12:
O cinema estava lotado, o filme era ótimo, Venon aguardou o melhor momento e
arriscou envolver a mão de Kathelyn com a sua.
A menina olhou para ele e sorriu. “Pensei que você nunca fosse agir.” Ela
declarou, para a surpresa de Venon. “Você vai ter a coragem de me beijar hoje ou
será que vamos ter que marcar um outro encontro para isso?”
Mesmo surpreso Venon não pensou duas vezes, puxou Kathelyn para mais junto de si
e beijou-a calorosamente.
Vincentt sorria enquanto observava Brian tocar os últimos acordes da música que
ele acabara de cantar em tom extremamente baixo, olhando para o chão. O rubor em
suas faces denunciava sua vergonha.
“Pronto.” Brian disse ao fim da melodia, finalmente olhando para o
namorado.“Você disse que não iria rir!” Ele declarou meio emburrado ao perceber
a expressão de divertimento no semblante de Vince.
“Mas eu não estou rido de você, Bri.” Vince tentou explicar-se rapidamente.
“Estou rindo porque estou feliz, afinal, estou conhecendo mais uma qualidade
sua!”
Brian sorriu meio sem jeito. Realmente, ele também estava muito feliz, hoje o
dia tinha sido muito agradável, com exceção do momento em que tinham começado a
posar para um dos quadros de Venon, mas esse ‘sacrificiozinho’ não era nada
comparado a recompensa, com certeza agora eles poderiam passar mais tempo
juntos, no fim das contas o quarto 206 iria tornar-se praticamente a ‘morada’ de
três inquilinos, Brian passaria muito mais tempo aqui, perto de Vince...
“Qual é mesmo o nome da música?” Vincentt perguntou, enfim.
“Nancy Boy.”
“A música pega!” Ele declarou sorrindo. “Só acho que a letra é um tanto... como
posso dizer...?”
“Ofensiva? Pervertida?” Brian questionou com um meio sorriso.
“Mais ou menos isso...”
“Que bom que você notou. Era exatamente essa impressão que eu queria passar!”
“Você não tem jeito mesmo.” Vince declarou e estendeu os braços na direção do
pequeno rapaz que estava sentado na cama.
Brian entendeu o pedido do namorado, pôs a guitarra de lado e seguiu em direção
a cadeira colocada no centro do quarto, onde Vincentt estava sentado.
Vincentt pegou as duas mãos de Brian e puxou-o com delicadeza para que ele
sentasse em seu colo.
Brian rodeou o pescoço do rapaz mais alto que com seus braços e envolveu a
cintura dele.
“Não pense que sou exagerado ou que estou ficando louco, mas até eu mesmo estou
um pouco assustado com quanto estou gostando de você, eu gosto de tudo em você!
Às vezes acho que isso não é normal...” Vince declarou com um certo tom de
preocupação.
Brian riu e beijou os fios negros de Vincentt.
“Falo sério, Bri!” Vince ergueu o olhar para fitar os olhos de Brian. “Não estou
me reconhecendo, *nunca* fui tão meloso assim, sempre namorei, desde os 12 anos
e agora eu vejo que essa é a primeira vez que estou *realmente* gostando de
alguém, não me canso de estar com você, olhar para você, dizer para você o
quanto eu gosto de você, apesar de nunca achar que consigo fazer com que você
entenda a gravidade disso tudo! Não pense que dizendo essas coisas eu quero que
você diga que sente o mesmo por mim, *sei* que você gosta de mim e isso já é o
suficiente para que eu leve nosso relacionamento ainda mais a sério.” Ele fez
uma pausa, Brian ouvia cada palavra atentamente. “A verdade é que não me imagino
mais com outra pessoa, não consigo mais me ver sem você, já penso em meu futuro
e vejo você em meus planos, eu devo estar te assustando com todo esse monólogo,
mas tenho que expor ao menos uma parte desses sentimentos ou vou acabar
enlouquecendo.”
Brian riu da expressão séria e preocupada do namorado, em seguida ele beijou sua
testa com ternura. “É interessante notar como você pensa diferente das outras
pessoas com quem eu já estive, a maior preocupação dos garotos com quem eu já
tentei me envolver, e até mesmo de meu antigo namorado, era o fato de eu também
ser um garoto, para você isso sequer parece um empecilho. Às vezes isso me deixa
confuso, mas cada vez que fico mais íntimo de você percebo que não tenho porque
me preocupar. Do mesmo modo que você sente que é a primeira vez que está
gostando de alguém, eu sinto que é a primeira vez que alguém realmente está
gostando de mim e que dessa vez eu não vou me magoar...”
Vince ficou por um tempo apenas contemplando o olhar sincero de Brian. “Durante
as férias eu vou ter que ir visitar meus pais, eles estão morando por um ano na
Bélgica, a trabalho, vou aproveitar essa viagem para falar com eles sobre nós,
falar sobre um assunto tão delicado pelo telefone não é uma boa idéia.”
“Vincie, não precisa apressar as coisas, não quero que você tenha problemas com
seus pais por causa d-”
“Não se preocupe.” Vince interrompeu Brian com um sorriso. “Meus pais são bem
‘modernos’, sabe? Claro que eles vão ficar meio chocados no início, mas não é
nada que uma boa conversa não resolva, eles sempre respeitaram muito a minha
opinião e minhas decisões.”
“Sorte a sua.” Brian declarou com um meio sorriso, o comentário de Vince fez com
que ele pensasse em seu relacionamento com seus próprios pais.
“Não fique assim, meu bem.” Vince beijou o queixo de Brian. “Eu irei falar com
seus pais assim que tiver esclarecido tudo para meus pais, não vou deixar que
eles façam nenhum mal a você, eles não têm mais o direito de interferirem em
suas decisões, você já é maior de idade...”
“É, mas ainda sou dependente deles, não tenho como me manter financeiramente...”
Brian declarou em tom desanimado.
“Mas isso é só por enquanto! Você vai ver como as coisas vão se resolver, muito
em breve você vai estar ganhando milhões e milhões, atuando em vários sucessos
de Hollywood, não é?” Vince falava tentando levantar o humor do namorado.
“Ninguém mais vai precisar te sustentar, sua dependência é algo passageiro, você
sabe disso.”
“É, mas até lá eu terei que aturar essa interferência e tenho a plena certeza de
que se você for falar com eles vai acabar desistindo da idéia de que poderemos
namorar em público sem maiores problemas...”
“Ah, mas eles vão ter que acatar as leis do ‘juíz Valo’!” Vince disse em tom
brincalhão.
Brian gargalhou. “Só você para conseguir me animar...”
“Ora, foi justamente para isso que eu fui feito!” Vincentt continuou a
brincadeira.
Brian olhou para ele, ainda sorrindo e retirou algumas das mechas negras que
caiam sobre os lindos olhos de seu namorado. “Eu te amo Vincie.”
É incrível como tudo realmente tem a sua hora para acontecer... Brian nunca
pensara que um dia conseguiria dizer aquela frase sem sentir-se culpado ou
temeroso... quando a hora chega, tudo acaba acontecendo de forma tão simples,
sutil... natural.
Vincentt ergueu-se da cadeira e manteve Brian em seus braços. Brian rodeou a
cintura de Vince com suas pernas e dessa forma, abraçados, olhando um nos olhos
do outro, eles seguiram até a cama.
Com todo o cuidado que pôde tomar, Vince colocou Brian na cama e deitou-se ao
seu lado.
Carícias gentis e afetuosas foram trocadas por tempo indeterminado antes que o
beijo acontecesse.
Daquele ponto em diante Brian sentiu-se perdido em uma onda de sentimentos tão
fortes e intensos que ele já não percebia mais nada, só sabia que estava com
Vincie, que o amava e era amado e que isso era bom, muito bom... uma sensação
como nenhuma outra que Brian sentira na vida, e sendo assim esse momento tão
especial, nada mais importava, tudo que acontecesse de agora em diante seria
conseqüência e ele passaria por cima de todas as conseqüências que viessem a
surgir se estivesse com Vincentt ao seu lado, disso ele tinha certeza, assim
como também tinha a plena certeza de que não adiantava mais erguer suas
barreiras de defesa, as barreiras que ele sempre erguia para que não se deixasse
levar pela paixão e acabasse devastado, magoado, abandonado... pois era assim
que ele se sentia sempre que se apaixonava e era deixado por aquela pessoa, ele
não queria mais sofrer, mas agora era tarde, muito tarde, se iria sofrer ou não
era algo que só descobriria futuramente, e para ele o que interessava no momento
era o presente, mantendo sua mente no presente ele sabia que estaria seguro,
feliz e isso compensa qualquer pensamento de futuro...
Ele não sabia bem quando tinham ficado sem roupas, mas sabia que só o toque das
mãos de Vince em seu corpo nu fazia com que ele estremecesse por inteiro.
A porta estava trancada. Mas Venon tinha outra chave! E se ele entrasse
novamente?
Vincentt começou a beijar o pescoço de Brian e nesse momento até o medo de Brian
sumiu. Não importava mais nem se Venon ou qualquer outro entrasse naquele
momento, ele tinha que viver aquele momento e *nada* poderia o impedir.
Tempo? Lugar? Brian já havia perdido a noção de tudo. Nem os constantes
sussurros de Vincentt ele conseguia mais entender.
Suas mãos laçadas, olhos fixos um no outro transparecendo o mais doce dos
sentimentos. Seu corpo unido ao de Vincie... perfeição... tudo parecia tão
perfeito, tão perfeito que Brian chegava a temer que fosse irreal, um sonho quem
sabe, que a qualquer momento pudesse acabar... mas não acabaria... era real, os
cálidos beijos que Vince plantava por todo o seu rosto eram reais, o corpo tão
perfeitamente entrelaçado ao seu era real... Vincie era real... a explosão de
prazer que ele sentiu foi real apesar de não ter parecido. Um ser humano tinha
permissão para sentir algo assim? Brian chegou a perguntar-se silenciosamente
segundos antes dos espasmos de êxtase invadirem todo o seu ser.
Silêncio. Apenas as respirações pesadas ecoavam pelo ar. Os dois corpos ainda
tentavam recuperarem-se do choque de prazer que vivenciaram.
Quando finalmente sentiu que havia voltado a sua consciência normal, Brian
sorriu e começou a acariciar os cabelos suados de Vince. Parecia que só agora
ele podia sentir o peso do corpo dele sobre o seu.
Vince respirou fundo antes de conseguir abrir os olhos e erguer-se um pouco para
fitar Brian. Ele sorriu também e rolou pela cama, ficando ao lado de Brian e
logo em seguida envolvendo o pequeno rapaz em um abraço apertado.
Palavras? Eram desnecessárias. Poderiam estragar o momento. Os dois sabiam bem
disso.
Vince acordou com um sobressalto. Que horas seriam?
11:30 da noite era o que o relógio de parede indicava. Será que Venon já havia
chegado? Ele havia dito que chegaria antes das 10:00...
Cuidadosamente ele retirou o braço que estava em baixo de Brian e levantou-se
procurando fazer o mínimo de barulho possível.
Venon não havia chegado, ele averiguou olhando para a cama de cima do beliche
que estava vazia, enquanto começava a vestir sua roupa.
Bem, é melhor que o americano volte antes das 12:00 ou terá que dormir fora da
universidade, afinal era esse o tempo limite para um aluno estar fora de seu
dormitório, as doze da noite em ponto fechavam-se às portas da universidade e
ninguém mais entrava ou saía até que o outro dia chegasse.
Quando finalmente terminou de se vestir, Vincentt pegou em seu armário um de
seus casacos e seguiu em direção a cama. Tinha que tentar vestir Brian com algo
ou ele acabaria congelando.
Mas, mesmo com toda a cautela de Vince, Brian acordou.
“Desculpe, eu não queria te acordar.” Ele declarou em um sussurro. “Mas só não
poderia deixar que ficasse morrendo de frio.”
Brian bocejou. “Bem que você poderia ter sido mais prático, né? Garanto que eu
não teria acordado se você tivesse apenas me coberto com um cobertor.” Ele falou
com ar zombeteiro.
“Ah, é mesmo? Pois eu deveria é ter deixado você congelar!” Vince entrou na
brincadeira.
“Você não teria sido capaz!” Brian ressaltou com ar esnobe.
“E não teria mesmo.” Vince declarou em fim e pôs um fim no falsete de briga com
um beijo rápido nos lábios de Brian. “Mas é melhor você se vestir, antes que o
americano volte, tivemos sorte dele não ter entrado antes.”
Brian concordou com um aceno de cabeça e sentou-se na cama.
Vince pegou as roupas dele no chão.
Brian vestiu sua roupa de baixo e sua calça jeans.
“Veste isso, é bem mais quente do que essa sua ‘mini-blusa’.” Vince declarou
entregando o casaco para Brian.
“Vince, isso *não* é uma ‘mini-blusa’!” Disse Brian.
“Bem, para mim é!” Vince declarou com um sorriso maldoso estampado no rosto.
“Você ainda me paga por toda a ‘humilhação’ que você me faz passar, Sr. Valo!”
Brian disse irritado, apontando o dedo para o rosto de Vince.
Vincentt simplesmente gargalhou e passou a gola do casaco pela cabeça de Brian.
“Okay, *um dia* você se vinga de mim, ‘Rainha do Drama’.”
Brian terminou de vestir o casaco e sorriu largamente. “Aguarde. Minha vingança
será maligna, ‘Doce Príncipe’!”
Os dois ficaram a se olhar por um instante, sorrindo.
Vincentt levantou e apagou a luz.
“Agora vamos dormir, ou nenhum de nós dois vai conseguir assistir aula amanhã.”
Brian beijou a face de Vince. “Boa noite.”
“Boa noite.”
Os dois aninharam-se na cama de Vincentt. Ficaram abraçados até adormecerem, o
que não demorou muito, estavam exaustos.
“Tchauzinho, meu bem.” Kathelyn disse e antes de fechar a porta ainda deu um
beijo no canto dos lábios de Venon.
Venon seguiu pelas escadas que levavam para fora do dormitório feminino, a noite
tinha sido maravilhosa. Kathelyn era maravilhosa! Em todos os sentidos, ele mal
podia acreditar que estavam juntos!
Acho que ela finalmente se decidiu, ele pensou, eu fui o escolhido! E um sorriso
surgiu em seus lábios quando aquele pensamento lhe veio à mente.
Venon nunca tinha namorado uma menina assim tão bonita e inteligente, ele iria
empenhar-se ao máximo para manter esse namoro. Quem sabe até ele poderia
casar-se com ela!
“Não viaje muito, Venon River.” Ele sussurrou para si mesmo. “Você nunca foi de
se deixar levar pelos sentimentos e essa não vai ser a primeira vez.”
Só então Venon percebeu que eles não tinham decidido se aquilo realmente seria
um namoro. Será que Kathelyn queria mesmo namora-lo ou aquele teria sido apenas
um fica, um passa-tempo?
Venon precisava saber! Ele não conseguiria dormir se não perguntasse! Precisava
saber!
Ele checou o seu relógio de pulso. 11:15. Ele ainda tinha tempo.
Voltou a subir às escadas em direção ao andar de Kathelyn. Quando já ia virar o
corredor, ouviu vozes de garotas. Venon identificou a voz de Kathelyn. Ele parou
para ouvir. Será que ela já estava contando as novidades? Um sorriso presunçoso
curvou seus lábios. Ele decidiu aproximar-se mais um pouco e ouvir a conversa.
“Não acredito que você teve coragem!” Disse uma voz fina e empolgada.
“Eu também não acredito!” Outra menina falou.
“Realmente... o que não se faz por dinheiro...”
Dinheiro?! O coração de Venon acelerou um passo.
“Pois é, mas *EU* ganhei a aposta e pode me passar o dinheiro.” Kathelyn disse
com ar triunfante. “Tive que aturar aquela coisinha e agora mereço uma
recompensa!”
“Realmente, ninguém resiste ao charme da Kathelyn, nem mesmo o garoto mais chato
e estúpido da escola!”
As garotas começaram a gargalhar.
Venon sentiu como se tivessem o golpeado no peito. Sentia-se completamente
humilhado. Culpava-se por ter deixado aquilo acontecer... deveria ter
desconfiado...
Ele desceu as escadas lentamente, sequer sabia no que estava pensando.
Chegou no prédio do dormitório masculino, mas ao invés de entrar seguiu para o
portão principal da universidade.