A CONSTRUÇÃO DO HOMEM

 

  1. Trabalho e Humanização – O trabalho é para o homem seu “inferno” e seu “paraíso”. Mesmo nas teorias “criacionistas” – a criação divina -, o trabalho aparece como fundamento de sua ontologia – a construção de seu ser. Pelo trabalho os hominídeos, ancestrais humanos, se transformaram ao longo de milhões de anos e puderam produzir a humanidade tal como a conhecemos em nossos dias – teoria “evolucionista”. Desde os estudos de Charles Darwin, no século XIX, até hoje, a antropologia e as demais ciências parecem confirmar essa evolução a partir de circunstâncias de necessidade de sobrevivência material e adaptação à natureza. Essa adaptação e esforço de sobrevivência foram alimentados concomitantemente por diversos fatores.

     

- A liberação das mãos – A primeira tarefa “humana” foi livrar os membros superiores e as mãos, provavelmente de suas funções animalescas de auxílio à locomoção, tanto no chão como pelas árvores. Livres, as mãos desenvolveram-se para proporcionar firmeza e habilidade com outras coisas além de locomoção. Para isso os nossos ancestrais mais “animalescos” precisaram desenvolver a habilidade em se equilibrarem apenas nos dois membros inferiores, as pernas. Assim, na medida em que essa aptidão para andarem de forma ereta se desenvolveu, mais e mais as mãos puderam especializarem-se em outros trabalhos, como a manipulação planejada  - na medida em que esses objetos pudessem ser úteis para atividades posteriores -, de objetos encontrados na natureza. Obviamente, este esforço e esta transformação fisiológica e fisionômica exige um segundo trabalho: o desenvolvimento cerebral.

 

- A linguagem – A segunda tarefa “humana” é a produção da linguagem. A linguagem exige, para o homem, de um lado, um aparelho vocal apropriado, de outro lado, a produção abstrata de símbolos. O homem não é o único animal que se comunica com os de sua espécie. Mas é o único que o faz através de um conjunto de signos elaborados abstratamente na ânsia de traduzir o meio que o rodeia, a natureza e a relação com seus semelhantes. E é o único que sente a necessidade de registrar a experiência de sua vida – a sua cultura. Em todas estas situações, e para que elas sejam possíveis, é necessário trabalho e desenvolvimento cerebral.

 

·        Cultura – conjunto de valores significativos introduzidos na coletividade a partir da necessidade humana de interpretar a sua relação com a natureza e com os outros homens.

 

- O cérebro e a alimentação – Como conseqüência deste esforço, da necessidade de sobrevivência, da necessidade da sobrevivência pelo trabalho, e, ao mesmo tempo, como impulsionador deste crescimento, o cérebro humano desenvolve-se e provoca alterações fisionômicas nos humanos. Mas, para que o cérebro se desenvolva e possibilite a manifestação de todas estas capacidades, é necessário que seja nutrido, alimentado com certos nutrientes em quantidades e valores nutricionais adequados. Para a eclosão da humanidade, há milhões de anos atrás, onde o desenvolvimento industrial de vegetais e cereal inexistia e a escassez deste tipo de alimento pela ignorância da manipulação de suas sementes tende a aumentar, a saída para os hominídeos teve que ser através da dieta carnívora.

 

·        A introdução da carne na dieta humana não é surpreendente, a não ser pelo fato de poder chegar ao canibalismo. Na verdade, quando o europeu chegou a territórios desconhecidos, no século XVI, XVII e XVIII, encontrou práticas de canibalismo nas sociedades primárias das Américas, da África e da Oceania (Oceanos Índico e Pacífico). Diante deste “horror selvagem”, as potências imperialistas da época, através de estudos pouco participativos e incursivos nessas sociedades, criaram a idéia mística de que as práticas de canibalismo estavam ligadas a uma idéia de incorporação do espírito guerreiro do inimigo e que esta força lhes seria acrescida se comesse esse inimigo derrotado.

 

·        No caso, por exemplo, dos índios Tupinambás do litoral brasileiro, essa explicação tem razoável razão de ser, na medida em que nossos índios não tinham dificuldade de obter caça – ainda que não exista nenhum motivo para desperdiçar uma fonte disponível de proteína animal. Mas, quando no século XIX, os ingleses contataram os aborígines da Nova-Guiné, no oceano pacífico, observaram que estas tribos não só comiam seus inimigos derrotados, como os próprios membros da tribo, parentes e familiares próximos. Neste caso, estava-se diante de uma prática inequívoca de acrescentar valor protéico a suas dietas em uma ambiente escasso de proteína animal. Com toda certeza, uma solução que remota a nossos ancestrais de milhões de anos atrás, prática essa que só foi abandonada em meados do século XX, não por obediência às proibições legais do Estado, mas por estarem morrendo devido a uma epidemia desconhecida.

 

 

  1. A dominação da natureza – O trabalho humano começa pela elaboração de instrumentos (Engels). Os primeiros instrumentos fabricados pelos homens estão ligados à caça e à pesca. A partir daí não parou mais de fabricar. A relação dialética do homem com a natureza, impõe-lhe incessantemente a elaboração de novos instrumentos e formas de trabalho. A cada necessidade suprida, nova necessidade se lhe apresenta; a cada solução de sobrevivência, portanto, nova solução há de ser desenvolvida. Impulsionado por esta espiral de problemas a serem superados, ao homem só lhe resta a criatividade e o trabalho, e sua sobrevivência pode se verificar em qualquer parte da terra e em ambientes mais inóspitos – hoje, mesmo fora do planeta. Mas essa sobrevivência tem um preço; a dominação da natureza, extraindo dela os meios de vida. Diferentemente dos demais animais e seres vivos, o homem  não apenas se serve dos meios naturais colocados à sua disposição, mas pode, em vez de se adaptar a ela, adaptá-la a ele. A agricultura é um trabalho que exige conhecimento da natureza e ao mesmo tempo intencionalidade e planejamento para que essa natureza lhe sirva de suprimento.

 

- “À caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as nações e os Estados. Apareceram o direito e a política, e com eles o reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião”. (Engels).

 

- Lentamente o homem cria a civilização. Mas não a cria de forma única; como vimos a criação do Estado não é característica, nem é desejável, em sociedades primárias. O direito e a política nessas sociedades não apresentam semelhanças com as instituições ocidentais modernas. E a religião, no sentido moderno de seitas e igrejas, jamais foi concebido como necessário pelos povos indígenas; o misticismo e a religiosidade das sociedades primárias deve-se à natural incompreensão das forças da natureza e das motivações da existência humana e sua relação fantástica com essas forças naturais. Neste sentido, muitos dos simbolismos e valores das sociedades primárias ainda permanecem ligados a essas forças naturais, pois não existe, para eles, a necessidade de desvendamento além da simples e necessária obediência às leis da natureza. E muitos desses mesmos valores se consolidaram nas culturas mais diferenciadas e complexas, como os tabus, como o do incesto, que provavelmente está presente em todas as sociedades (Levi-Strauss) a partir do fato que da incompreensão da própria reprodução humana o homem preferiu partilhar com os outros, doando os filhos para se acasalarem da mesma forma que se doou o fogo enquanto não se compreendeu sua origem e produção.

 

- Entre nós, no entanto, que temos a necessidade de ir sempre além na complexidade da vida e do universo, as respostas mais fundamentais ainda não foram respondidas, se é que algum dia o serão. A nossa inquietude e angústia ilimitada pelo saber encontraram, diante das não respostas, na religião as respostas indecifráveis de nossa existência e do cosmos. Para o indígena estas respostas estão pacificamente circunscritas à sua relação mais harmoniosa e cúmplice com a natureza; uma relação menor de exploração e dominação.

 

- Daqui, podemos, portanto, aferir que o conhecimento potencializa enormemente a dominação e a exploração da natureza pelo homem (Fritjof Capra) e do homem pelo próprio homem: quando conhece não respeita a natureza, domina-a; quando conhece não doa mais, negocia, troca, vende; quando conhece passa da exploração e dominação da natureza para a exploração do seu semelhante; do natural ao industrial, do mito à religião, da tolerância ao interesse; da regra ao poder, da repartição à propriedade e desta à propriedade privada.

 

3.  Pensamento e existência – Em algum momento os homens esqueceram do trabalho como fundador da sua humanização e passaram a conceber e interpretar o mundo a partir da razão (Idealismo). Esqueceram-se do esforço real que pelo trabalho lhes desenvolveu a mão livre, o aparelho vocal, o próprio cérebro (Materialismo), e passaram a privilegiar o pensamento sobre a vida real. Deveria ser natural que quando as potencialidades, ainda hoje desconhecidas, do cérebro humano se manifestaram fortemente, que o pensar e o agir fossem compreendidos como uma dualidade única. Mas mais do que trabalhar e produzir, e a si mesmo e ao seu pensamento, a unicidade ontológica se cristalizou entre as sociedades diferenciadas modernas como a preponderância do pensar sobre o agir. E logo, da preponderância do conceber sobre o executar. E logo do poder dos que pensam, sobre os que fazem o que alguns pensam.

 

       - Ao longo do nosso processo civilizatório, contrariamente ao sucedido com as sociedades primárias, os meios e as formas de trabalho e produção se modificaram e com eles as relações sociais de produção, e as demais relações gerais. A este conjunto de forças produtivas e relações sociais de produção, denominou-se modo de produção (Karl Marx). A história de nossa civilização é acompanhada por modos de produção diferentes, com estruturas produtivas próprias, mas com algo em comum: a dominação da concepção sobre a execução, a exploração do trabalho de muitos e a expropriação do produto desse trabalho por poucos. Assim, por exemplo, na Idade Antiga – escravos e senhores -, na Idade Média – vassalos e plebeus e nobres e príncipes -, na Idade Moderna – assalariados e proprietários (capitalismo) ou dirigentes burocratas e trabalhadores (capitalismo de estado). Para cada modo de produção destes, portanto, duas classes importantes a moverem a história por seus antagonismos.

 

- Nas sociedades menos diferenciadas este tipo de divisão entre pensar e agir, entre conceber e executar, entre ordenar e cumprir, entre poder e servidão, aparece de forma menos acintosa. Se algum tipo de dominação, exploração e expropriação se verificaram, de forma primária, entre algumas sociedades tribais das Américas, foi entre sociedades com algum grau de tecnologia produtiva, nos grandes impérios dos Incas e dos Maias, por exemplo. No continente africano os antropólogos identificaram estes mesmos mecanismos de forma mais específica, como no caso das castas onde a escravidão era praticada em uma mesma etnia – prática, aliás, existente até hoje, por exemplo, no Sudão e na Etiópia, e fortalecida, evidentemente, pelo comércio de escravos efetuado pelos europeus ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Na Oceania essas práticas de servidão são mais raras, sendo mais comum uma certa predominância de poder do oráculo, do feiticeiro, apenas do líder e alguns poucos apaziguados, mas não de um grupo ou casta bem definida e em quantidade significativa de elementos. Entre os indígenas brasileiros (Alto Xingu), semelhante aos índios norte-americanos (Cheyennes), o poder está diluído por toda a comunidade, existindo, quanto muito, um conselho de idosos ou sábios que de forma conjunta têm algum predomínio sobre o grupo, mas na exata medida em que decisões de estratégia de sobrevivência precisam ser tomadas e a vida social precisa ser regulada com direto à punição nos casos de desvios mais graves.

 

 

 

 

JMSR/agosto.2005

 

 

 

 

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