13:
Vincentt acordou com o cantar dos passarinhos. 7:00 da manhã, ele contestou
olhando para o relógio. Mesmo sendo domingo, e ele estando muito cansado, não
conseguia perder o costume de acordar cedo! Sabia que não conseguiria adormecer
novamente e então resolveu iniciar de vez o seu dia. Ele olhou para o rapaz que
o envolvia em um abraço frouxo. Brian dormia despreocupadamente. Vince sorriu e
plantou um beijinho na testa do namorado. O dia hoje tinha que ser perfeito, tão
perfeito quanto fora à noite passada, ele pensou com um sorriso sonhador nos
lábios.
Vince levantou-se e seguiu para o banheiro. Enquanto escovava os dentes encarava
seu reflexo no espelho. As lembranças dos acontecimentos de ontem fizeram com
que uma sensação engraçada se instalasse em seu estômago. “Você é um bastardo
sortudo, sabia?” Ele disse baixinho para o rapaz que sorria em sua frente.
Depois ele seguiu para o chuveiro e deixou que a água cálida caísse
despreocupadamente sobre sua cabeça.
Só quando estava se enxugando ele ouviu alguns murmúrios e o som de passos pelo
quarto. Ele envolveu o corpo com uma toalha e aguardou silenciosamente até que a
porta fosse aberta.
Um Brian completamente desorientado emergiu do quarto com os cabelos
desgrenhados e um casaco que lhe cobria até os joelhos e que quase ocultava
completamente suas mãos. Era uma visão hilária, mas ao mesmo tempo imaculada.
“Ah, então é aqui que você está!” Ele disse com um meio sorriso, a voz um pouco
rouca confirmava que ele havia acabado de acordar.
Vince sorriu. Será que ele sabia o quanto era irresistível a vontade de toma-lo
nos braços e beija-lo de prontidão? Ele perguntava-se silenciosamente. Era
delicioso ver Brian assim tão vulnerável, tão adorável!
Brian bocejou e seguiu, rodeando a cintura de Vince logo em seguida. “Ai! Você
ta muito gelado!” Ele disse com uma risadinha, olhando de forma preguiçosa para
o outro.
Vincentt beijou com ternura a testa do pequeno rapaz e retribuiu o abraço. Brian
recostou a cabeça no peito do namorado e fechou os olhos. Ficaram por um tempo
assim até que Vince afastou Brian cuidadosamente de si. “Como hoje não tem café
da manhã, eu vou comprar algo lá na cantina para comermos, enquanto isso você
toma um banho e vê se acorda, okay?” Ele disse.
“Okay, mas cuidado com o que você vai comprar por lá, os preços da cantina são
um pouco salgados, posso dizer isso por experiência própria.”
“Certo, tomarei cuidado.” Com isso Vince beijou a face de seu namorado sonolento
e seguiu para o quarto, para poder se vestir.
Quando Vincentt havia acabado de calçar seu tênis, Brian começou seu banho e foi
justamente nessa hora que Vince olhou para a cama de cima do beliche e percebeu
que ela sequer havia sido desfeita. Onde estaria Venon? Será que ele havia
dormido fora? Ele não fazia idéia de para onde ele havia ido à noite passada, e
sequer havia se interessado em saber, não era da sua conta. Mas o fato dele ter
passado a noite fora era motivo para começar a se preocupar. E se algo tivesse
acontecido com ele? Mas era melhor esperar mais um pouco, quem sabe ele não
tinha saído com uma garota e tinha ido dormir na casa dela... Várias
possibilidades surgiram na cabeça de Vincett, mas ele resolveu que não deveria
ficar alterado por causa disso, pelo menos não por enquanto. Então ele saiu do
quarto e seguiu para a cantina.
“Tem certeza de que ele não acordou mais cedo do que nós e já havia saído quando
acordamos?” Brian perguntou com um olhar meio apreensivo antes de começar a
comer sua maçã.
“Por dois motivos eu posso descartar essa possibilidade. 1: Venon é um
preguiçoso e sempre dorme o quanto pode, aos domingos ele dorme até a hora do
almoço. 2: É até engraçado pensar que ele arrumou a cama depois que levantou.
Ele *NUNCA* faz isso, ele consegue ser tão estranho que arruma a cama toda noite
antes de ir dormir, e só.” Vincentt falava enquanto penteava os cabelos molhados
de Brian cuidadosamente.
“Estou preocupado, Vincie. E se tiver acontecido algo com ele?”
“Calma. Vamos esperar mais um pouco, se ele não aparecer até a hora do almoço
comunicaremos a direção da faculdade sobre o seu sumiço, certo?”
Brian concordou com um aceno de cabeça.
Meia hora depois, Brian estava deitado com a cabeça no colo de Vincentt enquanto
este lia algumas das outras músicas que Brian havia composto.
De repente, a porta se abriu e Venon entrou no quarto. Sequer conseguia
agüentar-se de pé.
Brian levantou-se e de imediato Vincentt pôs o caderno em cima da cabeceira.
“Onde você esteve a noite inteira Venon?” O rapaz mais alto perguntou sem
conseguir esconder o tom de preocupação.
“Ah, não enche, inglês intrometido!... não é da *sua* conta... não é *nada* da
conta de ninguém... nadanadanada...” Ele falava com um sorriso estúpido nos
lábios.
Brian aproximou-se um pouco mais e comprovou o que já estava óbvio pelo jeito
cambaleante de Venon andar. “Ele está caindo de bêbado.” Brian declarou e seguiu
em direção ao rapaz de cabelos cor-de-rosa. “Venha, Venon.” Ele pegou a mão de
Venon e guiou-o até a cama de Vincentt, ele estava incapacitado de subir as
escadas até a sua cama. “Deite-se aqui.”
Venon obedeceu à ordem de Brian, ainda com o mesmo sorriso curvando seus lábios.
Brian tirou os tênis de Venon e desabotoou seu jeans.
“Não tire proveito de mim, ‘Molko-espertinho’...” Venon disse quase em um
sussurro.
Brian rolou os olhos. “Não se preocupe, Venon, só quero que você durma um pouco.
Durma, vai ser melhor para você.”
“Molko, ela é uma piranha.” Venon disse, de repente muito sério.
“Como?” Brian perguntou.
“Do quê ele está falando, Bri?”
“Eu não sei, Vincie. O que você disse Venon?”
“Eu disse que aquela puta não presta.” Venon falou em tom irritado e sentou-se
na cama de repente. “A prostituta me enganou! *ME* enganou!” Ele agora segurava
firme Brian pelos ombros e sacudia-o violentamente, Vincentt ia intervir, mas
ainda mais subitamente, Venon parou e encarou Brian. “Ela não presta... não
presta... não...” Ele falava com um fio de voz quase inaudível. Brian percebeu,
chocado, que lágrimas marejavam os olhos do rapaz em sua frente. Venon suspirou
pesadamente e abraçou Brian com força.
Vincentt estava parado ao lado da cama, a boca pendia aberta tamanha era a sua
surpresa. Brian simplesmente não sabia o que fazer, sua mão movia-se
mecanicamente, acariciando as costas do outro, os olhos azuis sobressaltados.
Vincentt sentou-se na ponta da cama que estava sobrando, atrás de Venon e olhou
para Brian. Percebendo que o namorado estava por demais pasmo, decidiu ele mesmo
falar algo, mesmo achando que isso não adiantaria muito. “De quem você está
falando, Venon?”
“Cale a boca, estúpido!” Venon rosnou sem soltar-se de Brian. “Não estou falando
com você, estou falando com meu amigo...”
Vincentt ia responder algo áspero, mas ao perceber o olhar de advertência de
Brian, engoliu sua raiva.
“Pronto, pronto, Ven.” Brian dizia com delicadeza. “Pode me contar o que
aconteceu?”
Venon desfez o abraço e voltou a encarar Brian. “A Kathelyn é uma piranha.” Ele
disse simplesmente.
Brian chocou-se ainda mais. Porque Venon estava dizendo aquele tipo de coisa
sobre Kathelyn?
“Ontem eu saí com ela... aquela prostituta... fiquei com ela...”
Brian engoliu em seco.
Vince fez uma careta de indignação. “Como? Não estou entendendo, ela não tinha
dito que gos-”
Ele calou-se ao perceber novamente o olhar de advertência de Brian. “Mas é uma
piranha mesmo...” Vince disse em um tom que era mais baixo que um sussurro.
“Mas ela me enganou!” Venon continuou com a voz alterada. “Ela enganou *Venon
River*!”
“Calma, me diga o que ela fez para você estar dizendo que ela te enganou,
Venon.” Brian forçou-se a continuar a conversa.
“Ela só ficou comigo porque *APOSTOU* com as outras meninas que conseguiria!
APOSTOU! Ficou comigo por *dinheiro*!” Vennon disse e desmoronou novamente.
“Como ela teve a coragem de brincar desse jeito com os sentimentos de alguém?”
“Shhhh...” Vincentt começou a passar a mão pelas costas de Venon, quando
percebeu que Brian não poderia mais consola-lo, estava tão abalado quanto o
próprio Venon.
Venon virou-se e para aumentar a surpresa de todos, abraçou Vincentt começando a
chorar ainda mais livremente. “Shhhh...” Vince falava em meio ao susto,
acariciando os cabelos cor-de-rosa. “Ela não presta mesmo, você merece coisa
melhor...” Vince falava completamente sem jeito as frases que ele sempre ouvia
os outros falando quando alguém levava um fora.
Brian agora estava olhando para o nada, como se estivesse preso a um pensamento
muito forte.
“Brian.” Vince falou baixinho quando percebeu que o namorado não estava bem.
Mas Brian simplesmente não ouviu, levantou-se e seguiu em direção a porta.
“Brian!” Vincentt gritou, mas já era tarde, Brian havia saído do quarto.
Ele tentou se levantar, mas Venon puxou sua camisa. “Não me deixe sozinho! Não
me deixe sozinho, seu idiota!” Ele disse em meio às lágrimas. “...por favor...”
Vincett sentiu seu coração doer, ele não podia deixar Venon sozinho nesse
estado, mas Brian...
“Por favor, não deixe que Bri faça besteira...” Ele disse enfim olhando para o
teto.
Kathelyn estava sentada no jardim conversando com suas amigas, o dia estava tão
bonito! O sol estava quente, elas estavam tomando sorvete e conversando.
Kathelyn em especial estava tão entretida que sequer percebia o que estava
acontecendo ao seu redor, ela não viu Brian se aproximando.
“Bom dia, Kat.” Brian disse sorrindo.
As outras meninas liberaram risadinhas quando Kathelyn virou-se surpresa para
encarar Brian.
“Oh! Olá, Brian!” Ela retribuiu o sorriso. “Como você está?”
“Vou bem, só estou com um pouco de calor. A propósito, quanto foi esse sorvete?”
“Pois é, o dia hoje está muito quente. Dois dólares, comprei lá na cantina.”
“O bom é que você vai poder comprar *MUITOS*, né?” Brian perguntou em tom
sarcástico.
Kathelyn fez uma cara confusa. “O que você está querendo dizer com isso? Não
estou entendendo.”
Brian sorriu com cinismo. “Eu estou querendo dizer que você deve ter bastante
dinheiro para comprar quantos sorvetes você quiser, ou será que estou enganado?
A aposta foi de pouco dinheiro? Quanto você ganhou para enganar Venon, heim?”
Kathelyn deu alguns passos para trás, como se tivesse sido golpeada. Todas as
outras meninas emitiram sons de surpresa. “Eu... eu não sei do que você está
falando, Bri...” Ela disse com um sorriso sem graça nos lábios.
“Ah, não venha tentar me enganar de novo, sua cobra! Você consegue ser tão
cínica que chega a me dar náuseas!” Brian gritou para a garota. Algumas das
meninas começaram a sair bem devagar de onde estavam, não queriam ver como
aquilo acabaria. Não queriam estar envolvidas em confusão. Outras apenas olhavam
pasmas para o rosto enfurecido de Brian, nunca tinham o visto daquele jeito.
“Como você pôde fazer isso? Como teve coragem? Será que você não sabe que os
outros podem se magoar com seus atos baixos?”
Kathelyn o encarava com uma certa indiferença agora. Ela estava ardendo de
vergonha e de raiva. Todos que passavam paravam para olhar o que estava
acontecendo.
“Você não tem nada a dizer?” Brian perguntou em tom zombeteiro.
“Não preciso explicar nada para você. Você não tem nada a ver com o que eu faço
ou deixo de fazer.” Ela disse de forma fria.
“Mas eu *tenho* a ver com o que você faz ou deixa de fazer com o *meu amigo*!”
Ela liberou um sorrisinho baixo. “Fala sério, Brian, desde quando você é amigo
daquele idiota? Me surpreendo ao saber que vocês são *tão* ‘amiguinhos’.”
Uma centelha de ódio brilhou nos olhos de Brian. “Uma víbora como você não tem o
*direito* de chamar Venon de idiota! Meça suas palavras quando for falar de
qualquer um de meus amigos e estiver perto de mim, pois você não está ao nível
de nenhum de nós, sua vadia dissimulada!”
Kathelyn abriu a boca, surpresa e ergueu a mão no ar. “Não ouse me ofender dessa
maneira, sua coisinha insignificante!”
O tapa ecoou por quase todo o jardim. Brian quase perdeu o equilíbrio, mas
voltou-se cheio de fúria e encarou Kathelyn. Ele praticamente voou para trás
dela. “Eu *não* apanho de prostitutas!” Estava descontrolado, parecia até que
todo o afeto que um dia ele sentira por Kathelyn havia transformado-se em ódio.
Brian ergueu a mão no ar, porém, no momento em que ele iria desferir o golpe,
alguém segurou seu pulso. Ele olhou para cima atordoado.
“Brandon!” Ele disse surpreso.
“Chega, Brian, já basta.” Brandon disse muito sério.
“Se você tivesse encostado *um* dedo em mim seu desgraçado, você iria se
arrepender de ter nascido!” Sentindo-se mais segura com a chegada de Brandon,
Kathelyn começou a gritar em tom ofensivo, para Brian. “E eu que sempre tentei
ser legal com você! Tentei te respeitar! Mas já vi que aberrações realmente têm
que ser tratadas como aberra-”
Brandon a encarou com tanto ódio que ela sequer conseguiu terminar a frase.
“Você, menina, ao menos *tente* bater nele novamente e *eu* juro para você que
esquecerei que não bato em mulheres!” Vociferou Brandon.
Kathelyn o encarou, pasma.
“Estou lhe avisando, provoque-o e estará me provocando, não medirei meus atos da
próxima vez, é melhor você não me provocar.”
Brandon virou-se de costas para Kathelyn e começou a atravessar o pequeno
círculo de pessoas que já começava a surgir em torno deles, puxando Brian
consigo.
Brandon fechou a porta atrás de si.
“O que você pensa que estava fazendo?” Ele perguntou em tom irritado ao encarar
Brian.
“Resolvendo uns problemas...” Brian disse sem encara-lo.
“*Resolvendo*?!” Brandon repetiu indignado. “Pois não foi o que pareceu para
mim! Você estava se metendo em problemas, isso sim!”
“Eu ia resolver tudo.” Brian disse com a voz um pouco alterada.
“Ah, ia mesmo?” Brandon moveu a cabeça negativamente. “Brian, se eu não tivesse
chegado a tempo você poderia estar na sala do diretor nesse exato momento, quem
sabe até seria expulso da universidade! Porque você fez isso?”
”Eu *precisava* fazer isso...”
“Mas por que?” Brandon perguntou.
“Você nunca vai entender, Brandon...” Brian declarou, finalmente encarando
Brandon. “Aquela menina não presta...”
Brandon suspirou. “Okay, acredito em você, mas você não pode simplesmente sair
por aí batendo nas pessoas que você julga não ‘prestarem’, as coisas não
funcionam assim.”
“Funcionam assim para mim.”
“Ah, não adianta falar com você nesse estado! Você fica impulsivo demais quando
está irritado, fica com a língua incontrolável, se não tiver alguém perto de
você nesses momentos para acionar ‘seu freio’ eu simplesmente não sei onde você
pode parar!” Brandon liberou outro suspiro. “Onde estava a porcaria de seu
namorado em um momento como esse?”
“Não ofenda o Vincie! Não o ponha na conversa como se ele fosse o culpado, pois
ele não é!”
“Está bem, me desculpe, é só que eu fico preocupado com você e... eu acho que
ele ao menos deveria cuidar de você se quer que eu mude a minha impressão sobre
ele...”
“Mas ele *cuida* de mim! O problema é que eu me descontrolei, mas não me
arrependo de nada que disse, se não colocasse para fora o que estava sentindo
estaria péssimo agora, e eu já estou cansado de ficar chorando...”
Seguiu-se um momento de silêncio até que Brandon falasse: “Não era dessa tal
Kathelyn que você estava gostando?”
“Você disse bem, *ERA*! Eu me enganei muito a respeito dela, as pessoas muitas
vezes usam ‘máscaras’ que acabam encobrindo o seu lado podre.”
Brandon sorriu. “Está bem, Sr. Molko, o pior já passou, agora que você já deixou
bem claro quais são seus reais sentimentos pela Kathelyn ‘desmascarada’eu espero
que você não vá mais provoca-la.”
“Não se preocupe.” Brian sorriu. “Só provocarei se ela me provocar!”
Brandon gargalhou.
“Bem, já vou indo. Vince também deve estar preocupado.”
“Certo.” Brandon disse sorrindo. “Vou terminar meus exercícios e não quero saber
mais de confusões, heim!”
“Pode deixar, isso já foi o suficiente por hoje.” Antes de sair Brian acenou um
tchauzinho.
Vince já estava na porta quando Brian chegou.
“Até que enfim! Estava preocupado!”
Brian sorriu e entrou no quarto. “Eu tinha que resolver umas coisinhas.”
Venon estava dormindo tranqüilamente.
“Ele acabou de adormecer, passou a noite em claro, aposto que vai dormir o dia
inteiro. Mas que ‘coisinhas’ você foi resolver?” Vincentt ergueu uma sobrancelha
questionadora. “Você não foi falar com Kathelyn, foi?”
Brian mostrou um sorriso triunfante. “Você não faz idéia da metade das coisas
que aconteceram! Sente-se e eu te conto.”
Vincentt sentou-se de imediato, a curiosidade claramente expressa em seu rosto.
Brian começou a narrar os fatos com riqueza de detalhes e pequenos toques de
heroísmo, tendo o cuidado de manter o tom de voz baixo, para que Venon não
acordasse.