05:

“Brandon!” Brian disse passando a mão pelos cabelos. “O que você está fazendo aqui?”
“Bem, esse também é o meu quarto Brian.” Brandon declarou, olhando-o ainda com a mesma expressão de quando abriu a porta.
“Bem, eu... oh, Deus!” Brian não sabia o que dizer, ele estava vermelho de tanta vergonha. “Como eu fui deixar isso acontecer?”
Vincentt estava tão chocado que abria a boca, mas nenhuma palavra saia dela.
“Tudo bem, acalmem-se os dois. Eu...” Brandon engoliu com força. “Eu não vou contar para ninguém... não se preocupem...” Ele terminou a frase olhando para o chão.
“Obrigado, Brandon! Obrigado! Aw, me desculpe eu... sinto muito...” Brian tentava se explicar sem olhar para o seu parceiro de quarto.
“Eu já disse que está tudo bem, Brian. Eu só queria que vocês deixassem isso para outra hora, sabe? Eu preciso dormir agora...”
“Tudo bem! Tudo bem, não se preocupe. Vincentt já estava de saída, não era?” Brian olhou com uma expressão desamparada para Vince, esse apenas fez que sim com a cabeça. Ele olhou para Brian e gesticulou um ‘tchau’. Sem sequer olhar para Brandon, ele foi embora.
Brandon fechou a porta e olhou para Brian.
Brian olhou para o chão. “Sinto muito...”
“Tudo bem...” Brandon disse se aproximando. Ele sentou-se ao lado de Brian na cama. “Vocês...” Ele engoliu com força antes de continuar. “Vocês estão namorando?”
“Não.” Brian suspirou. “Bem, quer dizer... eu não sei... não sei mais de nada. Pensei que fossemos apenas amigos, mas... as coisas simplesmente aconteceram, entende?”
“Você gosta dele?”
“Gosto, quer dizer... eu não sei! Oh, Deus! Estou tão confuso...” Brian disse colocando as mãos na cabeça. “Até hoje de manhã eu estava achando que iria namorar a Kathelyn, mas agora...”
”Kathelyn?” Brandon perguntou.
“É... é uma garota de minha sala... estou apaixonado por ela, sabe? Mas ela não quer nada comigo...” Brian terminou a frase com um suspiro.
“Você está mesmo apaixonado por ela? E o Vincentt?” Brandon parecia completamente confuso.
“Ah, céus! Eu não sei! Não sei mais de nada!” Brian disse deitando-se na cama. “Acho que estou mesmo apaixonado por ela...” Ele disse depois de um tempo. “Acho que esse beijo foi só um deslize... Vince não devia estar ciente do que estava fazendo...”
“Pra mim ele estava bastante ciente...” Brandon disse em tom sério.
“Não me confunda ainda mais, Ophille!” Brian declarou sentando-se novamente.
“Desculpe, mas é que você não deveria considerar esse ‘incidente’ um erro assim tão depressa... e se ele pensar de outro modo? Como Vincentt vai se sentir se souber que você considera um engano algo que para ele pode ter sido especial?”
Brian fez uma cara de surpresa. “Eu não tinha pensado nisso...” Ele ‘jogou-se’ novamente na cama. “O que eu façooooooooo?” Ele olhou com olhos suplicantes para Brandon.
“Ei, não olhe para mim com essa cara! Eu não faço a mínima idéia do que você pode fazer, sou péssimo nessas coisas! Você deveria saber, minha especialidade são os números, esqueceu?” Brandon defendeu-se rapidamente.
“E se ele pedir para namorar comigo?!” Brian perguntou sentando novamente, de súbito.
Brandon apenas ficou o encarando.
“Eu... eu acho que gosto dele, sabe?” Brian disse meio sem jeito. “Mas o problema é que...” Ele deu um longo suspiro antes de continuar. “Também acho que gosto dela.”
“Sem chances, Molko.” Brandon disse sorrindo. “Você *não* pode ficar com os dois... eles nunca vão aceitar...”
“Eu sei! Acho que ninguém nunca aceitaria, mas... o que posso fazer? É a porcaria de meus sentimentos malucos!”
Brandon riu da confusão expressa no rosto de Brian. “Isso só vocês três podem resolver.”
“Nunca!” Brian disse de prontidão.
“Por que não?”
“Porque eu sou descarado, mas não o suficiente para chegar neles e simplesmente dizer: ‘Olá, eu sou ‘Brian-Molko-O-Egoísta-Que-Não-Se-Satisfaz-Com-Pouco’, será que vocês poderiam fazer o favor de ficarem os dois ao mesmo tempo comigo?”
Brandon gargalhou. “Você deveria ter visto a sua cara agora!”
Brian o encarou muito sério. “Isso não tem graça!”
“Desculpe.” Brandon disse tentando se controlar. “Mas é hilário te ver falar quando você fica nervoso... sua voz fica ainda mais estranha!”
“Ouse dizer novamente que a minha voz é estranha e o *SEU* nariz vai ser a coisa mais estranha que você já viu na vida!” Brian ameaçou.
“Está bem, vamos voltar ao antigo assunto.” Disse Brandon, finalmente conseguindo se controlar.
“Ah, eu não quero mais falar sobre isso!” Brian disse levantando-se. “Eu vou tomar um banho e vou dormir. Amanhã vou ter que ir visitar meus pais e preciso estar cheio de energia para aturar isso...”
“A situação por lá é tão ruim assim?” Perguntou Brandon.
“Não! É tudo perfeito! Eles adoram ter um filho que é completamente o oposto do queridíssimo ‘filho-banqueiro-perfeito’! Sério, cara, quando estou perto de meu irmão me sinto um inútil. E meus pais não perdem uma oportunidade para me lembrar de todos os meus defeitos. Não que eu os odeie, apenas não posso ser quem sou de verdade na frente deles, isso os mataria, eu acho. E o fato deles reprovarem praticamente tudo que eu faço me sufoca. Mas não faz mal... eu prometi que os visitaria todo fim de semana e estou mesmo com saudades da minha mãe.” Ele disse e seguiu para o banheiro.
Brandon ficou por um tempo olhando para a porta do banheiro e sorrindo. Depois ele subiu as escadas de madeira que levavam para a sua própria cama e foi tentar dormir.

A porta do quarto foi aberta com violência.
“Onde está Brian?” Vincentt perguntou meio sem jeito para o rapaz sentado na escrivaninha.
“Ele saiu faz um tempinho.” Brandon respondeu olhando para o relógio. 10:40 am.
“Pra onde ele foi?” Vincentt perguntou com ar preocupado.
“Para casa. Todo fim de semana ele vai visitar os pais, esqueceu?” Brandon falou com a voz preguiçosa, sem parar de resolver suas contas.
“Oh, droga! É mesmo! Tinha esquecido que hoje é sábado...” Vince disse escorando-se na porta e levando uma das mãos á cabeça. “Eu precisava ter falado com ele... era importante...”
Brandon olhou para ele. “Vá até a portaria, talvez tenha a sorte dele ainda não ter saído... quem sabe o táxi que o levaria até a estação de trem ainda não tenha chegado...” Ele declarou sem nenhuma empolgação e em seguida voltou a resolver seus cálculos.
“Boa idéia!” Vincentt declarou sorrindo. “Obrigado!” Ele disse já abrindo a porta.

Brian olhou para o seu relógio. 10:40 am e ele já estava a caminho da estação de trem. Estava indo mais cedo do que o de costume, quase sempre ia depois do almoço, mas ele não podia encontrar com Vince, não assim, completamente confuso. Talvez o fim de semana na casa dos pais ajudasse para que ele esclarecesse suas idéias. Se fosse falar com Vince agora acabaria dizendo besteira e estragando tudo, típico dele.

“Acabou de sair daqui em um táxi.” Informou o porteiro.
“Droga!” Disse Vince com uma voz bastante desanimada. “Ele foi embora sem nem falar comigo... deve ter mesmo ficado chateado...” Ele murmurou para si mesmo no momento em que começou a voltar, com passos lentos, para o dormitório masculino.
Assim que entrou em seu quarto, Venon o olhou com o mesmo desprezo de sempre. Esse americano idiota parece mesmo odiar a tudo e a todos! Pensou Vince.
“Não faça barulho, estou com dor de cabeça e quero dormir...” Indagou o rapaz de cabelos cor-de-rosa aumentando o volume de seu walkman.
Vince conseguia ouvir o barulho da música do local onde estava. “Estúpido... que bela ‘dor de cabeça’... vai acabar ficando surdo.” Ele disse balançando a cabeça negativamente.
Venon abriu um pouco os olhos e o encarou de forma ameaçadora. Como ele pôde ter ouvido? Vince se perguntou.
Vincentt também foi para a cama. Hoje ele não estava a fim de fazer nada... seu humor estava péssimo... não conseguia parar de se preocupar com o que aconteceria daqui para frente entre ele e Brian... será que a amizade dos dois acabaria? Não! Isso não podia acontecer! Pensava Vince. “Você deveria ter se controlado, Valo.” Ele sussurrava para si mesmo. De repente, as cenas da noite passada voltaram para sua mente, ele fechou os olhos para poder ‘vê-las’ melhor. Os lindos olhos de Brian cheios de lágrimas, olhando suplicantes para ele, o lábio inferior tremendo... tão indefeso e frágil... tão lindo...
Um sorriso curvou os lábios de Vince. “Nah... eu não teria conseguido me controlar.” Ele continuou sussurrando. “Quem teria resistido àqueles olhos?”

“Filhinho!” Sra. Molko agarrou Brian pela cintura assim que abriu aporta.
“Oi, mamãe.” Brian disse meio sem ar, sua mãe estava o abraçando REALMENTE com força.
“Entre, meu amor, seu pai está lá dentro. Que bom que você veio, mas da próxima vez que vier para o almoço avise, Brian!” Sua mãe falava ainda sorridente. “Assim eu vou poder fazer seu prato favorito!”
“Ah, mãe, a senhora sabe que não precisa! Qualquer coisa que a senhora faz fica delicioso!” Brian disse sorrindo também.
“Owww! Meu Bri-pie! Estava morrendo de saudades de você.” A mãe disse o abraçando mais uma vez. Realmente a distância estava ajudando em seu relacionamento com sua mãe, parecia até que a saudade fazia dela mais agradável.
“Eu também, mamãe. Mas me deixe ir falar com o papai, sim?” Brian declarou desfazendo delicadamente o abraço e seguindo para a sala, onde provavelmente seu pai estaria, ele sempre estava lá, assistido TV.
“Oi, pai.” Brian disse meio sem jeito, sabia que seu pai detestava que o interrompessem enquanto ele estava assistindo o jornal, especialmente se a pessoa que estivesse o atrapalhando fosse Brian. Mas talvez seu pai estivesse com saudades dele e não se incomodasse dessa vez. Brian não perdia as esperanças de um dia melhorar seu relacionamento com o pai.
“Oi, filho.” Seu pai falou sem tirar os olhos da televisão.
Brian suspirou e seguiu para as escadas. O fim de semana iria ser longo...

Já era tarde de domingo e Brian estava prestes a ir embora. Estava mais ansioso e preocupado do que nunca, sua mãe havia notado e perguntado o que ele tinha. Bem, ela nunca o entenderia se ele falasse que estava completamente apavorado com a idéia de rever um de seus amigos da universidade, melhor dizendo, seu único amigo por lá, então ele simplesmente disse que estava preocupado com um teste que faria essa semana.
O táxi chegou e Brian despediu-se dos pais sem mais demora, por mais que Sra. Molko tenha tentado se conter, algumas lágrimas ainda lhe escaparam, Brian sabia exatamente a quem tinha puxado nesse ponto...
Durante todo o longo percurso do trem Brian tinha ficado pensando. O que ele diria para Vince? Como poderia encara-lo novamente e agir normalmente depois daquele beijo? O que ele faria? Porque tudo sempre parecia tão complicado para ele?

Quando finalmente chegou na escola, já era noite, o céu estava cheio de estrelas. Brian seguiu para a ala masculina. Os corredores estavam desertos, todos já deviam estar em seus quartos. Brian estava aliviado por isso, ele teria mais tempo para pensar no que diria para Vincentt. Mas quanto tempo mais ele pretendia ficar fugindo do amigo?
Assim que ele fez essa pergunta mentalmente, a figura sentada na escadaria olhando para ele em meio às sombras respondeu seu questionamento: seu tempo acabara de se esgotar.
Vince levantou-se e seguiu em sua direção. Brian sentia uma vontade desesperada de sair correndo dali, fugir de Vince, ele estava se sentindo tão esquisito com toda aquela situação.
“Finalmente chegou... estive esperando por você o dia inteiro.” Vincentt disse em um tom estranho, parecia timidez misturada com ansiedade.
Brian forçou um sorriso. Estava sentindo seus joelhos enfraquecerem. “Pois é... minha mãe quase não me deixava voltar e -”
“Brian.” Vincentt impediu que ele continuasse. “Podemos conversar? É... é importante.” Vince corou suavemente.
“Tem mesmo que ser agora, Vince?” Brian fez uma cara de cansaço e fingiu um bocejo. “É que eu estou cansado, sabe? A viagem foi longa e-”
Vincentt segurou a mão de Brian. “Por favor, Bri. Eu *preciso* falar com você e *agora*.” Brian nunca tinha visto Vincentt falar em um tom tão sério.
Brian suspirou. “Está bem, fale. Mas tente ser direto, preciso mesmo ir descansar.”
Vince sorriu. “Vem comigo.” Ele começou a puxar Brian pela mão através das escadas.
“Para onde você está me levando, Vince?” Brian não conseguia parar de se preocupar. Seu coração batia tão forte que ele quase tinha certeza de que Vincentt podia ouvi-lo.
“Você vai ver.” Vincentt disse simplesmente e continuou a guiar Brian através das escadas.
 

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