Título:
Ineludíveis
Autora:
Umi no Kitsune ([email protected])
Disclaimer:
YuYu Hakusho e suas personagens são
propriedade de Yoshihiro Togashi.
Avisos:
Yaoi. Se você gostou da fic e a quer em seu site, peça
permissão.
Moiras:
As três deusas que decidiam o destino individual dos antigos gregos. Moira
significa "reguladora". As três Moiras eram Cloto (a fiadora), Láquesis
(a que joga a sorte) e Atropo (a ineludível). Filhas de Nix (a noite), as
Moiras eram representadas como três anciãs que teciam em forma de fio o
destino dos homens. Cloto o estirava, Láquesis o media e Atropo o cortava. Freqüentemente
comparadas as Nornas, as três deusas da mitologia germânica, representadas por
Urd (o passado), Verdandi (o presente) e Skuld (o futuro). Conhecidas pelos
otakus como as três deusas do anime Ah! Megami-Sama!
Isso
é apenas curiosidade. Não vá se animando pensando que vai encontrar a Urd
fazendo o Kurama de cobaia amorosa enquanto a Belldandy toma o lugar da Shiori e
começa a lavar louça (sob protestos desta, óbvio!) ou a Skuld enchendo o saco
do Hiei. É até uma boa idéia ^^, mas não é o que você vai encontrar aqui.
“Ah!
Seu corpo perfeito! Demônio de beleza e cinismo! Ah! Me pertence, forma mortal!
Não deixarei que escape! Seus beijos, seus olhos, suas mãos, seu corpo em mim!
Ah! Qual mal, qual castigo? Deusa e demônio, mortal e imortal? Quero-o meu e agüentarei,
por ti, a vingança de Zeus! Ah! As desgraças que cairão sobre mim... a cobiça
por um corpo! Ah! Seu corpo e somente seu corpo...”
Quente,
aconchego, conforto, muito gostoso. Dois seres juntos, abraçados, dividindo o
mesmo calor. Jovens de corpos bem-feitos, motivo de inveja para muitos, de
admiração para poucos. Um casal unido fisicamente, abençoado pelo suor,
consagrado por suspiros, regido pelo desejo. Estavam relaxados, respiração
lenta e rítmica.
Ela
abriu os olhos, um cinza infinito mirando o amante. Sorrindo, seus lábios
rosados numa curva delicada. Um suspiro. Tinha orgulho de seu amante. Com a mão
retirou uma mecha de cabelo que impedia a completa admiração do semblante
masculino. Quando os fios lhe escaparam dos dedos, a mão travessa procurou pela
orelha. Esta tremeu, ele murmurou algo no sono, mas continuou tranqüila sua
face. Os dedos passaram um a um pelo seu topo pontiagudo e felpudo. A cauda se
moveu e displicentemente caiu apoiada na perna feminina nua. Ele acordou. Antes
de abrir os olhos um sorriso e uma mordida sexy no lábio inferior. Os olhos se
encontraram. O cinza frio intimando o dourado quente a brincar.
"Desculpe.
Não queria te acordar."
"Mentirosa.",
o youko prendeu-a sob seu corpo, "Me acordou de um sonho muito bom... Vai
ter que compensar."
"Ah,
é? E como era esse sonho?"
"Tinha
uma mulher maravilhosa, linda! Que olhava escondida um youko prateado..."
"Hummm...
interessante, a parte do youko."
"Um
dia ele descobriu a bela espiã, nua! Dormindo calmamente em sua caverna."
"Além
de espiã invade propriedade alheia?", a moça riu, feliz por ele
lembrar-se de como conheceram-se, "Quem é essa sirigaita?"
"Ah...
ela é linda!", ele passou a mão calmamente nos cabelos dela, "Tem
longos cabelos negros e cacheados, olhos de céu em chuva de verão, uma voz
doce e delicada e mãos extremamente ágeis.", durante um beijo longo, ele
buscou a mão feminina e a trouxe até a cintura.
A
moça soltou-se dos lábios famintos e buscou por ar antes de rolar, fazendo-se
sobre seu amante.
"Preciso
ir...", ela abaixou a cabeça sem vontade nenhuma de cumprir o que disse.
"Agora?
Por que?", ele a incitava beijando seu pescoço, enquanto fazia voz de
pena.
"Eu
preciso.", ela lançou-lhe um olhar consolador.
Tinha
seus motivos. Não era mortal. Era uma deusa. Tinha obrigações a cumprir. Suas
irmãs também esperavam. O dia já ia nascer, não podia perder tempo. Se bem
que, com seu youko, nunca perdia tempo.
Apoiando
as mãos delicadas no tronco definido, ela sentou no colo dele e depois de se
inclinar para um beijo, levantou-se. Sentindo o olhar quente sobre si vestiu
lentamente, propositalmente sedutora, sua túnica verde clara. Era apenas isso
que usava, prendendo na cintura um cordão longo e fino, que dava algumas voltas
e sua ponta pendia na lateral. O tecido alcançava seus pés e chegava a
arrastar no chão. Como fora vestido sem a verdadeira função de cobrir, um
ombro era deixado à mostra acompanhando a curva do seio, uma perna volta e meia
aparecia de novo, nua.
O
youko levantou-se, ainda não conformado com a partida da amante, abraçou-a por
trás fazendo sua nudez roçar contra as curvas descobertas. Ela gemeu e
virou-se para encará-lo.
"Não
faça isso... você sabe que eu volto de noite... me espere."
O
youko abaixou a cabeça com um olhar de culpa, encostando testa com testa.
"O
que foi?"
"Não
vou estar aqui de noite.", a voz saiu séria, enquanto ele a abraçava pelo
quadril.
"Mas
por que?"
"Marquei
com meu bando para saquearmos um castelo para os lados do sul.", ele passou
a mão num carinho pelo rosto triste da moça, "Saímos hoje à noite e
provavelmente só voltaremos daqui a três meses."
"Tem
mesmo que fazer isso?"
"É
o meu trabalho. E por sua causa já adiei vários compromissos. Precisamos de
comida e dinheiro, não posso mais adiar."
"Desculpe...",
ela abaixou a cabeça triste.
"Não
se culpe... apenas sonhe comigo todas as noites. Quando voltar lhe trarei
presentes."
Ela
sorriu. Como tinha sorte! Youko Kurama, seu amante. Lindo e perfeito,
apaixonado. E pensar que antes mulheres e homens eram apenas objetos de desejo
para ele. Ela não. Com as faculdades que possuía conseguiu tê-lo só para si.
E ele não a trairia, seria fiel. Até claro, ele envelhecer e seu corpo perder
atrativos ou ela simplesmente se cansar dele. Então ela o libertaria. Mas, por
enquanto, adorava ser seu objeto de desejo, de agrado. Não importa quantos
homens ou mulheres perfeitos ou mais belos passassem a frente dele, os olhos
dourados eram só para ela.
"Você
voltando cheio de desejo é o único presente que quero.", ela selou a
despedida com um beijo, "Agora tenho que ir, o sol já está
despontando."
Kurama
foi deixado.
Ficou
parado vendo aquele ser de extrema beleza se afastar e sumir por entre as árvores.
Ele olhou para o céu como buscando alguma resposta para a transformação que
sua vida sofreu depois que conheceu aquela mulher. Com outras pessoas continuava
o mesmo, lutava de mesmo jeito de sempre, mantenho sempre a frieza, ironia e
esperteza dominar a luta.
Mas
foi em outro aspecto mais forte que sua vida mudou. Não seduzia mais, quer
dizer, seduzia naturalmente as pessoas a sua volta, não mais intencionalmente.
E as que se rendiam a sua beleza, não lhe interessava. Já faz dois meses que não
trocava de parceira sexual e não pensava em trocar!
Quem
era aquela mulher? Suas roupas estranhas, sua fala na hora do prazer é
estranha, seu nome é estranho... Láquesis. Será que um dia voltaria a ser o
youko de orgias infindáveis ou ficaria preso a ela para sempre? Apesar de achar
estranha essa possibilidade, ele não rejeitaria a oferta.
Estava
atrasada, suas irmãs já deveriam estar amaldiçoando-a!
Láquesis
andava apressada, já deveria estar fora da visão de Kurama, mas por precaução
se afastava cada vez mais. Quando parou, ajeitou a túnica para parecer mais
decente aos olhos das irmãs, estendeu as mãos para o céu e fechou os olhos.
Uma nuvem formou-se em volta dela e alguns instantes depois, Láquesis
reaparecia em sua forma original.
Uma
velha. A pele murchara, perdendo o brilho juvenil, os cabelos tomaram a cor
cinza escurecido, os seios diminuíram juntamente com as demais voluptuosas
curvas, em volta dos olhos algumas rugas, e nas mãos, algumas veias aparentes.
Não gostava de sua verdadeira forma, mas sentia um certo alívio por ficar
apenas na companhia de suas irmãs, que tinham um aspecto bem mais velho e senil
que o dela.
Estendeu
a mão horizontalmente abrindo a palma. O ar que circundava seus dedos começou
a se movimentar e uma passagem foi criada. Láquesis atravessou-a e, chegando ao
outro lado, deparou-se com uma cena que sempre lhe deu prazer. Não poderia ser
chamado de escritório, assim como seu trabalho não poderia ser chamado de
trabalho.
Láquesis
sempre gostou de mexer com a vida das pessoas. Não saberia dizer se tinha
orgulho do que fazia, mas que gostava, gostava.
Num
ambiente completamente oposto ao Makai, um cheiro de alfazema alcançava todos
os esconderijos daquele pátio. Sim, era um pátio interno. Estava num templo
circular, com várias portas em seu perímetro que davam para o mesmo lugar.
Grandes pilares sustentavam o teto, depois três degraus que produziam um leve
desnível e por fim o pátio onde estavam suas irmãs Cloto e Atropo.
A
primeira vestia uma túnica branca, os cabelos curtos até os ombros, soltos,
cobriam-lhe parcialmente o rosto calmo e tranqüilo. Estava sentada no último
degrau onde, como sempre, era apoiado o algodão. Com movimentos calmos e
delicados, puxava um fio grosso do amontoado de algodão.
No
outro extremo de um diâmetro, simetricamente posicionada a Cloto, estava Atropo.
Com sua típica túnica negra, também sentada no último degrau,
escondia o rosto de feição triste com um véu igualmente negro. As mãos eram
lerdas e débeis, recebiam o fio de Cloto, que atravessava o pátio até
chegar-lhe, e desfaziam-no para depois num emaranhado ser deixado ao seu lado.
Láquesis
sabia que, apesar das aparências, suas irmãs gostavam tanto quanto ela do
serviço de “fazer” o destino dos mortais. Desculpando-se pelo atraso, foi
tomar seu lugar.
No
centro do pátio, em pé, ela brincava com o fio. As mãos amassavam, afinavam,
trançavam, embaraçavam, davam nós, enfim. Tudo a ela era permitido, menos
produzir o fio ou desfazer o fio. O fio era único, as vidas eram várias.
"Pela
sua demora, pelo menos alguns milhares de mortais tiveram uma vida monótona.",
Cloto a advertiu, sem ligar muito para as conseqüências disso.
"Eu
não reclamo.", Atropo falou com a voz alegre mas com o rosto sempre
triste, "Nunca vi tanta gente feliz ao morrer!"
As
três riram alto, o riso ecoando pelos pilares. Claro, quando as mãos tocam no
fio de um ser, imediatamente os sentimentos dele são percebidos pelas irmãs
através desse contato. E como os sentimentos dos mortais são variados e se
manifestam em diferentes níveis, as três tomaram um conhecimento profundo
sobre a natureza mortal. Desde que foram escaladas para esse serviço, elas
criaram uma intimidade com a mortalidade, especialmente humana e demoníaca,
que, agora, as prendem ao trabalho.
Mas
não reclamavam. Era estimulante e prazeroso e assim continuariam as três
deusas pela eternidade.
De
novo, à noite. De novo, visitava o Makai, onde sempre encontrava seu youko.
Mesmo sabendo que ele não estaria lá, todas as noites, desde que ele viajara,
ela foi e olhou para as sombras das árvores no chão. Já se passaram dois
meses. Talvez ele volte mais cedo. Se pudesse... se seu poder fosse algo maior
para fazê-lo desistir e voltar! Mas suas mãos só poderiam lhe dar paixão,
indiferença e, nesse caso especial, tédio. Não podiam criar acontecimentos,
mas sentimentos que criam acontecimentos.
Seu
corpo jovem penava pela saudade.
Um
movimento chamou-lhe a atenção. Seria ele? Láquesis levantou-se rapidamente e
aproximou-se de uma árvore. Então, repentinamente, algo forte a empurrou para
o chão. Em pé, com as pernas abertas nas laterais de seu corpo jovem, uma
silhueta negra apontava-lhe uma katana.
"Não
grite.", não era um aviso ou ameaça, era uma ordem, "Responda apenas
o que lhe for perguntado."
"Quem
é você?", sua voz saiu num sussurro.
O
estranho aproximou a katana do pescoço fino e alvo de Láquesis, que prendeu a
respiração e fechou os olhos firmemente. Depois de alguns segundos sem nada
acontecer, ela abriu-os novamente, para não o encontrar mais. Sentando-se, ela
olhou para os lados procurando-o.
"Quanto
tempo leva daqui até a cidade mais próxima?"
Ignorando
a pergunta que lhe foi feita, o estranho ser de vestes negras estava sentado
apoiando as costas numa árvore, com as pernas cruzadas e a katana guardada.
Tinha o cabelo curto e espetado adornado pelo contraste dos fios brancos, em
forma estrelar, com os negros. Bonito. Deve tê-la considerada muito inofensiva,
pois mantinha os olhos fechados a maior parte do tempo. Láquesis teve que dar
um tempo para seus pensamentos ficarem em ordem antes de falar.
"É...
mais ou menos duas semanas. Ou menos, se você for rápido."
Ele
abriu um olho e levantou uma sobrancelha, como se tivesse escutado algo absurdo.
"Não
tente comparar a minha rapidez com a sua rapidez. São coisas distintas entre
si."
Láquesis
sorriu e fez um ar de superior.
"Não
me baseio na minha rapidez. E sim na de um youko no mínimo...poderoso."
O
estranho sumiu debaixo da árvore reaparecendo na sua frente, com uma leve
irritação na face.
"De
quem você está falando?"
"Youko
Kurama, o ladrão do leste.", Láquesis fez questão de reforçar o artigo
“o” com uma entonação diferente de voz.
"Hn.
Bobagem. Youko Kurama, o ladrão, não passa de lenda que os covardes do leste
inventaram. Talvez para tentar convencer ao resto do Makai que nessa terra de inúteis
tenha alguém que preste."
"E
o que você veio fazer nessa terra de inúteis?", não houve resposta,
"Já sei! Você está perdido! Claro, a maior parte dessa floresta foi
criada por Kurama e apenas ele e alguns afortunados, como eu, conseguem atraves--"
"Não
fale besteiras!!! O que eu vim fazer no leste não te interessa!", ele
virou-lhe as costas, "Não estou perdido. Eu..."
O
estranho parou ao sentir mãos delicadas abraçarem seu peito por trás. Elas
percorreram cada uma um braço alcançando as suas mãos mortais. Láquesis fez
com que as palmas se encontrassem e... uma avalanche de sentimentos reprimidos,
vingativos e determinados vibrou em sua mão. Ela soltou o estranho e deu a
volta encarando-o de frente.
"Certo...
já me lembrei de você, Hiei... meu lindo koorime de fogo.", Láquesis se
aproximou para um beijo, mas a milímetros de concretizar seu intento foi
bruscamente empurrada.
"Quem
é você? Que negócio é esse de se lembrar de mim?"
Láquesis
ficou confusa. Nessa forma jovem poderia seduzir o mortal que quisesse! Como ele
conseguiu escapar de seu beijo? Por que ele quis escapar? Seu poder nunca
falhara! Talvez tenha se desconcertado um pouco.
Ao
conseguir as informações de quem ele era, logo lhe surgiu a vontade de tê-lo
para si enquanto Kurama não chegava. A satisfação de consolar um mortal tão
sofrido, de ser a única coisa que ele buscaria sabendo ser ao único prazer em
sua vida... Ser desejada dessa forma tornou-se algo interessante.
Iria
tentar de novo.
"Você
não precisa saber quem eu sou.", ela se insinuou languidamente,
"Apenas deixe que eu seja!"
Hiei
teve seu pescoço envolto pelos braços finos e macios. Como ela é linda! Como
é linda! Hiei sentia uma vontade enorme de abraçá-la também, de grudar-se a
seus lábios, de perder os dedos em seu cabelo. Nunca se comportara assim antes!
Sabia
que não estava normal, não estava usando seus instintos, sabia disso.
Sentia-se manipulado e detestava isso! Mais uma vez Hiei se afasta de Láquesis,
antes dessa o beijar. E dessa vez a katana lhe protegeria. O olhar que ela lançava...
queria, seu corpo pedia pelo corpo dela, mas sua mente dizia que era errado. Que
tinha algo estranho nisso tudo, nessa vontade, nesse desejo.
"Se
afaste. Se você tentar tocar em mim de novo, eu--", Hiei calou-se,
largando a katana e caindo desacordado no chão.
"Desculpe,
meu koorime. Mas você desafiou a vontade de uma deusa. Você não deve ser um
simples mortal...", Láquesis
se aproximou do ouvido do inconsciente Hiei e falou como em segredo, "...eu
vou descobrir quem você é. Qual dom Ártemis te deu..."
No
dia seguinte, algo estranho foi percebido por Cloto e Atropo.
Láquesis,
ao invés de trabalhar sorridente e faladeira, usava as mãos como escolhendo
mortais num silêncio aterrador. As duas sabiam que isso não era boa coisa. Uma
Moira cumpre o seu dever mexendo com o destino dos mortais sem se importar com
qual mortal ou com qual destino vai usar. O destino não é feito beneficiando
ou prejudicando propositadamente. O “passar de mãos” pelo fio deve ser
natural, como sair saiu. Se for feliz, que bom, se for triste, que pena.
Claro,
elas podem mudar drasticamente e propositadamente o destino de um mortal. Podem
fazê-lo voltar ao tempo e recomeçar tudo de novo, desde o nascimento ou do
minuto anterior. Mas isso era apenas reservado a castigos ou privilégios dados
especificamente por Zeus. Até hoje, ou seja, desde o início dos tempos, essa
“remontagem” no destino de um mortal foi feita apenas duas vezes. As duas
foram castigo.
Agora,
Láquesis, do jeito que estava concentrada, estava montando um destino de algum
mortal.
"Esta
quieta hoje, minha irmã.", Cloto começou como quem não quer nada.
Láquesis
não respondeu. Estava tão entretida no fio que não escutou a irmã. Mas
que coisa estranha! Esses destinos não se separam! Eles começam separados nas
mãos de Cloto, mas depois vão se juntando e mesmo que eu tente impedir essa
união ele se estende até Atropo. Talvez se eu usar de mais força... Láquesis,
pressionou os dedos contra o fio, sem obter resultado.
"Esta
distraída de tudo ou concentradíssima no destino", Atropo fez uma acusação
em tom de brincadeira, trazendo Láquesis de volta ao templo.
"Hã?
É... desculpe. O que vocês disseram?", percebendo a desconfiança das
duas, Láquesis se fez de desentendida.
"Você
está usando um modo diferente de fazer destino?", Cloto preferiu não
precipitar-se em acusações, até usando um tom de voz calmo e despreocupado.
"Você
está escolhendo destino para mortais específicos, isso sim!", Atropo, que
nunca foi de botar panos quentes, falou seriamente, sua voz mais rouca que de
costume.
Láquesis
prendeu a respiração enquanto encarava a irmã. As mãos automaticamente
soltaram o fio e, de punhos fechados, se apoiaram no colo. Um olhar misto de
medo e cumplicidade. Os dedos agarraram as dobras da túnica verde. Tomando fôlego,
Láquesis respondeu:
"Não
faço idéia do que estão falando.", as duas irmãs, nas extremidades do
fio também pararam de trabalhar, "Como podem me acusar de algo tão
horrendo!"
Pela
primeira vez na história, o fio do destino mortal estava “parado”. Cloto
fechou os olhos e abaixou a cabeça com pesar.
"Sabemos
que está mentindo... Mas se não quer confessar seu erro, preferindo continuar
a praticá-lo, eu...", Cloto lançou um olhar de ajuda para Atropo, não
conseguia pensar em nada para resolver a situação! Não queria castigar a irmã,
mesmo sabendo ser necessário.
Atropo,
por sua vez, achou que Láquesis tinha ido longe demais. E não entendia essa
complacência de Cloto diante de um erro tão grave. Ela teria e iria ser
devidamente castigada. Em um movimento delicado, Atropo estendeu a palma da mão
na direção da irmã, que ficou paralisada perante tal atitude.
Atropo,
minha irmã... ela não seria capaz!
Esse era um dos infinitos pensamentos que cortavam a mente de Láquesis em fúria,
deixando-a visivelmente alterada.
Hiei
a rejeitou! Ela tinha que experimentar aquele corpo, experimentar esse
prazer! Ser desejada, ansiada por um mortal como ele seria um privilégio tão
grande como ter Youko Kurama fiel somente a si. Ela não poderia deixar que as
irmãs estragassem seus desejos! Era uma deusa, tem que impor seus desejos sobre
os mortais, não importando como...
"Você
não teria coragem, Atropo..."
"Eu
a amaldiçôo.", Láquesis era tal qual uma estátua grega, mas de feições
horrorizadas pelo medo, "Pelo poder a mim conferido, em nome das três
Moiras que guardam o destino, eu amaldiçôo você, Láquesis, por mudar o
destino dos mortais visando a satisfação pessoal!"
"Atropo!",
Cloto gritara em vão, a maldição iniciada não poderia mais ser quebrada.
"Hiei,
só mais um pouquinho, vai!", Kurama fez uma voz melosa.
"Não
mesmo! Eu não agüento mais!", Hiei soltou-se de Kurama e cruzou os braços
com uma carranca, "E tá todo mundo olhando! Fica você, eu vou
embora!"
Kurama
segurou o braço de Hiei, que parou olhando em direção contrária dando um
suspiro de impaciência.
"Hiei,
todo mundo está olhando porque você está fazendo escândalo!", o koorime
lançou um olhar fuzilante na direção do ruivo, que o soltou sorrindo,
"Me diz, qual o problema em tomarmos um sorvete juntos?"
"Não
seria problema se eu não tivesse enfrentado esses ningens a manhã
inteira!", Hiei esbravejou mostrando o punho fechado para Kurama.
"Enfrentando???",
Kurama caiu na gargalhada, deixando o koorime mais nervoso. Está certo que era
domingo e que tinha mais gente do que o normal nas ruas, mas..., "Hiei, você
apenas está convivendo com pessoas, não enfrentando-as! Alias, ninguém aqui
é inimigo em potencial para você se preocupar..."
"Eu
sei disso, raposa! Eu simplesmente não suporto--", Hiei parou de falar,
franzindo o cenho e olhando para uma direção além de Kurama, que se virou
para ver também.
"O
que foi?", Kurama seguiu o olhar do koorime e parou numa mulher com um
vestido verde e comprido, de cabelos negros e olhos cinza, que encarava os dois
de volta. Kurama apertou os olhos de raiva e, com a mão, obrigou Hiei a olhar
de volta pra ele puxando-o pelo queixo, "Que negócio é esse? Desde quando
você se interessa por fêmeas ningens?"
Em
outras condições, Hiei se preocuparia em esconder um sorriso por causa da
demonstração de ciúmes de Kurama, mas estava tão desconfiado da presença
daquela estranha que sorrir foi deixado em segundo plano.
"Eu
não gosto daquela mulher.", Hiei concluiu após pensar um instante,
"Ela não é humana. Acho que a vi antes e não foi numa situação agradável.",
Hiei passou os dedos pela faixa que cobria o Jagan.
Kurama
deixou escapar um suspiro de alívio enquanto virava-se para estudar a mulher.
Ela não escondia que olhava com interesse para os dois, logo, Kurama também não
fez cerimônia em ser discreto ao encará-la. Ela não sorria, mas tinha o
semblante calmo.
"Não
vejo nenhum traço de ki nela, me parece uma ningen normal."
"Eu
já a vi antes, tenho certeza! E ela não me inspira confiança."
"Vamos
sair por ai e ver se ela nos segue.", disse Kurama, afastando-se.
"Certo.
O... o que você está fazendo?"
"Já
estava pensando em comprar os sorvetes... e como vamos andar sob esse calor,
achei melhor comprá-los agora!", Kurama sorriu, apontando para a tabela de
sabores.
Hiei
abriu os olhos com dificuldade. Uma vontade de continuar dormindo crescia e
pesava em suas pálpebras. Os olhos semi-cerrados identificaram uma densa copa,
de folhas escuras em galhos altos. Sentando-se ainda tonto e com os sentidos lhe
pedindo que deitasse de novo, custou a notar aonde estava.
Na
base da árvore, as raízes aparentes e grossas, formavam uma espécie de cama,
deixando um vão grande e forrado com grama macia, onde tinha se deitado.
Plantas arbustivas e vistosas adornavam o local em volta ao mesmo tempo que
protegia de olhares curiosos. A tontura ainda era muito grande, fazendo-o
cambalear algumas vezes até conseguir se estabilizar andando para fora da
“cama”.
Por
instinto, levou a mão a cintura, mas bateu na própria roupa. Surpreso, levou a
mão ao outro lado do corpo, mas também bateu na roupa. Olhou em volta e achou
sua katana presa num cipó no alto da grande árvore.
"Hmpf!
Quando eu fiz isso?", sua voz saiu entorpecida, enquanto andava para ficar
bem abaixo da katana, "Quem diabos fez isso comigo?"
Hiei
esbravejou, fazendo um impulso com o corpo tentando pular, mas o ato de dobrar
os joelhos fez o peso de seu corpo ir para frente. Ele perdeu o equilíbrio e
caiu de joelhos apoiando as mãos no chão. Que droga é essa? Hiei
lembrou-se então do que lhe acontecera. Aquela vaca me envenenou! De pé
outra vez, Hiei olhou para cima.
"Quando
eu pegar minha katana, eu..."
Num
impulso, Hiei pulou. Seus dedos ficaram a milímetros da katana, sem conseguir
pegá-la. Enquanto caía, o koorime foi perdendo os sentidos. Percebeu, no
entanto, que antes de chegar ao chão, alguém o amparou.
Não
sabia o que estava sentindo. No começo era vontade de voltar a vê-la, mas não
podia abandonar o grupo no meio do plano. Com o tempo, antes de dormir, não
pensava mais nela e sim no que ela fez. O tédio que sentiu durante a viajem era
completamente ilógico. Roubar sempre fora algo prazeroso em sua vida. Era um
dom que não podia negar. Assim como o magnetismo que Láquesis mantinha sobre
ele, a distância o fez ver que virava obsessão. Não era natural recusar
tantos prazeres assim...
Quando
concluíram o roubo, o bando foi comemorar. Ele quis voltar mais cedo, sozinho,
levando sua parte numa sacola de couro, presa nas costas. Algo dentro dele
mandava que voltasse, voltasse logo. Mas dessa vez, sentia que estava agindo
naturalmente, não por maniqueísmos. Sabia que estava indo na direção dos braços
de Láquesis, sua racionalidade lhe dizia isso. Mas seu coração dizia outra
coisa: estava indo encontrar seu verdadeiro destino. Como se uma nova vida
diferente de tudo o esperasse. A floresta que era dele, as árvores que avisavam
a qualquer movimento diferente...
Kurama
parou surpreso observando uma cena nova em sua floresta.
Um
youkai, baixinho, de cabelo espetado e bêbado, tentava pular para alcançar uma
katana presa no alto da árvore. Árvore esta que Kurama fez como casa, já que
não havia cavernas nos arredores. O youko não deixou de reparar no corpo do
youkai, principalmente quando este caíra de quatro pela falta de equilíbrio. O
pequeno é bem dotado... muito bem dotado! Kurama também se surpreendeu com
a força do baixinho. Mesmo bêbado, conseguiu dar um pulo muito alto, chegando
quase a alcançar a katana.
Percebendo
que o youkai perdia os sentidos enquanto caía, Kurama correu para pegá-lo nos
braços.
"Minha
vida vai mudar mesmo.", disse, sorrindo maliciosamente, "Mas que tentação
o destino jogou nos meus braços!"
A
partir de então, Láquesis não conseguiu mais irromper nos pensamentos dos
dois.
Alguns
minutos mais tarde, Hiei acordou sentindo algo mexendo em seu cabelo. Ao mesmo
tempo em que abria os olhos, dirigia sua mão para o topo da cabeça até pegar
e mirar algo.
"Quem
é você?", Hiei segurava a mão de Kurama, que tinha parado de brincar com
os fios brancos, e encarava os olhos dourados e sorriso provocante bem próximos
de si.
"Youko
Kurama."
Os
olhos do koorime se arregalaram por um instante, mas logo tomaram a expressão
desconfiada de antes. Percebendo que ainda segurava a mão de Kurama na sua,
Hiei sentou-se num pulo, meio envergonhado, meio bravo.
Kurama
riu, sentando-se também. Estavam na “cama” da árvore, um de frente para o
outro, Hiei sério e Kurama sorrindo. Este estava gostando da situação,
gostando do baixinho.
"Qual
é o seu nome, pequeno?", Hiei fez uma careta de raiva ao ser chamado de
“pequeno”.
"Não
me chame assim!", levou a mão na direção da cintura.
"Está
procurando isso?", Kurama esticou-se até uma reentrância de raízes e
pegou a katana.
"Devolva.",
Hiei mantinha-se sério o quanto podia diante do riso debochado de Kurama, que
ajeitava a katana na própria cintura.
"Vem
pegar.", Kurama riu, mordendo o lábio inferior já recostado contra o
tronco da árvore.
Hiei
ficou sem ação. Apenas olhava extasiado o corpo em pose do youko.
Não
sentia medo, não sentia repulsa, não conseguia tirar os olhos daquele sorriso!
Será mesmo Youko Kurama? Mas que diabos! Ele consegue ser bem fiel à lenda.
Um youko alto, prateado, sedutor... Hiei balançou a cabeça espantando
pensamentos novos e perigosos. Convencendo-se de aquele não era Youko Kurama,
Hiei fechou os olhos e sorriu. Vai ser muito fácil recuperar minha katana
dele.
Usando
de alta velocidade, Hiei aproximou-se de Kurama, estendendo os braços para a
katana.
"Nananina-não...",
Kurama segurou o koorime pelos braços, aproveitando que estavam estendidos, e
enlaçou-se com eles pelo peito, fazendo Hiei cair desequilibrado em cima do
youko.
Na
queda, Kurama estalou um beijo no pescoço de Hiei, que teve o corpo invadido
por arrepios. Instintivamente ele encolheu os ombros, fazendo Kurama rir da inocência
dele e querer brincar com isso.
"Você
é apressado demais! Me larga!", Kurama fez-se de vítima; não segurava
mais os braços de Hiei.
"O
quê???", Hiei sentou na barriga do youko e apontou o dedo pra ele, estava
com a face vermelha de vergonha e raiva,"Foi você quem me agarrou e me fez
cair!"
"Eeeeu???
Se fosse assim era pra ser o contrário: eu em cima e você embaixo!",
Kurama esforçou-se para conter o riso, "Mas pela presente situação...
você se jogou em mim! Aliás, o que ainda faz em cima de mim? Já que
você foi... forçado?"
"Não
distorça as coisas, youko maldito!", Hiei saiu de cima de Kurama num pulo,
parando em pé ao seu lado. Seu rosto tão vermelho quanto seus olhos.
Seu
corpo inteiro parecia acompanhar as batidas de seu coração. Hiei tremia
levemente, mas não era de medo. Foi tão rápido, mas...como ele fez isso?,
pensou enquanto passava a mão no pescoço, no lugar que ainda formigava pelo
beijo. Hiei lembrou-se de como o corpo do youko era torneado, com os músculos
definidos e... viril...
Hiei
arregalou os olhos, assustado com o próprio pensamento. Mas tinha que admitir,
que concordar com seu corpo, sua mente. Gostou. Uma curiosidade de descobrir o
que teria vindo depois, se não tivesse reagido, começou a minar sua
racionalidade. Sentando-se de frente para Kurama, Hiei ficou calado apenas
encarando a grama, confuso, sem saber o que fazer.
Deitado
de barriga para cima, com as mãos na nuca, Kurama deliciava-se ao observar como
o baixinho sem controle de si que transpassava todos os seus sentimentos. As
sobrancelhas e os olhos se curvavam em raiva, se arregalavam em espanto, se
acalmavam em reflexão... A boca, ora tornava-se um traço, ora abria. Talvez
pela constatação do óbvio! Kurama ria-se por dentro. Como é adorável
o meu baixinho! Achando que teria que parar de brincar e “esclarecer” os
fatos, Kurama foi pego de surpresa quando Hiei sentou-se calmamente à sua
frente. Ele já é esclarecido? Foi a primeira coisa que pensou, mas
reparou melhor no silêncio e expressão confusa, como que buscando respostas e
Kurama amou-o ainda mais.
Aproximou-se
sorrateiramente do koorime, alcançando suas mãos que estavam em punho,
envolvendo uma com os longos dedos e conseguindo, então, a atenção para si.
Kurama abriu o punho, fortemente fechado contra a palma , e beijou o dorso
delicadamente. Depois, apoiou-a sobre o próprio peito.
"Qual
é o seu nome?", a pergunta foi feita num sussurro no ouvido de Hiei, mas
sem pretensão ou malícia.
"Hiei...",
ao responder, Hiei virou o rosto fitando sua mão e deixando um espaço mínimo
entre as bocas.
"Lindo
nome.", Kurama encostou o seu nariz no de Hiei fazendo um carinho de leve.
"...
eu sou um koorime...", Hiei abaixou a cabeça apoiando a testa no queixo de
Kurama.
"A-hã...",
Kurama levantou o queixo de Hiei devagar.
"...
de fogo...", as bocas abriram e...
"PAREM!!!"
"Kurama,
não estou gostando disso."
"Mas
você sempre gostou de morango! Deixa eu ver...", Kurama abaixou-se e deu
uma lambida no sorvete de Hiei, "Hummm... não está ruim...mesmo assim
quer trocar de sabor?"
"Quer
parar de pensar na droga do sorvete!", Kurama fez cara de inocente dando
uma lambida nada inocente no próprio sorvete. Hiei deu um sorriso de lado
suspirando e rendendo-se.
"Eu
sei, Hiei. Ela continua nos seguindo.", Kurama deu uma olhada rápida na
mulher atrás deles, "Mas, sinceramente, não estou preocupado."
"Isso
é porque você virou um ningen besta que confia em qualquer um!"
"Bom,
tem alguém em quem eu não só confio, como já entreguei meu corpo e minha
alma para ele fazer o que bem entender... você acha isso mal?"
"Eu
não acho mal. Acho estranho você não se preocupar com algo tão sério.",
apesar de ter o orgulho inflado pelas palavras de Kurama, Hiei continuou sério.
"Eu
não sei...", aos poucos, Kurama ia levando Hiei e, por conseqüência, a
ningen estranha para um local isolado, "Acho que vou seguir seu conselho e
reconsiderar certas pessoas."
Hiei
parou de andar de imediato, segurando o sorvete quase intacto.
"Explique-se.",
o koorime estava com uma cara nada amistosa, "Quais “certas
pessoas”?"
Kurama
olhou em volta e, constatando que só a mulher estranha presenciaria, puxou Hiei
pelo braço rindo da cara séria dele.
"Vem
cá!", Hiei, então, viu-se preso num abraço sensual, "Você não
gostou do sabor, né?", Kurama tirou o sorvete de morango da mão de Hiei e
jogo-o fora, "Experimente esse sabor..."
Hiei
não teve tempo nem de respirar, foi capturado pelos lábios ávidos e
dominadores de Kurama, que apertava mais o abraço conforme o beijo
intensificava. Perdendo toda a razão, Hiei respondeu ao beijo com mais fúria e
paixão. Não demorou muito tempo para suas mãos abrirem a blusa de Kurama em
busca de mais calor. O youko afastou-se com dificuldade e ofegante, tirando as mãos
apressadas de seu peito, mas sem desgrudar os corpos. Hiei, apesar de tentar
disfarçar, tinha a respiração bastante alterada também, e encarava Kurama,
que leu em seus olhos um “por que parou?” indignado.
"Calma,
koibito!", Kurama deu um grande suspiro, "Gostou do sabor?"
"Hn.
Foi inesperado e muito rápido... não posso dar minha opinião desse
jeito."
Kurama
riu. Ele está certo... Então, olhando por cima da cabeça de Hiei,
notou que a estranha escondia o rosto num véu verde e caminhava na direção
dos dois.
"Hiei,
olha quem está vindo falar conosco."
Hiei
virou-se e contraiu a mandíbula de raiva pela ousadia da ningen. Mas para a
surpresa dos dois, ela passou reto, sem parar nem olhar. Não havia mais calma
em sua face, estava triste. Uns poucos metros depois, de costas, ela parou e fez
um movimento com o braço, que para espanto dos dois, estava envelhecido e com
os ossos e veias da mão bem aparentes. Um portal foi formado, ela entrou nele e
sumiu.
"Ela...
desapareceu! E não foi por um portal comum! Aquele não era um portal para o
Makai, Hiei!"
"Vamos
achá-la.", Hiei desatou a faixa da testa e abriu o Jagan, "Se tivesse
me escutado antes, raposa! Agora ela poderá nos atacar de onde quiser--"
"O
que foi?"
"Eu...não
a encontro.", o Jagan brilhou ainda mais, "Ela não está em parte
alguma!"
"Qual
é o seu problema, Láquesis?", Youko Kurama foi interrompido em um momento
muito precioso, queria continuar o quanto antes.
Láquesis
estava parada, em pé, há uns cinco metros dos dois. Seu corpo todo se
movimentava conforme a respiração ofegante. O cabelo completamente desarrumado
pelo vento forte.
Hiei
não sabia o que fazer. Por um instante deixou-se entregar a um completo
estranho que dizia ser Youko Kurama! Como explicar essa súbita baixa de guarda?
E essa sensação de vazio que está dominando seu corpo, essa solidão? Seus lábios
que estavam tremendo de frio? Não era por perda do calor e sim pelo fato de não
tê-lo recebido!
"Kurama...
me escute.", Láquesis se aproximou dos dois sorrindo, "O que você
pensava em fazer com ele?"
"Não
te interessa.", Kurama disse, mas depois acrescentou, pensativo, "Aliás,
você não me interessa mais. Agora, se nos dá licença...", ele virou-se
para Hiei, mas o koorime não estava mais lá.
Hiei
estava em pé, fora da “cama-de-árvore”. Láquesis aproveitou esse momento
de distração do Youko e correu até ele, abraçando-o fortemente e beijando-o
com fúria.
"Kurama,
não me entende? Você é meu!", Láquesis passou a mão pelo rosto e peito
do youko, deixando um rastro dourado no caminho que desapareceu depois.
Kurama
empurrou-a para longe, irritado, mas mesmo machucada ela ainda sorria, "O
que você fez?"
"Você
é meu!!!", Láquesis soltou uma gargalhada louca, parando ofegante para
explicar, "Minha irmã pôs em mim uma maldição terrível...", a
deusa deu uma entonação de escárnio em suas palavras, "... Querendo me
parar, imagine! Se eu tocasse em um, não poderia tocar no outro ou
morreria.", uma nova gargalhada explodiu, "Mas, em contrapartida, o
que foi tocado também não poderia tocar no que não foi ou os dois
morreriam!!! Ela achou que eu iria ter pena, que não agüentaria vê-los
morrer...", de repente, sua expressão sorridente mudou para cólera.
Suas
irmãs não eram deusas por acaso. Elas sabiam que Láquesis teria pena nenhuma
e acabaria tocando em um deles. Por isso sua pressa em amaldiçoar Kurama, o
mais próximo no momento. Mesmo assim... Cloto também deu sua punição... que
somada a de Atropo, deixava tudo muito mais complicado para ela.
Láquesis
voltou a sorrir, confiante de sua decisão, "Mas vocês não têm coragem!
Um não seria capaz de matar o outro! Eu terei seu corpo--"
O
discurso foi interrompido, pois Láquesis foi atingida nas costelas pela katana
de Hiei, que tinha uma expressão séria e determinada. Ele aproximou-se do
youko, que ainda estava sentado no chão e, olhando em seus olhos, agachou-se.
"Koorime...
não faça isso.", Kurama disse, afastando-se, horrorizado com o que achava
que Hiei estava lhe propondo, "Você é jovem... Eu não quero que você
morra."
Hiei
ignorou o pedido dele e, sob os gritos e olhar desesperado de Láquesis, agarrou
os lábios do youko num beijo bruto e voraz. Onde as mãos do koorime passavam
era deixado um rastro dourado, o mesmo acontecia com as mãos do youko que abraçavam,
apertavam e arranhavam o pequeno corpo.
A
segunda maldição fora iniciada. Um vento forte e quente envolveu os dois, que
se agarravam com mais e mais vontade. Uma luz cegou-os e separou os corpos, que,
apesar da resistência, tentavam se manter juntos. Quando abriram os olhos, não
estavam mais na floresta, Láquesis não estava mais presente. Estavam em um
templo antigo, circular, com duas velhas tecendo um fio grosso e longo. Elas se
levantaram, estavam com uma expressão abatida e triste.
"Quem
são vocês?", Kurama perguntou desconfiado, não sabendo onde se
posicionar, vendo que estava cercado.
"Somos
deusas do destino. Eu sou Cloto e está é minha irmã Atropo. Láquesis é
nossa irmã."
Hiei
deu um passo para trás, tentando se aproximar de Kurama, "Deusas... do
destino?"
"Sim.",
Atropo disse firmemente, erguendo e mostrando o rosto triste, "Queremos nos
desculpar pela intervenção de nossa irmã em suas vidas. Tentamos pará-la,
mas a ambição dela foi mais forte.", mesmo com as rugas, seus olhos
brilharam, "Ficamos felizes em saber que escolheram morrer. São os
primeiros mortais a escolherem seus próprios destinos, se bem que, de qualquer
forma, vocês sempre ficarão juntos."
Antes
que os dois pudessem fazer mais perguntas, Cloto continuou, "Isso quer
dizer que os fios do destino dos dois sempre irão se encontrar. Mesmo nós, não
conseguimos separá-los.", ela estendeu as mãos nuas e enrugadas, como um
gesto de calma, "Como foi uma de nós que interferiu em seus destinos, eu
amaldiçoei vocês.", ela sorriu, sentindo que tirara um peso das costas,
"Vocês não morrerão, apenas terão um novo “começo”. Isso porque
escolheram morrer e, principalmente, beijaram-se antes de tocarem-se com as mãos."
"Uma
deusa do destino usa somente as mãos para trabalhar.", disse Atropo,
"O mesmo vale para maldições. Se tivessem usado as mãos antes de se
beijarem não poderíamos fazer nada. Vocês morreriam e duas novas vidas seriam
iniciadas, dois novos fios. Mas não seriam vocês realmente e não seria
garantido o encontro das suas vidas novamente."
"Esquecerão
de tudo, de nós, de Láquesis, que se conheceram.", Cloto falava enquanto
estendia as mãos na direção de Hiei e Kurama, Atropo, no seu canto, também
fazia o mesmo movimento, "Suas vidas recomeçarão no ponto antes de Youko
Kurama conhecer Láquesis."
"Quê?
O que vai acontecer? Você não disse que íamos ficar juntos?", Hiei
perguntou, já meio aflito vendo o ar condensar-se entre ele e Kurama.
"E
vão.", a voz de Atropo respondeu, "Vocês sempre vão ficar juntos,
em alguma parte do tempo."
Antes
que pudessem falar ou pensar em alguma coisa, os dois foram cobertos por uma
nova luz que desapareceu do templo levando-os junto. Cloto encarou a irmã, que
apenas sentou-se e voltou a trabalhar dando um suspiro. Cloto sorriu e também
sentou-se trazendo a grande massa de algodão ao colo para continuar tecendo o
fio.
O
ar condensou-se em uma das várias entradas do templo, e de dentro do redemoinho
formado, Láquesis saiu. Tirou o manto que cobria seu rosto e tomou seu lugar no
meio do fio do destino.
"Então?
Como foi?", Atropo foi a primeira a perguntar.
"Eles
estão juntos?", Cloto também perguntou.
"Estão.",
Láquesis respondeu séria, mas continuou lançando um olhar bravo para as irmãs,
"Vocês sabem disso. E parecem felizes."
"Eu
não te disse?", Atropo falou como quem tem anos de experiência, "E não
foi porque eu quis."
Cloto
suspirou, satisfeita, "Que bom! Voltou tudo ao normal e nenhuma de nós foi
punida."
"Eu
não sei...", Láquesis sorriu de lado, "Não esqueci Youko Kurama,
aquele pequeno koorime continua tentador e... Shuuichi Minamino também tem um
corpo que faz qualquer deus grego remoer-se de inveja."
Láquesis
aproximou o rosto do fio até ficar com ele na altura dos olhos. Olhando
atentamente, levantou o dedo indicador e deu um pequeno toque, leve, quase
imperceptível, mas que fez o fio todo vibrar. Depois endireitou-se e gargalhou,
com a risada ecoando por todo o templo.
"Ai,
ai... Eu adoro o meu trabalho!!!"
FIM