03:

“Sente-se melhor?”
Brandon perguntou quando percebeu Brian se espreguiçando na cama.
“Uhmm... sim...” Ele sorriu para o outro. “O pouco que dormi, dormi bem.” Ele levantou passando a mão pelos cabelos desgrenhados. “Me sinto melhor hoje... chorar um pouco sempre ajuda...”
”Se você diz...” Brandon disse sorrindo e logo em seguida mordeu a maçã que estava em sua mão.
“O horário do café já passou?”
Brandon afirmou com um aceno de cabeça.
“Droga! Que horas são?” Brian perguntou já se dirigindo ao banheiro.
“Não se preocupe... você ainda tem tempo suficiente para se arrumar e ir comprar algo na lanchonete.”
“Da próxima vez que eu passar da hora, pode me acordar.” Ele falou colocando a cabeça para fora da porta do banheiro, escova de dentes na mão.
“Eu sei... mas é que achei que você não estaria bem o suficiente para ir assistir as aulas de hoje.”
“Nah... não há nada que Brian Molko não supere!” Ele disse sorrindo, mas no fundo sabia que a carta de Matt ainda era a causa da angústia que estava tentando disfarçar no momento. “Além disso, essas aulas são muito importantes para mim, não posso perde-las por nada!” E antes mesmo de terminar a frase, ele já tinha voltado para dentro do banheiro.
“Você gosta mesmo desse negócio de atuar, não é?”
“Uhm-hum.”
“É um trabalho meio imprevisível... nunca se sabe se vai ganhar muito dinheiro ou morrer de fome...”
Brian deu uma risadinha. “Bem, não sei se vou ganhar MUITO dinheiro, mas com certeza não vou morrer de fome!” Ele disse saindo do banheiro.
“Ah, é mesmo?” Brandon disse em tom sarcástico. “E quem garante?”
“Eu!” Brian disse apontando para seu próprio rosto. “Quando eu quero uma coisa eu luto com todas as minhas forças até conseguir!”
“É, mas nem sempre isso dá certo. Além disso, enquanto você estiver ‘lutando’ pode ser que a ‘batalha’ demore demais e você passe fome durante ela.” Ele terminou com um sorriso zombeteiro nos lábios.
“Ah! Estou preparado para as ‘quedas’, sabe? Se nada der certo ainda posso me prostituir e ganhar um bom dinheiro com isso.”
O sorriso sarcástico sumiu. A expressão no rosto de Brandon agora poderia ser definida como: puro horror.
Brian gargalhou. “Estou só brincando, Ophille!” Ele balançou a cabeça em descrença. “Acha mesmo que eu faria isso?”
“Não, é que... que...” Ele gaguejou. “Ah! Sei lá! Você me assustou!”
Brian gargalhou novamente. “Deixa isso pra lá... você não deveria estar preocupado com a minha futura profissão, devia se preocupar com a sua, tenho certeza que é bem melhor arriscar um pouquinho do que passar a vida inteira ensinando matemática! É isso mesmo que você quer?” Ele perguntou com uma careta no rosto.
“Claro! É o meu sonho. Sou fascinado pelos números, são encantadores.” Brandon disse com um sorriso nos lábios.
“Yugh! E ainda dizem que *EU* sou estranho!” Brian disse com ar atordoado.
Brandon sorriu. “Todo mundo tem o seu lado meio esquisito.” Ele alargou o sorriso. “Mas existem pessoas que aguçam ainda mais a sua esquisitice...”
“Espero que com isso você não esteja se referindo a mim!” Brian disse em um tom fingido de ameaça.
“Apresse-se, Molko, ou você vai perder suas tão preciosas aulas.” Brandon disse enfim, gesticulando com uma das mãos.
Brian sorriu e seguiu para o banheiro.

“Tem algum sanduíche para vegetariano aí?”
“Não.” A senhora gorda que servia na lanchonete respondeu.
Brian suspirou. “Tem alguma outra coisa que não venha acompanhada da carne de pobres animaizinhos?”
“Não.”
“Que absurdo...” Brian sussurrou.
“Que?” A mulher perguntou com um olhar ameaçador.
“Nada. Me dá uma maçã, então.” Brian disse com tom entediado.
“A maçã acabou.”
”Merda!”
A mulher lançou para Brian um olhar bastante surpreso.
“Aw, me dê qualquer fruta que tiver aí!” Ele disse impaciente.
“Só temos banana.”
“Então me dê a banana, ora!”
“Calma! Esses meninos de hoje em dia se estressam por qualquer coisinha e vêm descontar nos outros que não têm nada haver!” A mulher falava ofendida.
Eu mereço! Brian pensou. “Por favor, me dê a p... a banana, por favor...” Ele disse tentando manter-se calmo.
“Tome.” Ela estendeu uma banana para Brian. “Dois dólares.”
”Dois dólares por *UMA* banana?!” Brian disse perplexo.
“Não precisa gritar! E sim, é isso mesmo que você ouviu, dois dólares e agradeça por ainda ter sobrado algo. Se quiser comer bem e de graça, acorde na hora da próxima vez.”
“Não se preocupe,” Disse Brian. “eu vou me lembrar disso.” Ele retirou os dois dólares de sua carteira e os entregou para a mulher em troca da banana, que de perto podia-se ver que estava madura demais, quase estragada.
“Esses loucos...” A mulher disse assim que Brian deu as costas para ela.
Brian virou em seus calcanhares. “Eu ouvi isso!”
Mas a mulher simplesmente fingiu que não tinha o ouvido e continuou mexendo em alguns papéis que estavam em cima do balcão.
“Ah, droga... acho que hoje não vai ser um bom dia para mim...” Ele falou para si mesmo e começou a caminhar em direção ao jardim, descascando a banana. “Só espero que isso não me faça mal...” Ele disse enfim com um suspiro.

“E como vocês já devem ter percebido, em uma adaptação para cinema, nunca se segue inteiramente o roteiro do livro. Geralmente são feitas mudanças para que o espectador fique mais preso ao filme e coisas do tipo. Alguém pode me dar um exemplo de filme que fugiu de seu roteiro original, no caso, um livro?”
Brian ergueu a mão. Ele não gostava muito de ser o centro das atenções, mas hoje, em especial, ele estava querendo ser notado, não pela turma inteira, mas por uma certa menina que por ‘coincidência’ estava sentada ao seu lado.
“Fale, Molko.” Seu professor disse sorrindo.
“Bem,” Ele começou com uma vozinha meio tímida, mas então limpou a garganta e prosseguiu com uma voz determinada. “existem muitos exemplos para esse caso, mas eu vou citar dois em especial que eu gosto muito, Werther e Entrevista com Vampiro.”
“E por quais motivos você acha que os diretores dos filmes fizeram as alterações no roteiro original, Brian?”
”Parte das mudanças são cortes de cenas que só existem nos livros, já que se todas as cenas fossem adaptadas o filme ficaria muito longo, mas em Entrevista com Vampiro existiram alterações em cenas essenciais do filme, como por exemplo, o próprio final do filme, apenas para que fizesse mais sentido para os espectadores, especialmente para os que não acompanham a obra de Anne Rice. Algumas das modificações em Werther foram também porque o filme é bastante antigo e os recursos que se tinha eram limitados.”
Todos estavam olhando surpresos para ele, para alguém que mal abria a boca durante as aulas, aquilo tinha sido surpreendente. Mas Brian ficou bem mais do que feliz quando percebeu que Kathelyn estava sorrindo para ele.
Um sorriso tímido curvou os seus lábios.
“Muito bem, Molko.” Disse o professor em tom alegre.

“E daí?! Daí que ela quer que eu a encontre depois da aula!”
Vince quase se engasgou com seu suco. “Sério?!”
“Sério!” Brian disse com um sorriso de orelha a orelha.
“Para quem não falava nada além de 'oi' com ela ontem você está bem, heim...” Vincentt disse mostrando para ele um olhar malicioso.
“Pare com isso, Vince!” Brian disse corando. “Vai ver não é nada de mais... vai ver ela quer conversar sobre a aula...”
“Ah, não vem com essa, Molko!” Vincentt disse colocando o copo sobre a mesa. “E aí? Onde vai ser o encontro?”
“Não é exatamente um encontro!” Brian disse corando ainda mais. “Bem... depois das aulas ela disse que quer falar comigo e que é um assunto importante e -”
“E você ainda diz que não é um encontro!”
"Cale a boca e me deixe terminar!” Brian lançou um olhar chateado para ele.
“Está bem, desculpe. Prossiga.” Vince disse voltando a tomar o seu suco.
“Bem... é... bem... ela... é...”
Vince suspirou. “Bri, quer fazer o favor de falar logo?”
“Okay... ela pediu para que eu a encontrasse no quarto dela...” Brian disse olhando para o chão.
O queixo de Vincentt caiu. “É assustador perceber o quanto às meninas estão atiradas hoje em dia... onde esse mundo vai parar? E o romantismo, onde fica?” Ele falava parecendo realmente chocado.
“Não é nada disso! Ela pediu para que eu fosse a buscar lá, como hoje é sexta, combinamos de sair para algum lugar depois que conversássemos...”
“Ah bom!” Vince sorriu. “Ela quer sair com você já como a sua namoradinha, que meigo!” Vincentt disse com um sorriso zombeteiro nos lábios.
“Valo, estou avisando, é melhor você parar com isso.” Brian disse em um tom irritado.
“Calma, Bri, só estou provocando um pouquinho, não seja tão estressado. Você vai comer isso?” Vince perguntou apontando para a comida no prato de Brian, ele estivera tão empolgado contando às novidades que tinha até esquecido de seu almoço.
“Não, já deve estar frio...”
“Obrigado.” Vincentt disse pegando o prato de Brian e colocando sobre sua própria bandeja.
“Morto de fome! Nunca vi alguém comer tanto quanto você!” Brian disse balançando a cabeça negativamente e sorrindo admirado. “Quando estiver uma baleia vai se arrepender.”
“Haha, muito engraçado!” Vincentt disse quando engoliu a comida que já tinha colocado na boca. “Estou em fase de crescimento, preciso me alimentar!”
“Fase de crescimento nada, essa desculpa não cola, você já está muito velho para isso.” Brian disse sorrindo com escárnio.
“Pois é, pelo menos eu *TIVE* uma fase de crescimento!” Vince começou a gargalhar.
“Que!?! Você vai ver só, seu desg -”
Brian já tinha erguido o garfo para atacar Vincentt com ele, mas de repente, Kathelyn entrou no refeitório e fixou os olhos na mesa onde os dois estavam sentados.
Brian corou e colocou o garfo na mesa. Kathelyn se aproximou com um sorriso nos lábios.
“Oi, Brian. Oi, Vincentt.”
“Oi.” Os dois meninos responderam em coro.
“Posso sentar com vocês?”
“Claro.” Brian disse sorrindo para ela.
“Fique a vontade.” Vincentt disse levantando. “Mas eu já estava de saída, sabe? Preciso ir ao toalete antes que as aulas recomecem. Se me derem licença...” Segundos depois, a silhueta esguia de Vince já estava desaparecendo no meio da massa de outros alunos que lotavam o refeitório.
Kathelyn olhou para Brian. “Você é alguma coisa de Vincentt Valo?”
“Bem, não... só amigo, eu o conheci no primeiro dia de aula aqui.” Brian disse meio confuso. “Por quê?”
“Oh, nada, nada de mais. É só que vocês se parecem um pouco, sabe? Olhos azuis, cabelos bem escuros e, além disso, sempre estão juntos.”
“Ah, isso? Bem, meu cabelo é bem claro para falar a verdade... eu pinto de preto.” Brian disse sorrindo e puxando uma das pontas de seu cabelo. “Não acho que sejamos parecidos... basta comparar o tamanho de Vince com o meu para ver que não somos da mesma família...” Brian terminou a frase com um suspiro.
“Ah, vamos! Não fique assim, você não é tão baixo!” Ela tentou anima-lo, mas a frase não soou muito convincente para Brian.
“Bem, a maioria das pessoas não pensam assim, mas tudo bem, eu não ligo, afinal, muitos dos homens mais inteligentes eram bem menores do que eu, Napoleão e Hittler são bons exemplos.”
“Hittler?” Ela perguntou surpresa.
“Sim, ele era extremamente desumano e cruel, não apoio o que ele fez, mas também não posso negar que ele era bastante inteligente.” Brian disse enquanto começava a comer sua sobremesa. Mouse de chocolate!
Kathelyn sorriu. “Você é tão diferente dos outros meninos, Brian.”
Brian lançou para ela um olhar fingido de surpresa. “Só porque acho Hittler inteligente?” Ele perguntou com um meio sorriso.
“Não, não é por isso.” Ela disse com uma risadinha. “Não sei explicar direito, mas você é... bem, é diferente, é tão mais determinado e pé no chão que a maioria dos meninos e o seu jeito... tem algo de tão diferente nele, só não sei bem o que é.”
Brian olhou admirado para ela. “Acha mesmo isso?”
”Acho.” Ela disse ainda sorrindo.
Brian ficou olhando dentro dos olhos dela. Wow! Ele pensou. Ela é tão linda que poderia beija-la agora mesmo! Mas, de repente, Kathelyn levantou.
“Bem, com licença, preciso ir falar com minhas amigas antes que a aula comece. Nos falamos depois, então?”
“Claro!” Brian disse com o sorriso mais doce nos lábios.
Kathelyn mostrou um último sorriso para ele e seguiu para uma mesa onde estavam sentadas várias outras meninas, que a receberam com várias risadinhas.
“Tenho que ter coragem! Vou pedi-la em namoro hoje mesmo, não pode passar de hoje!” Brian sussurrou para o último pedaço de mouse de chocolate antes de coloca-lo na boca. Viva sua vida com o seu ‘oh-tão-amado’, Matt. Ele pensou sorrindo. Porque EU vou viver a MINHA.
 

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