Causa do Povo
PUBLICAÇÃO
da União Popular Anarquista – UNIPA
Nº 24 # ABRIL
/ MAIO DE 2006
Rio de
Janeiro - Brasil
unipa_net@yahoo.com.br
Operações Militares nas favelas
Cariocas
No mês escolhido por organizações não-governamentais, movimentos
de direitos humanos e comunitários para lançar a campanha “CAVEEIRÃO NÃO”, que
exige o fim do uso do carro blindado do BOPE (Batalhão de Operações Especiais
da Polícia Militar) nas incursões em favelas do Rio de Janeiro, a população
pobre e trabalhadora se encontrou ameaçada durante treze dias pelos blindados
do Comando Militar do Leste (CML) com seus tanques, canhões apontados para as
favelas e mais de três mil soldados (considerando os mil e duzentos utilizados
somados aos mil e seiscentos que ficaram de prontidão).
Segundo o
comando do exército e o governo federal, os soldados ocuparam mais de dez
favelas da cidade e montaram bloqueios nas principais estradas de acesso ao Rio
(Washington Luiz, Via Dutra e Rio-Santos) e na Ponte Rio-Niterói, além do patrulhamento da Baía da Guanabara
junto com policiais federais, com o objetivo de recuperar onze armas (dez fuzis
FAL calibre 7,62 e uma pistola 9mm) do Estabelecimento Central de Transporte
(ECT), em São Cristóvão, supostamente roubadas por traficantes, no dia três de março.
No dia quatorze
de março, as armas supostamente roubadas foram recuperadas numa área entre as
favelas da Rocinha e Vidigal. O saldo da operação foi: um garoto de dezesseis
anos assassinado que segurava um guarda chuva; outro de doze anos ferido com um
tiro de pistola no braço (sobre esse caso o exército afirmou que apenas os
oficiais usam pistolas e que somente os fuzis foram utilizados nos confrontos.
Entretanto, as imagens de TV registram claramente oficiais disparando com
pistolas); três feridos leves por estilhaços (entre esses um bebê de seis
meses) e um soldado ferido que atirou no próprio pé.
Durante a
operação, o principal local de tensão foi o Morro da Providência, localizado no
Centro da Cidade, onde os soldados e traficantes trocaram tiros e o garoto foi
assassinado. Diante da violência do exército, os moradores da Providência
fizeram vários atos de protesto, tanto na entrada da favela quanto enfrente ao
Comando Militar do Leste, na Central do Brasil. Como sempre, o exército e o
governo afirmaram que as manifestações eram orquestradas por traficantes.
Esta foi a maior
operação do exército em favelas do Rio de Janeiro deste as Operações Rio I e
II, nos anos de 1994 e 95. Na ocasião, o exército ocupou as várias favelas do
Rio com mandados coletivos de busca e apreensão, eram proibidas reuniões nas
favelas ocupadas e foi imposto toque de recolher. A principal semelhança entre
aquela Operação Rio e a recente ocupação refere-se a
tática empregada: “a do martelo e da bigorna”, ou seja, a área é cercada com
tropas e as incursões são realizadas por grupos de elite, além do trabalho da
inteligência militar, que seleciona alvos preferenciais. Entre os soldados de
elite estavam a brigada pára-quedista e soldados que
participaram da ocupação do Haiti. Outro momento de uso da tática do martelo e
da bigorna foi nos anos de 1970 durante o combate contra a Guerrilha do
Araguaia. Outros recursos empregados na ocupação foram panfletos e carros de
som com mensagens que buscavam “conquistar” o apoio dos moradores. Esse
procedimento é comum entre as ações de tropas invasoras que buscam “pacificar”
uma região deflagrada.
Todas essas
informações e os depoimentos de especialistas e oficiais que constantemente
associam essa operação com as operações de combate à guerrilha urbana
(especialmente as atuais ações no Haiti), nos permite afirmar que os objetivos
do governo estavam muito além da recuperação de armas supostamente roubadas: o
que assistimos foi uma simulação de cerco “às classes perigosas”. O efetivo
utilizado, com militares experimentados em combate urbano no Haiti, a tática de
asfixia e incursão, a propaganda direcionada à população, a mobilização das
tropas com contingentes de prontidão, nos fornecem um cenário de ações
contra-insurgente.
Os depoimentos
do vice-presidente e ministro da defesa, José Alencar, e do chefe do Comando
Militar do Leste, general Domingos Carlos de Campos Curado, reforçam essa tese,
pois afirmam que o exército está preparado para o enfrentamento de grupos
armados em áreas urbanas segregadas. Nas palavras do próprio José Alencar: “Se
houver um pedido do governo do Rio para que o Exército participe em alguma ação
episódica para minorar a criminalidade no Rio, o Exército jamais se furtaria e
não se retiraria”.
É fundamental
ressaltar que as Formas Armadas Brasileiras são treinadas quase exclusivamente
para o combate interno e a classe trabalhadora e pobre é identificada como
inimiga em potencial, constantemente identificadas como “classes perigosas”. No
campo as atenções são voltadas para o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra e nas cidades o cerco é à população que mora nas favelas e
periferias, bem como o mapeamento de lideranças sindicais. A população pobre e
trabalhadora deve cada vez mais responder de forma organizada aos ataques de
nossos inimigos que não excitam em matar nossos irmãos de classe. Só a luta e a
organização do povo pode lhes garantir a sobrevivência com um mínimo de
dignidade.
Pelo fim dos
massacres da classe trabalhadora!
Por um 1º de maio classista
O dia do trabalhador deve ser um dia de luta. As centrais
sindicais neoliberais CUT e Força Sindical há anos “comemoram” o dia do
trabalhador distribuindo brindes como patrocínio dos patrões. Enquanto as
direções sindicais deitam em berço esplêndido, o povo sofre cada vez mais com a
falta de trabalho e o emprego precarizado. Além disso, as centrais burocratizadas pelo
PT e PCdoB vem apoiando a
reforma sindical e a trabalhista que já caminham nos bastidores.
A política
conciliatória do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores
consolidou a Democracia Liberal no Brasil. A total degeneração da CUT no inicio
dos anos 90, ajudou a consolidar o modelo econômico neoliberal que para se
manter necessita retirar os direitos trabalhistas, ou seja, flexibilizar as
relações de trabalho. O PT ao chegar ao
controle do Estado continuou a consolidar a política liberal do governo
anterior, para isso, é necessário estabelecer uma agenda de reformas que atenda
aos interesses dos empresários e manter o arrocho salarial da massa de
trabalhadores brasileiros. Para isso é necessário o apoio das centrais
sindicais, como CUT e Força Sindical.
Não há muito a se comemorar. A mão de obra assalariada brasileira
está em torno de 95% da população economicamente ativa, dessa mão de obra
assalariada só a metade tem carteira assinada, o que garante as leis
trabalhistas. Essas leis, conquistadas com muita luta e sangue
pelo povo estão seriamente ameaçadas de acabar. O
governo com apoio da CUT vem negociando a extinção da CLT por leis
flexíveis do trabalho e aumento do poder das cúpulas das centrais sindicais. Ao
invés de lutar para expandir os poucos direitos, a CUT e Força Sindical se esforçam
para acabar com elas.
O aumento de camelôs, desempregados, ambulantes e das mais
diversas formas de trabalho precarizado é evidente.
Em algumas capitais a Taxa de desemprego entre os jovens chega a 40%. Em
capitais, como Recife a Taxa de desempregados chega a 22%.(Segundo o DIEESE) Temos muito que
lutar e o dia do trabalhador deve ser um dia de luta por trabalho, moradia,
terra, saúde e educação.
Na França, o governo de Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e Dominique Vilepin
tentou acabar com a estabilidade do trabalhador, com a lei que permitiria aos
empresários contratar
jovens de até 26 anos e depois demiti-los sem pagar nenhum direito trabalhista.
Estudantes, Trabalhadores e Imigrantes foram para as ruas resistir contra o
projeto. Greve gerais e mobilizações com 3 milhões de
pessoas ocorreram por todo país. A ação direta dos trabalhadores, estudantes e
imigrantes conseguiu a retirada do projeto de lei.
Portanto, não podemos ficar calados diante da ofensiva do Governo
e dos empresários que a cada dia vem tentando retirar
nossos direitos para aumentar seus lucros. È necessário nos organizarmos em
cada local de trabalho, moradia e estudo, construir uma forte oposição aos
setores governistas do movimento sindical, popular e estudantil, para construir
efetivamente um movimento forte na base dos trabalhadores a fim de enfrentar as
lutas que nos esperam. Não queremos mais estruturas burocráticas que nada
sirvam a mobilização do povo.
Apesar da política de conciliação implementada pelo PSTU dentro
da CONLUTAS, esperando pela adesão do PSOL para construção de uma frente
eleitoral e se empenhar nas disputas pelas direções dos sindicatos, o Congresso
Nacional dos Trabalhadores (CONAT) é ainda um importante espaço para
participação dos ativistas e militantes do país. Os trabalhadores só devem
acreditar em si mesmos para melhoria das suas condições de vida. Por isso, o
Dia dos Trabalhadores deve ser lembrando com muita luta e não com comemoração!
Viva o Dia
do Trabalhador!
Todo o Poder
para o Povo!
Rumo ao CONAT! Rumo à organização dos
trabalhadores
Não é de hoje que a maior central sindical do país, a CUT, não serve mais aos
interesses do povo e dos trabalhadores. O que assistimos atualmente é seu empenho em frear
as lutas dos trabalhadores, demonstrando vergonhosamente seu atrelamento ao governo e seu colaboracionismo de classe.
São inúmeras as traições da CUT com a classe trabalhadora, como por exemplo, o
apoio de seu ex-presidente e atual ministro do trabalho, Luís Marinho, à
reforma trabalhista que pode retirar direitos básicos dos trabalhadores,
conquistados ao custo de muitas lutas, como férias e décimo terceiro.
O PT ao chegar
ao controle do Estado continuou a consolidar a política liberal do governo
anterior. O governo Lula, juntamente com a UNE, a CUT e lideranças do MST
cumpre o papel de acelerar as reformas neoliberais, neutralizando as lutas e
mobilizações de milhares de trabalhadores pelo país a fora.
Com o objetivo de ampliar a exploração sobre os trabalhadores, o governo
reforça as reformas capitalistas, como a reforma sindical que visa acabar com a
autonomia dos sindicatos, transformando-os em verdadeiras marionetes do governo
e dos patrões. A CUT e muitos sindicatos de base se transformaram em
instrumentos do governo, defendendo suas políticas e se colocando, dessa forma,
contra os trabalhadores.
A tarefa
histórica que está colocada para os sinceros lutadores do povo é a construção de uma
entidade que vise organizar toda a classe trabalhadora em suas mais variadas
frações. Por isso no Conat (Congresso Nacional dos
Trabalhadores), que se realizará nos dias 5, 6 e 7 de
maio, devemos discutir a necessidade de
a Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas) se
transformar em uma central de classe do proletariado brasileiro, tendo como
perspectiva organizar operários, estudantes, camponeses, desempregados e toda a massa de marginalizados de nosso
país. É dessa forma que podemos tentar impedir o fracionismo
de classe típico do sindicalismo de Estado e articularmos melhor
as lutas das frações do proletariado brasileiro (campesinato,
proletariado rural, proletariado industrial, proletariado do comércio e
serviços e o proletariado marginal).
Além da filiação
por entidades, é necessário que a Conlutas aceite a
filiação individual, para que
cada trabalhador tenha a opção de ser representado pela
intermediação de uma entidade ou diretamente pela Conlutas.
Isso se faz necessário inclusive em virtude do grande refluxo
das lutas e pela traição da maior parte das entidades sindicais e
estudantis que são hoje governistas.
É necessário que
no Conat façamos a discussão sobre a concepção,
estratégia e programa que devem orientar a luta e formação das organizações da
classe trabalhadora. A tônica do debate a ser feito deve ser o fortalecimento
de um movimento de massas classista, combativo e autônomo em oposição ao modelo
de sindicalismo vigente no Brasil. Os elementos básicos de atrelamento
dos sindicatos ao Estado são: o imposto sindical, a investidura sindical (que
dá ao Ministério do Trabalho o poder de reconhecimento e registros dos
sindicatos) e a unicidade sindical (dispositivo que reconhece somente um
sindicato representativo de uma mesma categoria em uma mesma base territorial).
A Conlutas deve avançar ainda numa discussão fundamental que
muitos militantes excitam em fazer e é importante aproveitar o Conat para a realização desse debate sob o risco de esta
nova entidade se transformar em um espelho da CUT. Devemos defender o
sindicalismo classista em oposição ao sindicalismo de Estado. Assim como na
AIT, devemos ter como pilares de nossas ações a luta contra o capital, a
solidariedade de classe e a ação direta como estratégia de luta. Ao adotarmos
isso como nossos princípios norteadores, tornam-se as intoleráveis e
injustificáveis as capitulações que tanto assistimos e estaremos no caminho
correto pela destruição do capitalismo.
Os últimos
acontecimentos indicam que a maior preocupação do PSTU e do Psol
está em preparar a campanha eleitoral de 2006 e articular a formação da “Frente
de Esquerda”, deixando de lado a tarefa de impulsionar efetivamente a luta de
massas e a discussão política séria nas bases a respeito da importância da Conlutas .
A história nos tem mostrado que a libertação dos trabalhadores é obra dos
próprios trabalhadores, sendo inconciliável a ação direta das massas com a ilusão democrático burguesa da via parlamentar como meio
de o povo alcançar vitórias significativas.
Temos que construir um sindicalismo classista e de massas, adotando
efetivamente a estratégia da ação direta e os métodos combativos como greves,
as ocupações, bloqueios e piquetes. Só assim avançaremos rumo à vitória da
classe trabalhadora e
rumo à construção do socialismo.
Organizar
para lutar, lutar para organizar!
Por um movimento classista dos trabalhadores!