16:

Vincentt dormia tranqüilamente. As flores brancas cobriam-lhe metade do corpo e combinavam perfeitamente com o seu lindo semblante, que agora se encontrava lívido como nenhum ser humano em seu estado normal de saúde poderia estar.
A morte é algo completamente irreal, mesmo sendo vista de tão perto.
Brian mantinha seu olhar nos lábios de Vince, a parte onde a mudança mais aparente tinha ocorrido, eles tinham adquirido uma cor arroxeada. As lágrimas fluíram com maior intensidade no momento em que invadiu a sua mente o pensamento de que aqueles lábios nunca mais se curvariam naquele lindo sorriso.
Aquele era o momento em que a dor surgia com mais força, o momento de aceitar definitivamente a dolorosa verdade... Ele nunca mais poderia ouvir a linda voz de Vincie... Nunca mais o ouviria chamar o seu nome de forma tão doce... Ouvir ‘amo você’ da forma mais encantadora que ele já ouvira...
Aqueles eram os últimos momentos que ele tinha para olhar Vincie, tentar gravar todos os detalhes, numa tentativa desesperada de assegurar-se que jamais esqueceria nenhum detalhe dele. Mesmo sabendo que a lembrança e o gosto de perda seriam sempre sombras a o perseguirem onde quer que ele fosse... Tinha perdido para sempre a pessoa que mais amara em toda a sua vida até então e de forma tão banal... Jamais teria imaginado que algo tão precioso pudesse se esvair tão repentinamente.
Mas ali estavam, os lindos olhos azuis de Vincentt, antes sempre tão cheios de vida, mortos, fechados, e Brian sequer teve a chance de contempla-los uma última vez.
Por toda parte do cemitério pessoas choravam. Grande parte da universidade estava lá, toda a turma de direito, todos os professores, diretores, coordenadores. Os parentes de Vince e alguns pais de outros alunos, que haviam sido informados sobre a tragédia através de Goldsmiths, também estavam presente. Em breve os pais de Brian também estariam ali, naquele cenário melancólico, onde o céu cinzento dava o último toque para o triste fim... Fim de uma jovem vida promissora para alguns, fim de alguém extremamente querido para outros, para Brian, era o fim de todas as suas pequenas ilusões...
Cansado. Ele estava cansado de sempre ver as coisas pelas quais batalhava para conquistar desvanecerem-se bem em sua frente. Era chegada a hora de finalmente aceitar o fato de que a vida sempre consegue ser injusta. Nada nunca acontece do modo como queremos.

A mãe de Vincentt voltou com um calmante para o seu marido, o homem que mais parecia um zumbi no momento, chorando em pleno desespero contido. Ela, como sempre, estava mais calma, pelo menos era o que externava, por dentro a dor que estava sentindo não tinha semelhança com nenhuma outra dor que já sentira... Era como se toda a sua alegria e vontade de viver tivessem morrido junto de seu filho único, o filho a quem ela sempre amara.
Ela sabia que nada seria a mesma coisa em sua vida, será que ela, como psicóloga, seria capaz de aliviar o peso dos problemas dos outros quando em sua própria vida uma ferida estaria sempre exposta? E o seu marido? Ainda conseguiria sustentar suas teses de filosofia, ainda teria coragem e força suficiente para lutar por seus ideais depois da perda irreparável de seu motivo de maior orgulho? Junto de Vincentt eles tinham se sentido a perfeição em termos familiares... Tudo era sempre tão harmonioso, cheio de amor e carinho... Desde que veio ao mundo Vince sempre fora aquele tipo de pessoa que trazia alegria para onde quer que ele fosse. Ele sempre fora tão maduro, honesto e consciente de suas próprias opiniões e atitudes...
Agora, por mais difícil que fosse de acreditar, estavam só os dois novamente. Devastados e sem condições para se reerguer... Tinham tirado deles o seu suporte.
Ela acariciou os cabelos de seu marido com ternura e foi nesse momento que seus olhos pousaram sobre o garoto com quem ela havia conversado à meia hora antes.
Brian parecia estar completamente absorto em seus pensamentos, as lágrimas cintilando em seu lindo rosto.
Ela suspirou, limpou a lágrima que havia escorrido por debaixo dos óculos escuros e seguiu em direção ao menino.
“Brian?”
O garoto olhou desamparado para a bela e alta mulher. Ela o abraçou.
Ela sabia que ele estava se sentindo culpado por ter sido o motivo do regresso antecipado de Vincentt, ele mesmo dissera isso para ela minutos antes, mas a culpa não era daquele pobre garotinho a quem ela tentava inutilmente consolar naquele momento, ela sabia disso também. Ele emanava tristeza e desespero e ela tinha certeza que seu sofrimento era tão real e forte quanto o dela mesma.
“...me desculpe...” Ele sussurrou em meio aos soluços.
Ela acariciou os cabelos macios do pequeno garoto. “Brian, você sabe que não teve culpa alguma... Ao contrário, você só fez bem para o meu filho. Nunca tinha o visto tão seguro e confiante em uma decisão tomada como no dia em que me disse que estava namorando você... Oh, Deus! Ele estava tão feliz...” Os soluços cortavam sua voz. “Não é justo...”
Brian abraçou-a com mais força e assim, chorando abraçados, eles permaneceram por um tempo, até que Brian viu uma figura inconfundível, de cabelos violeta, aproximar-se do caixão.
Venon estendeu uma mão incerta em direção às mãos cruzadas sobre o peito de Vince. Ele decidiu-se por não toca-las e apenas sussurrou. “Inglesinho...” As lágrimas tornavam suas lentes de contato verde um incômodo. “Justo quando eu estava achando que você era uma pessoa legal... Você tinha mesmo que deixar isso acontecer? Justo agora? Só para me deixar tão triste e chateado com você?” Ele secou as lágrimas que encharcavam suas bochechas. “Não posso aceitar! Não consigo aceitar o fato de você ter ido embora sem ao menos se despedir!”
Brian desfez o abraço cuidadosamente. Antes que ele saísse, Sra. Valo pressionou um beijo tenro em sua testa. Ela definitivamente parecia muito com Vincie... Seus olhos, cabelos, altura... Brian pensou e forçou um sorriso a aparecer em meio às lágrimas e seguiu em direção ao amigo. Ele envolveu a mão de Venon com a sua e sentiu de imediato a cabeça do amigo recostando-se à dele. Ele entendia muito bem cada palavra liberada por Ven, ele mesmo já tinha pensado essas mesmas coisas por várias vezes... Nos filmes sempre se pode, ao menos, ter uma linda despedida antes da tragédia... Na vida real tudo era tão diferente.

Sr. e Sra. Molko chegaram ao cemitério quando o padre já estava fazendo o seu discurso.
“Eu falei que chegaríamos atrasados!” Reclamou o homem.
“Pare de reclamar! Não poderíamos deixar de vir! Disseram que Brian era muito amigo desse menino.” A mulher com um engraçado sotaque escocês falava enquanto corria o cemitério com os olhos. “Onde será que está o meu Bri-pie?”
O marido fez cara de atordoamento. “Pare de trata-lo como um bebê! É por isso que ele é tão mimado e mal-criado! Não parece nem um pouco com o Barry, ele sim puxou ao pai!” Ele disse a última frase com um tom de orgulho, mas logo adquiriu novamente a expressão de raiva e segredou para sua mulher. “Tenho até medo de saber até que ponto a amizade de Brian com esse menino era profunda...”
“Não comece essa discussão novamente!” A mulher declarou irritada.
“E porquê não? Pode ser, não pode? Ele não usa maquiagem e todas aquelas porcarias?” A voz do homem também estava alterada. “Tenho certeza de que não mereço isso! Não entendo como você não se envergonha de-”
“Oh, pelo amor de Deus!” A mulher impediu que o homem terminasse de falar. “Ele é meu filho! Nada que ele faça pode fazer com que eu sinta vergonha dele! Eu o amo demais e isso me ajuda a tentar entendê-lo, mas é uma pena que o mesmo não possa ser dito a seu respeito! Realmente não posso esperar que você sinta o mesmo que eu sinto, alguém tão ausente sequer deveria ter o direito de ser chamado de pai!”
“Não ouse dizer esse tipo de coisa! Eu sei que sou um ótimo pai!”
A mulher gargalhou. “Não venha me contar piadas!” Ela o encarou muito séria, então. “Eu já estou cansada de vê-lo criticar Brian sem nunca ao menos ter tentado ajuda-lo em algo! Meu filho está passando por uma fase muito difícil e dessa vez eu não vou permitir que você dificulte ainda mais as coisas para ele!”
“Vou embora!” O homem disse de súbito.
“Não estou pedindo para que fique.” Ela respondeu simplesmente.
Furioso, o homem virou-se e seguiu de volta para o carro.
Sra. Molko respirou fundo, tentando evitar as lágrimas que queriam vir aos seus olhos. As constantes brigas com o seu marido iriam acabar com o seu casamento, ela sentia que não agüentaria aquela situação por muito mais tempo. Religiosa como era, isso era a última coisa que ela desejava, mas a cada dia que se passava a situação ficava mais difícil..
Seus olhos finalmente encontraram a silhueta de seu filho mais novo. Ela caminhou em direção a ele.
“Bri?”
O garoto virou-se surpreso, pensou que seus pais não viriam mais.
Sra. Molko sentiu uma pontada forte em seu coração, seu filho estava em estado de calamidade. Ela chegou a pensar que a tristeza que ela sentia emanar dele era grande demais para alguém tão frágil.
Brian lançou-se nos braços de sua mãe. Tudo o que ele precisava agora era do amor de sua mãe, talvez isso aliviasse um pouco a dor...
“Shh... pronto... pronto...” A mulher falava em tom caloroso e confortante.

O caixão foi fechado. Sra. Molko podia jurar que estava sentindo as batidas frenéticas do coração de seu filho e que parte de seu crescente desespero estava passando para ela.
Brian não quis ver o caixão sendo coberto pela terra. Ele escondeu o rosto na curva do ombro de sua mãe. Estava acabado e doía pensar nisso, doía ter que aceitar que ele nunca mais poderia ver Vincentt e ele definitivamente não estava preparado para encarar o desfecho de sua ‘pequena-época-feliz’.

Toda a Goldsmith ficou de luto por um dia. Os alunos permaneceram em estado de melancolia por um mês inteiro. Os mais íntimos terminaram o semestre chorando com a homenagem feita pela turma de direito durante as teses finais.
Foi extremamente difícil para Brian recuperar-se, ele quase reprovou, perdeu até o interesse pelos estudos, só conseguiu recuperar as notas com a ajuda de Venon e Brandon que o forçavam a estudar e faziam o possível para o animar. Steve também fez o que pôde para fazer Brian voltar ao normal, mas era difícil, por um longo tempo ele simplesmente não tinha mais ânimo para nada. Sequer comemorou a chegada de seus vinte anos.
Para que a situação piorasse, os pais de Brian finalmente resolveram se separar.
Aquele também foi o último ano de Brandon em Goldsmith, ele havia concluído seu curso de matemática e pretendia fazer uma especialização nos Estados Unidos.
Os três garotos choraram abraçados antes que Brandon entrasse no carro que estava a sua espera.
“Um dia nós vamos nos reencontrar e nesse dia eu vou querer ver aquele seu lindo sorriso de volta em seu rosto... tenho certeza de que Vincentt também iria querer te ver feliz...” Foi o que o rapaz louro disse ao ouvido de Brian antes de desfazer o abraço e plantar um beijo na testa de cada um dos rapazes mais novos, entrando no carro logo em seguida.
O outro ano passou de forma lenta.
Brian arrumou um emprego extremamente tedioso, organizando e colocando documentos em ordem, para poder conseguir dinheiro suficiente para fazer o seu próprio filme, que iria contar como a última nota de seu curso, em breve ele estaria formado e sequer tinha conseguido um papel em uma peça como ele havia planejado.
Venon passou a dividir o quarto com um garoto chamado Victor, um sujeito bastante legal, como Brian concluiu alguns dias depois de conhecê-lo. Ele tinha uma irmã que tinha acabado de entrar na universidade, garota bonita e inteligente que acabou por tornar-se a namorada de Venon tempos depois. Os dois se davam muito bem, ela adorava as pinturas de Venon e conseqüentemente acabou se tornando a nova ‘musa-inspiradora’ para o jovem pintor, apesar de ele ainda pintar Brian de vez em quando...
Já o novo parceiro de quarto de Brian era um francês chamado Billy que tinha uma certa dificuldade em falar inglês. Ele simplesmente adorava o fato de Brian falar fluentemente francês, os dois sempre se comunicavam em francês e se deram extremamente bem no início. Antes do meio do ano Brian já o considerava um amigo fiel e justamente por isso, no meio de uma de suas crises emocionais, ele acabou deixando escapar a verdade sobre ele e Vince, quase que naturalmente ele contou para Billy tudo o que tinha acontecido em sua vida até o ano passado, quando seu ‘relacionamento-de-conto-de-fadas’ teve um fim desastroso...
Billy ficou tocado com a história e depois disso disse que se sentia ainda mais amigo de Brian.
Mas o carinho que Brian sentia por seu parceiro de quarto acabou se tornando um misto de raiva e repulsa não muito tempo depois. Foi em uma noite fria, como a maioria das noites na Inglaterra, que Billy revelou suas verdadeiras intenções. Ele invadiu a cama de Brian durante a madrugada e agarrou-o roubando-lhe um beijo sem maiores explicações. Brian reagiu da única forma que lhe ocorreu naquele momento, assustado, ele empurrou violentamente o outro garoto, que caiu da cama, e sentou-se exasperado, exigindo uma explicação.
“Se você quiser, pode fingir que eu sou Vincentt, eu não me importo desde que eu possa possuir você, não agüento mais mentir, eu quero você Brian, nem que seja só por essa noite...” Foi tudo o que ele falou antes que Brian levantasse e desse um tapa estridente em sua face direita. “Você é nojento... não ouse dirigir novamente a sua palavra a mim...” Brian disse em meio à fúria, os dentes e punhos serrados.
A partir desse dia eles não se falaram mais. Sequer conseguiam olhar um para o outro, depois de um tempo ele soube que Kathelyn estava namorando Billy.

O fim do ano chegou e a custa de muito esforço Brian conseguiu fazer o seu filme, era tudo bem mais trabalhoso do que ele imaginara. A formatura não foi nada agradável, certo, tem que se admitir que foi emocionante finalmente receber o seu diploma, mas por outro lado, era terrível ter que se separar de mais um amigo e ter que começar a sua vida independente.
Venon ia ficar mais um ano ou dois em Goldsmith, ia fazer extensão do curso e tentar conseguir um estágio em uma escola de artes nos Estados Unidos.
Um dia depois da formatura, Venon pintou o último quadro inspirado em Brian e presenteou o amigo com a pintura dos anjos da qual Brian tanto gostava.
“Tem certeza de que quer me dar isso, Ven?” Brian perguntava olhando ‘adorosamente’ para os lindos anjos prestes a se beijarem... Ele e Vincie...
“No fundo o quadro sempre foi seu, Bri. Todos os sentimentos expressos nele são seus, não meus...” Venon mostrou um pequeno sorriso. “Agora venha aqui. Deixe-me te abraçar mais uma vez antes que você vá.”
Eles ficaram abraçados por um longo tempo. “Promete que vai se cuidar?” Venon perguntou em tom preocupado.
Brian sorriu e fez que sim com um movimento de cabeça.
“Promete que não vai me esquecer?” Venon perguntou em um tom meio tímido dessa vez.
Brian desfez o abraço e olhou dentro dos olhos castanhos do garoto de cabelos violeta, esse era um dos raros momentos em que se podia ver a cor natural dos olhos dele (ele havia tirado a lente porque estavam incomodando muito, lágrimas sempre faziam com que seus olhos ficassem facilmente irritados...). “Mas que idéia é essa agora? Eu nunca vou conseguir esquecer você, Ven”
“É, eu sei... eu também nunca vou conseguir te esquecer, agora que você já entrou em meu coração é impossível te tirar de lá...” Ele disse e logo em seguida deu um tapinha brincalhão no ombro de Brian. “Agora vá! Antes que eu comece a chorar de novo... E não esqueça de vir me visitar, heim!”
“Pode deixar.” Brian sorriu e pegou suas malas. Deixando logo em seguida o local.
Ele passara três longos e inesquecíveis anos de sua vida naquela universidade e era exatamente por isso que ele estava sentindo um aperto no peito agora, enquanto caminhava lentamente pelos corredores. Cada canto daquele lugar tinha uma lembrança, ele tinha amadurecido tanto durante sua estadia ali e pensar que sua vida só estava começando... Aqueles tinham sido apenas os primeiros passos, tinha tanto ainda a ser feito...
“Molks!” Steve disse alegremente e acenou quando o viu se aproximar.
Brian sorriu em resposta. Ele ia morar no apartamento de Steve por um tempo, só enquanto não arrumava um emprego decente para começar a pagar seu próprio apartamento. Nada faria com que ele ficasse na casa de um de seus pais, ele não precisava de mais problemas e, além disso, Steve tinha se tornado o melhor amigo de Brian, sempre estava lá, quando Brian precisava e até mesmo quando ele não precisava... Ele chegava a ser até um tanto quanto superprotetor. Brian sabia que Steve se identificava muito com ele e ele mesmo simplesmente adorava Beanie, achava incrível o ‘dom-da-espontaneidade’ que ele tinha. Ele tinha certeza de que com a ajuda de Steve ele arrumaria sua vida.
“Vamos?” Steve sorriu, já pegando uma das malas para ajudar o amigo.
“Vamos.” Brian respondeu. As coisas iriam melhorar para ele, algo dentro dele lhe dizia isso. Não importava o quanto tudo tinha sido ruim e complicado até agora, tudo iria melhorar e se a vida insistisse em querer piorar tudo novamente ele tomaria a frente e lutaria para melhora-la! Era a hora de mostrar para todos em prática o que ele sempre dizia em teoria: Brian Molko não é facilmente derrotado!
“Vamos.” Ele repetiu sorrindo e continuou a seguir Steve.

 

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