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OSWALD ENTRE OS GUAYAKI

 

 

"Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim"!

 

Dia 13:

 

A cerca de 100 km de Puerto la Victoria, a sudeste, revive a América desde ontem – não sei quantas horas se passaram -, entre um pequeno grupo de indígenas de pele muito branca, olhos cinzas, altos e de cabelo liso, castanho claro, tão estranhos para a região amazônica que mitos não faltam sobre sua origem do norte da Europa, entre vikings, ou de alguma desconhecida imigração asiática. A beberragem de folhas cozidas e espremidas diretamente na boca me provoca o indizível turbilhão ácido da mente, de forma que entre uma piscada e outra percebo que no centro da oca do meio ainda o cesto de carne parece bastante cheio. Os cestos de palmito e mandioca estão vazios. Talvez as alucinações sejam da carne e não do “muntú” espremido na boca... Não existem provas em contrário, e alguém disse algo assim dessa carne quando de um desastre qualquer de avião por aí.  No ar um cheiro adocicado de sexo... Não é para menos, esforçando-me posso ver pelo menos dois casais em tal prática, e se não estou totalmente atordoado e alucinado acho que um deles é entre dois guerreiros... O arco e o cesto ainda estão vivos, conforme Pierre Clastres relatou. Deliro... O lápis cai-me das mãos...

 

Dia 15:

 

Estou por aqui há duas semanas. Quis fazer as contas, mas ainda ontem não conseguia atinar decentemente com a realidade. Nem o “bruxo” Oswald podia imaginar isto; a antropofagia de seu Manifesto deixa tanto a desejar com relação à realidade de meus hóspedes Ache-Guayaki. Já foram Guayaki, no tempo de Clastres, já foram Ache, já foram as duas coisas em separado, agora são as duas coisas juntas. Na verdade acho que são Guaranis, ou melhor, os Guaranis é que são eles, protoguaranis – falta saber porquê tão claros. Mas Oswald tinha razão quanto à universalidade legítima sul-americana do idioma: o tupi-guarani nos unifica a todos e antes de sermos brancos, pretos, mulatos, pardos, caboclos, mamelucos, cafuzos (e confusos), éramos! E tínhamos uma língua... Olha o colonizador falando dos outros!

 

Até Pedro Juan Caballero vim de carro com Antonio; foi tudo que convenci meu amigo a fazer. Combinei com ele em me pegar de volta no dia 21 do mês que vem. Minha estadia entre os Guayaki está prevista para 6 semanas. Até Puerto la Victoria foram três dias pulando de boleia em boleia e chocalhando tanto nos caminhos de terra que estou até agora com torcicolo e dores lombares horríveis... Mas a beberagem aliviou um pouco... Como o efeito está passando – e ainda não passou por completo -, as dores estão voltando, principalmente nas costas. Depois o pior: outros três dias para chegar à aldeia: 50 km na boleia de moto (eu não conduzo moto), descansando a cada uma hora mais ou menos, entre trilhas dentro da mata fechada, desviando algumas vezes de cobras e pequenos porcos do mato que fazem dessas veredas – meu querido Guimarães precisava ver o que são veredas -, seus locais preferidos para tomar sol, pois o desmatamento para abrir o caminho parece ser o único lugar onde o astro rei pode provar sua existência; 25 km a cavalo (este eu sei “pilotar”, sem grande destreza, mas dá para ir andando) com apenas uma parada de meia hora, mais por causa das minhas dores do que por vontade do guia ameríndio, a passo de trote sempre com perigo de escorregar no cascalho molhado, sempre molhado mesmo sem ter chovido nos últimas duas semanas e desviando da galhada que invade abundantemente o caminho, cada vez mais estreito e mais perto da floresta densa. Chamou-me a atenção o fato de existir um silêncio quase profundo durante o dia, sem sequer o piar das aves amazônicas. De noite, sim, o barulho da floresta, mas muito mais nítido o rosnar dos felinos intercalados com alguns outros gemidos de mamíferos e um som sibilante forte que não podia ser de cobra, mas que fazia lembrar delas. Quando perguntei a Akfak, meu guia até à aldeia, sobre o barulho, ele simplesmente se deu ao trabalho de indicar para cima, não sei se para o céu, para o sol ou para a copa das árvores que já se fecharam acima da nossa minúscula trilha de pedra e barro. As duas vezes em que perguntei sobre barulhos – ou do silêncio do dia, ou do sibilar da noite -, Akfak fez o mesmo e enigmático gesto. O resto amanhã... Só se trabalha por aqui umas duas horas por dia e eu não quero afrontar meus anfitriãos.

 

Dia 16:

 

O resto do caminho foi de embarcação: um pequeno barco de pescador azul e ocre, mais ocre por causa do barro, cujo dono era um português de uns 50 anos, não muito gordo, barrigudo, mas com uma barba mestiça enorme amarrada nas pontas a dois pequenos penduricalhos coloridos, feitos da semente de castanheira, pelos índios, e colocados por eles: “Sabe como é... Por estas paragens é sempre bom manter visível os presentes dos amigos”, disse-me ele com um sorriso escuro de tártaro visível. E então pensei, sorrindo para o português Joaquim e para Akfka, mas mais para mim mesmo, que estava no caminho certo: os Inuit não dão presentes, dizem: “Presentes são para os homens como chicotadas são para os cães”. Os Guayaki adoram presentes e adoram mais ainda os dar! Akfka também tinha uma grossa pulseira feita do mesmo modo oferecida pelo chefe da tribo que ia encontrar, o chefe Dlawso. Ainda bem que ele ficou aqui comigo. Entre correntezas plácidas esta parte da viajem foi tranqüila a não ser pelas noites não dormidas na rede estendida no convés à beira das paliçadas deterioradas de pequenas comunidades ao longo do rio, onde, avisou Joaquim “Vamos ficar no barco de olhos bem abertos, que a noite é curta, mas é quando os espíritos da floresta gostam de visitar os viajantes para lhes desejarem sorte...”, e desta vez o sorriso não deixou ver a negritude do tártaro dentário.

 

O último braço da viajem foi em canoa, com um pequeno motor a gasolina que toda a hora engasgava e parava com o enroscar das algas, limos e vitórias régias espalhadas na imensidão do chaco; a leste, continuação do pantanal brasileiro, a sudeste o paraguaio. Joaquim ficou por ali e voltava para nos buscar lá para o dia 15 – daqui a um mês (coloco os dias mais para eu não me esquecer deles!). Pensei no desperdício de tempo, ter subido até Victoria e agora descendo de novo, mas não havia outro caminho. O que restou dos Guayaki – fugindo do massacre dos paraguaios - está encravado no meio deste pantanal cujo acesso por terra não é mais possível, embora ao sul esteja a floresta dizimada que sobe de Caballero. Grossas castanheiras e figueiras e altos buritis saem da água e se projetam tanto na horizontal como para cima muitos metros além do que normalmente se vê em outros lugares. Agora o barulho é ensurdecedor pelo coaxar de sapos e o canto de dezenas de pássaros.

 

O chaco se estreita e a pequena embarcação avança remada por Akfak que afunda a vara no lodaçal do pântano, espetando as vitórias-régias e afastando as folhas e os galhos em decomposição que tapam completamente a água verde-escura. Entre dois grandes mognos, a canoa se embicou em terra firme. Do alto do barranco Dlawso, o chefe nos aguardava todo pintado e completamente nu acompanhado apenas de sua mulher igualmente pintada e nua, Alisrat. Demoramos uma 1:40 hs desde que deixamos Joaquim. Cheguei, como previsto, dia 1.

 

Dia 20:

 

Hoje fui autorizado/obrigado a andar sem calças na aldeia; agora estou nu e devo assim andar enquanto por aqui estiver. No dia que cheguei a aldeia toda me esperava: no centro, o espaço público dos Guayaki, umas 30 pessoas adultas e uma dúzia de crianças entre 3 e 12 anos. Não vi nenhuma criança de colo. Fui chegando puxado pela mão pelo chefe. A desordem logo se fez organizada com todos se colocando em círculo deixando-me só com o chefe bem no centro. Minhas duas mochilas haviam sumido junto com meu guia. Então o chefe beijou minhas faces agarrando minha cabeça com as duas mãos, enquanto os demais gritavam com as mãos alçadas para cima, um som que não sei exatamente porquê me fez lembrar das baleias Jubarte e sua enigmática linguagem. Após, o chefe tirou-me a blusa e pintou em meu peito com a mão espalmada cheia de tinta ocre barrosa que arranhou minha pele, um cruz ondulada, como aquela que Constatinus I mandou seu exército pintar nos escudos e roupas antes de unificar o Império Romano. Achei que devia me despir também igual a todos os outros, homens, mulheres e crianças igualmente pintados de todas as cores, mas percebi no olhar de Dlawso que não o deveria fazer. Em seguida o chefe começou a cantar andando em minha volta, arrastando os pés e fazendo a poeira do chão terroso levantar tanto que comecei a tossir. Após alguns segundos a poeira subia menos no ar e pude ver que todos faziam o mesmo que o chefe. Lembrei-me então do ritual xintoísta dos “Homens nus” de Miyazaki.

 

O que a canção diz só agora - com a ajuda de Akfak, que reapareceu com as minhas coisas -consegui traduzir, pelo menos em parte. SSeparei em pequenos grupos, tal como foi entoada naquele dia, e depois no dia 8 e ontem em ritual semelhante, quando sempre sou arrastado para o centro da aldeia e o chefe comanda da mesma forma seu povo:

 

1.

Nosso Pai Último-Último Primeiro

das trevas primitivas

fez que seu próprio ser de céu se abrisse como flor.

 

2.

De céu, as plantas dos pés

o pequeno apyká redondo

dentre as trevas primitivas

fez que se abrissem qual flor.

 

3.

A luz da sabedoria de céu, (1)

o celeste ouve-o-tudo (2)

as palmas da mão, de céu, com a vara-insignia,

as palmas da mão, de céu, com os ramos floridos, (3)

da escuridão antiga

fez Ñamandu’i que se abrissem como flor.

 

4.

Do alto, de céu, excelso, da cabeça

as flores do adorno de plumas

eram gotas de rocio.

Por entre as flores do celeste adorno de plumas,

o pássaro primitivo, o Colibri,

voava, revoava.

 

5.

Enquanto nosso primeiro Pai

fazia que seu futuro ser de céu se abrisse qual flor,

Ele já existia em meio aos primeiros ventos:

antes de fazer sua futura morada terrenal abrir-se como flor,

antes de fazer que

seu futuro firmamento, sua futura terra,

se abrisse como flor,

o Colibri refrescava-lhe a boca;

o que sustentava Ñamandu’i com produtos do paraíso

era o Colibri.

 

6.

Nosso Pai Ñamandú o primeiro,

antes de haver feito seu futuro paraíso se abrir como flor,

ele não viu trevas:

mesmo que o sol não existisse,

Ele existia iluminado pela luz de seu próprio coração;

fazia que servisse de sol

a sabedoria contida em seu próprio ser de céu.

 

7.

O verdadero Pai Ñamandú, o primeiro,

existia em meio aos ventos primitivos;

onde parava para descansar

a Coruja fazia trevas:

fazia que se sentisse a presença das trevas. (4)

 

8.

Antes do verdadeiro Pai Ñamandú, o primeiro,

fazer seu futuro paraíso se abrir como flor;

antes de fazer a terra primeira se abrir qual flor,

Ele existia entre os ventos primitivos,

O vento primitivo em que Nosso Pai existiu

pode ser alcançado

cada vez que se alcança o tempo-espaço primitivo,(5)

cada vez que se chega ao tempo-espaço primitivo que se abre qual flor.

Enquanto evapora a época primitiva,

durante a floração do ipê,

os ventos se mudam ao novo tempo-espaço:

nascem os novos ventos (6), o novo espaço;

novamente o tempo-espaço se abre como flor. (7)

 

Notas:

1.      Aparelho de ver. Olhos

2.      Aparelhos de ouvir. Ouvidos.

3.      Dedos e unhas.

4.      A noite.

5.      Inverno, no vocabulário religioso.

6.      Norte e nordeste.

7.      Primavera.

 

Dia 21:

 

A antropofagia tupinambá foi classificada como exocanibalismo: come-se os outros. Contudo, há também o inverso: povos que comem a si próprios praticando, assim, o endocanibalismo. Esse é o caso dos Guayaki, povo caçador e nômade do Paraguai, cujo canibalismo se achava extinto pelo menos desde a década de 60. Bem, nem são nômades mais nem a antropofagia entre eles está extinta, embora seja rara. Vieram para tão longe e mantiveram sua cultura. Pelo que pude perceber, estão neste mesmo lugar há pelo menos 30 anos. A floresta em volta está absolutamente preservada, embora os caçadores viajem longas distâncias em volta da ladeia para caçar, levando consigo as mulheres – elas com seus cestos pessoais - e as crianças. Mas voltam sempre para cá após alguns dias na selva. Só não saem quando as mulheres estão menstruadas: acreditam que dá azar. Então elas ficam afastadas uns 2 quilômetros da aldeia em uma oca reservada só para o resguardo, onde cantam e se banham constantemente após um tipo de sauna praticada dentro da oca, com a queima de folhas de mangabeira no moquém fixado no centro da oca, onde geralmente existem de 5 a 8 mulheres nestas condições. O que cantam são variações dos versos que traduzi. Não vi nenhum homem fazer o papel de mulher, andando com o cesto, mas vejo-os se acariciarem freqüentemente embora, fora a experiência do dia 13, onde devo duvidar do que apressadamente escrevi já sob os efeitos do “muntú”, não tenha presenciado nenhum ato sexual mais acintoso.

 

Dia 23:

 

No dia 12 morreu um “amigo” de Dlawso, que andava sempre com ele, que possuía muitas pulseiras iguais a Akfak, e as usava nos dois braços quase por completo e também nas pernas, além de andar sempre pintado, o que não é muito comum a não ser na figura do chefe. O morto, depois de lavado no braço do rio que aqui me trouxe, ficou no moquém durante 3 horas onde os seus familiares e todos da oca que habitava lhe renderam homenagens: o mesmo ritual a que fui submetido três vezes e que agora sei ser de boas-vindas, purificação e inclusão. Mas acho que a grande prova foi o dia 13, do qual não me recordo de nada a não ser o que escrevi. Os pertences que ornavam o morto em vida foram retirados pelos familiares e entregues ao chefe; algumas à sua mulher Alisrat. O chefe as colocou tirando as suas por completo e as guardando num pequeno cesto, que só o vi naquela oportunidade e que tinha um desenho de uma cobra ninja do deserto e um olho semelhante ao de Rá. O chefe fez o ritual de sempre, agora o de despedida, e todos os presentes dançaram em volta do moquém.

 

Assaram o morto chamado de Oriam no moquém e a carne foi comida, com palmito, por todos a não ser pelos parentes mais próximos: pai, mãe, irmãos e filhos. A gordura foi amparada em cumbucas e oferecida às velhas. Cortaram a cabeça e o pênis do morto com um grande facão (vários objetos de brancos existem entre os meus anfitriões, inclusive algumas espingardas). A cabeça, explicou Akfak, seria cozida comida pelos anciãos de ambos os sexos, principalmente o cérebro; o pênis seria oferecido, cozido, às mulheres grávidas, para que nascessem filhos homens (caçadores) – se fosse uma mulher o órgão sexual feminino seria enterrado. Separam alguns ossos do corpo cortando nas articulações e os quebrou para se degustar o tutano. Depois o crânio seria queimado junto com o resto dos ossos quebrados. Com a fumaça produzida pelo fogo que reduzia a cinzas os restos do crânio e dos demais ossos, a alma do morto - mero fantasma - viajaria para seu destino, o país dos mortos, local para onde se recusaria a ir se ainda encontrasse algum vestígio do corpo no qual poderia continuar a ficar preso aos vivos. Os canibalismos exemplificados pelos Tupinambá e Guayaki se destacam pelo fato deles considerarem a carne humana uma delícia, a melhor das carnes, semelhante à do porco domesticado.

 

Dia 24:

 

A professora Dorothea fora muito precisa.

A festa, iniciada após o sol se pôr, para confundir o espírito do morto, estendeu-se pela noite toda e continuou na oca do meio, usada apenas para estas ocasiões e para fazer o “muntú”, onde homens e mulheres, menos os velhos, as crianças e os familiares do morto, entravam e saiam a todo o momento. Já perto do sol raiar fui puxado por uma das filhas de Dlawso para entrar nessa habitação. Até então não tinha tido permissão sequer para me aproximar muito dessa oca, um pouco menor das outras, mas que diria que caberia uma dúzia de pessoas muito à vontade. A única pessoa que até então tinha visto entrar na oca do meio tinha sido o chefe, que sempre levava uma cumbuca parecida com um funil invertido, e que parecia trazê-la com algo dentro. Nessas ocasiões sempre demorava de 40 minutos a 1 hora, e sempre se acendia em seu interior uma fogueira haja vista a fumaça que sempre saía pelo buraco no teto da oca, primeiro uma fumaça negra de madeira queimando, e depois mais branca, como se algo estivesse cozendo e misturasse o vapor de água ao cinza do carvão. Estes buracos, existente em todas as ocas – nas maiores, onde habitam até 30 pessoas, existem dois buracos -, são destampados e cobertos por uma espécie de pequeno alçapão, usando-se uma vareta longa de cipó entrelaçado de castanheira do pântano. O conteúdo da cumbuca era distribuído pelas diversas ocas pelo próprio chefe, e sempre em seguida algum casal com seus filhos saiam para caçar e coletar mata adentro.

 

Dia 26:

 

A idéia de que o canibal nunca come um ser humano por nutrição, mas sim sempre para incluir em si as qualidades do inimigo ou de alguém, é, no mínimo, imprudente. Pelo que pude perceber, falando com o chefe uns dias atrás, o canibalismo entre os Guayaki não é interpretado como uma forma de veneração do inimigo, mas como forma de “encaminhar” o fantasma do morto, que têm medo, para o além; ainda assim não existe nenhum constrangimento em dizer que carne humana é um “manjar”. A própria forma de distribuir certas partes do corpo assim o demonstra. Embora práticas como esta sejam reduzidas hoje entre os Guayaki, o ritual antropofágico familiar persiste.

 

Se o inimigo tem valor então tem interesse para ser comido porque assim o canibal torna-se mais forte. Oswald atualiza este conceito no fundo expressando que a cultura brasileira é mais forte, é colonizada pelo europeu mas digere o europeu e assim torna-se superior a ele: “Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Matias. Comi-o”. Outra idéia a partir desta é a de que a maior revolução de todas vai se realizar no Brasil: “Queremos a revolução Caraíba”. A idéia é a de que o Brasil, simbolizado pelo índio, absorve o estrangeiro, o elemento estranho a si, e torna-o carne da sua carne, canibaliza-o.

 

Pobre chefe que come seu “amigo” sem nenhuma pretensão política! Somos o que somos: vomitamos mais do que comemos de nossos colonizadores! Escatológico como em Wandy ou Duchamp!?

 

Dia 28:

 

Freud errado entre os Guayaki.

Ninguém está a fim de canibalizar o pai, ou quem quer que seja para adquirir seu poder ou sua força; menos ainda recriar qualquer tabu a partir do outro como totem. O que querem é que ele vá para seu lugar de direito no mundo dos mortos. Como os Jivago aqui mais para cima. O Direito nada tem a ver com isto. A modernidade de Oswald ou de Freud não é possível entre os Caraíba, porque são melhores em si mesmos e não dependem de deglutir nada alheio. Menos ainda a “pseudoforça” do colonizador. Qualquer observação simples e despreconceituosa leva a isto: nós é que deveríamos comê-los!

 

Dia 30:

 

Citando o Manifesto: “Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem”. A antropofagia segundo Oswald é uma inversão do mito do bom selvagem de Rousseau, que era puro, inocente, edénico. O índio passa a ser mau e esperto, porque canibaliza o estrangeiro, digere-o, torna-o parte da sua carne. Assim o Brasil seria um país canibal. O que é um ponto de vista interessante porque subverte a relação colonizador (ativo)/colonizado (passivo). O colonizado digere o colonizador. Ou seja, não é a cultura ocidental, portuguesa, européia, branca, que ocupa o Brasil, mas é o índio que digere tudo o que lhe chega. E ao digerir e absorver as qualidades dos estrangeiros fica melhor, mais forte e torna-se brasileiro. Assim o Manifesto, embora seja nacionalista não é xenófobo, antes pelo contrário é xenofágico: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”.

 

Dia 02:

 

Citando o professor Fred: Antropofagia. A carne é boa principalmente se seu fantasma não me aterrorizar. Só me interessa em doar. Lei do homem. Lei do esbanjador. Obrigado fico.

 

Dia 13:

 

Vesti as calças e pus a blusa. Esta noite devo ficar vestido disse-me o chefe Dlawso.

 

Dia 14:

 

Estou só. Com frio. Tremo. Faz dois dias que não beberico o “muntú”. E faz dois dias que as filhas do chefe e Alisrat não me visitam ou sequer falam comigo. Akfak também só me responde com gestos de cabeça ou das mãos. E basta fechar os olhos para ver Oriam estendendo os braços em socorro. Quero tirar as pulseiras que o chefe e sua esposa me deram, mas não posso, diz meu guia.

 

Dia 15:

 

Amanhece e como mandioca assada com favos de mel. Vai chover. O céu está cinza raiado de lilás. Saio da Oca e o chefe me aguarda no centro da aldeia na presença de todos. Não estão pintados, embora nus. O silêncio é grande. Entendo por Akfak que devo me dirigir ao centro. Ele vai sumir com minhas coisas. No centro o chefe me estende os braços e passa as mãos em meu peito nu; desta vez sem pintura. O mesmo fez sua mulher. As filhas e filhos do chefe me tiram as pulseiras e as depositam no mesmo cesto que vi quando Oriam morreu. Então o circulo se abre e eu passo para fora ao encontro de meu guia entre as duas árvores magistrais de mogno. Olho para trás e vejo todos de costas para mim voltando para suas ocas. Começa a chover. Joaquim nos esperava no local e hora combinada. Bom vê-lo. Debaixo de arrepios penso que sorte a de Staden!

 

Dia 22:

 

Encontrei meu amigo Antonio no hotel em Pedro Juan Caballero. Recebo de Akfak minha pulseira Guayaki: entendo que o chefe ma devolveu e que serei bem-vindo da próxima vez. Meu guia colocou a pulseira no meu braço e foi-se embora sem dizer nada. Vou contando a Antonio algumas coisas: “Pior sorte teve Sardinha”, digo-lhe eu. Para trás fica um pedaço da alma do professor Fred.

 

Apêndice:

Manifesto Antropófago. Oswald de Andrade.

 

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