Causa do Povo

Jornal da União Popular Anarquista – UNIPA

Nº 25 # JUNHO/JULHO de 2006

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Bolívia: o MAS do mesmo. A Via pelo Estado

 

A luta de classes na Bolívia tomou imensas proporções quando os presidentes Sanchez de Losada e posteriormente Carlos Mesa, em outubro de 2003, foram derrubados através da ação dos mais diversos movimentos populares do povo boliviano,. A COB (Central Obrera Boliviana), a Federação dos Mineiros, a Federação das Juntas Vecinales de El Alto e os movimentos indígenas – como Movimiento Indígena Pachakuti, liderado por Felipe Quispe - promoveram imensas mobilizações pela nacionalização dos recursos minerais e por melhores condições de vida do povo pobre.

         O Movimento Ao Socialismo (MAS) que defende o “desenvolvimento de um capitalismo andino” sempre procurou manter a ordem institucional, chegando a participar do governo de Carlos Mesa. Enquanto vários setores do movimento operário e indígena da Bolívia tentavam intensificar a lutar, o MAS apostou o tempo todo na tomada do Estado pelas eleições. Conseguindo conquistar o Poder Executivo, o MAS tinha dois grandes objetivos:  1) o controle da COB e 2) o controle do Congresso. 

         Assim, para acalmar as mobilizações de alguns setores, como a COB, a Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros e as Juntas Vecinales que mantém a independência e exigem a expropriação das multinacionais, o aumento de salários e a Reforma Agrária, o governo anunciou, em 1º de maio, a falsa nacionalização do Gás.  Na verdade, a chamada “nacionalização” é uma lei que renegocia o preço do gás e re-cria a estatal YPFB, que irá ser responsável pelas negociações dos recursos naturais.

A COB, mantendo a autonomia do governo, vem sendo o calcanhar de aquiles de Morales, que necessita apaziguar os ânimos para manter a ordem institucional.  No congresso da COB, realizado no final do  mês passado, o MAS tinha como objetivo o controle da ainda poderosa Central.  Já o congresso foi controlado pela vitória do MAS na Assembléia Constituinte, atingindo mais da metade das cadeiras, o que consolida a posição do partido e fortalece a proposta reformista de Morales-Linera.

O anúncio do governo boliviano no Dia 1º de maio a respeito das novas regras de exploração dos recursos naturais causou forte impacto sobre alguns partidos políticos de direita e a imprensa brasileira. Os órgãos de classe, como a FIESP, mantiveram-se tranqüilos. O MAS procurava com isso ganhar apoio popular, uma vez que o governo se tornou a esperança do povo boliviano. Porém, não há  como o MAS ficar de árbitro da luta de classe na tentativa de desenvolver seu “capitalismo andino” através de acordos com as multinacionais, transformando-se em “sócios” das empresas como REPSOL e PETROBRAS, como defende o atual governo.

A vitória do projeto político reformista do MAS, com a eleição de Morales/Linera em 2005, significou a vitória de mais uma proposta conciliatória de classe para América Latina, ao manter a ordem institucional e defender a construção de um “Estado Social-Democrata”, que teria por objetivo promover a distribuição de renda. Para os trabalhadores isso significou  uma derrota, momentânea, de suas aspirações. O Caminho do MAS é o da conciliação de classe, o da derrota.

Para tanto, é necessário que o povo verdadeiramente assuma o controle da economia do país e construa o poder popular. A insurreição popular é o único caminho para a libertação efetiva dos camponeses e operários da Bolívia. A ascensão de líderes populares, do movimento indígena ou sindical não representa nenhuma vitória para o povo, a não ser derrotas. “A libertação dos trabalhadores é obra dos próprios dos trabalhadores”

 

Todo Poder ao Povo Boliviano! Pela Insurreição Popular!

 

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CONAT: A construção da Central do

proletariado Brasileiro

 

A realização do Congresso Nacional de Trabalhadores (CONAT), nos dias 5, 6 e 7 de maio em Sumaré-SP, organizado pela Coordenação Nacional de Lutas (CONLUTAS), contou com a participação de mais de 3,5 mil pessoas, sendo mais de 2,7 delegados eleitos pelas bases. Ao aprovar a formação da CONLUTAS enquanto uma central de classe, que agrega sindicatos, movimentos sociais, movimentos populares, camponeses, movimento estudantil e indivíduos, o CONAT constitui um importante passo na luta contra o governismo. Entretanto, é necessário uma avaliação do Congresso, que considere a sua composição, sua dinâmica interna e as perspectivas da nova central de classe.

         Os números do CONAT mostram que apesar das pretensões da CONLUTAS em aglutinar amplos setores do proletariado brasileiro, na sua composição inicial a nova central não agrega de maneira equilibrada as frações do proletariado. Entre os delegados eleitos a maioria era de militantes sindicais, considerando direções de entidades, oposições e minorias, e dentro do sindicalismo destacava-se o funcionalismo público, sendo o setor privado minoria. O segundo setor numericamente representado era o estudantil e com representações ínfimas estavam os movimentos sociais, populares e camponeses. Temos à partir desse quadro uma central que se pretende de classe, mas com hegemonia sindical, e com maioria do setor público dentro desse campo.

         No que diz respeito à composição política-ideológica, o PSTU constitui o setor majoritário da CONLUTAS. Os demais partidos reformistas, PSOL e PCB não colocaram peso no CONAT: o PSOL insiste na já esvaziada Assembléia Popular e o PCB rompeu com a CUT, mas não aderiu à CONLUTAS. Outro importante campo da nova central é composto por várias organizações e agrupações revolucionárias marxistas-leninistas, anarquistas e trotskistas. Essa minoria da CONLUTAS conta com algumas organizações nacionais, mas em sua maioria as organizações minoritárias têm uma incidência  regional. Apesar da heterogeneidade do campo minoritário, essas organizações possuem alguns pontos de convergência: oposição à burocratização, ao oportunismo eleitoral e defesa da democracia operária.

         O reformismo e o centralismo típicos do PSTU colocaram em risco a democracia interna do Congresso, pois a ausência de discussões preparatórias, a substituição da defesa de teses pela apresentação de painéis (onde os apresentadores eram militantes ou intelectuais ligados ao PSTU), burocratização da relatoria e a utilização de tese síntese, permitiram a reprodução de práticas autoritárias, onde as decisões de cúpula prevaleciam sobre as discussões e debates pela base. Esse estado de coisas foi denunciado pelas forças minoritárias, que mostraram determinação na luta contra a burocratização e o autoritarismo expresso nas práticas das lideranças do PSTU.

         A principal vitória do campo minoritário foi à rejeição do apoio da CONLUTAS a frente eleitoral classista defendida pelo PSTU e pelo PSOL. Durante o Encontro Estadual da CONLUTAS-RJ foi aprovada uma nota de apoio à frente eleitoral, entretanto o PSTU, pressionado, foi obrigado a recuar dessa posição durante o CONAT, sendo assim a CONLUTAS se mantêm autônoma durante o processo eleitoral burguês.

         Outra importante vitória do setor revolucionário da CONLUTAS foi a rejeição do atual modelo do Sindicalismo de Estado predominante no Brasil. Essa estrutura, como já mostramos em outros textos (ver principalmente o comunicado nº. 10: Sindicalismo Classista X Sindicalismo Corporativista), é a matéria prima do colaboracionaismo de classe, hoje cristalizado no governismo. Portanto, a defesa dos sindicatos livres, defendida por setores minoritários e aprovada no CONAT, é condição necessária para a reconstrução do movimento sindical-popular do Brasil.

         Os conflitos que se estabeleceram durante o CONAT, de um lado o campo majoritário, representado pelo PSTU, de outro, as forças minoritárias, representadas por várias organizações de agrupações revolucionárias, mostram que a CONLUTAS constitui um espaço privilegiado de disputa. Por isso, a nova central deve ser entendida como o grande campo anti-governista do Brasil e, como tal, deve ser disputada pelos revolucionários, para que o oportunismo eleitoral e as tendências burocratizantes do campo majoritário não prevaleçam.

         A tarefa agora é consolidar a CONLUTAS enquanto entidade representante do setor anti-governista da classe trabalhadora, para isso sua construção pela base  tem que ser fomentada. Portanto, se faz necessária a construção de uma política efetiva de atração das demais frações do proletariado brasileiro. Ao mesmo tempo é urgente o aestímulo a organização das oposições sindicais dos setores privados. Apenas o fortalecimento da CONLUTAS será capaz de armar o proletariado brasileiro contra as reformas liberais que se aproximam. Reformas essas que significam a ampliação da exploração e da opressão burguesas.

 

Rumo ao Poder Popular!!

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