Título: Dissertação - cap 3 - A conclusão: te amo
Autora: Umi no Kitsune ([email protected])
Disclaimer: YuYu Hakusho e suas personagens são propriedade de Yoshihiro Togashi.
Avisos: Yaoi. Se você gostou da fic e a quer
em seu site, peça
permissão.
Nunca, nem em
situações de extremo perigo, usou uma velocidade tão alta. Mas nem se deu conta
disso, a sensação que tinha era que precisava correr mais e mais rápido. Não
entendia. Quanto mais longe, mais próximo
sentia de si. Quanto maior a distância, maior o calor que envolvia e
queimava seu peito. Quanto maior a certeza de estar sozinho, maior a certeza de
querer. Querer o que não lhe pertence.
Naquele momento,
escutara a voz de Kurama, mas apenas o som. Não identificara as palavras. Uma
lágrima ameaçou cair e, antes que isso acontecesse, ditou sua sentença
desaparecendo no segundo seguinte, não impedindo a queda de uma pérola.
Não faria isso. Não
se deixaria cair nas pétalas macias da rosa para depois escorregar e
experimentar a dor de seus espinhos. Tinha seu orgulho, já tinha sua dor.
*********
As lágrimas, que
antes caíam livremente, cessaram. Kurama continuava no mesmo lugar, mas agora
sentado, com as pernas dobradas e abraçando os joelhos. Com os calcanhares
fazia um leve impulso balançando o corpo para frente e para trás, num movimento
quase imperceptível, mas rítmico.
Tinha o olhar fixo
em um ponto, a causa de ter parado de chorar. Mas dessa vez não iria tomar
conclusões apressadas. Teria em mente apenas o que escutou, não inventaria um
sentimento recíproco sem sua real confirmação, não mais. Já tinha subido muito
alto da primeira vez e o resultado foi esse seu tombo doloroso. Ao voltar com
os pés no chão, viu que deixaram algo em que se apoiar.
Desenrolando o
corpo para frente e esticando a mão, alcançou seu objeto de apoio, ao qual os
olhos verdes não paravam de mirar. Lisa, uma esfera perfeita, negra e
brilhante. Hiei chorara. Por quê? Não se atreveria a responder. Afinal, ele não
disse que não o amava nem que o amava... Afinal, lágrimas e Hiei eram antônimos
em seus pensamentos. Afinal... queria a resposta dos lábios dele.
No final, sabia que
continuava com os pés humanos no chão e com a cabeça de youko nas nuvens. Mas
iria respeitar apenas o que lhe foi dito. Claro, o koorime guardava todas as
suas emoções muito bem. Se prestasse atenção, quase todas.
***********
"Kurama!
Kurama!", mãos fortes o agarravam e a voz distante de Hiei o chamava em
desespero. Hiei... uma dor latente em seu estômago, estava morrendo. Não! Não
podia morrer agora! Hiei o chamava, estava chamando seu nome. Não podia...
"Hiei...HIEI!",
com um grito, Kurama despertou, o corpo todo molhado pelo suor que escorria em
gotas pela sua testa e tronco.
"Hiei??? Não
ofende não, falô?", era Yusuke, estava sentado na beira da cama tentando
esconder o riso com uma cara de indignação, "Me confundir com o baixinho,
era só o que faltava!"
"Yusuke?...eu...bem
é que...", Kurama ficou da cor de seus cabelos, tentado explicar o
inexplicável. Yusuke, que diabos você veio fazer aqui? Que eu invento pra
você agora? Não consigo pensar em nada! Aquele pesadelo... Hiei. Apesar de
Kurama se esforçar o koorime não saia de seu pensamento.
Yusuke parou de rir
ao perceber a expressão sem graça do youko. Sempre achou que Kurama se
preocupava demais da conta com Hiei, que por sua vez parecia “retribuir” essa
preocupação abrindo-se apenas com ele. Mas sempre afastava esse pensamento de
sua mente, não querendo julgar antes de conhecer os fatos. Só que agora, vendo
seu amigo, que provavelmente despertara de um pesadelo, gritando o nome de Hiei
em quase desespero... Yusuke não conseguiu deixar de trazer à tona esse mesmo
pensamento. Junto com o pensamento a conclusão sempre evitada: Kurama gosta de
Hiei. Gosta mais do que um amigo. Mais do que uma simples atração, simples
desejo.
Apesar de tentar
demonstrar apenas amizade na frente de todos e talvez do próprio Hiei, quem é
mais próximo percebe que seu comportamento muda quando o youkai está por perto.
Kuwabara também já tinha notado em outras ocasiões, chegaram até a expor
indiretamente o assunto, mas não conseguiram fazer outra coisa a não ser levar
as atitudes de Kurama pro lado da brincadeira.
É até engraçado.
Primeiro são os
olhos, ficam com um brilho diferente, de êxtase talvez. Depois é a voz, seu som
fica mais suave, mas seu ritmo aumenta. Como as batidas de seu coração.
Mas, em alguns casos, geralmente quando Hiei está de mau-humor, sério e não
fingido, Kurama fica tenso, a voz fica mais grave e pausada. As palavras
parecem ser medidas, escolhidas, falando com receio. Esses eram os únicos
“sintomas” que Yusuke conseguia identificar em Kurama. Mas, também, não é tão
difícil assim de perceber, pois agia do mesmo modo com Keiko. Sabe muito bem
que esconder sentimentos tão vivos é difícil...e inútil.
Já Hiei era um caso
diferente. A única coisa que poderia afirmar com certeza sobre ele é que confia
cegamente em Kurama. Ah! Claro, teve uma vez... Kurama contra Sigure, não sabe
dizer ao certo o que viu em seus olhos... desespero, dor, talvez angústia...
mas o fato é que ele não era o Hiei habitual. Lembrava-se muito bem da
expressão de alivio que se formou no youkai quando a luta acabou. Expressão que
foi logo substituída por uma carranca, quando seu nome foi chamado para a luta
contra Mukuro. Só não se arriscaria a dizer se o pequeno youkai sabia que a
forma como agia, ou evitava agir, era uma reação do mesmo sentimento que fazia
Kurama agir. Hiei era muito metido a saber tudo, mas saber o que é amor...será que
o youkai já amou?
Ao se fazer essa
pergunta, Yusuke se viu atraído por um brilho negro. Vinha da esfera que pendia
no pescoço de Kurama presa por um cordão fino de couro avermelhado. Será que
o youkai...
Foi com esse último
pensamento que Yusuke ficou, pois Kurama tinha parado de balbuciar suas
monossílabas de explicação, fitando em mórbido silêncio as dobras do lençol que
cobria suas pernas. Yusuke se deu conta da situação constrangedora que tinha
criado para seu amigo e rapidamente levantou-se da cama, puxando Kurama pelo
braço, quase o fazendo cair.
"Ah! Eu não
vim aqui pra ler o seu diário, garota!", Yusuke disse numa voz fininha,
imitando mulher, "Tenho fofoca pra contar!!!", Koenma botou outro
bolo em nossas mãos... Pensou enquanto puxava Kurama pra fora do quarto.
"Yusuke???
Espera! O que aconteceu? Espera!!!", Yusuke já estava atravessando a porta
quando olhou pra trás e viu Kurama, mais encabulado que antes, segurando o
lençol na região da cintura, que mais revelava do que escondia.
Em poucos minutos,
Kurama apareceu no alto da escada da sala, vestido da cabeça aos pés. Com seu
alto controle já refeito e uma cara de reprovação dirigida ao não mais
encabulado Yusuke, que, por sua vez, se empanturrava com os mais diversos
salgadinhos oferecidos gentilmente por Shiori.
"Ah! Kuwana,
ouh! Fuichi! Ódibu!... Vanbus, que sewão o... bahirinho me maha!!!",
Yusuke disse preocupado, entre uma mordida e outra.
"Querido,
espero que não esteja bravo.", Shiori mostrou-se preocupada diante da
carranca do filho, "Seu amigo disse que tinha algo muito importante pra
lhe falar, e eu deixei que o acordasse."
"Tudo bem,
mãe.", Kurama não conseguiu deixar de sorrir, "O problema não está em
meus amigos me acordarem, mas sim na forma como o fazem.", Yusuke parou de
mastigar ao sentir um olhar de soslaio sobre si, "Hn. Talvez um dia eles
aprendam a serem tão bons quanto a senhora."
Kurama deu um
pequeno beijo na testa de Shiori e, delicadamente, puxou Yusuke pelo braço, que
com desgosto deixou muitos salgados por comer.
"Mãe, vamos
dar uma saída. Talvez eu demore um pouco, mas não se preocupe que estarei bem,
te amo!", com um sorriso de despedida Kurama fechou a porta, e Yusuke
tentando dizer “tchau”com aquele monte de comida ainda dentro da boca.
Já fora de casa e
depois de algumas mastigadas finais por parte de Yusuke, Kurama soube o que
estava acontecendo. Um demônio, aparentemente de classe S, está dando um certo
trabalho para o pessoal da fronteira. Kurama sabia que Hiei fazia posto no
setor leste do território de Mukuro que, de acordo com Yusuke, ainda não fora
atacado. Melhor, menos uma coisa para se preocupar...
"... Kuwabara
foi incumbido pela Botan de chamar o Hiei, já que havia rumores de que, como
Mukuro está ausente em treinamento, ele mesmo irá matá-lo. Mas eu não acho que
ele o enfrentaria sozinho...não é?"
"Não sei. Hiei
às vezes tem dessas de achar que pode fazer tudo sozinho.", Kurama
suspirou profundamente, fazendo a jóia negra rolar levemente por sob a blusa,
"Mas não podemos culpá-lo, é da natureza dele ser sozinho..."
Yusuke percebeu bem
as últimas palavras embargadas de tristeza do amigo e preferiu deixar que o
silêncio argumentasse por seus pensamentos. Mas o próprio Kurama quebrou o
silêncio.
"Como foi que
você disse a Keiko que a amava?"
"O ...O
Q-QUÊ???"
"Como foi que
você disse..."
"Eu entendi a
pergunta!!!"
"E eu não
entendi o porquê da sua."
"Por que a
pergunta?", Yusuke ficou sério esperando qualquer revelação séria de
Kurama.
"Ora...",
Kurama fez uma careta de desconfiança, " ... é muito difícil imaginá-lo
numa cena dessas. Expondo seus sentimentos com facilidade pra uma garota...
ainda mais pra Keiko! Ela que é assim... meio... explosiva, né? A gente nunca
sabe do que ela é capaz..."
"Seu...",
Yusuke já deveria saber que seria muito difícil para Kurama admitir um
sentimento humano. Afinal, ele ainda era um youkai usando um corpo humano
emprestado, "Hn. Seu comentário infeliz não me impediu de ver o que você
realmente quer saber."
Kurama o observava
atento com o canto dos olhos.
"Dizer a Keiko
que a amo não foi fácil. A cara que ela fez também não ajudou muito. Apesar de
conhecê-la desde que me entendo por gente, eu simplesmente não sabia o que os
olhos dela diziam, o que o lábio constantemente mordido representava, o que a
respiração entrecortada significava...", Yusuke deu um longo suspiro,
sentia-se bem por falar disso com alguém, "... eu não sabia nada. Pior!
Pela minha cabeça passavam coisas terríveis, como “ela vai rir da minha cara!”
ou “eu sou apenas um amigo de infância” ou “quanto falta pra ela levantar a mão
na minha cara?”"
Nesse momento os
dois amigos riram descontraídos.
"Teve um
momento que eu não pensava mais por mim. Foi quando saiu a maldita frase!
Quando as palavras saíram sozinhas... elas tinham que sair, eu estava lá pra
isso! E eu estou preso a Keiko até hoje, como acho que ela está pra mim.",
o sorriso que se formara no semblante de Yusuke foi dando lugar a uma expressão
séria, "Mas se você quer minha sincera opinião, pra confessar o amor que você
sente para a pessoa que eu estou pensando...vai ser mais difícil, ou
somente...diferente."
Kurama estacou
enquanto Yusuke andou mais alguns passos antes de parar virando-se para o
amigo.
"Ei! Você não
pode negar: essa pessoa, de explosiva e improvável, nem chega aos pés da
Keiko..."
"Yusuke...tente
me “consolar” com mais uma desse tipo que eu corto seus membros!", Kurama
ameaçou rindo tirando uma rosa do cabelo, "Keiko não vai gostar, pois
cortarei todos os cinco!"
"Wow!!! Não
precisa agradecer cara...Olha lá o Kuwab--...", Yusuke parou no mesmo
instante que Kurama, mas por razões um pouco diferentes.
Tinham chegado a um
descampado. Kuwabara e Botan estavam discutindo diante de uma abertura para o
Makai e Hiei... não estava com eles. Kurama sentiu um tremor no peito ao
imaginar que Hiei seria tão fiel em não vê-lo mais, que nem lutar juntos seria
possível. A possibilidade de não poder ver seu rosto outra vez, sentir seu suor
tão característico, se perder naquele olhar tão frio e quente ao mesmo tempo...
seu coração falhou, mas bateu com mais força ao sentir sobre a pele a jóia
fria, seu apoio. Saindo do devaneio
ainda pôde ouvir Botan explicando a situação:
"Kuwabara
deixou ele ir! Sozinho!"
"Ele veio com
aquele papo de “posso cuidar disso sozinho, não interfira”. Não interferi. Ele
se acha muito esperto, pois bem! Vamos apreciar toda a esperteza dele quando o
salvarmos do youkai. Claro, como ele disse, “Ele morrerá antes mesmo de saber o
que o atingiu.” Bah!"
"O que você
fez???", Kurama gritava enquanto enormes raízes rasgavam o chão e sacudiam
Kuwabara no ar.- Sabe muito bem que ele sozinho pode não conseguir matar o
demônio! Ele poderá já estar morto quando chegarmos...
Kurama não pode
terminar a frase. A abertura espiritual cresceu ferozmente e milhares de
youkais cobriram os quatro. Kurama soltou Kuwabara e Yusuke posicionou-se na
frente de Botan que já tinha o remo em punho.
Cuidar desses
youkais seria muito simples, se não fossem tantos. Kurama nunca idealizaria no
governo de Eiki tantos revoltosos. Mas não podia perder tempo com eles. O mais
poderoso ainda não atravessou a fronteira. Deve estar lutando com Hiei.
Talvez eu chegue em tempo!
Cortando o caminho,
literalmente, Kurama cruzou a fronteira com o Makai sem maiores problemas. O
seu maior problema estava no final dela. Um youkai confiante acumulava energia
em sua mão, enquanto Hiei, num estado deplorável, se apoiava na katana sem
mover um músculo. Kurama então percebeu: o youkai não estava formando um golpe
qualquer, estava formando um Kokuryuha!
"Ja ou en
Satsu Kokuryuha!!!", Hiei não se moveu. Apenas olhava com cinismo o
dragão negro gigantesco que vinha em sua direção.
"HIEI!!!",
vendo que o koorime não tinha intenções de desviar, Kurama usou seu rosewhip;
prendeu Hiei pela cintura e com um puxão forte o trouxe para perto enquanto o
Kokuryuha explodia a poucos metros deles. Hiei caiu de costas, mas logo foi
amparado por um Kurama transformado pela preocupação e medo.
Hiei ainda estava
em estado de choque. Não imaginava escutar essa voz de novo, ainda mais
chamando seu nome. Estava preparado para morrer, estava encarando a morte como
uma solução para sua vida desgostosa. Queria morrer, mas justo ele, quem queria
esquecer através da morte, não permitiu. Por que?
Deixando Hiei
deitado sobre uma grama macia, Kurama levantou-se para tomar seu lugar na luta.
Apenas não contava em encontrar nas mãos do inimigo um rosewhip igual ao seu,
só que negro. Kurama riu.
"Então você
imita golpes. Vamos ver se consegue imitar isso...", com um movimento o
chicote tinha seu alvo e, em menos de um segundo, Kurama desapareceu deixando
uma sombra e o chicote sozinho no ar.
"Então?
Consegue fazer igual?"
O youkai virou-se
para a voz grave as suas costas. Talvez mais pela surpresa do que pelo medo,
ele recuou um passo, diante do imponente youko prateado. Não, ele nunca
conseguiria fazer igual. Kurama fez um movimento brusco com o braço enquanto o
youkai virava-se agora para a crescente movimentação de Ki atrás de si.
"Como...Droga!!!"
Do chicote
esquecido anteriormente, Kurama fez uma rede. Várias raízes e caules espinhosos
sob o comando do youko, sobre o corpo do youkai. Engolido por uma onda de
espinhos, que tomou a forma de esfera e começou a perfurar a terra, até sumir
sob a mesma, o youkai fora enterrado.
Ao se aproximar de
Hiei, Kurama deu um longo suspiro:
"Sei que não
te interessa, mas o sangue lhe cai bem.", um sorriso bobo e tímido,
evitado a todo o custo, teimava em moldar seu rosto, era o alívio de ainda
tê-lo vivo, "Você fica mais...sugestivo.", o youko tomou uma
expressão séria, "Prometa-me que nunca mais fará uma loucura como
essa."
Hiei preferiu não
se pronunciar. Desviou o olhar quando o youko passou o braço por sua cintura
ajudando-o a se levantar. Estava com o corpo moído, sentiu na pele o que seus
inimigos sofreram em suas mãos, no fio de sua katana. Realmente não era nada
agradável. Mas mesmo com toda a dor, o calor que aquele toque lhe
proporcionava... seus músculos responderam em favor dele, relaxaram e a dor
diminuiu. Não! Não era pra ser assim! Tem que esquecê-lo não ansiar por seu
toque. Com um impulso bêbado, Hiei empurrou Kurama apenas o suficiente para
sair do abraço e cair desequilibrado no chão.
"Hiei...",
Kurama parou ao sentir o ki maligno atrás de si.
O rosto do koorime
se contraiu em uma expressão de pavor ao ver Kurama ser preso por vários caules
espinhosos vindos de um único chicote, como o anterior de Kurama, mas negro, de
espinhos negros. Kurama ao invés de ser envolto por uma esfera de espinhos, foi
suspenso no ar, enquanto caules se enrolavam em seu corpo ferindo a carne.
Os caules apertaram
o laço contra o corpo de Kurama fazendo mais sangue escorrer e se espalhar pela
roupa branca do youko. Não conseguindo suportar mais, seu corpo youko foi
substituído pelo humano, o que fez os espinhos aprofundarem-se mais na carne e
o ar começar a lhe faltar.
Nesse instante,
Yusuke, Kuwabara e Botan chegaram. Os dois primeiros, prontos para atacar,
tiveram que frear seus movimentos ante a cena aterradora exposta diante de seus
olhos.
Um fio de sangue
escorria pelas pernas da raposa e formava-se em poça bordô vivo no chão. Hiei
rastejava tentando alcançar sua katana atrás do youkai que, ao ver novas
presenças fez uma mensura, cinicamente, para depois voltar sua atenção a
Kurama. A rede se moveu mais uma vez em torno de Kurama, rasgando não só a pele
mas o cordão de couro que prendia a jóia negra. Esta caiu no chão, rolando
lentamente sobre a poça de sangue, antes de parar encoberta pelo líquido
espesso.
"KURAMAAAA!!!"
Ninguém conseguiu acompanhá-lo,
viram apenas o brilho cortante de sua katana nas raízes que prendiam Kurama,
que caiu em seus braços. Nisso, Yusuke e Kuwabara viram a deixa para entrarem
em ação.
"Idiota! O que
acha que estava fazendo? Ele ia matá-lo!!!", Hiei gritou ainda abraçando
Kurama, que arfava mais pela surpresa do que pela falta de ar.
"Quê? ...que
culpa eu tenho se você resolveu morrer e não pensou...", Kurama arfou
ofegante, terminando a frase para si mesmo. ... não pensou em mim? Mas,
controlando-se, disse, "...não pensou na conseqüência que levaria todo
mundo junto?"
Hiei encarou com
dor e raiva os olhos verdes.
"Eu não
preciso da companhia de vocês para morrer...", de repente, Kurama agarrou
os ombros de Hiei e rolou com ele desviando do ataque da Reiken negra, cópia da
espada espiritual de Kuwabara. Hiei sentou-se assustado sem, no entanto, soltar
Kurama do abraço.
"Não
mesmo...", Kurama balançou a cabeça com pesar, "...Você precisa de
nós para não morrer. Eu preciso de você para viver!", com a expressão séria
Kurama afastou os braços que o prendiam, mas ao levantar foi violentamente
puxado por estes de encontro à boca de Hiei.
Kurama foi agarrado
pelos cabelos e roupa, seu corpo ensangüentado foi pressionado levemente contra
o não menos machucado de Hiei. Um beijo forte e cheio de dor. Com a sede que
precisava ser saciada, a ânsia da pele contra a pele, o gosto doce do prazer,
os dois esqueceram por completo a luta que acontecia.
Kurama se
desequilibrou quase caindo quando Hiei o soltou e sumiu na sua frente, deixando
os lugares por onde tocou queimando e os lábios abertos na esperança de um
mais. Voltando a realidade com um grito de Kuwabara, Kurama levantou-se com
dificuldade, vendo o amigo cair ao seu lado.
"Kuwabara!"
"Kurama...
des-desculpe... eu não devia ter..."
"... você não
tem culpa de nada. Acalme-se. Consegue levantar?", Kuwabara posicionou-se
de pé e deu um olhar confiante a Kurama.
Os dois voltaram a
atenção para Yusuke que acabara de disparar um Leigun gigantesco. O youkai
ainda tentou conter o tiro mas foi envolto pela energia, virando pó no ar.
"HAHA!!!
Conseguiu Yusuke!", Kuwabara gritou.
"É...vocês
estão bem?"
Hiei que aparecera
naquele momento, apenas virou o rosto, como olhando algo mais importante. Botan
chegou voando no remo, fazendo que “sim” com a cabeça. Kuwabara mostrou o
polegar num “positivo”.
"Kurama, você
está bem?", Yusuke perguntou preocupado, nunca o vira perder tanto sangue.
Kurama tentou esboçar um sorriso mas as pernas falharam antes, fazendo-o cair.
Yusuke o amparou e aproveitando a oportunidade confessou em seu ouvido:
"Retificando:
não vai ser diferente. Vai ser igual, vocês vão ficar presos um ao outro
também."
Kurama tentou fixar
seu olhar no amigo, mas a última coisa que viu foi um koorime que se aproximava
estendendo uma mão na sua direção. Logo depois que Kurama desmaiou, Hiei o
tomou dos braços de Yusuke.
"Eu cuido
dele. Vocês podem voltar ao Ningenkai."
"Certo.",
Yusuke nem pensou em discordar, se ocupando em responder aos protestos de
Kuwabara e Botan, que acharam que Hiei ficara maluco, pois Kurama devia ser
levado a um hospital, dar explicações a mãe...
Enquanto Yusuke já
dava seu terceiro grande suspiro de cansaço, Hiei sumia por entre a floresta do
Makai com Kurama nos braços.
Ele fez. Ele falou.
Hiei viu em seus olhos, sentiu em sua pele, em sua boca. Era o que Hiei achava
que nunca iria ver em Kurama, era o que achava que nunca iria escutar, nunca
iria sentir, nunca iria provar. Hiei provou, sentiu, escutou, viu em Kurama
aquilo que negava acontecer, o que o fez querer morrer. Hummm...seu cheiro. Já
tinha reparado nele, mas não desse jeito: tão próximo, tão seu, só seu. Todos
os seus sentidos lhe diziam apenas uma coisa, sussurravam em sua mente uma
única certeza. Não teria mais dúvidas. Nenhuma.
Kurama deu-lhe o
que tanto ansiava por receber, desde que o seguiu até a clareira, não! Desde
que saíra daquele quarto, por aquela janela...ou talvez antes? Hiei parou na
margem de um grande lago, deitando Kurama, sua carga preciosa na grama verde.
Entrou na água até os joelhos e esfregou as mãos e os braços, tirando todo o
sangue e sujeira. Depois, ainda na água, tirou o que restava das roupas da
raposa e lavou-lhe as feridas. Estava sério, concentrado. Depois que todos os
cortes no corpo de Kurama foram limpos e tratados, Hiei levou uma mão ao bolso
da calça e a outra ao peito de Kurama. Esta desembaraçou dos fios ruivos o
cordão de couro partido e aquela trouxe a lágrima-pérola negra, suja de sangue,
para dentro da água, limpando-a. Com cuidado, prendeu a jóia limpa de volta no
cordão que, como encurtara, tornou-se gargantilha. Aproximou a boca da de
Kurama e mais que baixinho, mais que um sussurro, apenas o ar passando por
entre seus lábios num “eu te amo” mudo seguido de um beijo levíssimo, um toque
de pele com pele.
Hiei virou-se e
tirou as calças mergulhando no lago em seguida. Seu peito não doía mais, seu
coração não estava mais apertado, seus pensamentos não estavam mais confusos.
Passou muito tempo mergulhando, esquecendo, lembrando. Conforme escurecia
sentia a água esquentar aos poucos. Gostoso. Seus músculos relaxaram e seu
corpo amolecia. De minuto em minuto vinha à tona para olhar a raposa, que
permanecia deitada. Numa dessas, após sacudir o cabelo, não o vira mais.
Sua respiração
parou, seus olhos vidraram no local onde deveria estar Kurama. Foi quando
sentiu algo circundando seu peito embaixo d’água. Quando viu, Kurama aparecia
abraçando-o. Primeiro a cabeleira ruiva e brilhante, depois seu rosto encoberto
por mechas ruivas grudadas em sua pele que pingavam sedutoramente, então, seu
tórax também adornado com os fios ruivos e com a jóia negra. Pingando até a
cintura, Kurama mais parecia um deus de beleza física e sedução imponente que
estava lá para ser adorado ante seu humilde seguidor.
Uma mão ergueu-se,
um abraço fechou-se, lábios se uniram. Um corpo encontrou no outro respostas
para suas vontades. Kurama ergueu o rosto. Uma dúvida restara:
"Te amo. Não
quero que pense que é meu brinquedo..."
"Somos os
dois.", Hiei escondia o rosto na curva entre o pescoço e o ombro do
kitsune, que sorriu.
"Entendi...
brinquedos do..."
"Amor...",
antes de Kurama, Hiei terminou a sentença. A conclusão.
Fim