09:
“Boa viagem!” Vince desejou sorrindo.
Venon o olhou com desconfiança. “Nossa! Alguém está de bom humor hoje!”
“Claro, não é todo dia que tenho a sorte de me livrar de você.”
“Ah, devia ter desconfiado que era isso. Sabe, Vincentt, a cada dia que se passa
eu acho que você gosta ainda mais de mim.” Venon falava em um tom que era puro
sarcasmo.
Vince sorriu ainda mais sarcasticamente. “Pois é, não sei como irei conseguir
passar todo esse tempo longe de você.”
Venon mostrou o dedo médio para o rapaz de cabelos negros e pegou sua mochila,
dirigindo-se para a porta.
Brian mal podia acreditar que a sexta havia chegado enfim. A semana parecia ter
sido uma eternidade! Mas daqui a alguns minutos Venon iria para o aeroporto e
ele poderia ir para o quarto de Vincie!
Quando Brian entrou no quarto viu que Brandon estava sentado na cadeira lendo um
jornal.
“Algo interessante?” Ele perguntou em tom de divertimento.
Brandon olhou para ele. “Ah, não... nada de mais, só isso aqui, olha.” Ele
estendeu uma das folhas do jornal para Brian. “Tem uma matéria sobre ‘David
Bowie’ aqui, eu achei que você fosse gostar.”
“AAAAAAAAAAAAAAAAH! Quero ver!” Brian correu para perto de Brandon e
‘delicadamente’ puxou a folha de suas mãos. “Ele é o MÁXIMO!” Os olhos de Brian
brilhavam de empolgação enquanto ele olhava para a foto do cantor no centro da
folha. “Obrigado!” Ele disse mostrando um sorriso para Brandon.
Brandon apenas retribuiu o sorriso em resposta.
De repente a porta se abriu. Os dois rapazes se viraram e surpreenderam-se ao
verem Vincentt parado na porta.
“Bri, posso falar com você?”
Brian fez que sim e seguiu para a porta.
“Olá Brandon.” Vince disse em tom extremamente educado.
“Oi.” Brandon respondeu de forma seca.
Assim que a porta foi fechada Vincentt começou a falar apressado e empolgado,
tendo o cuidado de manter o tom baixo para que o grupo de rapazes no fim do
corredor não o ouvisse.
“Ele já foi! Você já pode ir para o meu quarto a hora que quiser!”
“Ótimo!” Brian respondeu com a mesma empolgação. “Só preciso pegar minhas coisas
e vou para lá!”
“Quer que eu te espere aqui?”
“Não. É melhor não, vou demorar um pouco, não arrumei as coisas ainda.”
“Ok. Vou te esperar lá, então.”
Para a surpresa de Brian, Vince foi ousado o suficiente para plantar um beijo em
sua bochecha sem sequer checar se alguém estava os observando.
Brian olhou rapidamente para o grupo de meninos e viu que um dos garotos os
olhava chocado. Ele tinha visto.
Brian ficou observando incrédulo enquanto Vince seguia pelo corredor. O garoto
também acompanhava cada passo de Vincentt com seus olhos sobressaltados. Quando
Vince chegou na escadaria ele lançou seu olhar para o garoto e, percebendo que
os outros ainda não tinham notado o que estava acontecendo, ele piscou um dos
olhos e gesticulou um beijo para o menino, esse fez de imediato uma careta que
era um misto de pavor e nojo e virou-se de costas, evitando o contato com os
olhos de Vince.
Vince olhou para Brian, sorrindo.
Brian estava com a boca aberta, seu semblante era pura surpresa.
Vince gesticulou novamente um beijo, dessa vez para Brian e em seguida começou a
descer as escadas.
“Louco.” Brian sussurrou ainda tentando recuperar-se do choque. Ele fechou os
olhos e suspirou, um sorriso estampado nos lábios.
Quando Brian abriu os olhos percebeu que o garoto o olhava com estranheza. Ainda
contagiado pela ousadia do namorado, Brian mostrou a língua para o garoto e
entrou no quarto.
Brandon tinha começado a fazer seus cálculos, Brian seguiu silencioso pelo
quarto, não queria desconcentra-lo. Ele começou a colocar algumas roupas em sua
mochila, roupa de baixo, alguns CD´s, escova de dentes, um estojo de maquiagem e
vários outros itens que ele utilizaria durante um fim de semana.
“Está preparando a mala? Vai viajar amanhã?” Brandon perguntou sem olhar para
Brian.
“Não. Vou passar esse fim de semana na escola.”
“Então porque está arrumando a mochila?” Brandon virou-se na cadeira e lançou
para Brian um olhar intrigado.
“Venon, o parceiro de quarto de Vincentt, vai viajar então eu vou passar o fim
de semana com o Vince.”
Brandon engoliu em seco. “Entendo.”
“Oh, por favor, não comece a bancar o irmão mais velho novamente!” Brian disse
atordoado.
“Não se preocupe.” Brandon disse e virou-se novamente na cadeira, recomeçando
seus cálculos.
Brian suspirou aliviado e colocou mais um par de meias na mochila.
Brian abriu a porta sem sequer bater, do pequeno aparelho de som sobre a
cabeceira emanava o novo single do ‘The Cure’.
Vincentt estava sentado na cama passando as folhas de uma enorme edição
encadernada sobre OVINIS que estava em seu colo. Ele ergueu os olhos para olhar
o ‘invasor’ e sorriu assim que identificou quem era.
Brian fechou a porta, jogou a mochila no chão e saltou na cama ao lado de Vince.
Vincentt deixou que o livro caísse no chão e deitou-se na cama puxando Brian
junto de si.
“Ainda não estou acreditando no que você fez lá no corredor.” Brian sussurrou
aconchegando-se nos braços de seu namorado.
Vincentt sorriu e beijou-lhe rapidamente os lábios. “Eu não podia sair de lá sem
te dar ao menos um beijinho, podia?”
“Mas aquele garoto poderia ter-”
“Ah, não se preocupe com ele! Aquele menino é tão tímido que morreria de tanta
vergonha só em contar o que aconteceu para outras pessoas.” Vincentt assegurou.
“Eu o conheço, está em minha turma, acho que o nome dele é Andrew...”
“Bem, mas nunca se sabe... não deveríamos nos arriscar tanto...”
“Hey! Cadê o espírito aventureiro de Brian Molko, heim?” Vince perguntava
cutucando as costelas de Brian.
“Não! Cócegas, não!” Brian quase gritou e assustou-se ao ver um brilho
extremamente maldoso cintilando nos olhos de Vincentt.
Vince rolou sobre a cama e ficou por cima de Brian, ainda com um sorriso
perverso nos lábios. Sem quebrar o contato visual ele começou a flexionar os
dedos, como se estivesse ameaçando, mantendo Brian preso onde estava com o peso
de seu corpo sobre o dele.
“Não, Vincentt! *NÃO* OUSE!” Brian falava debatendo-se o quanto podia.
De súbito Vince segurou os pulsos de Brian e fixou-os de encontro ao
travesseiro. Brian olhou para Vince confuso e esse retribuiu com um olhar
intenso.
“Você sabe a origem do beijo?”
Surpreso, Brian apenas ficou o olhando, esperando que ele prosseguisse.
“Alguns cientistas afirmam que o beijo é uma evolução das mordidas que os
animais trocavam, alguns ainda trocam até hoje em dia, como forma de ritual
antes do acasalamento.” Vince disse em tom malicioso.
Ele inclinou-se um pouco e quando faltavam alguns centímetros para que seus
lábios se juntassem aos do pequeno rapaz sob ele, Brian virou o rosto para o
lado, impedindo que o beijo acontecesse. “O que foi?”
Brian riu da expressão atordoada de Vince. “É que a teoria que eu conheço é
outra.”
“É mesmo?” Vince fingiu um tom surpreso. “E qual é a *sua* teoria para a origem
do beijo?”
“Bem,” Brian adquiriu uma expressão altamente intelectual. “especialistas dizem
que o beijo é a evolução das lambidas que os homens das cavernas davam uns nos
outros para manter o equilíbrio de NaCl em seus organismos, o suor, sabe -”
“Eww, Bri!” Vince fez uma careta de nojo. “Você sabe mesmo como estragar um
clima, heim!”
Brian gargalhou. “Mas não se preocupe, querido, eu também sei muito bem como
re-esquentar um clima!”
“Mesmo? Prove.” Os olhos de Vince voltaram a encherem-se de malícia.
“Bem, eu só poderei provar se você me soltar...” Brian disse com ar sarcástico.
“Oh.” Vince soltou os pulsos de Brian e rolou para o seu lado na cama.
Brian levantou-se da cama com movimentos lentos, olhando fixo nos olhos de
Vince. Ele mudou o CD e colocou um dos que estavam em sua mochila. Vince sorriu
ao perceber que era ‘Sonic Youth’, Brian havia escolhido uma das faixas mais
lentas.
Brian retornou para a cama. Ele sentou-se e delicadamente começou a passar a
ponta de seus dedos pelo rosto de Vincentt, seguindo pelo seu pescoço e parando
em seu peito. Vince prendeu a respiração ao perceber que Brian inclinava o
corpo, aproximando seus rostos, seus olhos brilhando em pura ansiedade e
luxúria.
Sua pequena mão tinha voltado a instalar-se no pescoço de Vince, aos poucos
Brian deitou-se por cima do outro rapaz e começou a plantar beijos no pescoço e
no queixo dele. Chegando aos lábios, Brian traçou-os com sua língua de forma
sensual e lenta, Vincentt envolveu sua cintura com força. Brian sorriu
satisfeito e finalmente uniu seus lábios aos de Vince.
O beijo tinha uma intensidade impressionante, as respirações de ambos estavam
pesadas e aceleradas, as mãos de Vince percorriam toda a extensão das costas de
Brian, acariciando cada ponto. Brian desfez o beijo e sentou-se nas coxas de
Vince.
“Não acha que estamos indo depressa demais?” Ele perguntou meio hesitante.
Vince sorriu e sentou-se também, mantendo Brian em seu colo ladeando sua cintura
com suas mãos. Ele voltou a beijar Brian. “Se você acha, tudo bem, podemos ir
mais devagar se você quiser.” Ele disse quando desfez o beijo. “Estar com você é
o que importa para mim.”
“Owww!” Brian envolveu o pescoço de Vince com seus braços. “Eu só temo que...”
Ele respirou fundo e continuou. “Só temo que você perca o interesse por mim
depois que dormir comigo, sabe? Se isso acontecesse não seria a primeira vez,
entende?”
“Não diga um absurdo desses, Bri.” Vince beijou ternamente o pescoço de Brian.
“Se você pudesse sentir o quanto estou gostando de você... um sentimento como
esses não se apaga de forma tão simples, sexo não é nada comparado ao que eu
sinto quando estou com você. O sexo eu posso ter com várias outras pessoas, mas
esse sentimento, essa sensação, só você pode me dar... você é a pessoa mais
especial que já apareceu em minha vida Brian e eu estou falando sério!”
Brian ouvia cada palavra de olhos fechados, seu coração batia em um ritmo tão
acelerado que chegava a doer, seu corpo se aquecia a cada sussurro desferido de
encontro a sua pele. Ele estava se sentindo tão bem, tão amado! Nem Matt tinha
dito para ele coisas tão belas e de forma tão sincera... Brian queria gritar de
alegria, queria dizer naquele momento que amava Vincie, mas ele suprimia essa
vontade, ele sempre teve tanto medo de utilizar essa palavra, amor, ela é tão
forte e significativa que fala-la pode custar muito, Brian preferia não
arriscar.
Ele olhou dentro dos olhos de Vincentt e logo voltou a beija-lo de forma
apaixonada, tentando demonstrar em gestos o que não conseguia através de
palavras.
Os dois deitaram-se novamente, abraçando-se como se quisessem fundir seus corpos
em um só.
“Nossa! Que recepção!”
Os dois tiveram um sobressalto, desfizeram o beijo completamente confusos e
olharam para a direção da voz.
Venon sorria largamente e começou a aplaudi-los. “Belo show!”
Eles não haviam ouvido a porta se abrir.
Brian pôs uma das mãos no rosto e amaldiçoou-se por ter esquecido de trancar a
porta.
“O que você está fazendo aqui?” Vincentt perguntou de forma agressiva.
“Calma! Não sou culpado nessa história! Não tenho culpa se fiquei preso em um
engarrafamento e acabei perdendo o meu vôo!” Venon defendeu-se. “Vejo que
realmente você só sabe se divertir em minha ausência...” Ele sorriu de forma
maliciosa, olhando para Brian. “Será que hoje à noite vou ter que achar outro
lugar para dormir?”
“Não. Eu vou... eu vou para o meu quarto...” Brian dizia olhando para o chão.
Tudo o que ele queria era sumir dali!
“Ah, só vocês dois para melhorarem o meu humor! Tive um dia horrível hoje, sabe?
Mas tenho certeza de que o dia de amanhã vai ser maravilhoso! Vou ter sobre o
que conversar!” Venon disse com um sorriso perverso.
A expressão de Brian modificou-se e uma máscara de terror instalou-se em seu
rosto.
“Ok...” Vincentt disse levantando-se. “O que você quer para manter a boca
fechada sobre isso, americano?”
Venon gargalhou. “Está querendo me subornar Vincentt?”
“Fale de uma vez!” Vincentt disse com os dentes cerrados.
“Para começar, é bom você me tratar com mais delicadeza.” Venon disse irritado.
Vincentt suspirou. “Venon, *querido*, o que porcaria você quer para manter a
porra de sua boca calada?”
“Eu sei que você pode fazer melhor do que isso, mas tudo bem, dessa vez
passa...” Ele caminhou em direção a Brian. “Eu quero que você durma aqui essa
noite, na cama com Vincentt. E isso é só o começo, é só para ajudar a minha
imaginação, sabe? Pensar na imagem de vocês dois transando é algo que me deixa
extremamente ligado, sabe?” Ele acariciou os cabelos de Brian.
“Tire as mãos dele.” Vincentt disse em tom ameaçador.
“Não esqueça que *EU* dou as ordens por aqui, Valo.” Venon disse seguindo para o
aparelho de som, desligando-o. “E é bom que vocês me obedeçam...” Ele disse
virando-se para os dois rapazes.
“Tudo bem, eu durmo aqui hoje, mas, por favor, não conte a ninguém o que você
viu.” Brian disse.
“Ow, se você fizer essa carinha mais uma vez eu juro que mudo de opinião e
obrigo você a dormir *comigo* ao invés do Vincentt, tenho certeza de que você
vai se divertir muito mais...”
“Cale a boca, estúpido!” Vincentt agora estava gritando.
Venon gargalhou. “Fique calminho, Valo, não é dessa maneira que você vai
conseguir ganhar a minha simpatia. Agora, vão para a cama, os dois, vamos ter
muito o que fazer amanhã e eu estou exausto...”
”Não pense que vamos ficar sendo seus escravos seu a-”
Brian segurou o braço de Vincentt, fazendo com que o rapaz mais alto olhasse
para ele.
“Não piore as coisas. Por hoje vamos fazer o que ele está pedindo, amanhã nós
pensaremos em algo.” Brian sussurrou para o namorado, evitando olhar para a
expressão de divertimento de Venon.
“É mais saudável fazer o que o seu namorado está dizendo, Valo. Imagina se seus
pais descobrem! Você poderia até ser transferido de universidade!”
Vince respirou fundo, tentando manter-se calmo. Em seguida ele pegou a mão de
Brian e seguiu para a cama.
“Ow! Vocês ficam lindos juntos! Daria uma bela tela...” Venon disse dando uma
última olhada no casal antes dele mesmo seguir para a cama de cima, a sua cama.
Brian e Vincentt não trocaram mais uma palavra sequer, os dois sabiam que a
situação não estava nada bem, o dia amanhã seria difícil...
Antes que eles conseguissem adormecer ainda puderam ouvir um: “O dia amanhã vai
ser *tão* divertido!”, vindo da cama de cima.