VI – PRINCIPAIS ESCOLAS
ANTROPOLÓGICAS II
3. Escola Estruturalista - Claude Lévi-Strauss (1908- ) – Belga; “As Estruturas Elementares do Parentesco” (1949). Estudo comparativo de povos da Ásia, Oceania e África.
Viu-se que a Escola Funcionalista teve o mérito de,
ao subordinar a vida real das comunidades indígenas ao aspecto funcional das
instituições culturais (família, religião, economia), reformular a visão de
desenvolvimento linear sócio-biológico da Escola
Evolucionista. Desta forma, sua maior contribuição está em desobrigar o desenvolvimento social
humano em seguir uma única direção até alcançar obrigatoriamente o estágio mais
avançado da civilização, o industrialismo burguês. Assim, as classificações de
“selvagem” e “primitivo” deixaram de ter a conotação ideológica e política que
levava à dominação e exploração, bem como a uma missão “evangelizadora” e
“civilizatória” destes povos por parte das potências capitalistas e coloniais.
A partir da construção de um desenvolvimento baseado em instituições culturais,
determinando a vida social pelas funções que essas instituições desempenham nos
grupos humanos, o funcionalismo emprestou uma nova visão a esse “progresso”
social: cada grupo humano est
No entanto, uma nova visão em antropologia vai levar a considerações “mais profundas”: a crítica da Escola Estruturalista é que as funções de certas instituições culturais não revelam por si mesmas as combinações e os sistemas decorrentes da organização específica dos grupos humanos. Esse conjunto de relações e formas sociais de existência material é que Lévi-Strauus vai denominar de estrutura. Uma estrutura, nesta visão, então, é o conjunto de relações sociais específicas de uma determinada organização da produção para a vida em grupo, como no caso de parentesco e liderança mágica, que está na origem das funções superficiais observáveis das instituições culturais. Por isso, uma estrutura social não é imediatamente observável, pois ela está no substrato da vida real, como na origem e por detrás da funcionalidade das instituições e dos papéis que os indivíduos representam. O que o observador vê de imediato é apenas a superficialidade conseqüência da estrutura de relações e afinidades que compõem um sistema de organização social. A verdadeira relação de parentesco, de religiosidade, e mesmo de produção material e econômica está estruturada em uma ordenação mental coletiva, um sistema de elementos que abrange toda a coletividade.
Como Godelier afirma na obra “Horizontes da Antropologia”:
“Para os funcionalistas, uma ”estrutura” é, portanto, “um aspecto do real”, e afirmam a sua realidade fora do espírito humano(...) Para Lévi-Strauss, as estruturas fazem parte da realidade, são a realidade (...) No entanto, para Lévi-Strauss, como para Marx, as estruturas não são realidades diretamente visíveis e observáveis, mas são níveis da realidade que existem para além das relações visíveis dos homens entre si e cujo funcionamento constitui a lógica profunda de um sistema social, a ordem subjacente a partir da qual deve explicar-se a sua ordem aparente”. (1977:75).
Lévi-Strauss ainda coloca três princípios metodológicos
para que o antropólogo possa estudar as sociedades, primevas e outras, do ponto
de vista da Escola Estruturalista:
a) Toda estrutura é um conjunto determinado de relações, ligadas umas às outras segundo leis internas que apresentam transformação constante;
b) Toda estrutura combina elementos específicos que a compõem, e por este motivo, é impossível “reduzir” uma estrutura a outra ou “deduzir” uma estrutura de outra;
c) Estruturas se unem formando sistemas sociais complexos (parentesco+magia e liderança+produção), através de leis de “compatibilidade”, mas que não têm uma origem única e definida (processo biológico de adaptação ao ambiente).
Como se vê, estes “princípios estruturais” apontam para o dinamismo e múltipla determinação no desenvolvimento dos grupos humanos, construindo uma complexidade tão rica e diversa que é impossível se efetuar qualquer reducionismo a uma única origem, um único caminhar e mesmo uma igualdade de existência entre os grupos humanos. Neste caso, existe alguma semelhança entre as Escolas Funcionalista e Estruturalista, na medida em que ambas defendem a idéia da necessidade de se compreender cada grupo humano pela totalidade e complementaridade de suas instituições e relações recíprocas, e procurar entender sua dinâmica interna antes de se analisar sua gênese e evolução (como é o foco da Escola Evolucionista).
4. Escola Estruturalista Marxista – Maurice Godelier (1934- ) – Francês; “A Produção dos Grandes Homens: poder e dominação masculina entre os Baruya da Nova-Guiné” (1982). Estudo do povo Baruya na Nova-Guiné.
Karl Marx, pelo seu materialismo histórico também já havia chegado à
mesma premissa do estruturalismo, quando diz que “A forma acabada que revestem
as relações econômicas, tal como se manifesta à superfície, na sua existência
concreta, portanto tal como se representam também os agentes destas relações e
aqueles que as encarnam quando tentam compreendê-las, é muito diferente da sua
estrutura interna essencial mas oculta e do conceito
que lhe corresponde. De fato, ela é mesmo o seu inverso, o oposto”.
(Contribuição à Critica da Economia Política). Por
outras palavras, que as funções de determinadas instituições sociais são a superfície
de relações que estão por detrás dessas manifestações culturais e que não são
imediatamente percebíveis, e que a ciência, portanto, deve procurar entender
antes essas estruturas subjacentes aos fenômenos observáveis.
A Escola Estruturalista
Marxista, no entanto, não entende
a estrutura social apenas como princípio basilar da existência de uma
sociedade, mas como relações reais
e concretas de produção e a partir delas, a derivação para todas as relações
sociais de produção e relações sociais gerais. De certa forma, a Escola
Estruturalista reconhece a
complexidade e a existência sócio-cultural e política a partir da estrutura,
mas pouco fez para aprofundar os conteúdos dessas estruturas e perceber-lhes as
formas e os meios de se equiparem para a produção de sua sobrevivência. A Escola Estruturalista Marxista, por outro lado, vai além da simples
constatação de que a estrutura é o fundamento de todas as superestruturas
sociais, e procura revelar como e de que forma essas estruturas se apresentam
em termos de organização pela sobrevivência do grupo e como a partir daí todas
as demais concepções superestruturais (religião, cultura e política) lhe são
conseqüentes.
Além disso, o marxismo antropológico procura entender o
desenvolvimento ulterior dessas estruturas como forma de concluir ou não por um
relacionamento de forças e fatores que forçam as superestruturas a se
modificarem na permanente adequação de suas instituições às estruturas que lhe
dão base; se não houver conflito
entre a estrutura e superestrutura nenhum grupo humano está disposto a
revolucionar suas instituições culturais – é a contradição entre a estrutura e
superestrutura que produz as revoluções sociais. Godelier procura demonstrar que este
caminho revolucionário que produz potencialmente novos modos e relações de sobrevivência não é único e não se apresenta
de forma uniforme e semelhante em todas as comunidades e sociedades. A história, neste contexto, pode e
apresenta de fato uma multideterminação causal que
não encaminha o desenvolvimento social humano de forma linear e semelhante.
Se for verdade que nosso tipo de sociedade pode ser escrito por uma sucessão
de modos produtivos, por uma revolução constante das estruturas produtivas
e que daí derivam relações sociais e políticas, e tecnologias, crescentes em
complexidade, isto não significa que todas as sociedades primevas contenham em
si o germe deste mesmo desenvolvimento, mas tão somente que, de uma forma ou de
outra, são as estruturas subjacentes à realidade cultural, política e religiosa,
e que estas instituições superestruturais acomodam-se àquelas estruturas. Por
exemplo, pode-se aventar a hipótese que o sedentarismo, produto da dominação
das forças da natureza, colabora para a instituição do poder e da dominação/
exploração do homem pelo próprio homem – uma derivação da fixação é a
organização política e hierárquica duradoura. Assim, na base de toda a
civilização moderna, está o sedentarismo e a fixação do homem em um território
definido; mas, por outro lado, não
podemos dizer que toda o grupo humano que se est
JMSR/ setembro de 2005