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UPDIKE ENTRE OS INUIT
9 de agosto.
Finalmente o pequeno bimotor pula ameaçadoramente na pista aberta no gelo de Inuvik. Tive a impressão que derrapou por algum tempo até que o piloto tenha conseguido endireitá-lo. Está claro e não neva; mas o frio é de “rachar” como se costuma dizer: o piloto avisou antes de começar a temerária descida que a temperatura é de nove graus, negativos! Nada mal para agosto. O avião parou. Hora de descer. Espero que o guia esteja esperando, pois não vejo ninguém lá fora e aqui dentro só tem mais dois passageiros que apresentam ser da região.
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Pushtak é um Inuit, tem 32 anos, conforme me informou o oficial de turismo canadense em Edmonton. Sabe falar inglês e francês, pois foi treinado para receber os turistas. Ele estava me esperando na pista e logo que desci dirigiu-se a mim sabendo que era eu que devia esperar. Apesar de ser tão jovem, sua pele é escura e enrugada no canto dos lábios e nos olhos. Disse-me que vamos parar em um escritório do governo para oficializar minha chegada e que lá pegará outra turista. Então iremos juntos para Tuktoyaktak onde poderemos ficar com seu povo... Mas só no dia seguinte. Pelo caminho, da pista de pouso até o posto às margens do rio Mackenzie, Pushtak não falou mais nada, limitando-se a encolher os ombros quando perguntei que turista era essa que iria comigo e o que ela estava fazendo ali. A estrada começou com asfalto, mas depois foi se transformando em uma mistura de cascalho e gelo que fazia com que a velha pick-up Renault chocalha-se tanto e derrapasse que cheguei a temer por um acidente. De um lado e do outro uma planície de gelo brilhante que refletia os raios solares. O relógio marcava 15:30 hs. Pensei que estava com fome. As montanhas começaram a aparecer cobertas de gelo que raramente deixava aparecer a sua cor original ocre queimado. Fiquei calado. As montanhas de gelo eram escarpadas, íngremes e mesmo ao longe dava para perceber veios suculentos de água que escorria encosta abaixo ziguezagueando conforme melhor convinha a seu percurso dolente em direção ao rio. Do carro não dava para ver o rio, mas escutava-se o borbulhar da corredeira em direção ao rio Mackenzie – pelo menos assim imagino pelo pouco que estudei da região.
Rapidamente escureceu, e já era quase noite absoluta quando vislumbrei entre uma cordilheira de montanhas brancas, de ambos os lados da estrada, as primeiras luzes cintilantes de Inuvik tremulando no horizonte. Fiquei tão contente que olhei para o meu guia e exclamei, mais à guisa de pergunta: -Inuvik!? Pushtak apenas acenou com a cabeça afirmativamente e acelerou... Uns dois quilômetros depois uma placa na beira da estrada indicava “INDUSTRIAL RD - 50”. Olhei no relógio novamente: eram 16:40hs. Parecia que havia passado mais tempo! Mas agora estava perto – seria 50 milhas ou 50 quilômetros? Ia perguntar para Pushtak, mas achei melhor ficar calado... Definitivamente meu guia não parecia muito disposto a conversar e a estrada não parecia ajudar muito a distrações – na verdade piorara muito desde a saída do aeroporto. Então o velho Renault trouxe-me à lembrança meu pai e aquela pick-up que em Luanda ele usava para transportar frangos, cabritos e porcos frescos, do matadouro para a loja, da loja de assados, uma rotisserie, para as festas e para os restaurantes, e as sobras de volta para a loja, sempre com pressa, atrasado ou não, engatando as marchas naquela alavanca que saía do painel do carro, para frente, para trás, e aquele cheiro de carne assada misturada com o sangue que escorria da carne acabada de estripar que se impregnou em meu cérebro de tal forma que ainda agora, mais de trinta anos depois, o posso sentir como se esta fosse aquela pick-up e eu estivesse em uma correria louca aos solavancos em uma rua ou estrada pedregulhada da África, ou do Alasca – que diferença faz? Talvez a poeira e o frio: lá e aqui; o tempo, a razão, o que são diante do sentir?
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Agora são 20:05, hora de Inuvik. Estou na pousada “Falcon Towers”, ao lado do posto oficial de turismo da cidade. A pousada é de madeira, a pequena mesa em que escrevo é de madeira rústica, troncos de árvores pouco trabalhados pela mão humana, assim como a cama aqui ao lado, a mesinha de cabeceira, o lustre, as paredes, o assoalho, o cabideiro, o armário. Tudo é de madeira envernizada, fosco, rústico, com exceção da louça sanitária e da alma. A madeira bruta ainda é natureza; não é o caso da louça e da alma! Quando a velha pick-up parou abruptamente na frente do “Tourist Office” derrapando um pouco no chão empoçado de água e neve, achei que desta vez Pushtak havia exagerado. Ia reclamar, mas percebi que tínhamos chegado. Olhei em volta e em um tronco de árvore servindo de poste de luz li “NAVY RD”; alegrei-me imediatamente e deixei a reclamação para lá. Na verdade havia me desligado em pensamentos sobre o passado, tão presente, cheiros e razões, que não percebi quando chegamos. Foi melhor não reclamar da “perícia” de meu guia-motorista: se o professor Willis tiver razão eu estava experimentando a afável recepção de um Inuit: para uma comunidade primária os de fora são quase sempre “menos do que gente” e são tratados como tal; o silêncio e a parca recepção monossilábica e gestual de meu guia eram a prova dessa tese. Vejo, torcendo-me um pouco para a esquerda, que o termômetro-relógio pendurado na parede marca exatamente três graus. Estou começando a congelar, mas preciso terminar o dia de hoje senão vai acumular tudo... Disciplina professor Fred; isto não são as provas de seus alunos, não vá deixar para depois e ficar correndo para corrigi-las. Disciplina desde o começo facilitará as coisas, mas é tão “nazista”! Será que a calefação está funcionando?
Conheci a outra turista que vai para Tuktoyaktak. Seu nome é Sarah Worth – foi o que me respondeu quando lhe perguntei o nome. É americana, de Somerville – porque será que os americanos fazem tanta questão de dizer a cidade onde nasceram?; de qualquer forma não me fiz de rogado e respondi: -Frederico Cruz, de São Paulo, mas a senhorita não deve ter escutado a cidade ou não entendeu, pois me perguntou se era mexicano... O sobrenome Cruz. Fiquei meio constrangido, mas mantive a pose, pois se vou ter essa companhia não esperada e nada desejada, é melhor não começar a criar caso logo de início, mas acho que minha visão da ignorância geopolítica dos americanos se acentuou; desde aquele congresso de filosofia e sociologia em Ilinois, quando disseram que Buenos Aires era no Brasil, não reforçava minha idéia de desprezo intelectual que eles nutrem com relação ao resto do mundo. De qualquer forma não vou levar isso adiante com a senhorita Sarah, não pelo menos logo de início. Vim aqui para estudar... Mentira, isso foi o que eu disse... Vim aqui para fugir! Acho que afinal ninguém acreditou mesmo no que disse. Ótimo... Coisas de etiqueta... Não tenho que dar satisfação a ninguém. Só a dois. E?
Sarah é loira de olhos azuis, alta e meio magra. Seios grandes e sem “poupança”. Acho que padrão americano. Deve ter uns 35 anos, no máximo. Deve ser solteira, pois não vi aliança alguma nos dedos, apesar disso não querer dizer muita coisa; eu também não uso aliança há quase vinte anos. Mas acho que é solteira. O que me persegue é a idéia fixa de que mentiu no nome que me deu – seus olhos piscaram uma vez e se espremeram tremulantes quando disse o nome; tenho a impressão que já vi ou ouvi esse nome em algum lugar, mas não consigo me lembrar onde, não o nome propriamente, mas o sobrenome, ou as duas palavras: Sarah Worth!? Onde eu vi esse nome? Não tenho amigos americanos... Deus não me deu esse desprazer... Deixa para lá Deus, o que ele tem a ver com isso? Nada, a não ser a velha tradição cristã. Cristianismo e a minha educação! Deixa Nietzsche para lá, professor Fred. Está tarde. No jantar, entre uma colherada e outra de sopa de caribu com batatas – foi o que disseram que era, e que naquele frio e vento uivante passando pelas frestas das paredes de madeira pareceu deliciosa –, e pão, fiquei sabendo que minha companheira de viagem estuda física, em uma faculdade que não entendi o nome, e que estava ali apenas de férias querendo conhecer a região e os povos do Alasca. Comemos rapidamente a sopa fumegante acompanhada de uma caneca de vinho e nos despedimos num atencioso “goodnight”. O frio e o barulhento vento não convidavam a mais do que isso. Eu deveria exigir o dinheiro de volta do cara lá em São Paulo, isso sim, tanto que eu disse que queria estar sozinho; aguardei até um mês e meio a mais para viajar! Pensando bem, não sei como a agência poderia saber que viria uma turista americana para o mesmo lugar, no fim do mundo, ou do começo, pelo menos das Américas. Mas por isso não deveria ter prometido o que não sabe ou pode controlar. Mas como diria Krippendorf, “não se trata de ganhar o primeiro prêmio por publicidade honesta, mas de fazer negócios. Os pregadores da igreja só podem prometer o paraíso após a morte, enquanto que no turismo ele já nos é oferecido aqui na terra”. O velho e bom Weber: “Os fins justificam os meios”. Ainda lembro de Krippendorf... Jost Krippendorf! Acho que vou procurar umas aulas de turismo de novo, quando voltar. Estou com sono e com mais frio ainda – engraçado, o termômetro continua nos três graus. Vou dormir. Amanhã temos que sair cedo para Tuktoyaktak.
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10 de agosto.
Às 7:28hs acordaram-me... Cedo. Partimos para Tuktovaktak. - Preciso tomar banho... Não vou fazer a barba. E se chegar no espelho e “Saramago aparecer”? -, pensei. Ah, as metáforas de Borges. Fui arrastando o cobertor para o banheiro. Que frio - estava e está agora. O carro de Pushtak continua pulando demais, quase saindo da estrada, parecendo mais um enduro que uma viagem. Sei lá se chegamos vivos... Sarah está calada aí na frente. Encontrei-a no salão da pousada, mas como ela já estava tomando o café, quer dizer, café sem café, porque por aqui não existe isso, eu passei ao largo espremido na parede contrária entre o vão das escadas e a mesinha com a máquina de aquecer o leite, chocolate com leite. Não fui até o outro lado do salão. Deveria?! Mas não fui. Leite derramado! Quando procurei uma mesa para sentar ela já tinha saído da sala. Sentei-me na mesa dela. A cadeira ainda estava levemente quente e pude sentir um certo odor de pêssego, com toda certeza o perfume dela. Adoro pêssegos. Mas contentei-me com um raminho de uvas negras, muito negras, daquelas que deixam marcas sanguinolentas onde o seu suco cair, inclusive na ponta dos dedos. E cerejas. As cerejas fizeram-me pensar por um instante na minha infância lá para os lados do Tejo. Minha mãe escondia os pêssegos e as cerejas de mim, nas gavetas do armário da cozinha, debaixo dos panos e das toalhas. Eu sempre achava e ela sempre me repreendia. Era um jogo de amor e poder. Ela dizia que ainda estavam verdes. Eu achava que era conversa dela... Ainda acho que era, pelo menos com relação às cerejas, pois nunca as vi verdes. Os pêssegos sim, isso lá ela tinha certa razão. Mas ficava o dito pelo não dito e eu sempre conseguia comer tudo. Depois as conseqüências no banheiro, como aquele médico que me salvou com 1 ano de idade predisse. Foi assim até os meus 16 anos mais ou menos... Banheiro, quando dava tempo de chegar até ele! Será que Deus usa banheiro? Bela “sacada” de Kundera. A sua leveza insustentável... E eu aqui aos solavancos num carro velho que de tanto chocalhar parece que vai desmanchar ou nos jogar para fora dele ou ele sair do rumo e, de qualquer forma, nos enterrar vivos na neve que forma montanhas dos dois lados do asfalto.
Acho que nevou na noite passada. Tem mais neve do que ontem quando vim. Sarah fala alguma coisa com Pushtak... Não, na verdade acho que estão falando já há algum tempo só que não percebi tentando escrever algo dentro desta “chocadeira” ambulante. De novo as metáforas e os poetas antigos da Islândia. Acordei com Borges na cabeça ou fui dormir com ele. Mas Sarah olha para trás e me vê tentando escrever; sorri e o odor de pêssego invade novamente minhas narinas e provoca em meu cérebro uma descarga de adrenalina que tende a se manifestar nos capilares mais ínfimos e distantes do corpo. Mas para chegar tão longe e tão pequeno passa também esse sangue adrenalínico por grandes cavidades musculares. Fazer o quê? Faz tempo! E disfarço com um sorriso bem na hora em que um solavanco chega a atirar-me contra a porta retornando à posição “normal” com tanta violência quanto e obrigando Sarah a se retesar um pouco mais no assento da frente e segurar firme na alça fixada no teto do carro. Sarah Worth! De onde... Lembrei... Lembrei... Sarah Worth?! Não, não pode ser. Devo estar enganado... Estou confundindo. Não pode ser. Bem, talvez seja coincidência. Acho que não era Worth, Sarah talvez. Depois pergunto algo só para sondar. Mas e se for mentira e ela disse esse nome só para esconder seu verdadeiro nome. Mas por que o faria? Curioso... Estou achando que é Sarah Worth mesmo. Será? Quem afinal é essa loira? Mas aqui, neste lugar de fim do mundo que diferença isso faz, hein!, professor Frederico? Não faça muitas perguntas e tudo é uma perspectiva possível. Que cabeça em mim pretende pensar? E Pushtak também parece interessado. Hora de parar.
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22 de agosto.
Faz doze dias que estamos entre os Inuit. Caiu uma tempestade sobre nós nos últimos dias, que impossibilitou sairmos de casa. Agora já passou o pior apesar de que ainda venta muito forte; a temperatura agora está em 17º. Graus negativos. Na sexta-feira chegou a 23º. As experiências com os Inuit desde que chegamos a Tuktovaktak foram muito gratificantes para o conhecimento antropológico do professor Fred. Mas tudo é pequeno e descartável diante dos acontecimentos dos últimos dias. É verdade: apesar de terem suas tradições muito afetadas pelo convívio com nossa sociedade, os Inuit continuam olhando os deuses dançarem na aurora boreal e emprestando suas mulheres quando um caçador parte para caçar e sua própria esposa não o pode acompanhar, ou quando um deles chega como visitante depois de longa jornada meio a uma tempestade que quase o “mamutificou”. O pior, no início, foi mesmo conviver com o cheiro rançoso de gordura de foca ou de urso ou de baleia, quando conseguem caçar alguma, que eles passam nos corpos, ritual dividido pelo casal – eles passam nelas e vice-versa e os dois nos filhos. Os viajantes de fora não passam e sofrem mais inclusive quando em condições especiais precisam passar quatro dias, os quatro, dentro de uma pequena casa, um casebre de madeira pouco ampliado, cuja diversão e passatempo mais aconchegante e vital para sobreviver é dormir juntos e acasalar.
Pushtak, Sarah e Kyrrnai, a mulher de Pushtak, e eu. Algo masoquista. Um último filme do mestre de uma Odisséia no Espaço. Apenas no toque casual de corpos oleosos e ensebados, o calor e cheiro de lenha queimada se mistura magicamente com a gordura de foca e permite devaneios. Uma tromba de névoa branca sobe aos deuses dançantes da noite eterna no topo do mundo. Olhares sutis e discretos, nunca de contato físico mais concreto. A dialética entre o sentir e o sentimento: aí o jogo de insinuação e provocação onde o contato dos amantes é fisicamente imprescindível; aqui, apenas a sensação de perto e distante, do inalcançável, mas duradouro posto que é inatingível. Mas que digo eu? Uma outra forma de escrever um poema, meu querido Vinicius. O perigo? O vício da eterna busca alimentado pela recusa do experimento.
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24 de agosto.
A recusa do experimento é a recusa da modernidade: não sou moderno, apesar de ter nascido em 59. Sartre nunca gostou desse adjetivo. A modernidade pressupõe uma racionalidade instrumental cujo experimento cartesiano é a prova da verdade. Verdades são assassinas da consciência pela perspectiva da razão. Em Auschwitz e com Eichman e Stalin assassinamos Kant ou o provamos, quiçá à revelia? Eu acredito no Deus de Espinosa: é mais místico como os deuses de Pushtak e Kyrnai, pois é divindade a ser recriada existencialmente. Este Deus não me condenará, pois as formas do eterno retorno também pressupõem, fundamentalmente, a fuga da verdade, do saber que previamente produz a verdade, do poder desse saber que produz a verdade. Assassinaram Deus na religião: por acaso existe religião sem verdade? Precisa tanto o homem da sociedade mediática provar tudo e, assim, sentir nada! Criar nada! Ousar nada! Claro, em nome do mercado tudo! Nesse vazio eterno que o acalenta destrói a alma, o sentimento, a magia que se nega a ser coisificada. O ser-para-si está principalmente na possibilidade de recusar a instrumentalização mediática, técnico-científica dos saberes verdadeiros e empiricamente comprovados; como não é possível fugir mais dessa espiral de revelações e morte, uma outra lógica libertária precisa ser estabelecida, a saber, que o infinito amor e a infinita supremacia da liberdade está não na resolução, mas na possibilidade de não querer compreender racionalmente, tão somente sentir e aprofundar na recusa do contato com o correto, o certo, o desejável, o esperado, o consagrado, o observável, o entendível.
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Apêndice:
Sarah Worth. John Updike. S.