V – PRINCIPAIS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS

 

1. Escola Evolucionista - Lewis Henry Morgan (1818-1881) – Americano; “A Sociedade Primitiva” (1877) – Estudo dos povos do norte dos E.U., os Iroqueses.

 

Há cerca de 150.000 anos, a partir de algum lugar no centro da África, o nosso ancestral mais próximo, o homo-sapiens, começou a mais fantástica jornada do homem. Há cerca de 10.000 anos atrás essa jornada terminou com os últimos imigrantes que atravessaram o Estreito de Behring (que há milhares de anos atrás unia o continente euro-asiático ao continente americano). No entanto, no Parque nacional da Serra da Capivara, no Piauí, existem fortes indícios de que já havia grupos humanos na América do Sul há cerca de 50.000 anos, o contraria as teses de que o homem chegou às Américas há apenas 12.000 anos (medições feitas por carbono 14 em fogueiras – não foram encontrados fósseis humanos). Por outro lado, sabe-se hoje que descendentes dos primeiros colonizadores da Terra do Fogo (extremo sul da América do Sul) apresentam pouca semelhança com os descendentes de índios americanos, o que leva a supor que seus ancestrais sejam antigos aborígines melanésios (Austrália).

 

Ao que tudo indica, os primeiros homo-sapiens saíram mesmo do continente africano, atravessaram o mar-vermelho (tese comprovada pelo rastreamento de DNA Mitocôndrio – herança feminina encontrada em todas as linhagens raciais hoje encontradas em todos os continentes), e a partir daí se espalharam ao longo de milhões de anos por toda a face da Terra. Provavelmente não de uma forma linear e contínua, mas de acordo com as facilidades e dificuldades do meio ambiente que foram encontrando em sua epopéia histórica. Não devemos esquecer que a superfície da Terra sofreu profundas transformações em resultado de fenômenos climáticos (mais continentes unidos e próximos, o nível do mar cerca de 50 metros mais baixo, mar congelado na Era do Gelo), e que, portanto, a locomoção de grandes distâncias estava mais facilitada do que hoje. No entanto não devemos imaginar uma única rota para nossos ancestrais descendentes de nossa primogênita africana, sendo mais razoável acreditar que os humanos se separaram em várias e várias direções e povoaram todo o planeta em levas irregulares, mas constantes, de acordo com as condições de sobrevivência material.

 

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Mais ou menos neste sentido, se estabelece a primeira escola antropológica moderna, a Escola Evolucionista. No século XIX, depois do movimento mercantilista e imperialista renascentista dos países europeus ter afrouxado seu ímpeto, e na ânsia de ajudar a compreender e organizar o sistema liberal burguês europeu, o caos promovido pelo capitalismo, a antropologia vai voltar-se para o estudo das comunidades “exóticas” e “selvagens” encontradas nos territórios colonizados. Portanto, a antropologia científica passa a se interessar pelo diferente na ânsia de entender o homem civilizado, industrial, moderno e burguês. E neste sentido, se deixa de lado a função de ajudar a colonizar e explorar de forma mercantil esses povos, tende a ver-se como continuidade desses povos considerados mais atrasados. Todas as ciências do século XIX estão voltadas para a tarefa de reorganização sócio-política dos países industriais e capitalistas – são financiadas por eles. A antropologia como ciência não escapa a esta intenção.

 

A Escola Evolucionista é fortemente influenciada pelas descobertas das outras ciências, como o caso da biologia. As teses de Charles Darwin (1809-1882), por exemplo, sobre a Evolução das Espécies, a partir de pesquisas efetuadas nas ilhas Galápagos – Oceano Pacífico -, influenciaram profundamente as ciências sociais no século XIX, entre elas a antropologia. Darwin concluiu que para sobreviverem as espécies animais se adaptavam ao meio em que viviam e que os mais fortes seriam aqueles que melhor se adaptassem, e os mais fracos estariam condenados a se extinguirem. Pesquisando os animais dessas ilhas, chegou à conclusão de que geneticamente poderiam todos os seres vivos descender de uma única existência microbiana primária e que na luta pela sobrevivência se transformariam biologicamente de forma que se passaria essa herança genética às próximas gerações. Portanto, essas teses agradavam ao homem europeu que se enxergava como mais desenvolvido e civilizado, no topo da escala de uma linha de evolução única que selecionava o mais forte. As comunidades diferentes dos territórios colonizados eram, nesta escala, inferiores e, portanto, passíveis de serem dominados e explorados. Na melhor das hipóteses, essas comunidades inferiores nos mostravam como havíamos evoluído e como poderíamos, se o assim desejássemos, auxiliá-los a se desenvolverem para se equipararem a nosso estágio de evolução.

 

Evidentemente, desde cedo os antropólogos mais isentos e comprometidos com o estudo empírico desses povos, perceberam que o “diferente” não evidenciava exatamente “inferioridade”, mas mais uma forma específica de se adaptar ao meio natural circundante. Ainda assim, por muito tempo, ficou a idéia que se tivessem condições ambientais propícias, esses grupos humanos avançariam na escala de desenvolvimento técnico e cultural até chegarem ao status dos povos europeus mais desenvolvidos. A Escola Evolucionista está profundamente envolvida com esta idéia de que, em certas condições de convívio com a natureza, os grupos humanos se desenvolvem mais ou menos rapidamente em uma mesma direção, do mais simples para o mais complexo, do inferior para o superior, do atrasado para o desenvolvido, esta direção sempre determinada pelas tecnologias que se conseguem desenvolver na inexorável luta pela sobrevivência material.

 

2. Escola Funcionalista: Bronislaw Malinowsky  (1884-1942) – Polaco; “A Vida Sexual dos Selvagens” (1929) – Estudo dos aborígines da melanésia, parte oriental da Nova-Guiné, Pacífico, Ilhas Trobriand. Radcliffe-Brown (1881-1955) – Inglês; “Estrutura e Função nas Sociedades Primitivas” (1952). Estudo dos aborígines da Austrália, do Pacífico e da África.

 

     A evidência científica mais importante que os antropólogos descobriram entre as comunidades isoladas, é que, exatamente, a diferença não é sinônima de inferioridade, nem de atraso tecnológico. Tampouco, estudando com mais profundidade essas comunidades, se pode dizer que, em todos os casos, sua organização social seja simples, muito pelo contrário – neste sentido, o próprio termo “primário”, para designar grupos humanos que não apresentam o nível de tecnologias que as sociedades ocidentais apresentam, pode ser impreciso. A Escola Funcionalista ao estudar os povos isolados e dos mais longínquos extremos da Terra pôde desenvolver uma teoria que aponta para a determinação da funcionalidade de certas instituições sociais sobre as formas de existência cultural e, portanto, sobre as opções de produção material de sobrevivência. Num certo sentido, esta escola defende a predominância da cultura sobre a economia e a política.

 

     O mérito do funcionalismo antropológico seja na versão de Malinowsky – relações biológicas de parentesco, ou na versão sociológica de Radcliffe-Brown, foi, sem dúvida, perceber e defender a idéia que o desenvolvimento dos grupos humanos está permeado por valores, que constituem uma cultura própria e diversificada, e que, em última análise, para se entender como esse desenvolvimento se dá é preciso entender as funções das instituições culturais de cada povo, como por exemplo, as formas diversas do parentesco e das funções da família. A partir dessas funções das instituições culturais é que os grupos humanos vão desenvolver suas estratégias de vida e sobrevivência material, e que, portanto, existem outras determinações além do simples adaptar à natureza e não uma luta linear de desenvolvimento pela sobrevivência. Em outras palavras, pode ser que determinados grupos humanos isolados, por suas tradições culturais, não tenham imaginado interesse algum em se desenvolverem do ponto de vista econômico, tecnológico, e que, portanto, não existe uma relação de inferior e superior, mas de opções diferentes de sobrevivência a partir de fatores essencialmente humanos, como, por exemplo, as relações familiares de parentesco e do casamento.

 

                                         

   (...) O funcionalismo supõe então que as várias relações sociais visíveis no seio de uma sociedade formam um sistema, quer dizer, que existe entre elas uma interdependência funcional que lhes permite existir como um todo <<integrado>> que tende a reproduzir-se como tal, como uma sociedade. (Godelier, 1977:61).

 

            A crítica que se faz à Escola Funcionalista, é que, ao privilegiar as funções das instituições sócio-culturais, de forma idealista se deu uma autonomia e preponderância desses sub-sistemas “particulares” (parentesco, religião, economia) sobre as condições concretas de existência em que repousam as particularidades em que tais sub-sistemas executam suas funções e quais as modificações que ao longo do tempo essas instituições apresentam. Não se pode partir do imaginário valorativo de uma comunidade sem que se entenda qual a relação desse imaginário com as contradições internas dessa comunidade, seja em relação à natureza ou aos outros homens. Assim, a evolução humana, na visão funcionalista, parecia ter explicação apenas em uma porção de contingências e acidentes procurados externamente à determinação valorativa e funcional das suas instituições sociais, pois em seu interior as comunidades parecem harmoniosas e incapazes de produzirem litígios, delitos e punições cabíveis.

 

 

 

 

 

 

JMSR/ agosto de 2005.

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