§ The Speed of Pain §

 

02. A Descoberta

   Ao chegarmos em casa Pogo falou algumas coisas comigo, como tomar banho, novo dia ou algo do tipo, eu não dei muita importância ao que ele falava, pois lá se encontrava novamente uma pessoa que não controlava sua boca e também deixava que a conversa se tornasse um monólogo sem coerência. A única coisa que eu conseguia fazer era pensar em tudo o que ele havia me dito, as coisas que tinham ocorrido naquela tarde e em como o meu amigo realmente era uma caixinha de surpresas.

“Não é mesmo Tim? Tim?”

“Ã? O que?”

   Ele acabara de me puxar de meu profundo mergulho em meus pensamentos com uma pergunta a qual eu não fazia a mínima idéia do seu sentido.

“Você não estava me escutando né?”

“Desculpe eu...”

“Tudo bem... eu estava dizendo que...”

   Eu tentava me concentrar nas palavras de Pogo, porém as tentativas eram inúteis as duvidas e as respostas passavam por minha mente como flashes de luz e de repente eu me lembrei de uma coisa que já havia esquecido há algum tempo.

“Pogo.”

“Naquele momento e... sim?”

“Desculpe novamente, mas é que tem uma coisa me incomodando... você por acaso entrou no estúdio hoje?”

“Eu? Não, acho que não, porque?”

“Nada... eu perdi uma coisa lá e não sei onde possa está.”

“Que coisa?”

“É meio estranho, mas eu estava sentado na poltrona do estúdio comendo uma maçã e de repente ela sumiu.”

“Sei... estranho.”

“É, mas deixa pra lá... eu vou tomar um banho e dormir... tô morto... tchau, até amanhã e cuidado pra não cair da cama novamente.”

   Dei algumas risadinhas e me encaminhei para o banheiro. No banho eu sentia como se a minha alma estivesse sendo lavada, estava totalmente aprofundado em meus pensamentos, sabia que o dia que eu tinha acabado de vivenciar tinha sido algo muito significativo para mim.

   Acabara de tomar banho e me olhava agora no espelho, novamente encarando os meus olhos, azuis e opacos, não me passavam nenhum sentimento especial eu sabia que eles me pediam algo, mas eu não sabia o que, a única coisa que eu sentia era um vazio e novamente me perguntei o que eu estava fazendo ali, naquele lugar, não entendia o que eu mesmo estava sentindo.

   Saí do cômodo em que eu me encontrava e vi Five sentado ao longe, no sofá olhando pela janela como se procurasse algo, resolvi me aproximar.

“John? O que foi, você viu algo?”

“AIÊ Tim!!! Que susto!”

“Desculpe novamente por te assustar John!”

“Ok ok... besteira, não, não vi nada não... eu esperava ver mas não vi....”

   John Five falou em um tom meio chateado, fazendo uma cara triste e curvando um dos lados dos lábios deixando-o com uma aparência bastante irritada.

“Não se preocupe Five, ele volta!”

   Sorri e dei um beijo em sua testa, ele me olhou com uma expressão meio surpresa e sem graça, corando um pouco com o meu comentário. Encaminhei-me para o meu quarto, finalmente iria me deitar, estava cansado e com um pouco de sono. Ao chegar pude ouvir a porta principal da casa abrir-se, o som dos pés de Five se levantando de supetão e se encaminhado ao recém chegado, Ginger estava em casa, senti meus lábios formarem um sorriso, sabia o quanto à cena na sala seria engraçada, esses dois sempre faziam todos rirem com seu pequeno caso amoroso, eram tímidos demais para admitir que se gostavam e sempre se atrapalhavam quando ouviam comentários os envolvendo como um casal. Pude ouvir Ginger murmurar algumas explicações e seu parceiro dar-lhe algumas tampinhas, em seguida se encaminharam para um outro lugar.

   Enquanto eu vestia minhas roupas alguém entrou, me virei rapidamente para verificar quem era.

“Pogo?”

“Er... oi Tim.”

“O que você está fazendo aqui?”

“Eu vim te dar isso... mas se você preferir eu saio e entro novamente para ver se dá tempo de você colocar as suas calças....”

   Senti minhas maçãs esquentarem, talvez elas tenham ficado coradas, eu não sei, estava meio sem graça com a presença de Pogo, meu coração batia rápido e eu o olhava fixamente.

“Não é... não tem problema Pogo... o que você quer me entregar?”

“Isso, toma.”

   Desfiz o clima denso que havia se formado entre nós dois, superei minha vergonha e continuei o nosso diálogo pegando o que ele estendia para mim em uma de suas mãos, não fazia a menor idéia do que poderia ser.

“É um cordão que eu comprei há um tempo atrás, quero te dar como agradecimento por ter me ouvido hoje...”

“Ah! Obrigada, é lindo!”

   Percebi que ele ficou mais tranqüilo ao ver que eu tinha gostado do seu presente e deixou escapar um sorriso meio sem graça e me olhou bem nos olhos, eles brilhavam vivamente me encantando e fazendo com que eu me lembrasse dos meus próprios olhos, senti que era aquilo que o meu espírito procurava, era isso o que eu precisava, mas onde Pogo havia conseguido aquele olhar?

“Tim, eu fico feliz que você tenha gostado do presente, planejava entrega-lo ao Marilyn, mas achei que seria uma boa dar pra você.”

“Sei...”

   Ficamos um tempo nos olhando, sentia um calor me envolver e era bastante agradável, para mim, tudo o que se estava passando, meu coração bateu mais rápido e uma alegria me envolveu quando eu ouvi Pogo falar que havia preferido a mim e não ao Manson! Ele me olhava sem piscar e com uma feição tranqüila e séria me parecendo totalmente sexy e atraente, pensamentos estranhos começaram a surgir em minha mente, queria beijar os seus lábios e senti um arrepio quando imaginei o que poderíamos fazer juntos no meu quarto, em minha cama e de repente me vi caminhando em direção a Pogo e o envolvendo em um abraço, sua expressão continuou a mesma e assim retribuiu o gesto de carinho e me beijou a testa. Levantei o rosto e olhei em seus olhos estavam cheios de sentimentos eu podia ver sua alma através deles, queria beija-lo, ia beija-lo quando percebi o que estava fazendo. O que eu estava fazendo? Eu realmente ia beijar o meu amigo? Como? Separei-me dele e tentei afastar aqueles pensamentos.

“Obrigado Pogo, eu vou guardar com muito carinho, agora vou terminar de me vestir e dormir um pouco, boa noite.”

“Boa noite Tim, durma bem!”

   Eu sorri para ele em resposta e senti novamente o seu peito aproximar-se de minha face, formando um novo abraço e em seguida senti seus lábios novamente tocarem minha testa, dando vida a um novo beijo, após isso ele saio do meu quarto, me deixando sozinho e confuso em pé no centro do cômodo.

“Boa noite Pogo.”

   As palavras escaparam da minha boca como um sussurro.

 

   Tarde da noite eu me encontrava deitado em minha cama, não havia conseguido dormir, quando ouvi alguns passos. Resolvi verificar. Manson? O que ele estava fazendo no meio da casa a essa hora? E para onde ele ia? Fui atrás dele. Marilyn entrou no quarto de Gacy, sem perceber ele deixou a porta semi-aberta e não sabendo bem o porque eu me aproximei para observar o que eles iriam fazer.

“Pogo, Pogo, acorde!”

“Ã? Marilyn, o que foi?”

“Ele ligou novamente...”

“Ow Marilyn não fique assim... você sabe que eu não agüento te ver chorando!”

   Chorando? Manson estava chorando? Quem teria ligado?

“Me desculpe, mas é que eu fico descontrolado só em ouvir a voz dele... o que vai ser de mim sem Twiggy?!”

“Venha cá meu amor.”

   Twiggy! Era isso, Marilyn andava meio para baixo nos últimos dias mesmo, o seu ex estava ligando para ele. As peças se juntavam em minha mente enquanto eu via os dois se abraçarem e se confortarem, como me doía não estar no lugar de Marilyn, por que isso agora? Pogo acariciava a face de Manson e secava suas lagrimas sussurrando alguma coisa para ele, eu me esforçava para ouvir, porém era em vão, Manson em sua posição desprotegida se agarrou em Pogo e beijo-lhe os lábios delicadamente, senti o meu sangue circular rapidamente e raiva apareceu em meus olhos oh como eu odiava ver tudo aquilo, o pequeno Brian ferrava a sua vida e vinha chorar nos braços do bobão apaixonado!

   A minha raiva apenas aumentou quando pude ver os dois se deitarem, eles iam dormir juntos?! Resolvi voltar para o meu quarto antes que eu explodisse e fosse tirar o ‘Senhor Tristeza’ de lá com minhas próprias mãos.

   Quando me deitei e deixei o meu corpo afundar nos lençóis olhei para o teto, como eu odiava tudo o que acontecia na minha vida! Foi aí que parei e me perguntei o que eu estava fazendo, há algumas horas me encontrava nas nuvens, pois minha amizade com Pogo estava se tornado forte e verdadeira e de repente estava reclamando da minha vida como se nada que se passasse nela tivesse sentido. Como eu podia ter pensado tantas coisas ruins dos meus amigos que gosto tanto? Principalmente do Manson que estava passando por momentos ruins, tentei entender o porque de tudo o que estava acontecendo, voltei meus pensamentos para o momento em que Pogo havia entrado no meu quarto enquanto eu trocava de roupa.

   Peguei o colar que ele havia me dado e o observei, lindo e brilhante, me lembrava os seus olhos, a pedra possuía um tom azulado e brilhava bastante. Voltei a cena em que me envolvia com o olhar de Pogo, desejando os seus lábios e sentindo uma estranha sensação de felicidade e de repente toda magia acaba quando ele vai embora, o que isso significava? Então completei o raciocínio com a minha raiva repentina por Marilyn apenas pelo fato de ele se encontrar perto de meu outro amigo e de ver o amor vazar pelos olhos do mesmo olhando para Manson, o que estava acontecendo comigo?

   Foi neste momento que percebi que desejava Pogo e que tinha ciúmes dele e isso significava que... Não, não poderia ser. Fechei os olhos e senti os meus músculos relaxarem, era isso que minha alma queria, isso que iria preencher o meu espírito, mas será que era realmente o que estava sentindo? Isso realmente era, não sei.

“Eu estou apaixonado por ele...”

 

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