CURSO LIVRE DE FILOSOFIA HELÊNICA

MÓDULO I – SÓCRATES e PLATÃO

(Para melhor compreensão de certos dilemas existenciais modernos)

 

 RESUMO

 

 

1.      O surgimento do pensamento socrático/platônico

1.1.  Sofistas: o poder da Retórica e a secularização da Filosofia

1.2.  A Filosofia e a Dialética Socrática

 

2.      O Mito da Caverna – uma poderosa parábola

2.1.  A condição humana 1: Cristo, Matrix e certos Ratinhos

 

3.      A procura da essência humana em Platão

3.1.  Transcendência espiritual e Alma

3.2.  Reencarnação: o ciclo virtuoso – Alma e Corpo

3.3.  O Mito de ER

 

4.      O Bem Maior: desdobramentos socráticos/platônicos

4.1.  Virtude, Ética, Justiça e Governabilidade – Amor platônico

4.2.  A condição humana 2: Pandora e o renascimento da Esperança

 

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1. O surgimento do pensamento socrático/platônico

 

A história da Grécia antiga (Helênica) pode ser dividida em dois grandes períodos: antes e depois de Sócrates. Antes – chama-se período Pré-Socrático; e após – chama-se período Socrático.

 

Nosso curso começa exatamente na transição entre um período e outro. Estamos no século V a.C., na Grécia antiga, mais precisamente em Atenas.

 

Nesse momento uma grande revolução está acontecendo no pensamento filosófico grego: os Deuses estão perdendo a centralidade e o poder na compreensão da existência humana. Isto implica que os problemas e as soluções possíveis para os homens devem vir deles mesmos e não da interferência direta do Olímpio. A centralidade do pensamento do grego a partir deste momento passará a ser o próprio homem. A filosofia passa da condição teológica-mítica (deuses e mitos) para secular (humana e mundana) – de teocêntrica para antropocêntrica.

 

  Existe um motivo histórico para que a civilização helênica dê essa guinada e faça reviravolta tão profunda em sua cultura e no pensar: no século V a.C. os gregos, vitoriosos em suas guerras e conquistadores da Ásia Menor, assistem sobre a direção de Péricles à consolidação de seu poderio que se traduz de forma majestosa na estruturação da democracia ateniense, com maior estratificação de participação popular, a expansão das fronteiras gregas, acúmulo de riquezas, intensificação do comércio e abertura para o contato com outras civilizações. São estas condições que vão fazer surgir novas classes sociais e novos interesses na centralidade do discurso filosófico.

 

Logo a filosofia impregnada de misticismo e explicações metafísicas a partir dos fenômenos naturais, dará lugar a conhecimentos científicos mais pragmáticos. Evidentemente, estes conhecimentos e estas novas explicações devem estar mais de acordo com os anseios das novas elites de militares vitoriosos e de comerciantes/financistas que sustentam e se beneficiam dessas conquistas e desses contatos exteriores.

 

1.1.  Sofistas: o poder da Retórica e a secularização da Filosofia

 

Os porta-vozes desta nova mentalidade grega são os Sofistas. Eles surgem discursando em praça pública enaltecendo a capacidade e inteligência dos homens. Como tal advogam a auto-suficiência destes para resolverem os problemas do cotidiano existencial, até porque passam a ser os homens os verdadeiros culpados pelos problemas que enfrentam.

 

 O novo discurso filosófico aponta para a materialidade da vida cotidiana do homem grego. A este discurso empírico e pragmático, embebido nos acontecimentos sociais, chamou-se de Retórica. Retórica, portanto, à luz da Filosofia, passa a representar a secularização do pensamento helênico.

 

No entanto, devido ao envolvimento com os interesses cotidianos das novas classes, os discursos sofistas vão ser repudiados pelos socráticos como sendo no mínimo superficiais, não revelando a essência das coisas e menos ainda a essência dos homens.

 

Entre os sofistas temos vários pensadores como Protágoras, Leontinos, Trasímaco, Pródico, Hípias, Antifonte e Crítias, que, no entanto, não constituíram um pensamento científico único. Senhores de discursos majestosos e seguidos por multidões, vão ser repudiados e contestados por Sócrates (469-399 a.C.) e posteriormente por Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), sendo considerados “vendilhões da palavra”.

 

De qualquer forma, os sofistas são um marco na passagem revolucionária de pensamento filosófico ocidental da mitologia para o empirismo social. Por exemplo, eles são os primeiros a defenderem a idéias de justiça com base nas leis elaboradas pelos homens, leis essas que cada grupo social deverá desenvolver de acordo com sua própria cultura e ambiente geográfico sócio-político.

 

Uma visão de justiça relativa e absolutamente secular em contraposição à justiça mítico-religiosa e superior dos deuses. Um enfrentamento ad-eternum que se verificará novamente no final da Idade Média e que persegue os espíritos humanos e consubstancia a Filosofia ocidental até nossos dias.

 

1.2.  A Filosofia e a Dialética Socrática

 

Sócrates é um feroz adversário dos sofistas. A sua antipatia, no entanto, estava declaradamente circunscrita ao pensamento, ao conhecimento e à ânsia de construir uma Filosofia mais essencial, mais verdadeira.

 

Assim, para ele a essência do homem e a explicação do problema existencial não podem ser buscadas na materialidade cotidiana, povoada que está de interesses suspeitos e egoístas. A busca da virtude, o bem maior capaz de resgatar a paz e a harmonia entre os homens, passa a ser vista como a luta entre o bem e o mal, mas em um plano estritamente espiritual.

 

Ainda que não seja a volta, em absoluto, à filosofia mítico-religiosa anterior ao século V a. C., é na valorização de uma categoria transcendental que os homens podem encontrar as verdadeiras respostas e almejar por esforço próprio e singular a sabedoria, mãe de todas as virtudes e da própria paz e harmonia social. Assim, a Alma é introduzida de forma triunfante no pensamento filosófico do Ocidente.

 

Ainda na oposição discurso retórico, ao sofisma dos oradores desvinculados com a verdade, Sócrates propõe e utiliza, de forma magistral, o discurso dialético. Por isso a essência do conhecimento passa a ser entendido como a oposição e contraposição de idéias e axiomas.

 

DIALÉTICA = TESE   X   ANTÍTESE   =>   SÍNTESE

 

Assim, unindo-se os conceitos de Alma e Dialética, necessariamente a verdade e a sabedoria deverão resultar no embate entre categorias especiais do espírito humano, e desta oposição deverá surgir o triunfo do bem sobre o mal, da verdade sobre a mentira, do conhecimento sobre a superficialidade, da essência sobre a aparência, do bem comum sobre os interesses casuísticos de grupos menores, enfim, o triunfo da Filosofia sobre a Retórica cotidiana.


2. O Mito da Caverna – uma poderosa parábola

 

Todavia, Sócrates cometera uma imprudência. Passou a contestar os sofistas em praça pública. Logo se tornou inimigo público no. 1 sendo acusado de desencaminhar e instruir os jovens de forma imprópria. Por isso foi sentenciado em processo aberto à pena de morte por envenenamento. Ainda que tenha sido instigado por seus discípulos, principalmente Platão, a se retratar para evitar a morte, Sócrates em sublime e derradeiro ato de fé em sua filosofia tomou ele mesmo o veneno.

 

  Provavelmente Platão nunca se restabeleceu deste trauma. Toda a eloqüência de sua obra e toda repulsa a esta condenação bárbara, bem como toda a afirmação da verdadeira Filosofia, da Filosofia como ciência, aparecem de forma magistral no Mito da Caverna, que pode ser explicitado resumidamente assim:

 

“Vamos imaginar um grupo de pessoas morando numa caverna. Os moradores estão aí desde sua infância, presos por correntes nas pernas e no pescoço. Desta forma agrilhoados pouco podem ir além de suas imediações. Porém através de uma fenda no alto da caverna, que na sua condição de aprisionados não podem alcançar, a luz do sol se projeta para dentro da caverna, de tal forma que o que acontece fora da caverna se reflete como sombras diretamente nas paredes da caverna. Assim, estes homens obviamente acreditam por gerações que o que vêem refletido nas paredes é a própria e toda a realidade do mundo (aqui, quando Glauco diz que esta realidade é por demais hipotética, Sócrates responde que ela é mais real para a maioria dos homens do que possamos imaginar).

Imaginemos agora que um desses homens consegue se livrar dos seus grilhões. Ele se dirige à abertura de onde vem a luz escalando as paredes da caverna, consegue sair do ambiente restrito e obscuro em que sempre vivera. Não é verdade que a sensação experimentada imediatamente é de dor e total desprazer? (Glauco concorda). E, assim sendo, não é de acreditar que o primeiro impulso de qualquer homem nestas condições seria de regressar correndo para o conforto da escuridão da caverna? (Glauco, mais uma vez, se vê obrigado a concordar).

 

Mas o homem apesar do sofrimento e do desconforto inicial, continua e sai plenamente para a luz e para a realidade do mundo externo. Então o que descobre nosso prisioneiro recém liberto? Que a realidade da caverna não corresponde aos fatos; descobre que aquilo que acreditam ser toda a verdade não passa de sombras. E logo em seguida começa um outro tipo de sofrimento: o que fazer? Gozar de forma solitária do conhecimento verdadeiro, ou voltar e contar a seus antigos companheiros que aquilo que acreditam ver não passa de um simulacro obscuro do real? (Glauco agora se sente incomodado e diz que não dá para afirmar qual a melhor decisão). A luz trouxe a sabedoria e a sabedoria trouxe um novo tipo de sofrer.

E também não é verdade que o caminho de volta será por si só tão doloroso quanto foi a subida para a luz? (Glauco diz: é forçoso aceitar que o cainho inverso rumo à escuridão e às sombras é doloroso). Então, tendo passado pelo sofrimento e pela dor o ex-prisioneiro, agora conhecendo o prazer da claridade que o leva à verdade, estará altamente justificado se optar por não voltar. Mas ele volta! Movido pelo sentimento de companheirismo e amizade que ainda nutre por seus semelhantes da caverna, ele volta. E então diz a todos os prisioneiros da luz, da escuridão, da realidade e das sombras. E os prisioneiros o acham louco, mentiroso. Não acreditam na verdade, rechaçam o conhecimento, preferem o conforto da aparência à essência, optam pela prisão à liberdade. E se o homem portador da sabedoria continuar insistindo males e sofrimentos terríveis lhe aguardam. (Glauco concorda que sem dúvida sua vida e sua filosofia corre perigo).

(Adaptado do diálogo entre Sócrates e Glauco, em A república, livro VII, Platão. Ver também Pe. Antônio Vieira, Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma).

 

Esta poderosa metáfora sintetiza em vários níveis não só os fundamentos da Filosofia socrática/platônica, bem como a essência dos dilemas impregnados na existência e condição humana. Em primeiro lugar vê-se aqui a dualidade entre a luz e a escuridão, entre a essência e a aparência, e daí, o importante papel da Filosofia como ciência reflexiva e iconoclasta que procura desmistificar essa pseudoconcreticidade da realidade (as sombras projetadas na parede da caverna).

 

Em segundo lugar, revela-se o sofrimento pelo qual se tem que passar para que se saia das sombras e se chegue à realidade (a luz que ofusca, a dor que a luz provoca). Um verdadeiro ritual de sofrimento em que aqueles que se dispuserem a este esforço rumo à verdade deverão se submeter (apesar da dor, o homem que sai não desiste). Estão os homens da atualidade dispostos a sofrerem algo para descobrirem as verdades por detrás da unidimensionalidade alienante do cotidiano? Estamos dispostos à liberdade ou mais aos grilhões da comodidade?

 

Depois, a Filosofia não se realiza sem uma prática profícua em relação aos outros. A sabedoria nada significa se não puder levar a verdade e o bem-estar ao semelhante. A Filosofia volta-se para a humanidade, e a seu serviço se sente tão doente e dolorida como quando começou a subida para a luz (a volta à escuridão da caverna também é um ritual doloroso para o homem – mas ele não desiste em voltar).

 

Finalmente a constatação tão óbvia quanto frustrante: os homens das sombras não querem saber da verdade, se recusam sequer a refletir e a verificar se o que o conhecimento novo lhes diz pode ser importante para melhorarem seu cotidiano e suas existências. Pior: desdenham e repudiam o conhecimento da verdade, agridem, insultam, aviltam, constragem e excluem de seu convívio os arautos de novas possibilidades existenciais; é a perfídia e a maledicência contra a virtude (eis o que os agrilhoados fazem com o ex-companheiro que volta – a dor maior está na recepção e não exatamente no caminho de volta). A humanidade se volta contra a Filosofia e igualmente contra si mesma: desumaniza-se!

 

2.1. A condição humana 1: Cristo, “Matrix” e certos “Ratinhos

 

A condição humana assim exposta por Platão leva-nos à conclusão de que a felicidade parece estar mais para o conhecimento obtuso e desvirtuado dos homens, do que ser construída a partir de indagações inteligentes sobre a aparente realidade das coisas e da existência dos próprios homens. Há que se refletir sobre esta corrosiva apatia dos homens ao questionamento sobre o cotidiano que os faz prisioneiros de si mesmos.

 

Depois, fica, em princípio, a constatação de que o descortinamento do real, passo imprescindível para a luminosidade e sabedoria espiritual, só se verifica, a cada instante, sob o sacrifício de uns poucos, que mesmo cientes do mal que os seus semelhantes (não são semelhantes) lhes causarão. Mas, fatidicamente, a luta do bem contra o mal, carece até nossos dias de uma crucificação orgíaca para que a verdade prevaleça, de alguma forma a iluminar os olhares embutidos e esmiuçados, não desinteressados, dos homens.

 

A história bíblica da crucificação repete o mito platônico da mesma forma que o ratinho volta para trazer comida aos ratinhos letárgicos que não ousaram (Quem Mexeu em Meu Queijo?). Da mesma forma que um Neo (Matrix) precisa abraçar a causa dos homens reais para derrotar o poder da tecnologia cibernética supravirtual de nossos dias, da qual ele mesmo é produto refinado, e provar a Sofia (O Mundo de Sofia) que vale a pena subir nos pêlos do coelho e deixar de ser mero carrapato parasitando o pobre bichano. Afinal, o que aprendemos com a odisséia terrestre, o que aprenderemos com a odisséia no espaço (2001 – Uma Odisséia no Espaço) para além do mundo cáustico e escuro de Blade Runner (Blade Runner)?


3. A procura da essência humana em Platão

 

Após a morte de Sócrates, Platão resolve continuar a Filosofia no quintal dos fundos de sua casa afastada. Ao fundar a academia Platão resolve dois problemas de uma só vez: afasta a Filosofia do cotidiano egoísta e interesseiro dos homens e protege a ciência do conhecimento do afrontamento direto com as novas classes atenienses.

 

Na calma e no regaço da academia Platão pode agora desenvolver suas idéias inspiradas nos ensinamentos de Sócrates. Afinal o que é a essência nos homens? O espírito, a alma. Mas a alma precisa do corpo para se desenvolver.

 

3.1. Transcendência espiritual e Alma

 

A alma em Platão tem duas características: ela é preexistente (existe antes do corpo) e subsistente (existirá após o perecimento do corpo). Compõem a alma três partes: Logística, a parte superior, que corresponde a razão; Irascível, a parte mediana, que corresponde as paixões; Apetecível, a parte inferior, que corresponde os vícios. Esta mesma tríade é comparada pelo autor às três partes do corpo.

 

Assim, o cogito platônico coloca de forma ontológica a luta entre o bem e o mal dentro do próprio espírito, vale dizer dentro do próprio homem enquanto ser materialmente incorporado. A razão deve relutar em se deixar dominar pelas paixões e pelos vícios; ao contrário, ela deve conseguir se sobrepor a estes e garantir a harmonia necessária para que o ser trilhe seu caminho.

 

Portanto, ressalte-se, ainda que a categoria platônica mais importante seja metafísica – a alma – a visão idealista platônica não recorre a nenhuma circunstância externa ao ser humano para explicar ou justificar o mal e todas as imperfeições mais escatológicas que dele derivam. Este compromisso com a compreensão da condição humana em suas limitações e mesmo sua capacidade de ultrapassá-las, encontra-se absolutamente nas contradições que desde o inicio povoam os espíritos do próprio homem. Neste sentido, os males da existência humana, imateriais e materiais, advêm de dentro do próprio ser e só a partir desse interior podem ser ultrapassados.

 

Em eras seguintes a Filosofia penderá ora para esta visão ontológica ora para a fuga do ser de si mesmo, reportando a seres superiores ou mesmo à pura experiência social as causa de seus sofrimentos.

 

3.2. Reencarnação: o ciclo virtuoso – Alma e Corpo

 

Qual a necessidade da alma reencarnar? Porque as paixões e os vícios só se manifestam enquanto a alma se encontra materializada no corpo. Portanto, ela precisa do corpo para ser instigada a procurar a razão e assim aprimorar-se permanentemente.

 

No mundo platônico o conhecimento é infinito e a sabedoria ilimitada. Esta infinitude move inexoravelmente a alma à reencarnação permanente. Logo, a virtude é em si mesma uma pretensão nunca alcançada dentro de um ciclo virtuoso de aprimoramento e desenvolvimento espiritual.

 

Ainda que a luta entre o bem e o mal, a procura incessante do predomínio da razão contra as paixões e vícios, se verifique no âmago do próprio ser, a possibilidade do crescimento espiritual, aquele que verdadeiramente interessa, se dá na transcendência da alma transmudada na materialidade do corpo.

 

Desta forma, compreende-se que na filosofia platônica não só o corpo representa um papel importante e indissociável do espírito, bem como a própria existência material-social, econômica, política. Por isso o papel relevante e central da educação como prioridade do Estado, haja vista que pela educação (leia-se primordialmente a Filosofia) o homem pode compreender a verdadeira dimensão interna de si e almejar uma luta sem tréguas pela sabedoria ética, pressuposto de toda virtude. No ápice deste aprendizado e aprimoramento o melhor governante só pode ser o filósofo.

 

3.3. O Mito de ER

 

Por outro lado, o que acontece quando a alma desencarna? Conta o Mito de ER, que a alma recobra a consciência de toda sua trajetória e é julgada por seus atos enquanto estava encarnada. Julgada é punida em tipo de purgatório muito parecido com nossa noção cristã de “inferno”.

 

Ao contrário ao cristianismo onde a alma fica aguardando o dia do julgamento final, a alma reencarna rapidamente, não como cumprimento “carmático” específico, mas como necessidade imperiosa e infinita de continuar seu ciclo de  virtuosidade.

 

Ainda assim, conta-nos Platão, a alma ao reencarnar esquece completamente toda sua experiência material e o nível de sabedoria em que possa Ter reconhecido na última desencarnação. É neste sentido que reside grande parte da riqueza da filosofia platônica: a alma materializada no novo ser precisa a cada momento começar do zero na sua busca terrena pelo predomínio da razão sobre as paixões e vícios que concorrem duplamente para a falta de ética, para o desvirtuamento do comportamento decente.

 

Se lembrarmos que, fundamentalmente, esta existência corporificada só pode se realizar socialmente, percebemos a verdadeira dimensão que a filosofia platônica tem. È por isso que a ética voltada para o bem coletivo é revestida de tamanha importância em seus fundamentos.

 

Como sabemos da justiça no além e do que acontece com a alma quando desencarna? Conta o mito que o esquecimento ao incorporar o corpo se dá através da água de um lago que a alma se vê obrigada a beber. ER é uma alma que não bebeu da água do lago do esquecimento, e assim podemos saber desta verdade.

Seqüência linear do pensamento platônico:

 

ALMA REENCARNADA   ->   PREDOMÍNIO DA RAZÃO   ->   HARMONIA ESPIRITUAL   ->   ÉTICA   ->   VIRTUDE   ->   SABEDORIA   ->   JUSTIÇA

4. O Bem Maior: desdobramentos socráticos/platônicos

 

O pensamento platônico, todo ele inspirado em Sócrates, é mais do que uma metáfora sobre a condição humana. É a própria condição humana.

 

Ainda que a Filosofia possa começar no ocidente de forma idealista, o fato é que os desdobramentos da ciência do “conhecimento verdadeiro” deita seus tentáculos para todas as áreas fundamentais da existência humana. Além é fácil perceber-se a coerência da filosofia de Platão.

 

4.1. Virtude, Ética, Justiça e Governabilidade – Amor platônico

 

1.                 Na medida em que existe uma vida terrena para o espírito os homens fazem suas leis desejando punir o que vêem e conforme o que entendem;

2.                 Como em tais circunstâncias seu entendimento não passa da superficial e supérflua limitação material e de interesses tais, logo sua justiça produz mais infelicidade e revolta do que paz, harmonia e desejo de comportamento ético;

3.                 Assim, mesmo julgado pela lei dos homens, o ser espiritualmente será julgado e punido no além, quando então terá a verdadeira oportunidade de espiar seus males;

4.                 Como a intenção do bem maior é a sabedoria, a alma corporifica-se em sua procura rumo à infinitude do conhecimento, não como “carma” apocalíptico ou missionário, mas como valor absoluto em se desenvolver e aprimorar;

5.                 A realização deste aprendizado infinito encontra algo de finitude material na medida em que o sofrimento terreno provoca no ser suas provocações mais suscetíveis de descartar a razão em prol de pequenos prazeres imediatos;

6.                 Portanto o inferno pode ser aqui, mas explicações e justificativas dos descaminhos da humanidade não podem ser buscados e avaliados a partir desta materialidade existencial e sim da fragilidade espiritual dos homens;

7.                 Finalmente, num plano absolutamente terreno, o melhor caminho é o comportamento ético absoluto fundamentalmente dirigido ao outro e à coletividade. Desvinculando de interesses imediatistas e exclusivamente pessoais as necessidades da comunidade, algo de transcendente se manifesta na medida mesma em que as premissas e pressupostos da materialidade cotidiana deixam de apresentar sentido maior;

8.                 Este é o verdadeiro sentido do “Amor Platônico”: doação sem motivação de reciprocidade. Este é o verdadeiro sentido do governante.

 

4.2. A condição humana 2: Pandora e o renascimento da Esperança

 

O Mito de Pandora é do período pré-socrático. Ele narra uma desavença entre Zeus e Prometeu porque este entregou o conhecimento sobre o fogo aos homens.

 

“Zeus, soberano dos deuses, ficou furioso, e então ordenou a Hefesto, deus do fogo e das habilidades técnicas, que crie uma mulher formosíssima e a leva-se à assembléia dos deuses. E assim Hefesto o fez. Na assembléia os deuses se espantaram com tamanha beleza e a adornaram com vários pertences valiosos e com poderes especiais, o que a tornaram ainda mais irresistível. Então lhe deram o nome de Pandora – quer dizertodos os dons”.

Depois Zeus lhe deu uma caixa fechada e recomendou a Pandora que a levasse até Prometeu. Este, no entanto, recusou tanto Pandora como a caixa, e recomendou a seu irmão, Epimeteu, que não aceitasse nada vindo de Zeus. Epimeteu – “aquele que reflete tarde demais” – não resistiu aos encantos de Pandora e a tomou por esposa. Então a caixa foi aberta e de dentro escaparam a Senilidade, a Insanidade, a Doença, a Inveja, a Paixão, o Vício, a Praga, a Fome e todos os males que se espalharam pelo mundo e afligem os homens desde então. Epimeteu, vendo o que havia acontecido, tentou fechar a caixa, mas só restou em seu interior a Esperança, uma criatura alada que estava preste a voar, mas que ficou aprisionada na caixa.

 

Este mito não narra apenas a descoberta do fogo e seu manuseio pelos homens, mas demonstra como no período pré-socrático todos os acontecimentos terrenos são decorrência direta das intenções dos deuses. Inclusive todos os seus males.

 

No entanto, algo mais poderoso se encerra neste mito, que demonstra diretamente a submissão infinita e irreversível dos homens aos deuses. Em sua condição inferior todos os males se espalham pelo mundo e a Esperança que é a única contrapartida a todos esses sofrimentos e privações, é a única que Zeus não nos permite possuir. Para os homens, por mais desventuras e sofrimentos que possam experimentar, com esperança eles sonham sempre em se reerguer e serem felizes posteriormente. Mas os deuses lhes recusaram esta dádiva.

Felizmente, o Mito de Pandora é rescrito pela filosofia socrática/platônica. A revolução laica que os gregos fizeram no século V a.C. permitiu reconstruir a estória e tornou possível fazer do homem o sujeito de sua própria História.

 

Ainda que seja pela metafísica do espírito, ainda que seja pelo julgamento e justiça do além, a alma ainda pode sonhar eternamente pela virtude infinita, e, desta forma, chamar a si a responsabilidade pela esperança de que no momento seguinte haverá luz entre as sombras e a escuridão. Basta querermos!

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