§ The Speed of Pain §
01. Chuva
Chuva,
como chovia aquela tarde. Trancado no estúdio eu apenas me aprofundava cada vez
mais em meus pensamentos, me concentrava em minha própria respiração, contínuos
movimentos de vai e vem do meu peito, de forma que me envolvia nesse ritmo lento
e aconchegante, ergui a cabeça e a escorei na poltrona macia na qual eu estava
sentado, deixei que ela se aprofundasse no agradável apoio que eu a
proporcionava. Fechei os olhos e pude escutar o barulho que os pingos da chuva
faziam ao alcançarem o chão, forte e apaziguador, respirei fundo, levantei e
fui até o teclado que se encontrava jogado no chão, no canto da sala, apanhei
e o coloquei em cima da mesa que ficava na frente do espelho, olhei meu reflexo
e encarei meus próprios olhos.
“O que eu estou fazendo aqui?”
Pronunciei
ao mesmo tempo em que começava a tocar o instrumento, uma melodia melancólica
e suave, ela surgiu de repente em minha mente, talvez porque eu estivesse um
pouco depressivo.
“Como
eu estou acabado hoje, passei o dia aqui... essa chuva faz com que as pessoas
fiquem meio preguiçosas”.
Falava
comigo mesmo olhando para o reflexo do espelho. A musica continuava a preencher
o ambiente.
“Acho que vou comer algo”.
Pressionei
as teclas do teclado pela ultima vez e retirei meus dedos dele fazendo com que o
som das ultimas notas que eu havia tocado ecoassem pelo ar como se estivessem
impedidas de sair, batendo nas paredes e voltando sempre para o mesmo lugar.
Saí
do estúdio e fui para a cozinha, lá encontrei Ginger, ele estava sentado em
uma cadeira olhando para fora pela janela, observando a chuva cair, me
aproximei, mas não fui notado, peguei uma maçã na geladeira e caminhei até a
porta, olhei para traz e ele agora piscava os olhos como se estivesse saindo de
um transe, se assustou ao me ver, mas logo depois me lançou um sorriso meio sem
graça.
“Faz tempo que você ta aí?”
“Não, só vim pegar algo para comer”.
Falei
mostrando para ele a maçã em minha mão. Olhei para a janela, a água escorria
pelo vidro dando uma leve aparência de cachoeira.
“Choveu bastante hoje não foi”.
“È. Eu estou sentado aqui a um tempão sem ter o
que fazer, não tem nada de bom na tv.”.
“Sei. Bom, vou indo”.
Ginger
balançou a cabeça positivamente e voltou a olhar para a janela, dessa vez com
cara de entediado. Eu me retirei, voltei para o estúdio afinal como Ginger
havia dito não havia nada para fazer, lá eu pelo menos tinha uma poltrona
confortável, um clima aconchegante e instrumentos para tocar se eu quisesse
fazer algo para matar o tempo.
Ao
entrar no estúdio me sentei na cadeira e dei a minha primeira mordida na maçã
o barulho que ela causou foi o único que se ouvia na sala além da chuva.
Levantei e peguei o baixo, sentei e comecei a tocar. Parei um instante para
retirar outro pedaço da fruta, porém ela não estava onde eu a havia deixado,
levantei meio que confuso, tinha certeza que tinha colocado ela no braço do sofá.
Coloquei o baixo no chão e fui procurar a maçã, afinal ela poderia ter caído.
Não encontrei em lugar algum. Onde ela estava?
Saí
e voltei para a cozinha, Ginger não estava mais lá, encontrei apenas um
bilhete: “Fui para algum lugar que eu possa me divertir, não se preocupem eu
volto cedo, Beijos Gin”. Então não poderia ser ele que teria pegado minha maçã.
Resolvi
deixar isso para lá, seja lá onde ela estivesse teria que ter tido um meio lógico
para ela chegar lá e eu não ia me importar com isso.
A
caminho de volta para o local onde eu me encontrava antes avistei Five, ele
estava com a cabeça para dentro da sala do estúdio como se procurasse alguém,
quando eu me aproximei ele se assustou e soltou um grito que acabou me
assustando também.
“Calma John! Sou eu!”
“Ah.. desculpe, é que você me assustou.”
“Tudo bem, mais o que você está procurando?”
“O Fishy você o viu?”
“Vi sim, mas receio que você não vai poder
encontra-lo, ele saiu olha”.
Mostrei
para ele o recadinho que Ginger havia deixado.
“Ah... sei, então deixa pra lá. Você vai usar o
estúdio agora? Porque eu estou louco de vontade de tocar guitarra”.
“Não, não, eu não estou nem um pouco a fim de
entrar aí hoje, afinal uma pausa do trabalho sempre vem em boa hora”.
Tive
que mentir, não consegui resistir ao sorrisinho lindo que ele formou em seus lábios,
na verdade a minha maior vontade era mesmo voltar para o estúdio e ficar lá
dentro descansando, porém Five havia me vencido.
“Bem, vá tocar que eu vou procurar o que fazer”.
Ele
sorrio e entrou no estúdio. Agora eu realmente tinha que procurar o que fazer.
Ia passando pelo corredor dos quartos quando de repente ouvi um barulho vindo do
quarto de Pogo. Abri a porta e o encontrei sentado no chão.
“Pogo? Você ta legal?”
“Sim estou por que?”
“Nada, achei que tinha ouvido algo vindo daqui”.
“Sei...”
Ele
ficou me olhando com uma cara meio estranha.
“Que tipo de coisa você escutou?”
“Sei lá, achei que você tinha caído”.
“Sei, eu cai mesmo”.
E
começou a rir.
“Tim o que você está fazendo?”
“Como assim?”
“Hoje nesse momento, o que você ta fazendo?”
“Nada”.
“Então vem!”
Ele
segurou minha mão e saiu me levando. Chegamos na frente da porta da casa, ele
olhou para mim sorrindo, olhou para os meus pés que se encontravam descalçados
e fez uma careta.
“Você fica doente fácil?”
“Na... não, por que?”
“Que bom!”
Voltou
a sorrir, abiu a porta e saiu me arrastando pelo braço, quando ele fez isso
meus olhos voltaram-se para ele, assustados e surpresos, de todos os momentos
que eu havia passado com ele essa era a primeira vez que seu modo de agir era tão
maluco, claro que ele às vezes viajava com conversas que ninguém conseguia
entender nada, mas nunca havia me envolvido em suas loucuras. Chegando na rua,
que se encontrava totalmente deserta por causa da chuva e abriu ainda mais o
sorriso e começou a correr, agora sempre me puxando para perto dele para que eu
não ficasse para traz. Íamos nos afastando cada vez mais da nossa casa, fomos
bastante longe, eu não sei bem onde, para um bosque que tinha perto da cidade,
quando chegamos perto de uma árvore enorme ele parou e soltou minha mão,
ofegante foi sentar na raiz da arvore que saia da terra. Eu, exausto,
encharcado, com os pés cheios de lama e confuso apenas observei o semblante
aliviado de Pogo que passava a mão no tronco da àrvore.
“É linda não é Tim”.
“É.. é sim...”
“Desculpe o mau jeito, é que eu estava precisando
sair de casa, já estava ficando louco lá dento”.
“Entendo”.
Eu
estava morrendo de frio e tenho certeza que ele também, pois de sua boca saiam
fumacinhas a cada palavra pronunciada, assim como da minha. Aproximei-me dele e
sentei ao seu lado, olhei para o seu rosto e vi os seus lindos olhos azuis
acesos e acinzentados com a mistura da luz do sol e o cinza do céu.
“Tim?”
“O que?”
“Posso te contar um segredo?”
“Claro Pogo”.
“Eu gosto de uma pessoa, mas ela não gosta de mim
como eu gosto dela, e acha que o que eu sinto não é o que eu sinto, você me
entende?”
“Acho que sim”.
“Eu já tentei falar o que eu sinto para ela só
que eu não me acho no direito de atrapalhar sua vida, eu sei que essa pessoa
sabe que eu gosto dela, mas nem imagina que é tanto assim e se eu falar
francamente a verdade para ela sua vida vai virar de cabeça para baixo, pois eu
sei o quanto ela me ama como amigo”.
“Que situação...”
“É”.
“Mas quem é essa pessoa? Por acaso é o Marilyn?”
Pogo
olhou para mim meio que sem entender.
“Como você adivinhou?”
“Meio obvio para quem observa e junta
evidencias”.
Ele
sorriu como se estivesse concordando comigo e passou o braço por traz de mim,
pondo sua mão em cima do meu ombro e me encostando a ele, fiquei meio sem graça
mas esperei que ele continuasse a conversa, por muitas vezes eu tinha passado
noites em claro conversando com ele mas nunca tinha o visto numa postura tão frágil
e transparente como estava hoje. De todos da banda ele era o que mais conversava
comigo, talvez porque nós dois ficávamos às vezes encarregados da mesma parte
de efeitos do cd, eu já tinha construído dentro de mim uma coisa que me fazia
ter admiração pela pessoa de Pogo, já o considerava um grande amigo apesar de
que de vez em quando ele tinha umas esquisitices meio que depressivas e se
trancava em seu mundo.
“Sabe, sempre que eu estou pensando muito nessas
coisas eu venho para cá, quer dizer nem sempre, às vezes vou me drogar, beber
ou até mesmo tocar algo, mas eu gosto desse lugar, é calmo e me deixa longe um
pouco da minha vida maluca com o pessoal”.
“É, você tem razão. Pogo, você ta tentando
esquecer o Manson?”
“Não”.
“Mas eu achei que estivesse, porque você não quer
contar a verdade para ele”.
“Sim, é verdade que eu não quero contar a ele,
mas esquece-lo também não é minha vontade. Eu quero sempre lembrar dessa
pessoa maravilhosa e encantadora que o Marilyn é, ele marcou minha vida para
sempre e eu fico grato por isso, eu acho que tentar esquecer ele seria tolice
afinal eu o amo”.
Nossa,
devo admitir que ouvir essa frase realmente me surpreendeu. Deu para sentir o
amor dele por Manson e por um instante me bateu um pouco de inveja e ao mesmo
tempo raiva, pois Manson se queixava de suas historias de amor que nunca davam
certo enquanto tem ao seu lado uma pessoa que o ama tanto.
“Você não tem raiva dele por não corresponder o
seu amor?”
“Não, claro que não, ele não tem culpa, e eu sei
que ele faz o máximo para não me magoar e me dar o carinho suficiente”.
“Compreensivo você...”
O
frio me fez espirrar, Pogo olhou com cara preocupada para mim e levantou olhando
bem o meu rosto.
“Acho melhor irmos embora, senão você vai ficar
doente e a culpa vai ser minha”.
“Não besteira”.
“Besteira
nada, vem”.
Ele segurou minhas duas mãos e me encostou em seu peito como se tentasse me aquecer, o que não ia adiantar muito, pois assim como eu ele estava todo ensopado, porém a sensação de estar encostado em seu peito para mim era muito boa, e voltamos para casa assim abraçados, eu me senti flutuar na volta, pois Pogo me passava uma boa energia, nossa amizade agora havia ficado mais forte, eu sentia isso.