distribuição de energia, assim como à extração, prospecção e refino de petróleo
e gás (a cubana ENERGAS, com a participação da canadense Sherrit
Power Corp.); e aos serviços de telecomunicações
(que, atraves da “joint venture” cubana de telecomunicações – ETEC S/A – agregou uma empresa ligada ao grupo da italiana Telecon); nas maiores redes hoteleiras e de turismo do
mundo, de capital espanhol; e em muitas outras áreas (indústria pesada,
construção, indústria alimentar, setor agropecuário), concentrados nas 4 “zonas
francas” asseguradas no país e nos edifícios-sedes
das grandes corporações nos bairros nobres de Havana chamados “Centros
Empresariais”. Cuba, hoje, é um pólo de atração de capital externo: alta
remessa de lucros pro exterior com baixo imposto (que se resumem em apenas dois
- 11% do imposto de renda federal e 14% de seguridade social), mão-de-obra
capacitada e barata (70% da população têm nível universitário, praticamente não
há analfabetismo), etc. Nesse rumo, os futuros debates sobre o destino de Cuba,
provavelmente, vão camuflar a disputa para lotear o mercado cubano entre as
próprias corporações capitalistas internacionais de origem
européia, canadense, etc, interessados nos seus próprios investimentos.
É neste sentido também que
uma intervenção americana (leia-se invasão) tem que superar um campo
internacional cada vez mais desfavorável. Por outro lado, dificilmente Bush vai
reeditar um fracasso militar em Cuba, abrindo uma terceira frente de guerra, já
por demais desgastado depois do fracasso em acabar com a resistência armada no
Afeganistão e no Iraque, isso sem falar no embate com o Irã e a existência de Chávez na Venezuela. Todavia, os EUA vão continuar a
fomentar uma convulsão e uma oposição interna – o que sempre buscaram fazer,
esteja Fidel vivo ou morto. O anúncio da reserva de 80 milhões de dólares para
fomentar a “transição democrática em Cuba” não é uma novidade.
Mas o que
sobra, então, ao povo cubano? Esperar a transição gradual para o capitalismo
liberal? Não. A única saída para Cuba é a Revolução. Uma Revolução Social que
coletivize as empresas, destrua o Estado cubano e instaure a liberdade de
expressão, propaganda e organização para todos os partidos proletários,
estabelecendo os organismos populares que irão fomentar de todas as formas
possíveis a revolução socialista nos demais países
latinos americanos e em outras partes do mundo. Dentre eles, inclusive, todos
os organismos necessários para a autodefesa de Cuba frente ao imperialismo. A
crise que Cuba enfrenta é fruto do estalinismo e da
política do “socialismo em um só país”. Por causa disso, por exemplo, deixou de
fomentar e apoiar os movimentos revolucionários que ocorreram na região da
América Central e se volta hoje para a “atração de capital”
Pela
vitória do socialismo e do povo cubano!