02:
No outro dia seus pais foram na universidade deixar o restante das malas de
Brian. Sua mãe chorou mais uma vez quando teve que ir embora, ela não conseguia
aceitar o fato de que Brian fosse ficar tão longe por tanto tempo, seu pai, de
certa forma, parecia estar um tanto quanto aliviado com a idéia, Brian não o
culpava, não devia ser nada fácil ter um filho que usava maquiagem...
especialmente quando esse filho era tão imprevisível e fazia tanto barulho em
casa com aquela ‘maldita guitarra’, bem, essas eram as próprias palavras de Sr.
Molko para descrever o instrumento pelo qual Brian tinha se encantado de uns
anos para cá. Brian prometeu para a mãe que iria a visitar todos os finais de
semana e ficou extremamente feliz ao rever sua guitarra, aquele instrumento já
tinha o ajudado a superar tanta coisa... sem ele Brian tinha certeza de que não
teria conseguido superar a separação de dois anos atrás.
Quase dois meses depois de estar na universidade, Brian já havia concluído que
aqui a vida era bem melhor do que em Luxemburgo, apesar de ainda ter um time de
basquete por aqui, eles não o perturbavam, sequer se aproximavam de Brian e ele
estava grato por isso. Brandon mal falava com Brian, parecia que realmente tinha
se assustado com a bissexualidade do garoto, mas isso não fazia tanta diferença,
o importante para ele era que estava adorando o curso de teatro, eles estavam no
primeiro período e já tinham aulas de expressão corporal, o professor também
tinha anunciado que futuramente eles iriam poder aprofundar-se um pouco na área
cinematográfica e os que quisessem poderiam arriscar e fazer um curta-metragem.
Era tudo tão empolgante e totalmente novo!
“Hey.”
Uma voz tirou Brian de seus devaneios. Ele olhou para cima assustado.
“O que está fazendo aqui sozinho? Eu estava passando e te vi aqui...” Vince
disse sorrindo.
Oh! Vince tinha se tornado um bom amigo. O único que parecia não se importar com
a aparência um tanto quanto... excêntrica de Brian. Tirando o fato de Vincentt
ser um viciado em OVINIS, ele era um cara muito legal, bem mente-aberta,
inteligente e tinha um ótimo gosto para música!
“Oi.” Ele respondeu sorrindo. “Só estou pensando, nada de mais.”
“É... mas é bom você entrar. Não é agradável ficar no banquinho do jardim quando
está chovendo.”
Brian olhou para o céu. Realmente, as nuvens escuras anunciavam a chuva que não
demoraria muito mais tempo para chegar. Ele levantou e os dois seguiram para a
biblioteca. Era lá onde normalmente os alunos ficavam em dias de chuva, talvez
pelo fato de ser um lugar extremamente aconchegante.
De repente Vince parou e puxou a manga da jaqueta de Brian.
“É ela?” Ele perguntou para um Brian meio atordoado.
“Shhh... ela pode te ouvir.” Ele disse corando.
“Não seja bobo, ela está do outro lado da sala! Nunca vai nos ouvir.” Um sorriso
malicioso curvou seus lábios. “Então essa é a tão falada Kathelyn! Wow, ela é
mesmo bonita, heim!”
“Pode ir tirando os olhos dela, Vincentt!” Brian disse fingindo um tom bravo.
“Não se meta com a minha garota!”
“Sua garota?!” Vince gargalhou. “Você sequer fala algo além de um ‘oi’ com ela!”
“Ainda estou trabalhando nisso...” Brian disse com a voz perigosamente baixa.
“Nossa! Já vi que você está realmente determinado!” Ele sorriu. “Não se
preocupe, jamais ficaria no caminho do ‘grande’ Brian Molko.”
“Se não fosse o tom irônico com que você disse a frase eu poderia até confiar
mais no que você está dizendo.” Brian disse encarando-o chateado.
“É sério! Não se preocupe, a garota é toda sua!” Vice disse rapidamente.
“É bom mesmo.” Brian falou sorrindo.
“Eu só queria poder ajudar... você é muito devagar...”
“Hey! Cuidado com o que você fala!”
Vincentt gargalhou da expressão magoada de Brian. “Vamos, Bri, vamos falar com
ela.”
“Não!” Brian quase gritou a interjeição, o que resultou em alguns olhares
voltados na direção dos dois.
“Ah! Vai me dizer que você só fala com ela durante as aulas?!”
“Bem... no início das aulas eu tenho o pretexto para poder falar com ela...”
Brian disse corando violentamente e olhando para o chão.
“Não acredito, Molko! Você é tão covarde assim?” Vince provocou.
“Eu não sou covarde!” Brian disse olhando para Vincentt, mas logo lançou seu
olhar novamente para o chão. “Eu só estou esperando a hora certa para poder
ficar mais próximo dela...”
“Ah, vamos, Bri! Não tem momento melhor que esse para você ir falar com ela! Ela
está sozinha naquela mesa... vá até lá, finja que vai ler algo e que nem tinha
percebido que era ela sentada lá, depois fica fácil, é só começar a puxar
assunto!”
“Não! Eu... eu vou atrapalhar e...”
“Pare de ser um covarde, Molko! Essa é a sua chance, aproveite!” Vincentt disse
sério, depois um sorriso apareceu em seu rosto. “Além disso, tenho certeza que
ela vai ficar muito feliz se você for falar com ela.”
“Oh, é mesmo?” Brian perguntou em tom sarcástico. “E porque você tem tanta
certeza disso?”
“Bem, porque...” Vince disse meio atrapalhado e corou antes de completar.
“porque você é bonito... ah! Garotas gostam de meninos bonitos, não é? E além
disso você é bastante inteligente, Bri, ela vai gostar de conversar com você...”
Ele olhou para Brian que o ouvia com atenção, um sorriso malicioso nos lábios.
“Ah! Você já sabe! Não me faça dizer esse tipo de coisa novamente! Vá, vá! Antes
que ela vá embora.” O vermelho de seu rosto agora era bastante visível.
Brian sorriu ainda mais largamente. “Nossa! Depois desse encorajamento, acho que
vou mesmo tentar...” Ele disse e correu depressa para trás de uma das estantes,
para escapar do ataque de Vince.
“Deixe-me ver... tem que ser um bem interessante...” Brian passava as pontas dos
dedos pelos livros da estante, ele queria achar um livro que impressionasse
Kathelyn, mas ele não tinha muita idéia de qual... mal conhecia a garota, pra
falar a verdade, a única coisa que ele sabia dela era que tinha cabelos negros,
curtos, lisos, olhos azuis e pele lívida... exatamente o tipo de Brian, o tipo
de beleza européia. “Ah, vai ter que ser esse! Se eu demorar muito é bem capaz
que ela vá embora.” Ele pegou o enorme volume de um livro de filosofia que ele
já tinha lido, era melhor que fosse um que ele conhecesse caso ela resolvesse
fazer algum comentário sobre o livro.
“Com licença, posso sentar aqui?”
Kathelyn tirou os olhos do livro que estava lendo meio surpresa.
Brian sorriu para ela. “Oi.”
Ela retribuiu o sorriso. “Oi. Pode sentar.”
Brian sentou-se e ficou meio sem jeito ao perceber que Kathelyn voltou a ler o
livro sem se preocupar em prolongar nem mais um segundo a conversa dos dois.
Talvez ele realmente estivesse incomodando. Brian pensou em levantar e ir
embora, mas ao olhar para Vince que o encarava com um sorriso nos lábios, do
outro lado da sala, ele sabia que não podia fazer isso, se fizesse Vincentt o
perturbaria pelo resto da semana, ou até mais do que isso...
Ele limpou a garganta. “Como você está?”
“Err.. bem. E você?” A garota respondeu erguendo novamente o olhar para Brian.
“Bem também.” Brian não sabia o que dizer e ficou aliviado quando Kathelyn
continuou.
“Como você se chama mesmo? Desculpe, mas não consigo lembrar...” Ela disse meio
sem jeito.
As palavras soaram como um insulto para Brian, mas ele sorriu para a garota e
respondeu. “Brian.”
“Ah, é mesmo! Desculpe, mas é que tem tanta gente nessa escola e eu...”
“Tudo bem!” Brian a interrompeu. “O que você está lendo?”
“É o assunto da aula passada e você?”
“Ah, estou só relendo algumas páginas desse livro.”
“Eu já li esse livro! Achei o capítulo 9 extremamente interessante.”
“Eu também!” Brian sorriu.
Os dois começaram a conversar sobre o livro e logo estavam falando sobre coisas
variadas, Brian estava empolgadíssimo, com certeza ele agradeceria depois a
Vince por tê-lo encorajado. Ao lembrar-se do amigo, Brian olhou pela biblioteca,
mas ao ver que não havia sinal nenhum de Vincentt ele voltou a conversar com
Kathelyn, a menina parecia ter esquecido completamente do livro que estava
lendo.
A conversa durou por horas, só quando não conseguia pensar em mais nada coerente
que desse para ser colocado em uma conversa, Brian disse que já era tarde e que
ele ainda precisava fazer o seu exercício.
“Está bem, então.” Kathelyn disse sorrindo. “Vá fazer o seu exercício. Não quero
que você arrume problemas com o professor amanhã. Eu vou revisar a minha
matéria.”
“Até amanhã, então.” Brian disse sorrindo.
“Até.” Kathelyn disse e de repente inclinou-se para plantar um beijo rápido na
bochecha de Brian.
No caminho de volta para o dormitório masculino, Brian cantarolava uma das
músicas do The Smiths, ele não lembrava o nome da música, mas não se importava
com isso agora, ele estava se sentindo flutuar. Kathelyn tinha o beijado! Ok foi
só um beijinho na bochecha, mas... FOI UM BEIJO! Brian já se imaginava andando
de mãos dadas por aí com aquela beldade! Todos os outros garotos iriam morrer de
inveja!
Brian entrou no quarto, Brandon estava sentado na escrivaninha perto da janela,
terminando seus enormes cálculos, como sempre. A luz estava acesa, já passavam
das 5:00 pm e a chuva lá fora só piorava a iluminação fraca.
“Chegou correspondência para você.” Brandon anunciou sem tirar os olhos do
papel. “Peguei-as na recepção para você.”
“Obrigado.” Brian disse e se dirigiu para a cama, onde as cartas estavam .
Uma era de sua mãe, o de sempre, pedindo para ele se cuidar e blá, blá, blá. Seu
pai tinha mandado sua mesada pelo correio e a última carta era a carta pela qual
Brian tinha tanto ansiado. Ele abriu a carta sorrindo, empolgado para ver o
conteúdo de dentro do envelope.
“Querido Bri
Também estou com muita saudade de você, como têm sido seus primeiros dias na
universidade? Por falar nisso, parabéns por ter passado de primeira no teste de
seleção, ouvi dizer que é muito difícil entrar em Goldsmith.
Por aqui as coisas têm ido bem, sabe, minhas notas estão ótimas e graças a isso
já recebi uma proposta de trabalho antes mesmo de terminar o curso! Estou muito
feliz! Finalmente contei para meus pais sobre minha opção sexual e sabe de uma
coisa? Não foi tão ruim quanto eu esperava, eles ficaram meio chocados, claro,
mas aceitaram sem grandes problemas. As coisas têm melhorado muito para mim.
Quando poderemos nos ver? Espero que você consiga mesmo vir passar as férias de
verão aqui nos EUA, eu quero te apresentar a uma pessoa, sabe? Queria falar
sobre ele apenas pessoalmente com você, mas não consigo esperar para te contar!
Estou namorando! Pois é! Por essa você não esperava, não é? Ele é da minha
classe, temos tanto em comum, Brian, acho que quando terminarmos o curso vamos
escrever um livro juntos. Estou apaixonado como nunca estive em toda a minha
vida, ele fala até em casamento! Ele é meio louco, sabe? Mas graças à loucura
dele consegui mostrar para meus pais e para todo o resto o que eu realmente sou!
Estamos namorando sério e pretendemos ir morar juntos assim que acabarmos esse
período.
Bem, e as suas novidades? Você continua tocando? Conheceu alguém legal? Escreva
logo! Quero saber como anda a sua vida!
Beijos,
Matt.”
Só quando terminou de ler a carta, Brian percebeu as lágrimas que deslizavam por
suas bochechas. Como Mattew atreveu-se a dizer aquelas coisas com tanta frieza?
Ele ainda não estava pronto para isso. Certo, já haviam se passado mais de dois
anos que eles só se falavam por cartas, mas.... Matt tinha sido o primeiro homem
por quem Brian tinha se apaixonado, mais que isso, Brian o amava MUITO, por isso
mesmo tinha perdido a virgindade com ele... quando estavam juntos, Brian
sentia-se completamente feliz, Mattew tinha se tornado o sentido da vida para
ele e agora... agora Brian sabia que não tinha mais nenhuma chance com ele...
ele estava com outro e... Matt ainda tinha dito cruelmente que estava apaixonado
como nunca estivera antes! Brian sempre teve a esperança de que depois que eles
terminassem a faculdade pudessem voltar a ficar juntos e por muitas vezes tinha
sonhado com os dois morando na mesma casa. Mas Mattew iria morar em breve com um
outro homem, um homem com quem ele estava tendo um relacionamento extremamente
sério. Porque ele não tinha contado para os pais que era homossexual quando
estava com Brian? O relacionamento dos dois também era sério e Brian tinha
pedido tanto para que ele fizesse isso, mas ele nunca o fez... Será que o
relacionamento dos dois tinha significado tão pouco assim para Mattew?
Isso era demais para que o coração de Brian agüentasse. A angústia que ele
sentia no momento era tão grande que fez com que Brian simplesmente deitasse na
cama e escondesse o rosto no travesseiro, deixando que as lágrimas fluíssem
livremente. Por que tinha que doer tanto? Ele se perguntava.
“O que foi, Molko?” A voz de Brandon soou preocupada.
“Nada...” Foi tudo o que Brian conseguiu pronunciar, o rosto ainda enfiado no
travesseiro.
“Ah, não! Não comece a agir como um idiota! Eu sei que não sou tão seu amigo
assim, mas... pode falar pra mim, eu posso tentar ajudar.”
“Você não pode ajudar... ninguém pode ajudar... esse é o inferno da minha vida e
eu tenho que viver nela! Nada nunca da certo para mim...” Ele disse com a voz
sobressaltada em meio aos soluços, mas as palavras continuavam um pouco abafadas
sendo desferidas contra o travesseiro.
“Pare de ser dramático! Não pode ser tão ruim assim... me diz o que aconteceu.”
“Me deixe em paz, sim? Não quero falar sobre isso...”
“Molko, eu não vou te deixar em paz até que você me diga o que aconteceu. É
alguma coisa com alguém da família?” Brandon perguntou meio hesitante.
Brian não respondeu.
“Olhe Brian, isso vai passar, seja lá o que for, problemas familiares sempre
acabam se resolvendo e...”
“Cala a boca, Brandon! Isso não tem nada haver com minha família!” Brian
finalmente sentou-se na cama e fitou com os olhos marejados de lágrimas os olhos
verdes de Brandon. Um soluço escapou de seus lábios e ele continuou com uma voz
minúscula. “Por favor... me deixe em paz...”
Brandon o encarava surpreso.
Brian escondeu o rosto com as mãos e rompeu novamente em lágrimas. “...Porque
tudo é tão injusto?... tão injusto...” Ele sussurrava em meio aos soluços.
Dez minutos se passaram onde Brandon apenas olhava Brian chorar. Finalmente
Brian criou forças para limpar as lágrimas e encarou o outro rapaz. “Desculpe se
fui grosseiro... mas é que eu realmente não estou bem... não precisa se
preocupar... vai passar... sempre passa...” Ele disse limpando o nariz na manga
da jaqueta.
Brandon o olhou questionador. “Tem certeza de que não quer conversar sobre isso?
Eu ainda posso tentar-”
“Pode deixar...” Brian o interrompeu com um sorriso fraco nos lábios. “Mesmo
assim, obrigado por se preocupar.”
“Ah, não foi nada. Tenho certeza de que qualquer um faria o mesmo.” Ele disse
corando suavemente. “Não é nada agradável ver alguém chorando...”
“Desculpe, eu sou meio chorão sabe...” Brian disse puxando uma das pontas de seu
cabelo meio sem jeito.
Brandon sorriu. “Não precisa se desculpar, está tudo bem. Se você quiser falar
sobre isso depois, pode me chamar, não se preocupe, não vai estar incomodando,
até porque eu fiquei bastante curioso agora!” Ele terminou a frase sorrindo.
“Okay.” Brian disse com um sorrisinho nos lábios.
Brandon ficou o encarando com uma expressão meio estranha por um tempo, mas logo
se levantou da cama, onde ele havia sentado. “Eu vou terminar meu exercício,
caso contrário o meu professor vai me matar amanhã.” E com isso ele caminhou
novamente em direção a escrivaninha.
Brian suspirou, ele também tinha que fazer o exercício. Ele levantou limpando as
bochechas com as costas da mão e pegou sua mochila em um dos cantos do quarto.
O exercício não era tão difícil e menos de quinze minutos depois, Brian tinha
acabado. Ele foi ao banheiro, trocou a roupa por seu pijama, escovou os dentes e
voltou para a cama, Brandon ainda estava fazendo seus cálculos silenciosamente.
Brian fechou os olhos e tentou dormir, mas a imagem de Matt não saia de sua
cabeça... as lágrimas voltaram aos seus olhos e ele aconchegou-se debaixo do
cobertor. Ele não lembra por quanto tempo, mas permaneceu chorando em silêncio
até que Brandon acabasse o exercício e fosse para cama também, adormecendo logo
em seguida, podia-se concluir isso baseado nos roncos suaves que Brian ouvia.
Muito tempo se passou até que finalmente o sono tivesse pena dele e permitisse
que ele adormecesse