§The Speed of Pain§

 

 

03. Uma Grande Festa

 

   Havia amanhecido, os raios de sol daquela manhã aconchegante me despertaram de meu sono profundo e tranqüilo, abri os olhos e observei o teto xadrez de meu quarto, tão rígido e sem vida, tão igual a tantos outros e mesmo assim tão meu. De certa forma os meus pensamentos eram ilógicos e lógicos, podia sentir como os meus sentimentos estavam confusos, não conseguia parar de relembrar o dia anterior, teria sido algo bom ou ruim? No momento era impossível responder a tal pergunta.

   Resolvi levantar, afinal não poderia passar o dia inteiro deitado na cama, quem sabe tudo aquilo que eu estava sentido não passava de algumas idéias e sentimentos que estavam sendo interpretados da forma errada. Um amigo é um amigo, foi o que eu pronunciei para mim mesmo ao levantar, apenas isso, nada mais... Ele ama a Manson e eu não devo me envolver nessa historia... Devo ajudá-lo e não complicar ainda mais a sua vida, é isso.

   Lavei o rosto e escovei os dentes sempre lembrando para mim mesmo o que eu havia concluído em meus pensamentos.

“BOM DIA TIM!!!”

    Me assustei com a repentina aparição de Five.

“Bom dia Johnnie...”

“O que foi? Você parece um pouco abatido...”

“Nada não, você que está todo feliz, por isso acha que eu estou pra baixo... mas me diga, qual o motivo de toda essa alegria?”

   Perguntei ao meu radiante amigo que se encontrava de pé na porta do meu quarto. Ele abriu ainda mais o sorriso e me respondeu.

“Oras, hoje à noite nós vamos tocar! Eu estou muito animado, um cara aí, acho que o nome dele é Verlaine, ligou e pediu para o Marilyn e nós, fazermos um showzinho na casa de shows dele. Não é legal?!”

“MERDA! O Manson aceitou???? Ele tá maluco????? Nós não temos nada pronto, não ensaiamos nada! ”

“Calma Tim! É coisa simples... não precisa se preocupar.... nós vamos resolver essas coisas agora, afinal todas as outras bandas também vão tocar improvisando, foi o que Marilyn me informou.”

“Se você diz...”

“Relaxa.”

   Ele sorriu, beijou minha face e saiu, chegando na porta virou-se para mim e avisou que o café da manhã estava pronto e que iríamos discutir tudo enquanto comíamos, respondi afirmativamente com um movimento de cabeça e ele saiu.

   Ao chegar na mesa para o café encontrei todos sentados a minha espera. Sentei e todos em um movimento, que chegava a ser até engraçado, voltaram seus olhares em igualdade para Marilyn Manson que se encontrava sentado na cadeira da ponta da mesa, apoiando seu queixo nas mãos que estavam sobre a mesma.

“Como todos vocês devem estar sabendo, eu aceitei a proposta de que fizéssemos um show hoje à noite, eu compreendo que é algo que está muito em cima para que possamos fazer tudo de uma forma muito organizada, mas também sei que todos nós estamos um tanto quanto entediados e que uma ocasião apenas para que possamos rever alguns amigos e nos divertimos é bem vinda”

“É verdade.”

   Confirmou John Five que logo em seguida recebeu o apoio de Ginger e Pogo, que balançaram suas cabeças afirmativamente. Eu não estava gostando muito da idéia, sabia muito bem que não conhecia tanto assim os amigos de Marilyn, mas no fim das contas seria algo de bom proveito, queria mesmo encher minha mente para não passar horas e horas aprofundado em um mesmo raciocínio.

“Se todos concordam, eu gostaria da opinião de vocês sobre as músicas que eu selecionei para tocarmos essa noite.”

   O líder da banda estendeu a mão com uma lista que continha o nome de algumas músicas. As avaliamos um a um e resolvemos trocar apenas duas das cinco que ali continham, logo após, nos dirigimos ao estúdio e começamos a ensaiar. Depois de algumas horas tocando, a melodia foi interrompida por Ginger que se levantara para pegar algo no chão.

“Vejam o que eu encontrei, depois eu sou o porquinho da banda né, Tim?”

   Ginger falava enquanto apanhava a maçã que estava debaixo da poltrona onde eu havia me sentado no dia anterior, então era lá que ela estava.

“Foi mau, mas é que eu não sabia onde ela tinha se metido...”

“Sei, sei...”

   Brincou Fish enquanto jogava a fruta, que se encontrava podre e coberta por poeira e outras sujeiras, no lixo e voltava para a bateria.

   Depois de bastante tempo de ensaio resolvemos parar para que pudéssemos preparar nosso figurino para a apresentação, Johnny escolhia a sua roupa enquanto Fish o observava sentado na cama do quarto onde eles se encontravam, Manson estava em seu quarto também, havia brincado há pouco tempo falando que queria se encontrar bonito para seu reencontro com a putinha do Molko, eu observava tudo e me parecia que a noite de hoje seria memorável para todos nós e provavelmente para os nossos “amigos” também. Pogo estava muito calado hoje, talvez estivesse se concentrando para o show, resolvi ir conversar com ele.

“Oi Pogo, você está calado hoje, ta pensando em algo?”

“É mais ou menos isso Tim. O Manson pode não aparentar estar triste, mas eu conversei com ele ontem e ele acabou me contando sobre uns problemas pelos quais ele está passando, sabe?”

“Sei...”

“Eu estou preocupado com tudo o que está se passando com ele, Marilyn é uma pessoa muito frágil, deve-se ter cuidado ao falar e ao agir com ele.”

“Hum...”

   Gacy olhava para a porta do quarto do seu grande amigo com um olhar vago e ao mesmo tempo passava a mão nos cabelos, ele realmente estava preocupado.

“Tudo vai acabar bem Pogo, você vai ver.”

“É... você tem razão... bom, vamos nos aprontar para o show???”

“Vamos.”

   Ele sorriu e se encaminhou para o seu quarto, fiquei parado acompanhado-o apenas com os olhos, era assim que ele se encontrava para mim... Cada vez mais distante, mesmo estando cada vez mais próximo. Fui para o meu quarto, escolhi minha roupa e a vesti, a minha garganta doía, era como se algo estivesse me sufocando, odiava me sentir daquela maneira. Eu tinha que me animar, não podia passar o resto da minha vida assim, deveria resolver tudo de alguma maneira.

   Estava terminado de me maquiar quando Manson entrou no meu quarto, dirigi meu olhar para ele, estava lindo, uma maquiagem rosa contrastando com o preto do batom.

“Está pronto??? Já estamos saindo, se demorar mais vamos acabar indo sem você.”

“Não se preocupe eu já acabei...”

   Ele balançou sua cabeça afirmativamente e saiu, após a porta se fechar me olhei pela ultima vez no espelho e me levantei, seria uma longa noite.

 

***

   A casa de show era linda, toda a sua estrutura era envelhecida, quadros e objetos antigos estavam espalhados por toda parte, lindos candelabros estavam acesos nos corredores, os lustres muito luxuosos possuíam a luz muito fraca dando ao local um clima meio excêntrico.

“Eu simplesmente ADOREI o local!!! Deixa a pessoa animada, os drinques são ótimos tudo está maravilhoso, eu estava morrendo de saudades de vocês, os meninos também não é???”

“Claro Bri-Luv, mas vá com calma, o show ainda nem começou e você já está um pouco animado...”

“Deixa o Molks, Stefan, ele está se divertindo.”

   Os três rapazes sentavam em forma de uma espécie de “escadinha”, Brian não parava de falar com Manson, o qual parecia um pouco empolgado olhando para o decote do terno do outro, acho que ele havia encontrado algo interessante lá.

“Diga-me Steve, o quanto você tem ensaiado nesses últimos dias?”

“Um pouco apenas. Tenho procurado ficar mais tempo com os meus menininhos.”

   Ao pronunciar a frase, Hewitt olhou para o amigo mais alto com cara de sarcasmo e riu um pouco, o rapaz não pareceu gostar muito da brincadeira e retribuiu com a mesma moeda.

“É isso mesmo Ginger, ele tem PROCURADO, porém para o nosso pobre amigo “bebum” é difícil não tocar e não beber, assim ele acaba ficando menos tempo ainda comigo e com o Brian... triste não?”

“Stefan!”

“Sim?”

   Steve balançou a cabeça negativamente e voltou a olhar para Ginger, sorrindo e mudando de assunto, Osldal, vitorioso, voltou a olhar para Molko, o qual levava novamente o copo de Blood Mary à boca.

“E você Tim? Como está se saindo na banda?”

“Bem, Brian.”

“Que bom, adoro bandas que são unidas!”

“Que saco...”

   Todos se calaram e olharam para Daniel Johns, que agora cruzava os braços e fazia uma cara de tédio.

“Onde está esse tal de Verlaine? Ele deveria ter sido o primeiro a aparecer!”

“Calma Dan, acho que o cara é meio estranho assim mesmo, vamos aguardar mais um pouco.”

   Ben tentava acalmar o amigo, enquanto Cris bebia algo e iniciava novamente sua conversa com Dave Grohl.

   Todos estavam começando a ficar impacientes quando um homem alto de cabelos vermelhos e brilhantes entrou na sala, com um olhar bastante pacifico, ele cumprimentou a todos e se desculpou pela demora, erguendo uma das mãos apontou para cada líder das bandas e os chamou. Disse que antes de realizar o show queria conhecer melhor o espírito das bandas, complementou seu comentário dizendo que de acordo com seus pensamentos ninguém melhor que o frontman para lhe mostrar o que queria.

   Os primeiros a mudarem as expressões de seus rostos foram Steve e Stefan, acho que não gostaram muito do modo como Verlaine aparentava estar com um pouco de segundas intenções com todo aquele papo. Quando Brian se levantou o integrante mais alto de Placebo o segurou pelo braço e lhe falou algo com um semblante de preocupação no rosto, no mesmo momento o baterista falava com Marilyn Manson, o qual gesticulava de forma afirmativa para o preocupado amigo.

   Com a saída dos garotos o clima no cômodo ficou um tanto quanto pesado e eu pude perceber o quanto Pogo agora se encontrava inquieto, a idéia de deixar Marilyn trancado com um estranho não lhe agradava muito.

   Após alguns minutos todos voltaram sorridentes e aparentemente bem, os amigos que se encontravam ansiosos na “sala de espera” ergueram-se todos ao mesmo tempo e foram de encontro aos agora devolvidos colegas de trabalho. Nossa banda se reuniu ao redor de Manson, todos estavam bastante curiosos para saber o que tinha acontecido no outro cômodo, o rapaz de maquiagem rosa contou que Verlaine queria apenas os conhecer melhor, afinal esse era um dos maiores sonhos de um grande fã das bandas que se encontravam no local, para deixar as coisas mais diferentes e engraçadas ele resolveu fazer todo esse clima, tudo não tinha passado de uma simples brincadeira.

“Bom, agora vou me apresentar de verdade a vocês! Meu nome é Verlaine Fetish, sou um grande fã de vocês e adoraria ter um show particular, agora me deixem levá-los ao cômodo de eventos, lá vocês irão tocar para mim, meus jovens amigos, espero que esteja ao agrado.”

   Todos ficaram parados sem saber bem o que fazer até que Brian saiu na frente e seguiu o homem de cabelos vermelhos longos e esvoaçantes, assim todos fizeram o mesmo.

   O palco do local era enorme e todos ficaram impressionados com todas as luzes coloridas que iluminavam o local escuro, no centro da sala tinha uma poltrona onde Verlaine sentou-se e em seguida olhou para todos nós e falou que a escolha de quem começaria e quem terminaria era nossa.

   Placebo foi à primeira banda, afinal o pequeno Brian estava muito empolgado com o belo lugar. Em seguida vieram as outras bandas, com Marilyn Manson finalizando tudo. No fim a alegria de todos era imensa, os shows haviam sido ótimos, muitos abraços e beijos eram dados pelos integrantes de suas respectivas bandas e também nos de outras bandas.

   Fetish ficou mais do que feliz, nos ofereceu a sua casa para que nós passássemos a noite, afinal todos queriam comemorar e matar as saudades, seria divertido ficar mais tempo junto de tantas pessoas bonitas e agradáveis. Todos concordamos e fomos para casa de Verlaine. Eu sentia que muitas coisas ainda estavam por vir naquela noite e nos próximos dias.

 

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