O PULSAR DOS ESPELHOS
Prólogo
Naquela manhã de março chovia em São Paulo. Uma chuva leve, mas contínua, o suficiente para deixar o trânsito caótico, as pessoas nervosas e apressadas e o dia cinza escuro. A Dra. Maria entrou correndo no prédio de escritórios, um prédio vermelho e negro – negro do cimento exposto e rugoso que absorvera durante os últimos doze anos toda a poluição da cidade -, isolado no meio do quarteirão só de casas. Parou na entrada de chão de mármore e fechou o guarda-chuva batendo com a ponta de metal no chão ensopando o tapete de pano improvisado pelo porteiro. Esfregou os sapatos molhados e quando levantou a cabeça viu o porteiro, atrás do balcão de madeira com tampo de fórmica imitando mármore rosado, com o braço estendido apontando-lhe um pacote pardo fechado com fita adesiva branca e vermelha. Hesitou um momento antes de se dirigir à recepção, pendurou o guarda-chuva pelo cabo curvo de plástico marrom no antebraço esquerdo, arrematou a alça da bolsa mais para cima do mesmo ombro, deu seis passos cambaleantes em cima dos saltos altos dos sapatos de ponta, e deixou um rastro de água, que ainda escorria do guarda-chuva, da porta até o balcão da recepção.
Pegou o pacote retangular, parecido com um livro grosso, e viu seu nome numa etiqueta branca que em ambas as pontas tinha carimbado em vermelho uma folha de pinheiro canadense e que invadia o papel do pacote: “To: Dra. Maria Luzia Sinval Gutierrez; Rua “tal”, No. 37, São Paulo – São Paulo - Brasil”. Virou o pacote e mais uma etiqueta branca com os mesmos símbolos canadenses e o remetente: “From: Frederico Pereira da Cruz; Edmonton – Alberta - Canadá”. A data postal era 15 de fevereiro. Primeiro intrigada; depois, sorriu sozinha, olhou para o porteiro que permanecia com a caneta esticada em sua direção, e disse “- Bom-dia, Sr. Josué”, e assinou na folha de despachos da portaria, uma folha meio-amarelada e encardida nas pontas, presa por uma mola algo enferrujada e presa a uma prancheta de madeira carcomida nas beiradas pelo uso e pelo tempo. Sem voltar a cabeça escutou o Sr. Josué dizer “- Pode ser um bom dia”, enquanto a porta do elevador se abria à sua direita. Às 10:25 hs de uma segunda-feira chuvosa, a Dra. Maria Luzia, psicóloga, abriu a porta de seu pequeno consultório segurando um pacote misterioso de seu amigo, o professor Fred. Ligou o interruptor de luz do lado da porta, depositou o guarda-chuva no canto da sala, colocou o pacote e a bolsa na pequena mesa do consultório, na exígua sala contínua, e voltou para fechar a porta.
Sentou-se na cadeira simples atrás da mesa e pegou o pacote pardo olhando-o de um lado e do outro, enquanto o pensamento tentava lembrar-se quando fora a última vez que falara com Fred. Não conseguiu lembrar-se, talvez aquela vez à noite na saída da universidade em que eram professores, ela em psicologia, ele em filosofia; mas fazia anos! Era muito tempo, uns quatro... Não! Com certeza cinco anos, e não o tinha visto mais, nem mesmo recebido resposta aos e-mails que lhe havia enviado durante um tempo depois. E agora aquilo, um livro, com certeza era um livro, mas vindo do Canadá!? Onde seria essa tal Edmonton? Nunca ouvira falar desse lugar, mas imaginava ser uma cidade. “- Depois vejo onde fica isso”, pensou consigo mesma e começou a procurar na gaveta da mesa uma tesoura, pois faca sabia que não tinha. Então se lembrou que tinha uma consulta marcada para as 11hs. Olhou o relógio no pulso e ficou indecisa se abria o pacote ou se se preparava para a consulta: uma consulta sempre lhe tomava alguns minutos de preparação antes do paciente chegar, mas, olhando de novo para o relógio, decidiu usar a tesoura.
Com o papel pardo e o papelão da embalagem esparramados no chão, a Dra. Maria Luzia olhava fixamente para o objeto há sua frente: não era exatamente um livro, mas um grosso caderno de capa preta com uma etiqueta colada no meio: “O Pulsar dos Espelhos”. “– O que é isso?”, pensou quase ao mesmo tempo em que abria a capa do caderno. Deparou-se então com um envelope aberto com seu nome escrito à mão pousado sobre uma folha quadriculada em branco do livro. Pegando o envelope com a mão esquerda folheou entre o polegar e o indicador da mão direita as folhas do caderno, completamente escrito em letras miúdas e com alguns desenhos. Decidiu abrir o envelope; dentro uma carta escrita em papel branco, também à mão, dizia:
“ Querida amiga Marilú:
Peço inicialmente desculpas se tomo mais uma vez seu tempo, mas logo perceberá que, se esta encomenda chegou a suas mãos, então terá sido a última façanha que faço. O rumo que as coisas tomaram nos últimos anos de minha vida - acho que faz uns cinco anos pelo menos que não nos vemos, e torço para que ainda esteja no mesmo lugar -, (“Eu estava certa”, pensou) são de tal forma gigantescos para uma existência como a minha, que não me resta nada mais a fazer... Mas não é o fim; aprendi com meus amigos Inuit que devo acreditar que a vida é um ciclo, desde que façamos nossa existência com honradez e coragem: talvez meu velho espírito se renove em uma criança Inuit. Mas o que digo? Acho que não está a entender nada... Mas entenderá quando ler este caderno.
Pensei várias vezes em destruir isto, mas acabei por achar mais digno ofertar a alguém que fosse especial. Talvez, afinal, meu elo inultrapassável com a civilização que me fez tanto mal... Você foi uma amiga leal e honesta e por muitas vezes sem interesse maior me dedicou sua paciência e seu tempo para escutar meus traumas e as mazelas insuportáveis da vida. Meu amigo Pushtak dizia que presentes fazem os homens escravos... Ainda agora penso se não devo jogar este caderno fora, mas, por outro lado, penso que gostaria de ter uma mensagem para os homens; deixo para ti, como agradecimento e na esperança de que possam, inclusive, compreender-me...
Diga a eles...
Viva bem!”