| INTRODUÇÃO AO DESIGN |
157554 |
| Prof. Evandro Perotto |
2º semestre / 2001 |
O que vem a ser projeto?
A palavra projeto vem do latim ‘projecto’, que significava ‘lançado para diante’. Seu significado atual, de acordo com o dicionário Aurélio, é “idéia que se forma de executar ou realizar algo, no futuro; plano, intento, desígnio”. Realizar projetos é uma atividade bastante comum em todas as áreas de atividade humana e se tornou o instrumento para definição e planejamento de qualquer empreendimento econômico, cultural, social etc. Projeto, em design, se serve especialmente de ferramentas gráficas para representar a idealização dos objetos e informações.
“Projetista é qualquer pessoa que invente seqüências de ações com a finalidade de modificar as situações dadas em outras preferíveis (...) o projeto se ocupa de como que teriam que ser as coisas, de idealizar instrumentos para alcançar objetivos pré-fixados” Simon, 1969.
As civilizações humanas sempre buscaram o desenvolvimento da técnica como uma das condições de seu progresso e, particularmente, buscaram diversos modos de criar e produzir objetos.
Na Idade Média a produção de objetos estava baseada em agremiações e ofícios e a criação e o aperfeiçoamento destes objetos provinha da própria produção. Quem projetava o objeto também o produzia e as modificações introduzidas eram muito lentas e, geralmente, ocorriam no decorrer da fabricação.
Na renascença houve uma série de mudanças e desenvolvimentos técnicos que propiciaram uma nova maneira de criar os objetos. Conhecimentos sobre geometria, física, composição, materiais e estruturas permitiram realizar com muito maior precisão e rapidez projetos de novos produtos.
Aqui já se estabeleciam as condições para o desenvolvimento da lógica da produção industrializada em massa. Modificações da ordem social estavam em curso e especialmente a divisão do trabalho promovia uma maior especialização das atividades. Quem projetava os objetos não era mais quem os produzia. E essa necessidade de uma ferramenta intelectual para prever e controlar as variáveis de produção desenvolveu o projeto na sua forma como o concebemos hoje (representação pelo desenho, uso de escala, detalhamentos construtivos etc.). Desta forma, o projeto se tornou uma grande ferramenta operacional, que permitia registrar e operar com uma grande quantidade de informações e, especialmente, de desenvolver objetos e processos de produção com alto grau de complexidade. No modo de produção artesanal isto é absolutamente inviável.
Arte e técnica, como as conhecemos hoje, eram atividades que, desde a Grécia antiga, não se fazia distinção. Ambas faziam parta da a techné, que abrangia os significados de arte, técnica, ofício, indústria, tecnologia, tecnocracia. Entretanto, por volta do século XVII se inicia um processo de separação entre arte e técnica que veio a consolidar-se na segunda fase da Revolução Industrial, no século XIX. A arte ganhou uma autonomia e um status social que jamais teve em outra época das civilizações. As necessidades de um sistema produtivo em massa e desenvolvimento cada vez mais acentuado dos objetos exigiu dos projetistas não somente projetá-los em seus aspectos funcionais e formais, mas também o planejamento do modo de produzi-los. Incorporava-se ao projeto conhecimentos técnicos (materiais, processos de fabricação etc.) de um sistema produtivo progressivamente mais complexo e se intensificaram esforços para racionalização e normalização das representações (desenhos) e do próprio método de projetar produtos.
No princípio do século XX os fundamentos de uma metodologia de design já estavam estabelecidos. O caráter de objetividade na elaboração de projetos estava definitivamente associado ao design. Alguns movimentos propunham posturas enfáticas sobre a questão da objetividade na criação de produtos. Em 1923, Theo van Doesburg, do grupo De Stijl, dizia que “nossa época é hostil a qualquer especulação subjetiva na arte, na ciência, na técnica, etc. O novo espírito que agora governa quase a totalidade da vida moderna se opõe à espontaneidade animal, ao domínio da natureza, às expressões artísticas. Para poder construir um novo objeto necessitamos um método, isto é, um sistema objetivo”. Opiniões semelhantes eram compratilhadas por Muthesius, do Deutsche Werkbund, e Walter Gropius, um dos criadores da Bauhaus.
Entretanto, pelas próprias características interdisciplinares do design, ainda não se dispunha de uma metodologia capaz de assegurar essa objetividade em precisão compatível com a demanda industrial de então. Duas grandes correntes de abordagem do design agregavam técnicas e conhecimentos de áreas conexas, buscando estabelecer bases mais consistentes para realização de projetos e desenvolvimento de produtos. Esta situação incômoda se acentuou depois da Segunda Guerra Mundial, com o aumento do comércio e da atividade econômica mundial, do surgimento das empresas multinacionais, aumento do consumismo e escassez de matéria-prima, culminando na década de 60, quando diversos fóruns ocorreram e houve uma tentativa de aproximar os métodos de projeto em design do método científico.
Atualmente esta discussão se arrefeceu, embora seja permanente o estudo e a busca de métodos que venham a aperfeiçoar a prática de projeto. Existem lacunas teóricas e metodológicas que ainda não foram preenchidas pela própria natureza interdisciplinar da atividade, pela insuficiência de ferramentas para avaliação e controle dos diversos fatores subjetivos que influenciam na elaboração do projeto, e pela falta de tradição em pesquisa da área. Esta preocupação se transferiu para os cursos de design, que têm em seus currículos disciplinas específicas de metodologia de projeto que procuram oferecer, com todas essas limitações, algumas ferramentas culturais para a realização da atividade de projeto.